Sob o governo falocêntrico - Le Monde Diplomatique Brasil

Bolsonaro

Sob o governo dos homens falo

por Paulo Ferrareze Filho e Juan Manuel P. Domínguez
31 de julho de 2019
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Entrevista com  Christian Dunker, psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo (USP).

Após milênios de hegemonia e de dominação heterossexual patriarcal, em que o másculo estava inarredavelmente associado à força viril, o século XX produziu os primeiros discursos contra o patriarcalismo falocêntrico, problematizando condições e normativas sobre a ordem e as instituições sociais. 

Eduardo Galeano lembra que o Malleus Maleficarum, conhecido código penal das bruxas na Idade Média, recomendava “o mais impiedoso exorcismo contra o demônio que tinha tetas e cabelos compridos.”

Como consequência da revolução industrial, mas especialmente com a contracultura na década de 1960, é que os discursos feministas ganharam força ao redor do mundo. O corpo feminino ganhou espaço e a sua voz passou a ecoar no circuito dos afetos sociais. A ele se somaram os movimentos LGBTQ+, engrossando o coro contra a opressão milenar do falocentrismo e reclamando seus direitos à existência e ao reconhecimento. 

Ilíada, texto fundante do mundo ocidental, já fazia ode à virilidade masculina, uma vez que estava permeado por heróis como Aquiles, Agamemnon e Heitor. No entanto, ainda hoje, o rescaldo do patriarcalismo cego permanece na medida em que os heróis populares continuam sendo homens. Basta lembrar dos vintages Batman e Superman, mas também dos atuais Woody e Buzz Lightyear, de Toy Story.

A violência oriunda do falocentrismo no Brasil é uma das maiores no mundo. Da piada preconceituosa aos feminicídios e aos crimes contra a população LGBTQ+, o Brasil coleciona perversidades que foram legitimadas com a eleição de Bolsonaro. Quando a violência assume um caráter institucional, pode-se dizer que ela formata o discurso cotidiano de um povo. 

Talvez não seja por acaso que a ressaca do mar do patriarcado, cujo ápice se deu com o atual governo, tenha origem justamente após a reeleição da primeira presidenta do Brasil, como bem demonstra o documentário Brasil em Vertigem, de Petra Costa. Como dito por Jean Willys durante a votação do impeachment no congresso, passamos por uma “paródia sexista”. 

Em 1997, Jacques-Alain Miller destacou o tema da “feminização do mundo” com o intuito de ler os fenômenos que atravessam a nossa época, caracterizada pela queda da função paterna, o declínio do viril e a feminização do gozo. Éric Laurent, discípulo de Lacan, quem participou em 2018 de uma conferência na USP sobre a queda do falocentrismo, dirá que existe uma reviravolta em torno aos discursos falocêntricos. Esta reviravolta que levam adiante os movimentos feministas ao redor do mundo todo, está fragilizando a ordem patriarcal e deteriorando a lógica da transmissão fálica paterna.  

O discurso de Bolsonaro, como se sabe, é prenhe de um sexismo extremado e incapaz de perceber suas próprias causas. Bolsonaro sempre deixa escapar, direta ou veladamente, sua fixação com questões ligadas à sexualidade. A fala contra Maria do Rosário que culminou em recente condenação, a preocupação com o raro câncer de pênis no Brasil, o incômodo curioso com o golden shower no carnaval, a piada com o pênis de um descendente  oriental, a ofensiva contra o que chamou de turismo homossexual no Brasil, a colocação da Amazônia como a “virgem que todo tarado quer” e, mais recentemente, o cartão amarelo para a Ancine em relação a filmes eróticos, são apenas alguns exemplos que revelam a obsessão sexual de Bolsonaro, algo que não passa sem sentido para a psicanálise.

Para melhor compreender essa fixação, que possivelmente ressoa em boa parte da população brasileira, convidamos o psicanalista Christian Dunker para responder as perguntas a seguir.

Arte: Cristiano Siqueira

Pode-se dizer que há projeção psíquica no discurso de Bolsonaro quando recorrentemente nele há referência a questões ligadas à sexualidade, ao pênis e à homossexualidade?

A projeção é uma forma de reação psíquica, descrita por Freud, definida pela reaparição desde o outro, de moções de desejo e traços pulsionais, que o sujeito não suporta ou nega fortemente em si mesmo. Tipicamente, aquele impulso que não consigo lidar em mim mesmo, e que provém de minha fantasia, é projetado no outro, de tal forma que a partir de então é o outro que se torna portador desta mensagem e não o próprio sujeito. Por isso, o sujeito passa a ser afetado e a se incomodar com o outro, como se este tivesse atacando-o ou perseguindo-o, quando na verdade é o próprio sujeito que persegue e critica a si mesmo, usando o outro para isso. 

A projeção pode adquirir contornos agressivos e violentos porque quanto mais as fantasias do sujeito o assediam mais ele precisa criar, manter e confirmar a realidade do outro perseguidor. O conceito psicanalítico de projeção inspirou os testes projetivos como Rorschach, o TAT (Thematic Aperceptional Test), o Pfister ou o TDH (Teste do Desenho História). Em todos estes procedimentos, diagnósticos são apresentados, com estímulos relativamente ambiguos ou indeterminados, como manchas, quadriláteros coloridos, uma folha em branco na qual uma família e uma história devem ser compostas, ou imagens de cenas das quais podemos criar uma história. Em todos os casos, o princípio é o mesmo, quando falo do outro, quando interpreto o outro, relativamente indefinido ou indeterminado, acabo falando mais de mim mesmo e de meus complexos do que do outro em sua realidade própria. 

Segue-se um princípio genericamente aceito por todas as escolas psicopatológicas de que quanto mais projeção mais grave o grave o quadro considerado. A projeção é um ato de negação ou de recusa de reconhecimento. Ela pode ser aplicada tanto ao agente da ação (delírio paranoico), quanto ao conteúdo da ligação, que pode ser de amor ou de ódio (delírio erotomaníaco), ao tipo de terceiro (delírio de ciúme) ou ao próprio conjunto das relações do sujeito com o mundo (delírio megalomaníaco). Uma característica da presença da projeção ocorre quando localizamos uma espécie de desconexão temática ou contextual. Ou seja, independente do contexto, definição de verbas para a educação, visita de embaixadores estrangeiros, crise parlamentar, a resposta é sempre a mesma ou tendencialmente a mesma. Este polo atrator das respostas é chamado também de complexo. Os complexos têm por definição certos temas, como o pai (complexo paterno), a relação entre os pais (complexo edipiano), a intrusão de um terceiro elemento (complexo de intrusão) ou a separação (complexo de desmame), mas virtualmente há complexos sobre quaisquer situações problemáticas para alguém. 

Há complexos orais, ligados à sexualidade emanada da amamentação, há complexos anais, derivados do prazer de reter ou expulsar excrementos, há complexos fálicos e uretrais, ligados ao prazer de urinar, há complexos exibicionistas, ligados ao prazer de mostrar ou de ser visto, há complexos sádicos e masoquistas, ligados ao prazer sentido com a dor do outro ou de si mesmo. Um traço característico dos complexos associados com a projeção é a sexualização de contextos, em princípios distantes, do erotismo. Quanto mais grave o quadro, mas incontrolável e persistente as alusões à conotações sexuais. Neste sentido a dificuldade do presidente Bolsonaro em responder a questões da esfera pública segundo o discurso e a lógica institucional. Daí porque sua persistente alusão à sexualidade, tamanho do pênis, golden shower e chocolates homossexualizantes sugerem fortemente a presença de complexos e projeções.  

Para Pierre Lebrun e outros psicanalistas, a queda do patriarcado tem implicações não apenas sociais, mas também psíquicas. Qual a relação desse fenômeno com o avanço da extrema direita no Brasil e no Mundo?

Desde Jung nos anos 1910 e Lacan nos anos 1930 discute-se na psicanálise o declínio da função social da imago paterna. Isso significa que o declínio do patriarcado é um processo que está em curso desde o início da modernidade, mas que teria entrado em um momento agudo na virada do século XIX para o XX, determinando as formas típicas de sofrimento psicológico descritas por Freud. Hoje três hipóteses mais importantes concorrem para entender a mudança em nossos modos de subjetivação e consequentemente em nossas formas mais típicas de sofrimento:

O declínio do patriarcalismo corresponde a uma nova maneira de se relacionar com as alteridades e com as estrangeiridades, de tal maneira que nos tornamos mais intolerantes e segregativos com as formas de vida que não partilham o mesmo registro de produção de alteridades. 

O declínio do patriarcado altera fundamentalmente nossos modos de sancionar tipos preferenciais de satisfação ou de gozo. Esta é a hipótese de Pierre Lebrun, segundo a qual seria preciso reinstituir modalidades de restrição e de limitação para enfrentar esta nova paisagem moral.

O declínio do patriarcado  convoca outros modos de produção de subjetividade, não apenas aqueles ligados à lei, mas também ligados aos corpos, às identidades e aos modos de pertencimento.

Essas alternativas nos fazem entender também as modalidades regressivas de entender esta transição em nossos paradigmas de relação entre autoridade e poder, entre desejo e prazer, entre identidade e alteridades. Tais formas regressivas interpretam que nosso sentimento social de incerteza, anomia e indeterminação derivam da falta de ordem e esta procede do deslocamento do pai da função mítica e moral de fundamento da lei. Muitos interpretam a aparição de movimentos de direita, conservadores e regressivos como uma reação aos avanços   conquistados por minorias, pelo aumento da imigração de estrangeiros, ou pela pluralização generalizada de valores. As retóricas de re-instalação do pai em seu lugar, centralizando e simetrizando as relações de poder entre família e Estado, entre vida privada e vida pública, entre o passado e o futuro, captam este sentimento social de anomia e desalento traduzindo-o em uma interpretação eficaz de que a reorganização vertical do mundo é necessária diante dos excessos de horizontalidade. Bolsonaro é um caso particular deste processo. O que explica sua aliança espontânea com crenças religiosas e formas institucionais baseada na força e da determinação. 

Lula e Bolsonaro, cada um à sua maneira, são personagens que incorporaram uma espécie de poder patriarcal e mágico. Psicologicamente, nas massas (grupos) que mobilizaram, há diferença na assunção dessa posição redentora?

Lula e Bolsonaro de fato possuem características em comum. Ambos se opõe ao político como mero executor de obras ou administrador bem intencionado. Ambos levam em conta a ligação pessoal com seus eleitores, em acordo com a noção religiosa de carisma ou chamado. São políticos de exceção pois desconfiam do princípio pelo qual o político moderno é apenas um representante e um emissário de um programa pré-declarado em relação ao qual se pode cobrar fidelidade. Ambos enquadram-se na definição de populismo, ligando a autoridade pessoal da família com a autoridade pública das instituições, mas as semelhanças param por aí.  Enquanto o populismo de Lula propôs uma democracia inclusiva, por meio de políticas compensatórias, luta contra a desigualdade social, políticas de cotas e de inclusão nas universidades e escolas, bem como a tentativa de implantar o Sistema Único de Saúde, oferecendo saúde universal à população, o populismo de direita, representado por Bolsonaro, propõe uma democracia exclusiva, para poucos ou para menos pessoas, uma vez que se consegue convencer as pessoas que não há recursos para todos. 

Já a posição de redenção ou de salvamento, depende em grande medida de um contexto social de desalento e desamparo. A confiança em uma herói salvador, acima da lei e em estado de exceção em relação a ela, é uma fantasia comum aos que imaginam que o sistema, por ser tão complexo e incompreensível, age apenas para desfavorecer as pessoas comuns e acumular privilégios. Curiosamente, o herói populista tem sempre a característica de ser uma “pessoa comum” ou, como definiu Adorno, um “pequeno grande homem”, ou seja, alguém que age e externaliza preconceitos comuns, afinando-se assim com a ideia de que a complexa realidade a ser enfrentada pode ser resolvida por medidas simples e óbvias, consagradas pelo “senso comum”. Esta força criada pela transposição do senso comum à política de Estado, consegue amealhar um grande apoio popular, baseado na autenticidade e na impressão de que há uma ”comunicação direta” entre ele e seus apoiadores. A existência de uma família que contraria a ordem e a separação entre público e privado, que pode parecer uma franca violação de princípios republicanos básicos, torna-se assim uma prova real dessa transposição de um objeto de nossa fantasia para ocupar o lugar de nossos ideais de eu. Quando alguém coloca-se neste lugar, três efeitos são imediatamente produzidos:

Identificação horizontal e grupalizante com todos os outros que estão referidos ao “mestre”, que passam a usufruir dos privilégios e afinidades de “irmãos”.

O inimigo torna-se persistentemente sólido e unificado, uma fonte depositária de todos os sofrimentos e dificuldades são atribuídas a estas “forças opositoras”, “inimigos ocultos” ou demais “estrangeiros perturbadores”.

Cria-se um transporte de autoridade imaginário entre o líder e seus seguidores. A violência, a autoridade e o poder que ele possui se transmite para seus seguidores o que autoriza as pessoas a perseguirem e ameaçarem outros adversários locais em nome de um “mal maior”.

Como a psicanálise pode explicar a identificação do público brasileiro, de forma massiva, com os discursos reacionários de Bolsonaro, notadamente os que pregam o ódio às diferenças como as que atentam contra índios, homossexuais, intelectuais de esquerda, transgêneros, artistas, etc.?

A identificação de massa, ocasionada por processos populistas, mas presente em alguma medida em qualquer relação entre fãs e ídolos idealizados, ou entre seguidores e mestres, é difícil de ser mantida ao longo do tempo. A renovação de inimigos torna-se cada vez mais custosa, as promessas miraculosas começam a se desgastar ou seu choque com a realidade, a proximidade com a realidade menor do personagem, acaba gerando pontos de incongruência com nossa fantasia. É por isso que grandes heróis frequentemente são destruídos por seus próprios seguidores, que sentem-se progressivamente traídos pelas promessas do mestre.  Um procedimento importante é suspender a posição de opositor que dá consistência para o delírio de inimigo. Quanto mais relações pessoais, detalhes e convivência existe entre o possuído por uma identificação de grupo e o contra-grupo na qual a identificação de grupo se baseia, maior a chance de que a identificação se dissolva. A má notícia é que uma identificação desse tipo é relativamente imune a fatos e dados. Esses agem muito mais sobre as pessoas perifericamente envolvidas nestas formações grupais e que por não se situarem “out-grup” conseguem se fazer escutar melhor do que aqueles automaticamente identificados com inimigos interessados. Variar grupos de convivência e abrir-se para contato com mundos relacionais e ficcionais diferentes dos habitualmente frequentados pode ser uma alternativa interessante. Retornar a grupos de origem, que não estejam comprometidos com a lógica de auto-confirmação pragmática, pode ser um caminho razoável. Clinicamente, trata-se de desativar o sistema de idealizações do sujeito ao mesmo tempo em que se separa a demanda, na qual se apoia a identificação com o líder, do desejo do próprio sujeito. Trata-se portanto de uma operação, usualmente realizada pela clínica psicanalítica, de des-alienação. Identificações de massa são diferentes de identificações de grupo ou identificações de classe. A qualidade do vínculo amoroso em cada caso é diferente, por isso transformações em nossos modos de amar, trabalhar e desejar podem afetar este tipo de identificação regressiva, observada na dissolução do eu na massa. 

Como poderia ser definida essa masculinidade que se associa às armas, à violência verbal, à autoafirmação, à diminuição da mulher e dos outros gêneros sexuais? Sempre com vistas a colocar o homem como sujeito dominante dentro do corpus social?

A tipologização dos indivíduos favorece a identificação de massa. Quando alguém é escutado ou reconhecido apenas e tão somente porque ele integra um determinado grupo de pertencimento, a tendência é a perpetuação desta gramática de identificações. Minorias, como mulheres, indígenas, homossexuais ou transgêneros são eleitos como depositários das identificações de grupos que sentem sua perda ou instabilidade de posição social, como uma espécie de rapto ou de ilegítima apropriação de seu lugar. Facilmente alguém que não sabe muito bem explicar as razões e motivos de sua demissão, pode atribuir isso aos seus “inimigos naturais”. Em situações de anomia ou de declínio econômico ou de instabilidade social tais processos tornam-se generalizados avivando conflitos latentes. O processo tende a se replicar uma vez que a mensagem de opressão ou de autoritarismo, como por exemplo, a valorização da violência para tratar a desordem social, acaba se capilarizando, acentuando as zonas de conflito e de opressão já presentes no funcionamento social. Por isso se diz que em situações de crise pobres e miseráveis sofrem duplamente, primeiro pela perda direta de empregos e proteções sociais, e depois com o acirramento do preconceito e com a segregação social. 

 

Paulo Ferrareze Filho é professor de Psicologia do Direito e escritor. Juan Manuel P. Domínguez é cineasta, escritor e jornalista.



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