Sochi, um elefante branco no Mar Negro? - Le Monde Diplomatique

OS JOGOS OLÍMPICOS MAIS CAROS DA HISTÓRIA

Sochi, um elefante branco no Mar Negro?

por Guillaume Pitron
3 de fevereiro de 2014
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“O mais rápido, o mais alto, o mais forte.” O lema olímpico aplica-se tanto ao desempenho dos esquiadores quanto ao orçamento dos Jogos de Inverno em Sochi. Para Putin, é uma oportunidade de celebrar a identidade nacional, reafirmar o poder do Estado no Cáucaso e confirmar o retorno da Rússia ao jogo das potênciasGuillaume Pitron

Por toda parte, palmeiras. Falsas, num primeiro momento, nos neons verdes fluorescentes em forma de coqueiros inclinados fixados na beira da estrada que liga o aeroporto ao centro de Sochi. Verdadeiros, num segundo instante: preenchendo a orla da cidade balneária, eles formam uma fina cortina vegetal que divide o Mar Negro e os sopés do Cáucaso. “Bem-vindos ao paraíso!”, entusiasma-se Igor Sizov, morador da cidade. “O clima nessas latitudes é um dos mais agradáveis do mundo, similar ao da Côte d’Azur francesa!” Número de dias ensolarados por ano: trezentos. Temperatura média: 14,5 ºC. Pico de calor recorde: 39,4 ºC em julho de 2000. Em novembro, o termômetro ainda marcava 20 ºC. As pessoas passeiam pelo porto tomando sorvete ou se espreguiçam sob o sol nas praias de pedrinhas cinzas.

A pouca distância da fronteira com a Abecásia (república autônoma do norte da Geórgia não reconhecida internacionalmente), Sochi reúne representações de florestas boreais, os combinatos (parques industriais soviéticos) uralianos e as retiradas napoleônicas tradicionalmente associadas à Rússia. Foi dessa forma que, durante a era soviética, essa estação de águas cobiçada pelas classes médias, pela nomenclatura (casta dirigente) comunista e até mesmo por Joseph Stálin foi uma embaixadora do sucesso socialista. “Durante a Guerra Fria, os ocidentais só tinham autorização para viajar a três aglomerações da URSS: Moscou, São Petersburgo e Sochi”, lembra Sizov. Claro, o bloco comunista afundou há 23 anos, mas os símbolos persistem. E, de 7 a 23 de fevereiro de 2014, a “capital do verão da Rússia” ocupará mais uma vez seu papel de vitrine do país durante uma manifestação que seu clima subtropical não a predisporia a prioriem nada para acolher: os XXII Jogos Olímpicos de Inverno.

“Dois terços do território russo estão sob o gelo permanente. Por que organizar esses Jogos nos trópicos?”, questiona, um pouco desamparado, Ivan Nechepurenko, jornalista do Moscow Times. Na verdade, a despeito das aparências, essa cidade constitui de longe, se comparada às regiões desertas do Ural e de Altai, a melhor escolha possível. Sochi tem bom acesso às infraestruturas de transporte da região de Krasnodar, e as pistas de esqui de Krasnaia Poliana, a apenas 50 quilômetros das montanhas do Cáucaso do Norte, têm condições de neve ideais. Trata-se também de uma escolha pessoal do presidente Vladimir Putin, muito afeiçoado à cidade, a ponto de ter investido um capital político considerável para defender a candidatura russa diante do Comitê Olímpico Internacional (COI), entre 2005 e 2007.

Sob supervisão presidencial

A façanha técnica que constitui a organização dos primeiros Jogos Olímpicos da era pós-URSS em um espaço geográfico excepcional, entre o mar e a montanha, revela, segundo Nechepurenko, uma vontade fervorosa de ampliar as fronteiras do possível, uma busca do extraordinário à medida das ambições atuais alimentadas pelo maior país do mundo. Esse orgulho se traduz pelo enfrentamento de diversos desafios geográficos: os obuses russos caíam em 2009 sobre a Geórgia, à qual Sochi pertenceu; e os jihadistas do Cáucaso juraram sabotar a festa. E por um território fora das normas: enquanto os Jogos de Vancouver, em 2010, erigidos sob o signo do desenvolvimento sustentável e de uma minimização das marcas do homem sobre o meio ambiente, custaram “apenas” 1,4 bilhão de euros, os de Sochi se anunciam como os mais caros já organizados. “Os gastos já atingiram US$ 51 bilhões”, salienta a analista política Maria Lipman. “E se tivéssemos acesso a um estudo independente, eles poderiam se revelar até mais altos.”

No final de uma estrada tortuosa frequentada por caminhões pesados, comboios militares e algumas vacas perdidas, a vila olímpica de Krasnaia Poliana (“a clareira vermelha”, em russo) emerge, a 600 metros de altitude, no meio de uma nuvem de poeira. Difícil de acreditar, à vista das gruas e dos caminhões que se ativam diante dos andaimes, que a construção de 19 mil quartos estará pronta em menos de cem dias. Por outro lado, Rosa Khutor, uma das quatro estações de esqui que serão utilizadas pela vila de Krasnaia Poliana, está pronta. Entregue pela holdingInterros, do magnata do níquel Vladimir Potanin, o centro alpino acolherá principalmente as provas de Super-G e de combinado nórdico. Seu diretor executivo, Alexander Belokobylski, recluso em um dos escritórios da cidade ainda fantasma, está “orgulhoso de mostrar ao mundo a mais bela face da Rússia”, a de uma nação capaz de edificar em cinco anos no Cáucaso o equivalente às infraestruturas desenvolvidas em meio século nos Alpes franceses.

As competições de patinação, hóquei e curling serão realizadas, por sua vez, no parque olímpico situado à beira-mar, a menos de 50 quilômetros dali. “Tudo está pronto, estamos dando os últimos retoques”, garante a acompanhante da empresa Olympstroy, empreiteira do canteiro, ao mesmo tempo que dá o detalhamento das características dos seis estádios climatizados, com capacidade total de 70 mil lugares, dispostos em círculo em torno de um anel central. E isso não é tudo: hospedagens, estradas, ferrovias, rede elétrica, esgoto…

Desde a designação de Sochi pelo COI, em julho de 2007, quatrocentas obras foram executadas por mais de trezentas empresas empregando, no máximo de sua atividade, até 75 mil operários recrutados em todas as regiões do país e seus antigos satélites. Os canteiros atrasaram, mas pouco importa: as autoridades anunciaram a contratação de mais 7 mil homens suplementares, vindos do Daguestão e da Chechênia, para honrar a tempo os compromissos da Rússia.

Encabeçando esse projeto: Putin. Em razão do longo tempo em que se encontra no poder no Estado,1 ele poderia se orgulhar de ter ao mesmo tempo presidido a preparação para os Jogos Olímpicos, assistido ao seu desenrolar e colhido os benefícios políticos associados a eles. Ele vigia pessoalmente o progresso dos trabalhos. Perdeu-se a conta das visitas do presidente às obras olímpicas, a ponto de ter passado, nestes últimos meses, mais tempo em sua residência oficial de Bocharov Ruchei, situada na região de Sochi, do que no Kremlin…

Seu método: a reconstituição, em nível local, da “vertical do poder”, quer dizer, a reafirmação da autoridade central do Estado, reduzida a nada depois da queda do comunismo. Na escala dos canteiros, as características de um Estado forte – até mesmo autoritário – estão sempre presentes. As somas gastas vêm antes de mais nada dos recursos petroleiros, fruto da renacionalização da companhia Ioukos, em 2004, e de um controle dos oligarcas – a começar por seu proprietário, Mikhail Khodorkovski, preso em 2004 e agraciado com a liberdade em dezembro passado. A partir de então, sujeitos ao poder político, Potanin e Oleg Deripaska foram obrigados a investir na construção das estações de Rosa Khutor e de Krasnaia Poliana.

Um balneário transformado em selva de pedra

Os responsáveis locais que não entraram nas normas das metas caíram em desgraça, como Akhmed Bilalov, ex-vice-presidente do Comitê Olímpico Russo, demitido em fevereiro de 2013 em razão do atraso na construção da pista de salto para esqui, e hoje refugiado na Alemanha… Quanto às mídias, elas são vigiadas de perto: “Mesmo o terremoto de magnitude 5,6 que aconteceu recentemente a 150 quilômetros de Sochi foi completamente silenciado pela imprensa!”, zomba Alexander Valov, fundador do Blog Sochi, um dos raros veículos de informação independente. “Criticar as Olimpíadas é tabu.”

“Os Jogos já simbolizam a herança de Putin”, confirma Nechepurenko: um casamento entre a firmeza e o centralismo que continua garantindo ao presidente da federação da Rússia uma sólida popularidade junto ao seu eleitorado. No entanto, esse controle só tem como equivalente o caos ocasionado pela modernização forçada de Sochi. Claro, a estação balneária sofria com uma falta cruel de infraestrutura: “As obras nos fizeram muito bem”, alegra-se Sizov, que se recorda das “panes elétricas recorrentes, dos transportes públicos embrionários e do aeroporto construído com placas de madeira compensada”. Mas transfigurar de repente uma cidadezinha tranquila em foco balneário também provoca efeitos colaterais… A notoriedade crescente de Sochi atraiu uma série de especuladores imobiliários, e as dezenas de arranha-céus recentemente elevados têm menos a vocação de alojar os espectadores esperados durante as Olimpíadas do que ser revendidos pelo melhor preço assim que a festa acabar.

Consequência: a praia foi totalmente desfigurada: “A única estação balneária da Rússia ruma ao suicídio”, indigna-se a eleita comunista Ludmila Shestak. E com razão: adotado em 2009 e endossado pelo COI, o novo plano de urbanismo, que proibia em particular a construção de prédios superiores a três andares, nasceu morto. Financeiramente interessados, diz-se, nos lucros dos especuladores, “os vereadores acordaram derrogações sistemáticas aos projetos de arranha-céus de vinte andares ou mais. A tal ponto que, hoje, a exceção se tornou regra”, lamenta a arquiteta Olga Kozinskaya, que, diante da má administração, pediu demissão em 2011 da comissão municipal encarregada de aplicar o plano de urbanismo.

Centenas de construções sem autorização, corrupção endêmica que representaria, segundo o opositor Boris Nemtsov, até 22 bilhões de euros para o total das obras: um clima de anarquia e impunidade tomou conta de Sochi, “metamorfoseada em um átimo numa selva de pedra”, constata Valov. “A Rússia sofre ainda os golpes do caos dos anos 1990, e a desfiguração de Sochi é o melhor símbolo disso”, estima Olga. Para a arquiteta, os Jogos não poderiam nunca ter sido realizados tão prematuramente na história da Rússia pós-comunista: “Vocês estão vendo muito bem que nosso Estado não teve tempo de se reconstruir”.

A esperança de seduzir os estrangeiros

Essa opinião é partilhada por Semen Simonov, responsável local da ONG Memorial. Segundo ele, as condições de trabalho dos operários que não têm nacionalidade russa – ou seja, um terço dos efetivos – ilustram a confusão daquilo que está acontecendo nos canteiros. “Estou quase enviando para o procurador uma lista de 704 empregados que não são pagos desde março de 2013”, declara entre as quatro paredes de seu pequeno escritório vazio. Na sua mira, diversas companhias de construção civil russas e turcas com metodologia duvidosa: “Elas contratam temporários estrangeiros sem lhes fornecer vistos de trabalho, depois ameaçam denunciá-los às autoridades”. Vítimas dessa chantagem, os temporários usbeques, que constituem a maioria dos 16 mil trabalhadores não russos, sofrem a imposição de salários de miséria de cerca de US$ 1 por hora. E para os colegas que ainda reclamam seus salários, os grupos de encarregados quase sempre impedem as reclamações de atingir seu fim. “Claramente, a Olympstroy não quer nem saber o que está ocorrendo nos baixos escalões”, enfurece-se Simonov, para quem esse “caos organizado” responde a uma lógica bem pensada: “Fazer trabalhar o maior número de pessoas, pelo menor preço possível, dentro dos prazos mais apertados”.

Na seção moscovita da Human Rights Watch, desconforto: “Mesmo que sejam muito repreensíveis, esses procedimentos não chegam ao nível dos abusos que denunciamos durante os Jogos de Pequim, em 2008”, diz Yulia Gorbunova, membro da ONG. Da mesma forma, se comparadas aos milhões de famílias deslocadas na capital chinesa, as 2 mil famílias russas realojadas, em condições que Yulia considera globalmente como satisfatórias, ilustram uma preocupação com a imagem por parte das autoridades. Mas, no que diz respeito ao resto, os moradores de Sochi só tiveram o direito de se calar, relegados ao posto de simples figurantes nessa grande comédia do poder. “Há muita mentira, muita passagem à força”, lamenta Vladimir Kimaev, membro da associação Environmental Watch on North Caucasus, ao enumerar as violações sistemáticas das regras ambientais constatadas desde o começo das obras.

Assim que a cerimônia de encerramento tiver acontecido, as considerações econômicas serão impostas com mais força. “O Executivo quer capitalizar sobre as infraestruturas esportivas para fazer de Sochi uma área recreativa sob o flanco sul da Rússia”, garante Andrei Moukhine, diretor-geral do Centro de Informação Política. Com suas pistas de esqui de nível mundial, seu circuito de Fórmula 1 pronto para acolher um primeiro Grande Prêmio em outubro de 2014 e seus parques de diversões, como o Sochi Park, réplica da Disneylândia construída na região dos estádios olímpicos, a capital de verão sonha ser um centro de lazer, podendo seduzir os turistas vindos da Rússia, da Ásia e da Europa.

Recentemente nomeado por Putin, o novo ministro da Construção e dos Serviços Públicos, Mikhail Men, recebeu, inclusive, a missão de conferir viabilidade econômica à zona, pois, até agora, nenhuma estratégia de rentabilidade a longo prazo foi realmente elaborada. “Os 2 milhões de turistas esperados a cada ano não serão suficientes para rentabilizar as infraestruturas”, profetiza Dmitry Bogdanov, gerente de um complexo hoteleiro e homem de negócios influente em Sochi. Acrescente-se a isso as perspectivas econômicas decepcionantes do país, nada propícias para o aumento do poder de compra das classes médias. Encurralada entre uma demanda local que não é rica o bastante para passar férias no Mar Negro e turistas estrangeiros suficientemente ricos para preferir as praias turcas ou francesas, Sochi, símbolo da potência russa, pode se revelar um beco sem saída econômico.

 

Guillaume Pitron é jornalista.



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