São Paulo, cadê a sua gratidão
O poema narra um encontro casual no centro de São Paulo, entre o eu lírico e um homem em situação de rua, sentado num banco da Praça do Patriarca, próximo ao Viaduto do Chá

Crédito: Julya VZ
Eu caminhava pelo centro da cidade de São Paulo,
em passos lentos como quem não tem onde chegar.
Os pensamentos divagavam nos desenhos do edifício da sede municipal,
nos outros edifícios históricos e na história centenária do viaduto do chá.
Sinto que há muitas vozes caladas na cidade,
muitas inexistências para muitos históricos.
Na Praça do Patriarca vem o desejo de parar.
Sentei-me no banco de concreto para divagar.
Percebo, sentado ao meu lado, um senhor com sorriso tímido.
Que de imediato buscou empatia comigo, com olhar e sorriso retribuo.
Por um momento, nós nos olhávamos e no mesmo ritmo balançávamos as cabeças.
Como se nós tivéssemos uma mesma afirmação positiva ou algo em comum.
Talvez sobre a cidade, ou sobre as nossas vidas ou pelas conexões
que o sentar em um mesmo banco da praça gera entre as pessoas.
O senhor olhando os edifícios e as pessoas que passavam apressadas
me diz: São Paulo é um gigante, com grande coração de mãe, acolhe todos.
Tenho por São Paulo muita gratidão.
Eu disse: eu também gosto muito desta cidade.
Com a voz acolhedora o senhor me pergunta, você está na rua?
Antes do meu não, com a voz já um pouco sufocada ele diz: eu estou nesta situação, tenho a mochila e o chinelo como companhia.
É tudo que me restou para viver a solidão.
Há 35 anos atrás São Paulo me acolheu.
Trabalhei nos bares, nos comércios, nas obras de construção, noite e dia,
algumas vezes com registro e o maior tempo sem a carteira.
Sem faltas nos trabalhos, sempre tive muita dedicação e amor em tudo
que eu faço.
Estas pernas e estas mãos foram sempre fortes, sadias e sem nenhuma preguiça.
Sempre prontas para trabalhar com a força de aço, assim me diziam.
Tive bons patrões que nunca me negaram trabalho.
O inesperado acontece nas nossas vidas.
Logo que fiz cinquenta anos, sofri acidente nesta perna quando chegava para trabalhar.
Hoje ela manca e carrega esta ferida que nunca cicatriza.
As minhas pernas enfraqueceram, minhas forças já não são as mesmas.
Os bons fecham as portas, com muito boa educação dizem não!
Sem trabalho, sem a previdência, sem um tostão, a praça me acolheu.
Desculpe, de eu falar da minha vida assim de supetão, para você que
nem me conhece.
A minha vida sempre foi simples, sempre acreditei na boa fé.
Sinto que não é diferente dos sentimentos dos muitos que passam por
aqui apressados.
Eu já fui um deles nesta multidão atarefada.
As nuvens de chuva começavam encobrir velozmente o céu.
Ele olhou para alto, assustado disse: preciso procurar um lugar para a minha proteção.
Demos as mãos que ficaram apertadas por um tempo.
Sorrisos de boa-fé como se fossemos amigos da praça.
Trocamos os nomes na despedida Antônio e Luiz.
A chuva não caiu, o banco de concreto logo preencheu o vazio.
Os edificadores e os edifícios continuaram divagantes e indiferentes.
As pessoas seguem apressadas para chegar nos seus lugares.
Os braços fortes que nos serviram e construíram os espaços acolhedores
que usufruímos, nunca viu a nossa gratidão.
São Paulo, coração de mãe, cadê a sua gratidão.
Luiz Kohara


É a realidade do Migrante que constrói, mas não mora. Fica nas praças e ruas.