Sobre a relação entre tecnologia, espetáculo e capitalismo
Existe uma série de implicações não apenas econômicas e sociais, mas também ecológicas, que afetam os indivíduos comuns, que devem se contentar em assistir de seus celulares, enquanto esses privilegiados destroem o meio ambiente em uma competição empresarial na qual os magnates não pagam a conta no final do dia
Em 1958 foi publicada a primeira edição de A Condição Humana, na qual Hannah Arendt escreveu sobre a reação do mundo ao lançamento do satélite Sputnik: “A reação imediata, expressa sob o impulso do momento, foi de alívio diante do primeiro ‘passo da vitória do homem sobre a prisão terrestre’. E essa estranha afirmação (…) era, inconscientemente, o eco de uma frase extraordinária que, há mais de vinte anos, foi gravada no obelisco funerário de um dos grandes cientistas russos: ‘A humanidade não permanecerá para sempre presa à Terra»’”1.
Já se passaram 67 anos desde a publicação inicial deste trabalho de Arendt, e daquela reação de alívio descrita pela filósofa alemã não resta nada. Pelo contrário, o que domina o público em geral em sua relação com a viagem espacial, em específico, e com a tecnologia, em geral, é uma sensação de conformismo e expectativa, na qual surge levemente um temor inconsciente. Isso se deve à maneira como se constrói um vínculo entre os indivíduos e a tecnologia que habitam, uma vez que o mundo contemporâneo, dominado pela obsessão pelo branding e pelo consumo de tecnologias, criou uma visão unidimensional diante do tecnológico.
O exemplo mais claro disso é o que desejo trazer à tona hoje: a viagem ao espaço de Amanda Nguyen, Aisha Bowe, Katy Perry, Kerianne Flynn, Gayle King e Lauren Sanchez, organizada por Jeff Bezos. Em resumo, no dia 14 de abril a empresa Blue Origin, pertencente ao magnata bilionário Jeff Bezos, enviou essas seis mulheres ao espaço em um evento que se tornou o primeiro do tipo desde 1960, ano em que também foi enviada uma tripulação composta inteiramente por mulheres. A seguir, quero me aprofundar um pouco na forma como esse “evento histórico”, como definido pela mídia, deveria nos surpreender mais por ser uma demonstração do desperdício e da opulência que os bilionários atualmente gostam de exibir ao mundo.
Assim como a febre do ouro, a febre espacial tem dominado o cenário das empresas tecnológicas em uma competição para ver quem será o primeiro a comercializar viagens ao espaço o mais rápido possível. Isso traz consigo uma série de implicações não apenas econômicas e sociais, mas também ecológicas, que afetam os indivíduos comuns, que devem se contentar em assistir de seus celulares, enquanto esses privilegiados destroem o meio ambiente em uma competição empresarial na qual os magnates não pagam a conta no final do dia.
Bezos pode se exaltar o quanto quiser com seus óculos escuros e jaqueta de couro, imitando a aparência de uma estrela do rock — imagem que parece ser a preferida dos milionários em crise —, mas no final ele não passa de parte da “máquina espetacular” descrita por Guy Debord. No entanto, essa dinâmica não responde apenas a um interesse do capitalismo em se associar e dominar os meios de comunicação, mas sim em relacionar tecnologia-capitalismo-comunicação, sendo esta última um mero espetáculo que serve para pacificar e alienar em um processo de controle típico de uma sociedade altamente composta por dispositivos de dominação.

Debord fala do espetáculo da seguinte forma: “O espetáculo, entendido em sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Não é um suplemento do mundo real, uma decoração acrescentada. É o núcleo do irrealismo da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares — informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de diversões —, o espetáculo constitui o ‘modelo’ atual da vida socialmente dominante”2. Isso implica que a comunicação, entendida como um fluxo constante de informação/propaganda, traz consigo impactos simbólicos que não são alheios à realidade do mundo capitalista, mas sim a constituem como tal.
A sociedade do espetáculo impõe um regime ‘hipercomunicativo’ no qual, o sujeito se apresenta como um receptor moldado por essa violência espetacular. Não é de surpreender que seja justamente no espetáculo que os grandes milionários se sintam à vontade para se regozijar diante de conquistas que beneficiam apenas a eles, deixando uma pegada ecológica que todos os indivíduos da Terra devem pagar. Bezos, assim como Musk, precisa do espetáculo como materialidade para seu próprio circo empresarial, no qual eles criam e vendem a narrativa de que são os únicos no planeta capazes de comercializar viagens ao espaço e, por isso, devem ser aplaudidos por qualquer ato irresponsável e antiético que produza danos colaterais que afetam a todos.
É neste ponto que devemos retomar uma visão da tecnologia que não responda à visão ‘monotecnológica’ que Bezos e Musk vendem como a única alternativa para o futuro da humanidade. Eles, no final, respondem apenas ao princípio da primazia econômica acima de tudo. Assim como Musk vende a imagem de que apenas a Tesla produz carros elétricos de qualidade, Bezos apresenta de forma espetacular que apenas ele pode levar o ser humano ao espaço de forma acessível, buscando monopolizar a atenção, a mídia e a criatividade para uma relação diferente com a tecnologia, justificando a sua como a única possível. Isso se relaciona com o que o filósofo Yuk Hui chamou de Tecnodiversidade: “Após a Guerra Fria, o aumento da competição resultou em uma cultura ‘monotecnológica’ que não busca mais equilibrar progresso econômico e progresso tecnológico, mas os assimila enquanto avança rumo a um fim apocalíptico. A competição baseada na ‘monotecnologia’ está devastando os recursos naturais da Terra em prol da maximização de lucros e impede os atores de adotarem caminhos ou direções diferentes, ou seja, bloqueia a ‘tecnodiversidade’”3.
Essa ‘tecnodiversidade’ bloqueada é algo que deve chamar nossa atenção, pois quanto mais nos acomodamos a considerar a tecnologia como algo alheio a nós, meramente consumindo-a de forma passiva no cotidiano, mais caímos no erro de permitir que a febre espacial acabe nos consumindo. Sim, a foto de Katy Perry com uma flor no espaço é bonita, e continuaremos a vê-la mesmo quando o inferno em que vivemos, graças à destruição ambiental causada pelos bilionários em sua competição, se tornar insuportável.
Da mesma forma, talvez a ‘tecnodiversidade’ que devemos buscar seja o que nos permitirá retomar um caminho diferente para esse destino apocalíptico que parece se aproximar a cada dia. Romper com o neocolonialismo tecnológico torna possível que a ‘monotecnologia’ de figuras como Bezos e Musk desapareça, dando lugar a outra relação com a natureza. Não se deve subestimar o esforço de pensar em outro tipo de mundo para se viver. Não se trata apenas de nos conformarmos em ver o mundo desmoronar, mas de considerar as oportunidades para fragmentar esse futuro cancelado que o realismo capitalista promove.
Assim como David Bowie canta em Space Oddity: “Ground control to Major Tom”, nos vemos na tarefa de responder ao chamado. A tecnologia não é algo indiferente ao ser humano; neste ponto da evolução, devemos considerar os impactos que a forma como ela é criada tem em diferentes dimensões da existência, as quais não podem ser ignoradas.
Recuperar o ‘assombro’ tecnológico implica repensar a relação que temos com essa tecnologia. É a partir daí que devemos considerar elementos como o envio de milionários ao espaço enquanto o mundo se despedaça, sem deixar de lado a redução do cientista a um mero técnico empregado por aqueles com capital para realizar as fantasias espaciais dos magnates.
O assombro se perde diante da visão seca e homogênea do consumo tecnológico capitalista, que não promove o acesso à tecnologia, apenas coloca uma etiqueta de preço nos produtos, para que estes entreguem benefícios excessivos aos donos dessas empresas, sem importar se estão criando bem-estar para o mundo ou não. Sputnik pode nos assombrar novamente, mas é um processo que requer abrir a experiência tecnológica.
Juan David Almeyda Sarmiento é estudante de doutorado em filosofia da Universidade Federal de São Carlos. Pesquisador e professor da Universidade Industrial de Santander (Bucaramanga-Colômbia), assim como integrante de vários grupos de pesquisa do Brasil.

