Sergipe segue modelo Bolsonaro de combate ao coronavírus

Negacionismo

Sergipe segue modelo Bolsonaro de combate ao coronavírus

por Cristiano Navarro
29 de abril de 2020
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Em meio à explosão de casos e com um sistema de atendimento débil, Governador de Sergipe e prefeito da capital decidem pela abertura do comércio. Nos primeiros trinta dias desde o primeiro caso, o estado de Sergipe havia contabilizado 48 pessoas infectadas pelo novo coronavírus e 3 óbitos por covid-19. Mas o que parecia um caso de sucesso de controle da pandemia, se frustrou nos doze dias seguintes. Com a chegada de testes rápidos os números de covid-19 saltaram de 3 para 11 mortos e de 48 para 282 infectados.

Com cores mais ou menos berrantes, a ideologia anti-científica e negacionista não parece estar circunscrita a um espectro político. Nos últimos 12 dias, o estado de Sergipe viu os casos de covid-19 explodirem em número de óbitos e de infecção. Porém na contra-mão das estatísticas e das recomendações da Organização Mundial de Saúde, governador do estado, Belivaldo Chagas (PSD) e o prefeito da capital Aracaju, Edvaldo Nogueira (PDT) decidiram publicar decretos que liberam a reabertura de praticamente todo tipo de comércio. O boom de casos neste período dos 12 dias coincide com a chegada de testes rápidos e aplicação na população sergipana. O número de mortes confirmadas por covid-19 saltou de 03 para 11 e o de infectados de 48 para 282.

Em entrevista coletiva, o governador Belivaldo justificou a decisão pela flexibilização utilizando os argumentos “emergenciais” mais esdrúxulos. Os podólogos devem trabalhar para cuidar dos pés das pessoas que sofrem de diabetes. Lojas de tecido e armarinhos devem estar abertos para favorecer a confecção de máscaras. Ainda há abertura de concessionárias de carros, lojas de jóias, lojas de relógio, cosméticos, perfumaria, colchões, eletrodomésticos, lojas de produtos de climatização, papelarias, livrarias, entre outros, em uma lista enorme de atividades justificadas como imprescindíveis.

Acompanham os decretos municipal e estadual a obrigatoriedade do uso de máscaras não cirúrgicas e uso de álcool gel, mas, de maneira genérica, sem especificações sobre as punições e fiscalização. Próximo ao dia das mães, as determinações são cantadas como uma vitória dos empresários locais representados pela Câmara dos Dirigentes Lojistas. Não foram liberadas as aberturas de shoppings (como em Blumenau) e de estabelecimentos educacionais.

“O decreto que flexibiliza alguns setores pode ser mudado a qualquer momento se a população não colaborar. O que estamos flexibilizando, neste momento, são setores que não geram aglomeração, se as regras forem cumpridas. Não vou ceder a nenhum tipo de pressão para fazer um ‘liberou geral’. Nem tanto, nem tão pouco. Se a gente sentir que há condições de liberar mais, faremos, mas se a gente sentir que é preciso recuar, recuaremos”, analisou em entrevista coletiva Belivaldo.

Somando toda a rede hospitalar pública e privada de Sergipe existem hoje apenas 46 leitos de UTIs exclusivos para atendimento do covid-19 para atender uma população de 2,22 milhões de habitantes. A secretaria de saúde do estado promete a ampliação da capacidade até o início de junho, podendo chegar a 178 leitos de UTI nas redes pública e privada.

Apesar da fragilidade do sistema de saúde, a subnotificação no período anterior ao dia 16 de abril, início da aplicação de testes rápidos, consolidou um clima enganoso na capital sergipana que tem impulsionado a descrença na epidemia. Em pesquisa publicada no dia sete deste mês Aracaju foi avaliada como a terceira capital brasileira com menor taxa de adesão ao isolamento social. Um exemplo inusitado da falta de informação e dados é o caso do único paciente do município de Tomar do Geru: uma criança com seis anos de idade. Em um outro caso obscuro, no último dia 20, um homem em situação de rua foi resgato pelo Samu em uma rua do centro Aracaju com insuficiência respiratória morreu de covid-19 poucas horas após chegar ao hospital. Enterrado como indigente, o nome, a idade e a história do contágio da vítima não foram esclarecidas pelas autoridades de saúde.

As feiras-livres em Aracaju, onde muitos pequenos agricultores vêm do interior do estado para vender sua produção, foi o primeiro comércio a ser flexibilizado e pode ter servido com disseminador da doença da capital para o agreste e sertão. Além de espalhada por todo estado, a enfermidade já se encontra também dentro do sistema prisional com um caso confirmado no Complexo Penitenciário Advogado Antônio Jacinto Filho (Compajaf), em Aracaju, que a Secretaria da Justiça, Trabalho e Defesa do Consumidor (Sejuc) do estado diz estar sob os devidos cuidados.

No dia 24 de abril, os Ministérios Públicos Federal, do Trabalho e Estadual entraram com um pedido Tribunal Regional Federal da 5ª região, para impedir a reabertura do comércio durante a quarentena em Sergipe sem que esteja embasada em dados científicos e segurança sanitária de leitos que suportem a demanda hospitalar da pandemia do novo coronavírus.

Cristiano Navarro é jornalista.

 

 

Após a publicação do artigo, a Prefeitura de Aracaju enviou a nota que publicamos a seguir

Nota resposta ao Le Monde Diplomatique Brasil

Diferentemente do que afirma o texto de Cristiano Navarro, no Le Monde Diplomatique Brasil, a atuação da Prefeitura de Aracaju está totalmente embasada em aspectos científicos e considerando a gravidade do coronavírus. A gestão municipal atua desde o primeiro momento – antes mesmo da confirmação do primeiro caso na capital sergipana – de maneira planejada e ordenada tanto que já no dia 2 de março (12 dias antes do 1º caso) apresentou à sociedade o Plano de Contingência para o coronavírus em Aracaju. Desde então, toda medida tomada tem sido guiada por este plano e seguindo as orientações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde.

Com a confirmação do 1º caso, o prefeito Edvaldo Nogueira cancelou imediatamente toda a programação de aniversário da cidade (que se daria entre 17 de março e 4 de abril), proibiu reuniões e eventos, suspendeu aulas das redes pública e privada, funcionamento de cinemas, teatros, shoppings, lojas e qualquer tipo de espaço onde ocorressem aglomerações. Também colocou a Defesa Civil, a Guarda Municipal, o Procon e a Superintendência de Transporte e Trânsito para fiscalizar espaços públicos de lazer, como praias, parques, praças e calçadões.

A Prefeitura de Aracaju iniciou ainda o controle de chegada de passageiros no aeroporto de Aracaju, com verificação da temperatura e cadastramento, para posterior monitoramento. Realizou o abrigamento de pessoas em situação de rua. Fez a distribuição de kits da alimentação escolar para 33 mil alunos da rede pública municipal de educação. Realizou a desinfecção de áreas públicas da cidade. Disponibilizou a plataforma AjuInteligente, com mais de 1 mil serviços municipais online, para evitar a necessidade de deslocamento dos cidadãos para repartições públicas. Criou o MonitorAju, serviço telefônico e online de atendimento de pessoas com suspeita de coronavírus, além de atendimento psicológico gratuito por telefone.

Ao mesmo tempo, a administração municipal iniciou a montagem da estrutura de atendimento da rede de Saúde: antecipou a vacinação de idosos contra a Influenza, disponibilizou oito unidades de saúde para atendimento exclusivo de síndromes gripais, contratou e instalou novos leitos de retaguarda e, neste momento ergue um hospital de campanha de 152 leitos – que deve entrar em funcionamento até o dia 15 de maio. Também contratou novos profissionais de Saúde. Já criou uma Central de Regulação de Leitos para melhor operacionalizar o atendimento e direcionamento de pacientes com covid-19.

Aliado da ciência e tecnologia, o prefeito Edvaldo Nogueira tem se reunido semanalmente com médicos, enfermeiros e demais profissionais da Saúde, através dos conselhos de medicina, enfermagem, fisioterapia e odontologia, para avaliar o cenário e discutir temas relacionados ao atendimento e garantia da segurança dos profissionais que atuam em hospitais e unidades de saúde.

Com a Universidade Federal de Sergipe, a Prefeitura iniciou a construção do mapa do coronavírus em Aracaju para identificar cientificamente o comportamento do vírus na cidade e seu espalhamento pelos bairros, através da testagem. Também desenvolveu com o Instituto Arapyaú um simulador para contagem de leitos, sistema que foi referenciado pelo Ministério da Saúde e que serve para a tomada de medidas levando em consideração a necessidade por leitos na rede hospitalar da cidade.

De forma clara está demonstrado que a Prefeitura de Aracaju tem agido de maneira responsável, respeitando as normas sanitárias e tendo como foco principal a proteção à vida. Com as recentes medidas tomadas pelo governo estadual autorizando o funcionamento de alguns tipos de lojas, que não representam a maioria dos tipos de estabelecimentos comerciais da cidade, nossa atitude foi a de garantir a fiscalização para que não haja exacerbação de conduta dos empreendimentos, impedindo a ampliação além do que fora estritamente autorizado, e exigir o absoluto cumprimento tanto das normas de higiene quanto às regras de respeito ao número de clientes e às formas recomendáveis de atendimento.

Além do mais, o mais recente decreto publicado pela prefeitura mantém fechado o maior número de lojas, shoppings, cinemas, teatros, bares, restaurantes, igrejas, academias, casas de shows, equipamentos públicos esportivos e de lazer, parques, escolas, faculdades e universidades, espaços todos propícios à aglomeração.

A Prefeitura de Aracaju reafirma seu posicionamento ético e responsável e seu compromisso com a ciência, a saúde e à vida, rechaçando assim qualquer tentativa de criação de uma narrativa contrária à verdade. A gestão municipal lamenta a falta de interlocução do Le Monde Diplomatique que em nenhum momento acionou a Secretaria da Comunicação para solicitação de informação ou de entrevista.

O texto publicado pelo referido veículo foge à realidade e faz um recorte extremamente limitado das ações da prefeitura, num tom claramente oposicionista. Por isso, a Prefeitura solicita a publicação de sua resposta para que seja restabelecida a verdade dos fatos.



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