Suas lembranças são nosso futuro - Le Monde Diplomatique

FICÇÃO CIENTÍFICA - DOSSIÊ ESPECIAL CONSPIRAÇÕES

Suas lembranças são nosso futuro

por Alain Damasio
8 de junho de 2015
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“Uma sentinela memorial é apenas uma superfície de inscrição. Ela não deve interpretar nada. Não olhar: apenas ver. Não escutar: apenas ouvir. Não sentir nada: apenas receber. Um sentimento é um disco de córtex sobre o qual o laser do real vem gravar suas precisões.” Eu gosto da poesia bizarra de Argus, meu mentor.Alain Damasio

Sede da DigData – Burj Khalifa de Dubai – 110º andar > Memorização de Ava Shaheen

– Nós trabalhamos em três escalas de intervenção: o indivíduo, o grupo-alvo e o território, com uma possibilidade de extensão para a nação se pudermos dispor de um monopólio relativamente sério das redes de distribuição…

– Nossa distribuição de água potável é nacionalizada…

– Então poderemos fazer as coisas direito…

11h01 já. Repetir para fixar. Anfiteatro seguro. Janelas espelhadas dando para a vertigem, abrindo para o deserto de terra. É o teste de fogo para mim. Minha primeira sessão seamless de memorização exaustiva. Um oficial israelense com o rosto viril e gelado me perguntou pela terceira vez as mesmas dezoito questões. Ele continua: o íntimo, o pessoal, o profissional, um pequeno placebo para me fazer relaxar e a provocação em seguida. Ele acha que está me desestabilizando. Ele só é técnico e bobo.

– Você pode se apresentar livremente?

– Me chamo Ava Shaheen. Tenho 24 anos. Me formei major na minha turma na EMA, a Elite Mnemônica da Administração, na França, em junho de 2019. Acabo de conseguir o status de sentinela memorial.

– Você é muito bonita…

– Como o protocolo de alta segurança proíbe qualquer tipo de aparelho eletrônico na sala, meu papel consiste em memorizar o mais exaustivamente possível o encontro que vai começar. Por requisição expressa, eu aceitarei qualquer exame de sangue que for necessário para ler a memória das minhas células, extrair as moléculas de água pertinentes e contraverificar minha restituição oral.

– Você é sufista, não é?

– Já respondi quatro vezes a essa pergunta. Posso cuspir uma gotinha de saliva para que você possa sequenciar minha resposta? Mais vale usar a minha saliva…

São 11h06. Sala oval > Grades em arco em doze fileiras > cortadas ao meio por uma escada de madeira escura > teca. Fixe, Ava. Delegação > 34 pessoas > divididas em quatro fileiras > 14/10/6/4. O primeiro-ministro está atrás < fileira 6, entre Yanev e Divlin. Os cientistas estão na primeira fileira; o governo, na segunda; os serviços secretos do Shabak, na terceira. Meu virilista me olha, logo que seus n+1, n+2, n+3 e n+4 confabulam. Foco. Cinco escalas hierárquicas em cinco pessoas, eles têm força. Na cena, Zelinger mostra o slide 8 > já visto>sabido>fixado. 11h12. Suspiro.

“Uma sentinela memorial é apenas uma superfície de inscrição. Ela não deve interpretar nada. Não olhar: apenas ver. Não escutar: apenas ouvir. Não sentir nada: apenas receber. Um sentimento é um disco de córtex sobre o qual o laser do real vem gravar suas precisões.” Eu gosto da poesia bizarra de Argus, meu mentor. Ontem, ele me disse: “Ava, eu a escolhi porque você é a hipermnésica mais brilhante que já formei. Seu poder de restituição é de uma precisão fora do comum, com taxas de fidelidade aos discursos superiores a 99%. Mas você tem um defeito péssimo para aqueles em que se injetam memórias: você não consegue eliminar a subjetividade. Quando eu ingiro uma reunião secreta em relife, quero apenas poder restituir ao cliente o que se disse, não reviver duas horas de reflexão e emoções – por mais interessantes que sejam. Você é interessante, Ava. Mas de você eu quero apenas palavras exatas. Uma retina que imprime. Fatos. Por favor, evite me poluir com suas sensações!”.

Zelinger fala de pé, parado à direita, sobre um tapete persa suntuoso > desenho mental. Nem nota nem púlpito. Terno cinza-claro muito elegante > gravata sangue. Ele espera as questões. Ele se aproxima para provocá-las. Atrás dele, slide 11 na tela gigante. Ele representa o esquema de codificação/descodificação da água-memória, já fixado nas restituições de Argus dos dias 2, 8, 19, 27 e 28 de março em Damasco, Abu Dhabi, Teerã, Moscou e Kiev. Permanecer compacto.

Reuven Weizman – do Shabak – levanta a mão:

– Você evocou a possibilidade de injetar na rede de água potável fragmentos de memória traumática, com dose maior ou menor, que vão depois ser ingeridos por, digamos, o público-alvo e alterar sua percepção do passado, modificando, por exemplo, memórias políticas. Muito bem. Mas como você evita que esse público não “verifique” a informação alterada? Na internet, por exemplo?

– Em alta diluição, a memoripulação permanece indetectável pela consciência; ela se deposita na memória dos acontecimentos. Ela funciona como uma lembrança íntima, “própria” do recebedor, que é incapaz de sentir sua origem porque o cérebro nunca vai buscar uma reminiscência: ele a recria, ele a reativa por meio de sua rede de neurônios.

– Você está se esquivando… eu falo de provas na internet.

– “Provas na internet”? (Ele sorri abertamente.) Escute… O digital é nosso DNA. Desde a compra dos servidores do Google e do Facebook, a DigData detém 96% dos datacenters operando no planeta. Nesse nível de monopólio, temos a capacidade de reescrever em nossas nuvens a história das empresas, dos governos, dos povos, dos partidos… Produzimos a verdade a pedido de nossos clientes. É o principal foco de nosso trabalho hoje em dia. Nosso Departamento de Conformidade Cognitiva “refresca” em permanência os conteúdos públicos necessários – entrevistas, textos, fotos, vídeos etc., para deixá-los coerentes. Com o tudo-digital, logo não será mais possível contradizer uma verdade recalibrada em nossos bancos de dados, por falta de vestígio que se oponha. E a manipulação pela água-memória oferece um complemento magnífico, já que é orgânico, a essas potencialidades já poderosas do digital.

Cochichos excitados iluminaram os rostos secos do Shabak. O primeiro-ministro interrompeu seus comentários. Ele voltou com total atenção.

– “Suas lembranças são nosso futuro”, como gostamos de dizer na DigData…

Zelinger fez um breve sinal a Clarisse para desligar a tela atrás dele. A atmosfera, mais escura, mais centrada na figura de Zelinger, se tornou propícia a um efeito de clímax.

– Tomemos um exemplo simples. Imaginemos que vocês desejam reforçar sua unidade nacional. Todos os departamentos de PsyPop do mundo dirão: o vetor mais poderoso para consolidar o pertencimento comunitário ainda é o medo. Córtex pré-histórico. Resposta reflexa. O medo do que não pertence à sua comunidade. O medo dos “que não são como nós”. Na DigData, nós sabemos ativar esse medo de duas maneiras. Existe a técnica do choque traumático maior, que é um one-shot e pede uma boa coordenação entre o digital e o aquático. E há a técnica chamada PTI, “Pequenos Terrores Interativos”, que funciona por fatos cotidianos sucessivos – agressões, estupros, pequenos atentados, assassinatos –, todos convergindo para uma comunidade a ser estigmatizada, a fim de ultrapassar um limite de ansiedade suficientemente maciço para ativar o reflexo nacional. É quase uma técnica de envenenamento memorial, com dose leve, mas regular, que produz excelentes resultados a longo prazo e se revela frequentemente menos arriscada que o choque traumático maior.

– Eu me pergunto sobre os aspectos pragmáticos. Muitos de nossos concidadãos bebem água de torneira, mas não todos. Como vocês completam a indução para os outros?

– Está claro que, na escala ambiciosa – e eu saúdo essa ambição – na qual vocês querem proceder, é necessário poder intervir no mercado das bebidas: água engarrafada e refrigerantes prioritariamente, mas também vinho, cerveja, destilados etc., segundo seus hábitos de consumo. Eu estava em Washington no mês passado, e vocês podem imaginar que não se pode fazer nada efetivo para nós, norte-americanos, sem tocar na Coca-Cola!

Risadas generosas ecoaram em Abitbol e Straussman. Zelinger está animado. Sua testa brilha ligeiramente < suor suave que reluz. A porta central que se abre para fazer entrar o catering deixa no ar um silêncio de uns vinte segundos. 11h30. Pausa-refeição/coquetel. Seis mesas rolantes > toalhas azuis. Três funcionários que entram<>saem sob inspeção [revista dos corpos] dos vigias. Porta trancada>Retomada.

Um japonês da equipe científica, identificado como Ced Shibuya, pega o microfone:

– Vocês têm exemplos de infiltração de grupos religiosos?

– Já trabalhamos muito na sauna, no hamam, com o vapor de água. É um vetor de infusão muito eficiente à exposição repetitiva…

Silêncio repentino. O primeiro-ministro pede a palavra.

– Senhor Zelinger, a pista para a qual gostaríamos de solicitá-lo, se a auditoria de nossos serviços científicos validar seus protocolos, é a inseminação de ideias de conspiração. Sem entrar no detalhe de nossa estratégia de comunicação, constatamos que o reflexo conspiracionista contra nós é muito desenvolvido – e nos prejudica muito. Tudo o que vem de nós é suspeito de manipulação. Pagamos o preço de nossa potência e assumimos isso. Mas gostaríamos de enfraquecer essa imagem, nos “fragilizar” aos olhos do mundo, deixando germinar a suspeita de que até mesmo Israel é manipulado, sendo ele mesmo a presa de um complô que o engole.

– Vocês gostariam de retomar esse status tão precioso, por ser tão empático, de vítima?

Zelinger foi ousado. A sala ficou tensa. Oito pessoas pediram garrafas de água; quatro, um café; duas, um chá preto; e seis, um suco de laranja. Eu olhei fixamente quem bebia o quê. Os agentes do Shabak não pediram nada. Ainda. Zelinger continuou. Sereno.

– Temos uma célula especializada no storytelling conspiracionista. Roteiristas, diretores de cinema, escritores, contadores, antropólogos e mitólogos. Mais os psicólogos. As teorias da conspiração obedecem a uma necessidade de segurança, sabe. Num terreno paranoico como a sociedade israelense, é uma excelente escolha. Nós trabalhamos por gerações sucessivas de informações parciais e espalhadas, vindas de fontes consideradas fiáveis, mas ocultas, favorecendo os efeitos de viralidade. Dobrando as lembranças codificadas nas redes físicas, pela água, e as “provas” deixadas nas redes digitais, nossos mitólogos fabricam MEM – Memórias com Efeitos Miméticos, que se tornam rapidamente muito compartilhadas. Em seguida deixamos isso se infiltrar por algumas semanas, a fim de ver em que sentido se constrói a narrativa imaginária, e acompanhamos. Essa técnica evita os riscos de rejeição, já que se apoia na espera do público e em suas próprias pulsões narrativas. A conspiração é um magnífico produtor de histórias romanescas, muito próxima do thriller em sua sede de revelação progressiva. Depois da incubação, nossa célula dá continuidade ao processo, canalizando a conduta da narrativa, pulverizando aqui e ali indícios, suscitando reviravoltas, plot points, clímax, pistas falsas etc.

– Vocês encenam o imaginário das pessoas…

– Na verdade, mais roteirizamos, mas com base no que emerge espontaneamente da rede. Uma teoria da conspiração não se força. Ela se namora.

– Vocês se baseiam em psicólogos?

– Digamos que nós exploramos a fundo a psicologia conspiracionista, sim. Por exemplo, a ilusão das séries: perceber erroneamente coincidências nos dados ao acaso; a dissonância negada: reinterpretar e eliminar os fatos em contradição com a teoria; o efeito foco, que amplia a dimensão dos fatos em acordo com a teoria, esse tipo de coisa. Ou ainda a crença de que o mal é sempre imputável a alguém, o ângulo da intencionalidade, os englobamentos assimiladores…

– O que vocês nos proporiam para justificar como uma contraconspiração nossa política de colonização dos territórios palestinos?

Sala de injeção – 88º andar – Fragmento de memória de Argus Luhmann

– E então, Argus? A transcrição de Ava é fiel?

– Um pouco poluída no começo, mas muito fiel semanticamente. Apague todo o final da reunião. É evidente que ela pressentiu a manipulação de Zelinger pelas bebidas distribuídas no coquetel. Ava deve conservar certa virgindade política. Ela é jovem. Não vamos estragá-la com um cinismo precoce demais…

Unidade de sequenciamento memorial – 72º andar – Pirataria smartphone

– Nós cortamos e ressequencializamos uma hora de reunião para injetá-la nos roteiristas sem as passagens confidenciais.

– E sem a saída horrível do Shabak sobre a “desratização” de Gaza. Os artistas precisam amar um mínimo os clientes para trabalhar bem…

Conselho de administração – 54º andar – Captor sônico de teto

– O uísque é a solução mais limpa para Zelinger. Ele mantém seu Macallan num cofre, e nós temos a senha. Basta colocar traços de datação para interferir em suas memórias da reunião. Israel é um cliente ultrassensível para os catarenses. Não podemos correr o risco de um roubo de saliva ou urina de Zelinger; a cadeia dos fluidos corporais não é segura aqui. Mais vale modificar as memórias na fonte. Assim como para Argus e Ava.

Célula de Roteirização – 36º andar – Relógio conectado

– O que o Shabak escolheu, afinal?

– A chefia de Israel infiltrada pelos russos, o roteiro de Sarah.

– Nada a ver…

– Nem tanto. Os russos são 18% do país, colonos ativos, Putin e o império, o FSB, sua relação ambígua com os palestinos, faz sentido. Do lado de Gaza, saturamos as caixas-d’água com lembranças calorosas dos colonos russos, ajuda mútua, amizade. Do lado de Israel, passamos pelos refrigerantes: estupro de uma jovem judia por um moscovita e fornecimento de armas aos palestinos em uma colônia russa. O território é pequeno, isso deveria ser eficiente. Também vendemos o pacote digital com imagens de drones piratas, Knesset leaks etc. Enfim, insidioso, perturbador, “até Israel está contaminado”, do que alimentar o filtro. Muito caro, mas eu gosto, é coerente. É isso que é o bom deles.

– Como eles aceitaram pagar tão caro?

– No dia da apresentação, o café estava acrescido de uma lembrança de negociação de contrato com o Hamas. O primeiro-ministro “teve um pressentimento” de que já tínhamos feito roteiros para eles. Então investiu pesado.

– Mas, para os palestinos, o que a gente tinha vendido?

– Norbert! Você não! O que você bebeu no seminário?

– Cerveja. Era a Coca que tinha sido carregada, não?

– A gente inverteu no último minuto, porque a Clarisse toma Coca…

– Então não houve venda para os palestinos?

– Você está brincando? Eles não têm meios para pagar uma PsyPop dessa envergadura! Eles nem sequer possuem um datacenter próprio! Já imaginou a miséria?

– Nosso trabalho é uma bela putaria, não?

– O seu trabalho é uma putaria. Eu me contento em contar histórias.

Alain Damasio é escritor. Esta novela se inscreve em Fusion, o universo transmídia que ele desenvolveu com Kostadin Yanev, Catherine Dufour e Norbert Merjagnan sob a égide da Shibuya Productions.



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