Ser periférico: trajetórias materiais, perspectivas simbólicas

Periferias de São Paulo

Ser periférico: trajetórias materiais, perspectivas simbólicas

por Katia Ramalho Gomes
14 de outubro de 2020
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Primeiro artigo da série especial “Periferias de São Paulo: cotidianos, conflitos e potências” traz uma discussão sobre as trajetórias das pessoas que vivem nesses territórios e também sobre a atuação política a partir dessa categoria. Este especial é uma parceria entre Le Monde Diplomatique Brasil e Fundação Tide Setubal

Sujeitos que promovem iniciativas culturais e de comunicação nas periferias como forma de fazer política vêm discutindo o que é ser periférico. Essa denominação utilizada por moradores desses territórios faz referência ao modo como as suas trajetórias são afetadas por determinadas vivências em cotidianos periféricos e à maneira como afetam a vida social a partir dessas experiências. Entretanto, o acesso a novos espaços sociais e a fomentos públicos e privados por esses sujeitos, acompanhado da permanência do desigual e segregado padrão na produção do espaço urbano, contribuiu para ampliar as discussões sobre quem pode declarar-se periférico e sobre como atuar a partir dessa categoria.

Esses são alguns dos resultados da pesquisa que realizei no âmbito do projeto “Periferias de São Paulo: Heterogeneidade e Novas Formas de Vida Coletiva”, desenvolvido em 2018 por uma equipe de seis pesquisadores, em sua maioria oriundos das periferias da cidade. Durante a realização do estudo etnográfico, minha investigação buscou analisar a complexidade relacionada a ser periférico e identificar como as narrativas elaboradas em torno dessas experiências ancoram o desenvolvimento de ações.

Para tanto, conversei com moradores das periferias da zona Leste da cidade que, em sua maioria, desenvolvem iniciativas culturais como estratégia de ação política. Nem todos acionam as categorias periférica e periférico para falar sobre si e sobre a sua atuação, mas ainda assim, essa era uma questão a ser debatida.

São Mateus, Zona Leste de São Paulo. (Crédito: Allan Cunha/2020)

 

Experiências e narrativas sobre ausências e potências

Ser periférico, mulher periférica, produzir cinema e literatura periféricos são algumas das expressões em que o elemento territorial aparece como sendo uma importante categoria de auto atribuição e de denominação de práticas, estéticas e posicionamentos políticos que são produzidos a partir de determinadas experiências vividas nesses contextos. E existe uma multiplicidade ainda maior de usos e sentidos para o termo “periferia” que são elaborados pelos moradores e sujeitos oriundos desses territórios, ainda que expressar nominalmente os termos “periférico” e “periférica” não seja algo necessário para que as suas trajetórias estejam imbuídas de todos os afetos que são provenientes desses processos, como também não é necessário afirmar esses termos para que se possa atuar na perspectiva de gerar mudanças sociais.

Dessa forma, pessoas que moram nesses territórios possuem vivências periféricas e trajetórias de vida que são marcadas por determinadas experiências urbanas, sociais e raciais de desigualdades e segregação, podendo atuar politicamente sem afirmarem-se como periféricas, mas no âmbito desta pesquisa, quando alguém que é “da periferia” se denomina como alguém que “é periférico”, está enfatizando determinados posicionamentos e perspectivas políticas que são influenciadas por essas experiências e que ancoram as ações que desenvolvem para provocar mudanças nas estruturas políticas e econômicas vigentes.

Para as pessoas com quem conversei durante a realização da pesquisa, acionar a categoria “periferia” em determinadas expressões é, antes de tudo, afirmar a potência e a força de transformação de realidades que emergem com a atuação desses sujeitos e grupos sociais; é afirmar o orgulho de ser quem é, de sua ancestralidade, memórias e heranças sociais; é estimular uma percepção mais coletiva diante de um contexto neoliberal que incentiva o individualismo; é reconhecer determinadas experiências urbanas, sociais e raciais que são compartilhadas por essas populações e compreender que se pode contribuir para mudar esse contexto. É também produzir leituras sobre as dinâmicas sociais e campos de força existentes; é denunciar as desigualdades e demarcar a existência de centralidades políticas e econômicas que concentram recursos e oportunidades e que, na maioria das vezes, atuam para a manutenção do status quo.

Ouça o primeiro episódio da série especial do podcast Guilhotina que analisa as mudanças que ocorreram nas periferias de São Paulo nas últimas décadas. As entrevistadas são Kátia Ramalho Gomes e Teresa Caldeira. Ouça em seu player favorito ou clique na imagem

Nesse sentido, observa-se que ausência e potência são aspectos que se imbricam no cotidiano dos sujeitos oriundos desses territórios e que, de maneira contraditória, estão presentes na constituição de suas vivências periféricas e nas elaborações políticas e simbólicas que são produzidas a partir dessas experiências. Dessa forma, configuram narrativas e perspectivas analíticas.

Análises sobre as periferias de cidades brasileiras pautadas na perspectiva das ausências passaram a ser mais disseminadas durante a pandemia da Covid-19, por meio das quais ficou evidente que determinados anticorpos sociais como direitos trabalhistas, reserva financeira, serviços de saúde de qualidade, dentre outros – não são acessados pela maioria dos que habitam as periferias do país. Dessa forma, os termos “periferia” e “favela” não dizem respeito a eventuais configurações que surgem na paisagem das grandes cidades, mas se relacionam ao modo como o espaço urbano produz e reproduz a segregação que opera no âmbito das relações econômicas e que se articula às desigualdades raciais historicamente construídas e presentes na sociedade.

Porém, para que seja possível apreender a complexidade de fenômenos que atravessam esses contextos e também as trajetórias daqueles que os vivenciam, esse “paradigma da ausência” precisa ser complementado por uma perspectiva baseada no paradigma da potência, que enfoca a valorização da força criativa dos sujeitos das periferias e procura evidenciar as estratégias e ações que desenvolvem para melhorar a qualidade de vida nesses contextos, tanto em um âmbito individual quanto coletivo, promovendo a ampliação de suas capacidades de atuação, de incidência política, de mobilização e intervenção social. Nesses processos ocorre a criação de subjetividades políticas e, para que isso aconteça, a materialidade dos espaços de habitação é um importante elemento, conforme analisa Teresa Caldeira.

É importante enfatizar que as breves descrições que tenho elaborado sobre o que é ser periférico não representam a totalidade das percepções e práticas daqueles que vivenciam os cotidianos desses territórios e que atuam politicamente na perspectiva de superar as condições materiais e simbólicas que reproduzem as desigualdades e a segregação.

Ser periférico abrange uma complexidade de sentidos, experiências, práticas, memórias, dimensões políticas e simbólicas que este texto não pretende esgotar. É uma questão em elaboração e este artigo não é uma declaração do que seria a verdade única ou modo consensual de compreender essas questões.

As periferias precisam ser consideradas em sua heterogeneidade e um exemplo dessa multiplicidade é que a maioria das pessoas oriundas desses contextos não utilizam o termo “periférico” para nomear as suas experiências e atuação, seja porque preferem outras chaves de leitura social, ou porque essa categoria restringe as pessoas a determinados lugares sociais pré-determinados, ou ainda porque seria sinônimo de fazer-se de vítima e de se colocar à mercê das circunstâncias. Esta última percepção muitas vezes é compartilhada por parcelas de grupos sociais que possuem uma perspectiva conservadora, ainda que, conforme apontam estudos, essas pessoas reconheçam a existência de desigualdades socioespaciais nas periferias.

 

Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. (Crédito José DiCampana Foto Coletivo/2015)

 

Perspectivas históricas sobre o debate

É importante destacar que o uso do termo “periferia” em um sentido de auto atribuição crítica pelos próprios moradores dessas regiões não é uma prática que surgiu recentemente. Em São Paulo, na década de 1970, mobilizações sociais nesses territórios já utilizavam expressões como o “povo da periferia”, “mães da periferia”, “mulheres da periferia”, como bem demonstra Danielle Regina ao analisar iniciativas atreladas aos Clubes de Mães, e  existiam também diversas outras ações promovidas por sujeitos das periferias que pressionavam o Estado a melhorar as condições de infraestrutura e serviços em seus bairros e cumprir as promessas da democracia.

A partir dos anos 1990, ainda que esses movimentos tenham assumido outros contornos e também passado a atuar no interior de espaços institucionais, o termo “periferia” continuou presente no cotidiano desses territórios na cidade e recebeu novas significações na medida em que diversos atores sociais começaram a influenciar o campo político e social, como as ONGs, o Movimento Hip Hop, os coletivos culturais e o Primeiro Comando da Capital (PCC), dentre outros. A academia também passou a relativizar o modelo conceitual centro-periferia que orientou os estudos sobre a cidade.

O campo artístico-cultural é importante para identificarmos as construções de representações e narrativas sobre a periferia que emergiram com maior intensidade a partir da atuação de sujeitos oriundos desses territórios. Eles desenvolveram certas noções sobre a cultura da periferia, produziram elaborações estéticas e desempenharam uma importante atuação político-cultural, como discutido por Erica Peçanha, processos ainda em curso.

A partir desse momento e, especialmente, após os anos 2000, houve um aumento na visibilidade para as produções culturais das periferias da cidade, como mostra Tiarajú D’Andrea, e também surgiram iniciativas de fomento que foram acessadas por jovens desses territórios, como o Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Secretaria Municipal de Cultura. Ainda, políticas de acesso ao ensino superior implementadas durante o governo Lula (2003-2010) possibilitaram que jovens negros e moradores de periferias se tornassem muitas vezes a primeira geração de suas famílias a ter acesso ao ensino superior, ocupando um espaço antes reservado às elites.

O acesso a novos espaços sociais e um certo aumento na legitimação das pautas da periferia pelo Estado, terceiro setor e iniciativa privada influenciaram na reflexão e debate sobre o que é ser periférico e sobre como esses sujeitos atuam a partir dessas vivências e posicionamentos políticos.

 

Estação Tamanduateí, Zona Leste de São Paulo. (Crédito: Allan Cunha/ 2019)

 

Passos da ponte pra cá, trajetos da ponte pra lá

Uma das questões que surgem nesse contexto, em que as potências da periferia começaram a ter maior visibilidade na mídia e passaram a receber fomentos públicos e privados, é aquilo que podemos chamar de “perifakes”. Diversas pessoas com quem conversei durante a pesquisa afirmaram que indivíduos que nunca moraram nesses territórios – nem tiveram as suas experiências atravessadas por esses contextos – passaram a fingir ter vivências periféricas para acessarem editais de fomentos e espaços de visibilidade voltados a esses sujeitos e, até mesmo, para obterem pontuações maiores em batalhas de Slam, buscando beneficiar-se da importância que passou a ser atribuída ao ser periférico no universo da produção cultural.

Esse processo gerou reações negativas entre as pessoas das periferias envolvidas em produções culturais e de comunicação que se vêm em um campo de disputa para assegurar o seu espaço legítimo de expressão e de fruição das oportunidades que lhes são destinadas.

É importante ressaltar que essa discussão não se trata de mais uma expressão da cultura do cancelamento, mas que, para aqueles com quem conversei, caberia às pessoas que possuem outras trajetórias de vida serem aliadas das pautas da periferia, promover ações de combate às desigualdades, valorizar o trabalho daqueles que são periféricos, mas não assumir os seus lugares em ações afirmativas e espaços que visam promover a equidade e visibilidade para sujeitos das periferias.

Ainda, essa maior valorização das potências da periferia e ampliação de acessos a espaços sociais antes reservados às elites (o que não significa que os estigmas que recaem sobre esses territórios e as suas populações deixaram de existir) suscita reflexões e debates também entre aqueles que são periféricos. Uma dessas questões diz respeito, por exemplo, à localização da moradia.

Um dos pontos discutidos é se quem passa a morar em regiões de centralidade econômica na cidade, ainda que em baixas qualidades habitacionais, continua podendo declarar-se como periférico, tendo em vista que adquire proximidade a uma maior quantidade e qualidade de serviços e equipamentos urbanos, a oportunidades de estudo e trabalho, além de reduzir o tempo de deslocamento pela cidade em relação àqueles que permanecem nas periferias.

Esses aspectos são confrontados tanto por aqueles que reforçam a noção de que as vivências periféricas são marcas que não se apagam – “você sai da periferia, mas ela não sai de você” –, quanto por aqueles que consideram que restringir as suas vivências e circulação às periferias é permanecer nos lugares sociais que foram pré-determinados pelo racismo e por uma estrutura de sociedade que é pautada na produção de segregação e desigualdades.

Múltiplos termos, sentidos e práticas

Podemos observar que ser periférico não significa compartilhar vivências, concepções, saberes e práticas que constituem um modelo homogêneo e uniforme, fixo e de fácil enquadramento social. Do contrário, é um processo dinâmico, relacional e repleto de elaborações políticas e simbólicas singulares, com tensionamentos, debates, contradições, construção de conhecimentos e legitimidades entre os pares. E, neste ponto, é preciso também considerar que as periferias e favelas não são iguais entre si, de modo que a associação entre desigualdades e segregação gera um acúmulo de riscos sociais e ambientais ainda maior segundo a configuração urbana e social do território.

Da mesma forma, os termos “periférico” e “periférica” não substituem os marcadores raciais e de gênero que também explicitam as diferentes trajetórias e opressões que são vivenciadas por determinados grupos sociais, ainda que estes sujeitos possam compartilhar uma certa experiência urbana nas periferias e uma dada realidade socioeconômica.

Sendo assim, as vivências de mulheres brancas e negras periféricas são diferentes, assim como são diferentes as questões que estão colocadas para as mulheres em relação aos homens nesses mesmos contextos, já que elas estão expostas a diferentes situações de violência em seus lares e nos espaços públicos. Homens negros também estão expostos a violações que afetam as suas possibilidades de existir, como o genocídio da juventude negra por parte das forças policiais do Estado e a política de encarceramento em massa, questões de urgente combate.

Por fim, um outro aspecto dessa complexidade relacionada a ser periférico refere-se ao amplo debate sobre como atuar a partir dessas vivências e posicionamentos políticos. Surgem questões como: em que medida dialogar com o Estado, a iniciativa privada e o campo do terceiro setor? Ocupar espaços institucionais na estrutura política e econômica ou seguir um caminho de ruptura na construção da revolução? Gerar renda com as ações de impacto social ou fazê-las por militância sem remuneração? Declarar-se periférico em espaços antes reservados às elites para expor as contradições? Como atuar de maneira autêntica e dialogar com os requisitos dos editais de fomento?

Essas questões, na realidade, não são binárias e se misturam a outras discussões fundamentais em curso nesses contextos, como aquelas que consideram que periféricos são todos aqueles que têm as suas vivências atravessadas pelos mecanismos de produção de pobreza, segregação e desigualdades, sejam eles negros, migrantes, refugiados, moradores de ocupações centrais, de países do Sul global, trabalhadores e trabalhadoras, abrangendo  todos que não fazem parte das centralidades hegemônicas de produção de bens materiais e simbólicos.

Afirmar uma identidade periférica nestes termos aproxima-se do que Silvio Luiz de Almeida problematizou no prefácio da obra “Armadilha da Identidade”, de Asad Haider, onde diz que é preciso ter “uma visão não individualista, politicamente agregadora e revolucionária da questão da identidade”, de modo que afirmações identitárias sejam feitas “apenas para que um dia seja possível superá-la[s]”.

 

Agradeço a todas as pessoas que generosamente contribuíram com a construção dessa pesquisa e que, a cada dia, tornam a vida ainda mais potente: Artur Santoro, Danielle Regina de Oliveira, Jô Freitas, Kauanne Patrocino, Luiz Paulo Ferreira Santiago, Mayara Amaral dos Santos, Nathielly Janutte, Pedro Oliveira, Rafael da Silva, Renata Adriana de Sousa, Sabrina Duarte, Tankian de Sousa e Teresa Caldeira.

 

 Katia Ramalho Gomes é publicitária com especialização em Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP. Aperfeiçoou-se em métodos qualitativos, pela Fundação Getulio Vargas. Atuou com educomunicação em escolas públicas e com comunicação comunitária na zona leste da cidade de São Paulo, onde nasceu. Atualmente é analista de apoios e fomentos às periferias pela Fundação Tide Setubal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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