Sobre Bets (apostas online), responsabilidade social e prevenção ao suicídio
“Que vida e que condições de existência estamos dispostos a garantir às pessoas como parte de uma política efetiva de prevenção ao suicídio?”
Os estudos sobre os efeitos das bets na subjetividade ainda são incipientes no Brasil. Há estudos principalmente sobre os efeitos de dependência que as bets podem causar, por causa de sua dinâmica pensada para promover uma fixação nas apostas. Mas quero trazer outra perspectiva, que também ainda tem poucos estudos: a influência das bets no risco de suicídio.
Sabemos, em uma suicidologia crítica, que o suicídio não tem causa única, e sim múltiplas determinações. Nesse sentido, conforme Almeida (2021)[1], não é correto pensar em causa única para um fenômeno complexo como o suicídio, tampouco seria correto falar em causas. Os estudiosos do tema, em uma perspectiva crítica e interdisciplinar, tendem a compreender o suicídio como um fenômeno complexo e de múltiplas determinações, ou mesmo múltiplos fatores.
Na prática, isso significa dizer que há diversos fatores, ou diversas ocorrências, que podem aumentar o sofrimento psíquico dos indivíduos e elevar o risco de suicídio. Fatores como precariedade de condições de moradia, desemprego, preconceito (homofobia, racismo, etc.) são considerados entre os fatores de risco sociais de suicídio.
Ao contrário do que comumente se pensa, não há, necessariamente, uma relação direta entre transtornos mentais e o risco de suicídio. É preciso reconhecer, sem dúvida, a existência de sofrimento psíquico intenso e considerar as múltiplas determinações que influenciam tanto esse sofrimento quanto o risco de suicídio, entre as quais se encontram os aspectos psíquicos.
Isso significa que a dimensão psíquica é fundamental, mas, por si só, não determina a ocorrência ou não de um ato dessa natureza. É preciso cuidar das questões psíquicas porque é necessário acolher e tratar, de forma integral, o sofrimento singular de cada pessoa, independentemente da existência ou não de um diagnóstico psiquiátrico.
A epidemiologia a respeito da ocorrência de suicídios no Brasil nos últimos anos contém dados que nos comunicam, por si, a estreita relação entre violência estrutural, preconceito, precariedade de vida e risco de suicídio.[2] O suicídio tem sido mais frequente entre homens, especialmente jovens e idosos. Entre os jovens, há alta incidência entre os jovens negros, LGBTQIA+ e indígenas. Além disso, o suicídio tem aumentado de ocorrência nos países do chamado sul-global. Esse recorte de dados indica a importância dos fatores sociais e da garantia de direitos básicos de vida, os chamados determinantes sociais da saúde, em quaisquer políticas públicas de prevenção ao suicídio.
O suicídio é considerado pela OMS uma questão de saúde pública. No Brasil, há diversas ações no sentido de prevenção, mas há ainda um longo caminho a ser percorrido. Um dos principais pontos a serem considerados é a elaboração de uma proposta de prevenção ao suicídio que esteja atrelada diretamente ao SUS.
O Ministério da Saúde e outros órgãos competentes já estabeleceram diretrizes que orientam as ações de prevenção. Estas diretrizes são frequentemente reiteradas, mas há muito o que avançar em termos de concretização de políticas públicas de prevenção que contemplem os determinantes sociais da saúde, portanto, que descrevam e proponham ações concretas para a garantia de direitos básicos: saúde, moradia, educação, emprego, alimentação, combate ao preconceito de raça, gênero, orientação sexual etc.
Nos últimos anos, a própria OMS tem reforçado a importância da incorporação desses determinantes às estratégias de prevenção. Embora as diretrizes atuais do Ministério da Saúde já reconheçam essa perspectiva, ainda é necessário transformá-las em ações concretas e permanentes.
Isso significa que a prevenção ao suicídio passa pelas ações em saúde mental, mas não se limita a elas: é indispensável que as ultrapasse. Afinal, como demonstram os próprios documentos oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, não há saúde – e, consequentemente, não há saúde mental – sem a garantia dos direitos fundamentais.
Neste artigo, proponho acrescentar mais uma dimensão a esse debate: a questão das bets. As apostas on-line têm se popularizado rapidamente e já são objeto de estudos, sobretudo em razão de seu potencial viciante e dos riscos associados ao transtorno do jogo. Trata-se de um mercado amplo e altamente lucrativo, impulsionado pela divulgação feita por celebridades, influenciadores digitais e outros agentes de publicidade.

A presença massiva de propagandas de plataformas de apostas, inclusive durante transmissões de jogos de futebol e da Copa do Mundo, contribui para sua crescente normalização. Após a regulamentação das bets, que é recente, é possível ver, ainda que pareça pouco, os possíveis danos especialmente em relação à saúde mental e aos impactos financeiros para os jogadores.
As apostas on-line já demonstram seu potencial para levar muitas pessoas ao endividamento e ao desespero. Embora esse alerta já tenha sido feito por pesquisadores e instituições, é necessário ampliar o debate sobre a relação entre as bets e a saúde mental, compreendendo-a também como uma questão de prevenção ao suicídio.
Há relatos de pessoas que perderam tudo o que tinham e o que não tinham para as apostas. E aí há outro ponto fundamental: o endividamento, a perda financeira, total ou parcial, também são fatores de risco de sofrimento, desespero – sentimento de não haver saída.
Neste sentido, a discussão que inicio e não encerrarei neste artigo é a seguinte: é preciso incluir a preocupação com as bets e suas consequências nas diretrizes de prevenção ao suicídio. Essa é mais uma das muitas responsabilidades sociais, políticas e, sobretudo, éticas, que precisamos ter e cobrar do poder público. Uma responsabilidade ética com o ser humano. É preciso pensar se regulamentar, como foi feito, é mesmo o suficiente. As apostas online continuam sendo divulgadas como entretenimento, mas são altamente danosas, tanto do ponto de vista financeiro, quanto das consequências psíquicas que a ruína financeira e o vício em apostas podem causar.
Esse tema é urgente. Precisamos falar sobre as bets, pois refletir criticamente sobre seus impactos na subjetividade e sobre seu potencial de intensificar o sofrimento psíquico também é assumir uma responsabilidade coletiva na prevenção ao suicídio.
Sempre que abrimos um debate sobre prevenção ao suicídio, é preciso levar a sério a seguinte questão: “Que vida e que condições de existência estamos dispostos a garantir às pessoas como parte de uma política efetiva de prevenção ao suicídio?” A prevenção do suicídio passa, necessariamente, pela garantia de direitos e pela construção de condições de vida que tornem o viver digno e significativo. Exige, portanto, um compromisso ético e coletivo, que somente poderá ser efetivo se forem asseguradas às pessoas em sofrimento condições concretas para uma vida digna, com acesso a direitos, proteção social e perspectivas de futuro.
Iniciemos, portanto, essa reflexão, pois ela constitui o primeiro e indispensável passo para a construção de uma ação coletiva.
Se você está precisando de ajuda, ligue 188 (CVV – Centro de Valorização da vida).
Profa. Dra. Flávia Andrade Almeida é doutora em Psicologia Clínica (USP) e Mestre em Filosofia (PUC-SP). Especialista em Psicologia da Saúde e Prevenção ao suicídio. Psicóloga, docente, supervisora clínica e pesquisadora. Autora do livro Suicídio e medicalização da vida – reflexões a partir de Foucault (CRV, 2021).
Referências
ALMEIDA, Flávia Andrade. Suicídio e Medicalização da vida – reflexões a partir de Foucault. Curitiba: CRV, 2021.
ARAÚJO, Thiago Bloss de. Suicídio, política e sociedade: elementos para uma Suicidologia crítica. In: LIMA, Luana; NAVASCONI, Paulo Vitor Palma. (Re)pensando o suicídio: subjetividades, interseccionalidade e saberes pluriepistêmicos. Salvador: EDUFBA, 2022.
[1] ALMEIDA, Flávia Andrade. Suicídio e Medicalização da vida – reflexões a partir de Foucault. Curitiba: CRV, 2021.
[2] ARAÚJO, Thiago Bloss de. Suicídio, política e sociedade: elementos para uma Suicidologia crítica. In: LIMA, Luana; NAVASCONI, Paulo Vitor Palma. (Re)pensando o suicídio: subjetividades, interseccionalidade e saberes pluriepistêmicos. Salvador: EDUFBA, 2022.

