Roberto DaMatta e a atemporalidade da sua obra
Na visão do pensador, o carnaval não simboliza ou personifica algo individual, mas é um “ritual-chave” que se manifesta coletivamente. Não é uno, mas pelo uno, manifesta sua universalidade. No espaço do carnaval conquistamos a inversão social, viramos a mesa, obtemos a suspensão momentânea das estruturais sociais hierárquicas e da desigualdade econômica, adquirindo uma liberdade temporária
Lembro que no ano de 2017 prestei meu primeiro concurso para o Mestrado, na época em Ciências Sociais pela PUC-Rio, motivado pelas leituras antropológicas e filosóficas recomendadas pelo Professor Roberto Machado, já aposentado pela UFRJ (in memoriam), que mantive contato por certo tempo e foi enorme referência acadêmica pra mim. Na época expliquei meu gosto por Nietzsche, mas confessei que as ciências sociais começavam a fazer mais sentido. O professor, sempre um gentleman, me recomenda algumas leituras para maturar tal ideia, dentre elas Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro, de seu xará Roberto DaMatta. Nenhum de nós sabia, incrivelmente, que tal obra seria uma das referências bibliográficas que o próprio edital do concurso sugeriria. Agradeci gentilmente pelas suas dicas de leitura e, depois, avisei que um dos livros constava como referência. Fiquei muitíssimo feliz. Para ciência dos leitores, prestei a seleção, mas não me classifiquei, acabei passando na UFF no ano seguinte, em Política Social, mas o livro recomendado pelo Professor Roberto Machado não passou: ele está comigo.
Roberto DaMatta, antropólogo e filósofo brasileiro publica em 1979 sua opera magna, analisando o Brasil e suas manifestações rituais, como o Carnaval, e personalidades culturais como o malandro e o herói. O ano de 1979 revelava também a complexidade que se encontrava a nação: governado pelo general João Figueiredo, o último ditador do período fatídico brasileiro, marcou o início do fim do regime e a mudança para a redemocratização do país. Naquele contexto, o Carnaval manifestava uma profunda hierarquização, mas que busca simultaneamente um reconhecimento de uma identidade própria perante a lei e a sociedade.

A busca por reconhecimento parte, inclusive, da premissa díspar que o Estado se utilizava para contrapor às manifestações culturais perante a lei, desvelando a falta de equidade no tratamento dos indivíduos marginalizados. Dessa forma, os ditos “amigos” dos poderosos gozavam de maiores privilégios e direitos, desvelando o tom impessoal que as relações se construíam e que legitimavam o poder sob a ótica do coleguismo. A famosa frase e repetida por muitos quando o argumento cai e necessita de um apelo ao poder, “Você sabe com quem está falando?”, parte desse entendimento: recorda a outros indivíduos sobre a posição social de quem emite a sentença, mostrando assim uma hierarquia invisível e ressalta o “direito” a privilégios. Ou seja, seria o “direito” de ignorar leis, cometer delitos, pois possui “costas quentes” para se respaldar.
Nasce, então, a figura do malandro. Essa representação nasce como resistência de manobra da estrutura, assim como uma válvula de escape, se colocando na tenuidade da impessoalidade da lei imerso nesse sistema de poder. Mesmo recusando parcialmente a ordem, o malandro permanece inserido no sistema, mas cria artifícios que o auxiliam na obtenção do sucesso. É o político da cidade que usa recurso público para ajudar fulano que precisa com obra, em época eleitoral, sem registro nas contas públicas, ou que promete uma “ajuda de custo” tendo em vista a compra indireta do apoio, quando for necessário.
Enquanto o Herói (aquele sujeito que se submete às leis, ao trabalho e preza pela ordem) simboliza a ética do dever, o respeito e a adesão às normas, atuando na casa, dentro da família e das instituições, representando o desejo de uma sociedade moderna, o Malandro simboliza a figura que transgride normas, tem o “jeitinho brasileiro” para sair de enrascadas e negociar benefícios, buscando obter ou “levar vantagem” nas coisas, operando na rua e da improvisação, encarnando a informalidade nas relações, características da nossa sociedade brasileira. Há também dois símbolos distintos incutidos: a Casa, espaço que simboliza a hierarquia, a família, o privado, alicerçado nos valores pessoais e tradicionais; a Rua, espaço público, das interações, das relações interpessoais, da impessoalidade, focando no sujeito e na modernidade.
E o Carnaval? Na visão do pensador, o carnaval não simboliza ou personifica algo individual, mas é um “ritual-chave” que se manifesta coletivamente. Não é uno, mas pelo uno, manifesta sua universalidade. No espaço do carnaval conquistamos a inversão social, viramos a mesa, obtemos a suspensão momentânea das estruturais sociais hierárquicas e da desigualdade econômica, adquirindo uma liberdade temporária. Esse movimento social revela, a partir de leitura de DaMatta, a nossa capacidade em esquecer as tensões sociais quando estamos inseridos nesse mecanismo simbólico, além de desvelar o fenômeno social brasileira de intercalar entre ordem e desordem. São os contraditórios que respeitam e permitem, provisoriamente, um espaço recíproco de convívio, sem grandes alardes.
A atemporalidade da obra, vista pela ótica atual do carnaval.
Em época de folia, observamos com maior atenção as três figuras: o carnaval, de modo social; o malandro, sob a ótica moral; e o herói, sob a perspectiva política.
No mundo do carnaval, o herói se confunde com o próprio malandro, não tendo medo de se transformar num antagonista, quando este tem sua vida desmascarada devido seu envolvimento com instrumentos ilícitos. Esse personagem, muitas vezes, vive nessa ambigüidade de valores, mas conquista o apreço do povo quando, durante o carnaval, se faz “gente como a gente”. É a figura que está no meio do povão, por tempo estipulado no cronômetro, que investe na felicidade dos foliões e desfila como patrono, uma espécie de cinderela carnavalesca que na quarta de cinzas volta ao seu status inicial. O sapato de cristal é multiplicado, diferentemente da personagem da Disney.
O malandro, contraditoriamente, tropeça em sua própria malandragem. É o aspone, que necessita conquistar vantagens e benefícios e se utiliza dos contatos e implora por notabilidade, entretanto fica com o resto do resto. Tenta enganar, mas é simplesmente usado durante toda a folia. Muitas vezes aparece mais que o herói, que é o verdadeiro malandro na história, tentando mostrar de todas as formas que está ali, que existe. “Você sabe com quem está falando?”, frase muitíssimo utilizada pelo malandro durante a folia, no intuito de intimidar terceiros e mostrar algum poder, até o momento que o herói, o verdadeiro malandro, toma as rédeas da situação.
E o Carnaval? Enquanto manifestação popular, cultural e artística do nosso Brasil, ele é perfeito. É a possibilidade que o pobre tem de ser malandro e herói sem a preocupação com o julgamento alheio. Ele representa a ruptura momentânea entre as inúmeras camadas de desigualdade existentes historicamente em nosso país. O marginalizado se torna protagonista. O subalterno é alçado ao topo. Durante o carnaval, entre blocos e desfiles, a democratização das classes acontece e perdura no tempo. É por esse motivo que o Carnaval atrai o interesse das classes dominantes de nosso país, além de enxergar seu potencial anestésico e dos atrativos econômicos que são gerados a partir dos dias de folia – verdadeiro motivo pelo qual ele perdura até os dias atuais.
Por fim, o carnaval é a manifestação sublime do contraditório, dos rivais, dos antagonistas. É a raiz comum do brasileiro enquanto fator de identidade. É o símbolo de pertencimento do malandro e do herói, dos opostos que se completam.
Após a sugestão do professor Roberto Machado, comprei num sebo a obra. Uma quarta edição, da Zahar, de 1983. Curiosamente, dentro do livro há uma dedicatória, feita por Roberto DaMatta, para Jassy, de 1984. Comprei por R$ 10,00 reais. Depois daquele momento, fiz carnaval por agir malandramente em não falar nada para o livreiro sobre a peça raríssima que o sebo tinha. Me tornei herói para mim mesmo.
Railson Barboza é doutor e mestre em Política Social (UFF). Bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Imortal da Academia Fluminense de Letras.

