Sucessão dinástica em Pyongyang, promessas em Pequim - Le Monde Diplomatique

COREIA DO NORTE

Sucessão dinástica em Pyongyang, promessas em Pequim

por Claude Dureste
9 de novembro de 2010
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Na Coreia do Norte, Kim Jong-il apresentou recentemente seu filho Kim Jong-un como seu sucessor e tem investido no estreitamento de seus laços com China. Um corredor rodoviário e ferroviário ao longo da fronteira sino-coreana está prestes a entrar em funcionamentoClaude Dureste

A impressionante parada militar organizada em Pyongyang no dia 10 de outubro de 2010 para celebrar o 65º aniversário do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte foi o momento de oficializar, junto à população norte-coreana e à opinião estrangeira, Kim Jong-un, filho de Kim Jong-il, como sucessor deste à frente do partido único que dirige o país desde 1945.

A data dessa sucessão não foi anunciada. Mas tudo indica que o assunto deverá ser acertado rapidamente, considerando-se o mau estado de saúde do atual dirigente – ele próprio digno sucessor de seu pai, Kim Il-sung, fundador da República Popular da Coreia e da dinastia dos Kim, cujos membros vêm passando o poder de pai para filho há três gerações. Fato único em um regime que ainda se diz comunista.

As cerimônias norte-coreanas também puseram em foco o dirigente chinês Zhou Yongkang, membro do Comitê Permanente do Partido Comunista Chinês, no qual ocupa o nono patamar na ordem hierárquica. Responsável pelas questões de segurança e pelo serviço secreto chinês, ele tem um papel importante nas situações sensíveis, como recentemente no Xinjiang. Único representante de um país estrangeiro convidado, ele foi muito simbolicamente posto ao lado de Kim Jong-il. Isso bastaria para reafirmar os estreitos laços que continuam a unir esses dois países vizinhos, não só geográfica, mas também histórica e politicamente. Mais significativa ainda foi a duração da visita oficial: três dias, ao longo dos quais Zhou Yongkang encontrou Kim Jong-il quatro vezes. Uma frequência excepcional.

A isso é necessário acrescentar que, com o objetivo de “preparar o terreno” para sua sucessão e as eventuais mudanças, ainda imprevisíveis, que possam daí advir, o líder da Coreia do Norte fez duas visitas sucessivas à China nos quatro últimos meses. Uma delas foi para Changchun, na província do Jilin, no coração da região noroeste da China – ali, o líder norte-coreano teve um longo encontro com o secretário geral do Partido Comunista Chinês e presidente da República Hu Jintao. Sabe-se que este o encorajou a iniciar reformas internas, em parte à imagem daquelas realizadas na China, para levantar a economia; ele também incentivou a progressiva abertura das fronteiras do país, a fim de facilitar o comércio com seus vizinhos (China, Rússia e Mongólia) – sem excluir a Coreia do Sul, com a qual Pyongyang só mantém até agora relações marítimas.

Um corredor ao mesmo tempo rodoviário e ferroviário ao longo dos cerca de 500 quilômetros de fronteira sino-coreana entre Dandong e Ji’an está prestes a entrar em funcionamento, assim que uma nova política permitir, para estimular as trocas e escoar principalmente os bens do sul e as matérias-primas do norte, das quais os dois lados da Coreia têm igual necessidade para seu desenvolvimento econômico.

Segundo fontes chinesas bem informadas que acompanharam de perto a visita do dirigente norte-coreano, nesse verão, ao noroeste da China, Kim Jong-il teria dado a garantia de que seu filho conduziria essas mudanças assim que consolidada a transição.

Claude Dureste é sinólogo em Pequim.



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