O LADO SOMBRIO DOS STREAMINGS DE MÚSICA

Como os robôs roubam milhões dos seus artistas favoritos

Em um cenário onde a remuneração por play já é mínima e álbuns em mídia física não representam mais uma arrecadação relevante, cada centavo desviado faz uma enorme diferença

Você ama música. Assina seus serviços de streaming favoritos, monta playlists com carinho e paciência, descobre novas bandas e valoriza cada nova pérola escondida. Ao pagar sua mensalidade, acredita que parte desse dinheiro está chegando aos bolsos dos seus ídolos. Mas e se eu te disser que, enquanto você curte seu som, um exército invisível de robôs está desviando milhões de reais que deveriam remunerar artistas legítimos? 

Bem-vindo ao submundo do streaming musical, onde a fraude por “plays” se tornou uma sombra sorrateira que corrói a indústria, roubando dos criadores e distorcendo a verdadeira popularidade das canções. 

A grande ilusão dos “Plays 

Para entender essa fraude é preciso antes desmistificar como o dinheiro realmente funciona no streaming. Ao contrário do que a maioria pensa, sua assinatura mensal não vai diretamente para as músicas que você ouve. Em vez disso, o valor de todas as assinaturas (e receitas de anúncios) formam uma espécie de “bolo” gigante. No final do mês, esse bolo é fatiado e distribuído entre os artistas e detentores de direitos (gravadoras, distribuidoras etc.) proporcionalmente ao número de vezes que suas músicas foram tocadas na plataforma. 

É aí que a fraude começa. Imagine que, se alguém conseguisse aumentar artificialmente os “plays” de uma música, mesmo que ninguém a estivesse ouvindo de verdade, o artista em questão receberia uma fatia maior desse bolo. E é exatamente isso que acontece. 

Criminosos, que atuam em redes sofisticadas, utilizam “fazendas de cliques” ou “bots” – softwares programados para simular milhares de ouvintes únicos, tocando músicas repetidamente, 24 horas por dia. Esses robôs não estão curtindo a melodia, mas inflacionando as estatísticas para roubar uma parte maior dos royalties. 

Quem perde com essa prática covarde? 

A resposta mais óbvia é: os artistas legítimos. O dinheiro que os bots desviam são valores que fariam diferença na vida de compositores, músicos independentes e até mesmo de grandes nomes que dependem dos royalties para se sustentar e produzir novas obras.  

Em um cenário onde a remuneração por play já é mínima e álbuns em mídia física não representam mais uma arrecadação relevante, cada centavo desviado faz uma enorme diferença. 

Crédito: Pixabay

Mas a fraude não afeta apenas os músicos. Ela prejudica as próprias plataformas de streaming, que perdem credibilidade e precisam investir pesado em tecnologia para combater esses ataques, os próprios fãs que têm suas preferências distorcidas, sem saber que parte de sua mensalidade está financiando operações ilegais e a própria indústria musical, que se torna menos transparente e mais suscetível a manipulações, minando a confiança de toda a cadeia produtiva. 

Vai dizer que você nunca estranhou uma sugestão completamente descabida ou a inclusão de uma música suspeita feita pelo algoritmo nas suas playlists aleatórias e completamente alheia às suas preferências musicais? Clara manipulação. 

Batalha tecnológica 

As grandes plataformas de streaming não estão paradas. Elas investem milhões em tecnologia, algoritmos e inteligência artificial para detectar padrões anormais de escuta. Uma batalha tecnológica sem fim. 

Sistemas avançados conseguem identificar se um mesmo IP (identificador de dispositivos) está tocando uma música repetidamente, se as contas são “fantasmas” ou se o comportamento de escuta não condiz com um usuário real. 

Uma vez detectadas, essas reproduções falsas são descontadas dos cálculos de royalties e, em casos mais graves, as músicas ou contas envolvidas podem ser removidas ou banidas.  

Há casos em que artistas, sem conhecimento, contratam “promotores” que utilizam essas táticas fraudulentas e acabam tendo suas carreiras manchadas ou até mesmo seus contratos rescindidos. 

 

O papel do consumidor consciente 

Como consumidor, você não tem acesso aos mecanismos de detecção de fraude, mas sua conscientização é vital. Ao entender como o sistema funciona, você deve valorizar ainda mais o trabalho dos artistas legítimos e a importância de um ambiente digital justo. 

O streaming revolucionou nossa forma de consumir música, mas para que ele continue sendo uma força transformadora e justa, é fundamental que, tanto a indústria quanto os ouvintes, conheçam esse lado sombrio e pouco comentado. 

Caso contrário, quem vai estar ditando qual é a “batida perfeita” sequer será um ser humano.  

 

Tanderson Danilo Schmitt Morales é Presidente da Comissão de Direitos Autorais da OAB/SP – sub.181. Especialista em Propriedade Intelectual e coordenador Jurídico na Câmara Brasileira do Livro. 

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