Um lamento por quem não chorou a Marielle
Sinto por quem não sentiu e por quem não entendeu a dor com a morte de Marielle. Estão sofrendo menos, mas deixaram de conhecer muito

Sinto por quem não sentiu e por quem não entendeu a dor com a morte de Marielle. Estão sofrendo menos, mas deixaram de conhecer muito
É que Marielle Franco reunia em si uma espécie de corte transversal nas questões mais prementes de nossa sociedade, uma espécie de caleidoscópio com todas as cores dos problemas que nos afligem. Tirando-se a questão dos povos indígenas, estava tudo lá, impresso em seu corpo, em sua vida e em sua atuação: mulher negra, pobre, mãe solteira, lésbica, militante dos direitos humanos e, para levar ao auge o ódio que inspirava em setores da sociedade, muito bem-sucedida naquilo que fazia.
A força numérica e simbólica dos protestos fez lembrar as grandes mobilizações de 2013 e 2015/2016. Mas, neste 15 de março o que estava em jogo era algo de natureza completamente distinta. Essa foi a primeira vez que a Nação reivindicou de forma massiva um corpo negro
Marielle Franco ajudou o Le Monde Diplomatique Brasil no momento em que mais precisamos. Em dezembro de 2017 gravou depoimento em apoio à nossa campanha de financiamento coletivo. Em janeiro de 2018, seu artigo compôs a cobertura da capa sobre a revolução feminista. No texto, ela dizia: “nós aprendemos umas com as outras, estamos buscando formas de fazer política que não sejam mera reprodução do que sempre foi feito”. Sua solidariedade jamais será esquecida. Seu exemplo será seguido. O novo sempre vem. Expressamos também nossos sentimentos aos familiares, amigos e amigas de Anderson Pedro Gomes.