Scherzo com física e moleskine - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

Scherzo com física e moleskine

por Diego Viana
5 de dezembro de 2008
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Os objetos da física, os monumentos do quotidiano, os sabores, cores e temperaturas são aquilo que deles sentimos e vemos, imagens de um qualquer coisa bruto que está lá fora e que só aceitamos como mais real do que os sonhos porque temos a consciência e a convicção de estarmos despertosDiego Viana

Newton, quando desenvolveu o princípio de inércia, talvez tenha pensado não tanto na matéria, grande preocupação dos físicos, mas no funcionamento de nossa cabeça. Dizendo isso, sei que me arrisco a passar por místico, mas atire a primeira pedra quem nunca teve simpatia pelas correspondências de Swedenborg. Mesmo que o mundo espiritual exista só na nossa imaginação, e provavelmente é só aí mesmo que ele existe, é um mundo.

E que mundo! Nada nele é absurdo ou inverossímil. A tal ponto tudo é possível, que até mesmo a lógica é possível. Onde mais um silogismo faria tanto sentido, senão no universo incandescente e, esse sim, infinito do nosso espírito? O mundo do que se toca e cheira, a dita realidade, onde temos de nos virar com a concretude teimosa da matéria, é menor e, na comparação, revela-se de uma palidez lastimável.

A não ser, é claro, em seus vínculos com o mundo espiritual, ou seja, com nosso espírito. E o mais importante de tudo é que, sejam quais forem esses vínculos, eles são tudo que temos para conhecer o material e conviver com ele. Soa estranho, claro, mas não é nenhum absurdo considerar que o mundo real, esse que está aí fora, afinal de contas só existe na nossa cabeça. Os objetos da física, os monumentos do quotidiano, os sabores, cores e temperaturas, no fundo, são aquilo que deles sentimos e vemos, imagens de um qualquer coisa bruto que está lá fora e que só aceitamos como mais real do que os sonhos porque temos a consciência e a convicção inquebrável de estarmos despertos.

Quanto a Newton e suas leis, Isaac e sua maçã, numa tarde de verão agradável em Cambridge, quem sabe não era ele tão psicólogo quanto físico, tão ficcionista quanto sábio? Quem sabe a pancada que levou na cabeça, enquanto descansava no pomar, não foi invenção sua, um breve enredo romanceado para efeito de retórica, uma idéia para conferir valor à sua teoria por torná-la agradável! Se a gravidade da matéria é a força irresistível que a mantém una e coesa, uno e coeso gostaríamos que fosse o pensamento. A luz é partícula e energia, partícula e energia é a idéia que nos alumia.

E a inércia, claro. Da matéria, que precisa de força externa para alterar sua condição e seu destino e, resistindo ao impulso, produz calor e ruídos. Do espírito, que se agarra e assenta nas formas que já aceitou, a que está habituado e com que pode lidar de imediato. Quando se vê confrontado com o esgotamento de uma dessas formas, resiste… E sua resistência gera uma dor quente, traduzida não raro em gritos. A angústia, muitas vezes, é só inércia.

É assim nas coisas grandes e nas pequenas. Nas simples e nas abstrusas. Primeiro, a banalidade: tenho pousado na mão esquerda um moleskine novo em folha, cuja primeira página acabo de preencher. As páginas estão limpas e retas, o couro da capa é firme, a fita que faz as vezes de marcador ainda não começou a deslindar-se. Paguei por esse caderninho, tenho a nota fiscal, ele é meu. Assinei a primeira página e ofereci como recompensa a quem o encontre, se eventualmente eu o perder, minha gratidão eterna.

Ele é meu.

Mesmo assim, apoiando entre os dedos este objeto cujo dono sou eu mesmo, minha mente ainda não o aceita. Como o corpo que recebe um órgão transplantado e faz tudo a seu alcance para rejeitá-lo. A textura do couro intacto, virgem, novo, é estranha ao meu toque. Incômoda. As bordas das páginas, que ainda não sofreram suas manchas. A limpeza de quem está para descobrir o sofrimento de viver nos bolsos e atravessar a cidade todo dia. Uma perfeição que ofende alguma coisa em mim.

Tenho a posse e a reconheço, porque me é infinitamente familiar o funcionamento do comércio. Mas o pertencimento, que é o que importa verdadeiramente, ainda não tenho.

Este não é, embora seja, o meu moleskine. O meu é outro, preenchido, guardado no armário. Já virou arquivo, porque não pode mais ser moleskine, não pode mais exercer sua função de moleskine, mas é meu moleskine. Eis a inércia da mente em ação, ela que não é capaz de acompanhar a agilidade com que vou à loja e compro um caderninho novo. A mente ainda exige as marcas, as distinções, imperfeições e sofrimentos do antigo, para assentir e aceitar: “é meu”. Este aqui, lindo e liso, ainda tem cara de mercadoria. Não fossem a assinatura e a única página escrita, poderia muito bem estar no mesmo estado de ontem, sufocado em plástico, de pé sobre a prateleira, ao lado de alguns tantos exemplares idênticos e fabricados no mesmo dia.

Newton não tinha um moleskine. Sua mente, porém, brilhante mas tão humana quanto a minha e a sua, demorou seu tempo normal a entender que uma fruta lhe era caída no coco. A idéia de ser atingido e o pitoresco da maçã devem ter representado alguma função no desenvolver de sua teoria, da noção de que as coisas caem porque é de sua natureza cair. Se a Terra fosse uma maçã e uma maçã a Terra, seria a Terra a cair na maçã, não o contrário, como ocorre em nosso mundo. Difícil distinguir o que Newton viu na realidade do que ele da realidade pensou.

A única certeza em toda essa embrulhada é que o ilustre físico não recebeu de uma única vez o entendimento da gravitação dos corpos. Senão, a maçã seria desnecessária, um acidente doloroso a esquecer, verdadeiro ou ficcional, pouco importa. E ele não t



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