Sobre terror e tragédia em ‘Obsessão’ (2026)
Com Obsessão, seu mais filme, Curry Barker se insere numa longa esteira de obras que levam a sensação do desejo ao seu ápice
Poucas coisas são mais assustadoras que conquistar o que desejamos. Você certamente conhece a sensação. A insatisfação com o cargo que por anos sonhamos e por fim alcançamos; a pessoa com a qual há muito fantasiávamos e nos finalmentes era ruim de cama; a casa que lutamos para comprar e, como que magicamente, agora parece pequena ou grande demais para nós. Você também se identificou – pois espero não ser o único a ainda precisar de um divã–, e Curry Barker sabe disto. Com Obsessão, seu mais recente filme, o diretor se insere numa longa esteira de obras que levam essa sensação ao seu ápice.
Acompanhamos no filme a estória de Bear, cuja paixão platônica por sua amiga de infância o faz recorrer a recursos mágicos para conquistá-la. Nikki, agora sob a influência onipotente do desejo de Bear, cai instantemente de amores por ele. O decurso da relação, já prefigurado pelo gênero do filme, podemos imaginar. Pois mais interessante que os miúdos da trama de Barker me parecer ser a modalidade discursiva que permite à realização de nossos desejos tão facilmente se tornar assustadora. Ou seja, com a ajuda do filme, interessa perguntar o que faz nossos desejos devirem terror – e não, por exemplo, tragédia?
Eis algumas pistas. Seria de todo fácil que, deparados com a realização do que almejamos, culpemos seus resultados por nossa insatisfação. A responsabilidade por esta se encontraria sempre no contexto desfavorável em que se desdobram o que desejamos; no nosso desconhecimento diante das variáveis e consequências que nos levariam a suceder. Esse é o caminho usual, e não à toa o assumido por Bear quando sua obsessão por Nikki rapidamente inverte de vetor. O já tão famoso slogan “perdoa-os pois eles não sabem o que fazem” se transforma, aqui, no operador sintático elementar para uma tragédia: se eu soubesse que seriam esses os resultados do que desejo e faço, não os faria. A perspicácia de Nikki, cuja consciência “real” emerge de maneira intermitente ao longo da trama, encontra-se em sua insistência acerca da invariabilidade do desejo real de Bear: antes de inviabilizado por contingências materiais, seu amor via ventriloquismo apenas espelha o que ocorre quando aquelas se dissolvem.
Quando já não mais sobram empecilhos que desvirtuem de nos deparar com nosso reflexo, já não nos encontramos no terreno da tragédia. Com a permissão de Freud, que já em 1916 escrevera sobre sujeitos que “fracassam no triunfo”, o desafio talvez seja aqui confrontar certa realização de que nos aterrorizamos quando as cortinas da tragédia já não mais turvam o que desejamos. Perdoa-me, pois, sei o que desejo seria, portanto, já se encontrar no terror.

Estamos aqui diante de um jogo entre opacidade e transparência, então, entre aquilo de nós que desconhecíamos ou passamos a conhecer em demasia. Na esteira da transparência excessiva que nos insere Barker, não seria equivocado traçar linhas de convergência entre Obsessão com Substância (2024) e Backrooms (2026), para ficar nos exemplos mais recentes e interessantes do gênero, ou mesmo com o tosco Together (2025). Mas curiosamente a referência imediata se dê em Ruby Sparks (2012), comédia-romântica cujo demérito em relação ao recente filme de Barker talvez seja aquiescer para a conciliação em seu final. Todos, a seu modo, exibem certa realização de que o que verdadeiramente nos assombra reside antes em nós.
No caso de Obsessão, que ao seu modo atualiza ao terror, a trama já posta em jogo em Ruby Sparks, vemos a atualização ficcional do desejo tipicamente masculino por posse. Se neste encontramos um protagonista que, desde o isolamento de seu quarto, escreve para si uma “mulher ideal”, em Obsessão vemos um protagonista que carrega os traços de uma geração “excessivamente online”: horas a fio procrastinando sobre a cama, checando as redes sociais de Nikki, se confundem com sessões solitárias de videogame ou reels. O ambiente afetivo através do qual somos inicialmente apresentados a Bear em tudo indicaria certo recurso à problematização da “manosfera” – aqui em sua versão introvertida, mas não menos perigosa, ensejada pela cultura-online incel.
A meu ver, Barker acerta em não insistir por esta rota. Seu protagonista não apresenta aparentes dificuldades para se relacionar ou comunicar com garotas e, para além da timidez acerca de seus sentimentos diante de Nikki, escapa a rotina afetiva tipificada dos incels. Sensível em não ceder à estereotipação facilitada por nossa época atual, o filme antes acerta ao estender a gramática aterrorizante do desejo de Bear para além das culturas online de nicho. Pois o que se ensaia na tela é a maneira como o desejo por propriedade e controle facilmente informam certa maneira culturalmente viciada, e tanto mais geral, com que nós, homens, aprendemos a desejar. Assustador na obsessão de Bear por Nikki seria não exatamente o caráter específico de um desejo patológico, como poderia levar a crer caso Barker tivesse escolhido pela rota da manosfera. Assustador em e para Bear é a maneira como tão facilmente identificamos nossos próprios desejos cotidianos, o quão familiar para a audiência seria a maneira como a posição masculina se moldara desde uma posição essencialmente possessiva.
Pedro Pennycook é doutorando em filosofia na Universidade do Kentucky.


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