Sete livros para entender a Amazônia escritos por autores da região
Os sete livros apresentados neste texto servem como introdução aos estudos regionais e levantam tanto velhas quanto novas problemáticas: o capitalismo internacional, o movimento indígena, a cosmologia ancestral, a colonização, a devastação ambiental, a relação entre ideias e sociedade e o colonialismo interno
Nestes quase vinte anos estudando a região Amazônica chama-me atenção o fato de que ela nunca teve voz própria. Os principais intérpretes regionais eram os cronistas, forasteiros, naturalistas e pensadores sociais vindos de fora. O que deixava para segundo plano uma inteligentsia amazônica, que sempre existiu, produzindo ensaios, teses e estudos sobre a dinâmica regional. Mesmo hoje, em pleno século XXI, os guias de livros sobre a região deixam os importantes autores regionais de fora ou no máximo em segundo plano. Este texto serve para sanar esta lacuna e dar maior ênfase à produção intelectual regional. É uma lista baseada a partir da minha formação como sociólogo, portanto, priorizei obras de sociologia, história, estudos literários e culturais que foram fundamentais na minha formação inicial e recente. Não pretendo ser excludente, mas dar minha contribuição ao leitor interessado na compreensão dessa Sibéria Verde que intriga cientistas, tecnocratas, políticos e planejadores.

1) Metamorfoses da Amazônia, de Marilene Corrêa da Silva.

A obra é um estudo exaustivo sobre as várias mutações sofridas pela região a partir da implantação do capitalismo internacional no século XX. A Zona Franca de Manaus, a Operação Amazônia, os processos de devastação da natureza são o resultado do que Corrêa da Silva chama de criação de novos espaços na selva. Uma obra seminal das ciências sociais brasileiras.
2) Viagens das Ideias, de Renan Freitas Pinto.

Procura compreender como a produção das ideias sobre a Amazônia serviu de base para o desenvolvimento do pensamento ocidental no alvorecer da modernidade: a formação do Estado e os binômios sociedade/cultura e barbárie/civilização. O Autor se debruça sobre os clássicos do pensamento ocidental para captar as relações e as contribuições do chamado Novo Mundo para a filosofia, a política e antropologia.
3) Amazônia Colônia do Brasil, de Violeta Loureiro.

Aqui, a sociologia crítica encontra seu ponto alto. Loureiro demonstra como a relação entre Amazônia e Brasil foram pavimentadas por dominação, exploração e apagamento cultural. A região foi tratada como colônia interna: fonte segura de matéria-prima para o mercado internacional ou como destino para populações pobres do Nordeste.
4) Além da Conquista, Francisco Jorge dos Santos.

Quando revisitamos a história oficial da colonização, a resistência indígena passa desapercebida. O estudo aponta como a dominação da Amazônia não foi um processo linear, mas enfrentou ampla resistência das nações indígenas contra o flagelo colonial. Concentrado na Era Pombalina (1757 – 1798), Santos descreve as estratégias de resistência dos povos Mura e Munduruku e as rebeliões indígenas nos Rios Negro e Branco.
5) Amazônia, Mito e Literatura, de Marcos Frederico Kruger.

Estudo sobre a cosmologia indígena na Amazônia e suas reverberações na literatura. A partir do estudo da cultura indígena, o autor aponta o que ele chama de “origem divina, destino humano”, pois tais narrativas mitológicas tinham como função tornarem-se divinas na comunidade que as gerou. Mas o contato com o europeu corroeu e bagunçou por completo suas antigas referências culturais.
6) História da Amazônia, de Márcio Souza.

Uma das últimas obras do autor. Ela está aqui, pois a considero uma boa introdução à história da região. Os processos históricos são narrados desde o período pré-colombiano até os dilemas regionais do século XXI. Usando um estilo conciso e direto, pode agradar tanto ao neófito quanto ao estudioso avançado das questões regionais.
7) A Invenção da Amazônia, de Neide Gondim.

Esta obra apresenta a tese de que a representação que temos da Amazônia surgiu a partir do choque do europeu invasor com o que ele chamava de Novo Mundo. Para compreender a imensidão cultural e ambiental da região, o invasor recorreu aos mitos gregos. A autora debruça-se sobre fontes documentais, crônicas e cartas da época da invasão para embasar seu estudo.
Os sete livros acima servem como introdução aos estudos regionais e levantam tanto velhas quanto novas problemáticas: o capitalismo internacional, o movimento indígena, a cosmologia ancestral, a colonização, a devastação ambiental, a relação entre ideias e sociedade e o colonialismo interno. Hoje, com as mudanças climáticas, o ecocídio, o epistemicídio e o avanço predatório da sociedade ocidental sobre os últimos grandes ecossistemas planetários, a Amazônia ocupa um lugar primordial nos debates globais.
Ao leitor, espero que tais obras suscitem ideias, debates, desvaneçam ideias errôneas sobre o Norte e o incentive a agir de alguma forma para impedir aquilo que o xamã, Davi Kopenawa, chama de: A Queda do Céu.
Ricardo Kaate Lima é Doutor em Ciências Sociais (UNESP), autor de A Lança de Anhangá (Cachalote, 2024) e vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022).


Muito boas as indicações. Os que ainda não li vão certamente compor a minha lista de leitura.