Crise militar: o sono da razão produz monstros - Le Monde DIplomatique

Crise militar?

O sono da razão produz monstros

por Liszt Vieira
27 de maio de 2021
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Nesse contexto de ameaças à democracia e às instituições, Bolsonaro deu um passo adiante utilizando o general Eduardo Pazuello que, sem máscara, na manifestação do último dia 23, no Rio de Janeiro, fez um discurso político rompendo abertamente com as regras do Regulamento Disciplinar do Exército. A punição, se rigorosa, transmite o recado de que o Exército pertence ao Brasil e não a Bolsonaro. Se branda, abre caminho para outras insubordinações no futuro.

O pintor espanhol Goya (1746-1828) é o autor do quadro (abaixo) e da frase que origina o título deste artigo. Lembro-me dela quando penso na eleição de 2018 que levou ao poder o “monstro” Bolsonaro que agora provoca grave crise militar.

A elite dita liberal votou com o bolso, não com a razão. Um liberal autêntico rejeitaria um candidato ignorante, autoritário, que usa fake news como ferramenta política e que defende tortura, armas para todos, guerra civil, ditadura militar, além de discriminar mulher, negro, gay e índio. Mas no Brasil, e na América Latina, os chamados liberais costumam apoiar ditaduras.

A classe média tampouco votou com a razão, votou iludida “contra a corrupção”. Votou com o preconceito, receando que os pobres melhorassem de vida e se aproximassem, enquanto ela continua longe dos ricos que concentram renda em suas mãos. E o povão votou com a ignorância e a ilusão de que Bolsonaro era contra o “sistema”, contra “tudo isso que está aí”. Como sempre, são os mais prejudicados pelo neoliberalismo.

Quanto ao núcleo duro do bolsonarismo, ele se move pela crença, que é impermeável à razão como um fanatismo religioso. Pelas últimas pesquisas de opinião, porém, tudo indica que a base de apoio de Bolsonaro está se enfraquecendo. Ele perderia a eleição no segundo turno para Lula. Talvez tenha até dificuldade de chegar ao segundo turno, a continuar essa trajetória declinante.

Enquanto isso, Bolsonaro avança em seu projeto de criar condições para uma guerra civil, implantar o caos e uma ditadura militar para restabelecer a ordem. Já é visível a politização da Polícia Militar em alguns estados. O mais grave, porém, é sua tentativa de politizar o Exército, romper suas regras básicas de hierarquia e disciplina buscando conquistar seu apoio direto ou indireto para o golpe que planeja em caso de derrota eleitoral.

Ressuscitando a estética fascista de Mussolini, que liderou na Itália uma manifestação de motos, Bolsonaro tripudiou dos mais de 450 mil mortos pela Covid-19 para dar uma demonstração de força com a proteção da Polícia do Rio de Janeiro. Seu objetivo é conquistar o apoio policial e militar para seu sonho de golpe. Para isso, não será necessário que os tanques saiam dos quartéis. Basta não saírem dos quartéis quando o golpe for dado com o apoio direto das polícias e das milícias. Já vimos esse filme na Bolívia.

Diante dessa ameaça à democracia, as instituições funcionam mal, com ação retardada. Quanto às Forças Armadas, até agora estão apoiando o desgoverno de um presidente insano que só faz campanha e se recusa a governar, mas nomeou mais de 6 mil militares para postos chaves, configurando um governo militar e arrastando a imagem das Forças Armadas ladeira abaixo.

Além disso, apoia medidas para enfraquecer os órgãos militares de segurança criando, com a liderança do filho 02, uma Agência Brasileira de Inteligência (Abin) “paralela”, com participação de parte da Polícia Federal, como se viu na licitação para adquirir a tecnologia israelense Pegasus destinado a grampear mensagens telefônicas. A Abin e o Gabinete de Segurança Institucional estariam fora das licitações.

Presidente Jair Bolsonaro participa da formatura de militares no Rio de Janeiro
Presidente Jair Bolsonaro participa da formatura de militares no Rio de Janeiro. (Crédito Fernando Frazão/Agência Brasil)

Nesse contexto de ameaças à democracia e às instituições, Bolsonaro deu um passo adiante utilizando o general Eduardo Pazuello que, sem máscara, na manifestação do último dia 23, no Rio de Janeiro, fez um discurso político rompendo abertamente com as regras do Regulamento Disciplinar do Exército. A punição, se rigorosa, transmite o recado de que o Exército pertence ao Brasil e não a Bolsonaro. Se branda, abre caminho para outras insubordinações no futuro.

Além de destruir a educação, saúde, cultura, meio ambiente, soberania nacional, de negar a pandemia e sabotar a vacina, o presidente, chamado de genocida, começa a destruir os princípios do próprio Exército do qual foi um dia afastado por sua então proposta de colocar bomba em quartel para reivindicar aumento salarial dos militares.

O “mau soldado”, como foi chamado pelo ex-presidente Geisel, quer dividir o Exército. Dividir para reinar.

Como pensam os militares
Edição de março de 2019 sobre os militares e o governo Bolsonaro


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