O dia que nunca pensamos que chegaria
A um mês do julgamento no STF do caso Marielle e Anderson, Brasil encara a possibilidade histórica de romper um ciclo de impunidade

A um mês do julgamento no STF do caso Marielle e Anderson, Brasil encara a possibilidade histórica de romper um ciclo de impunidade
É possível dizermos que somos uma democracia quando uma mulher negra legitimamente eleita é executada e não temos, até hoje, a resolução final desse crime?
O assassinato de Marielle Franco expôs a fusão entre crime organizado e política no Brasil. Entenda neste terceiro e último artigo da série Rio em rota de colisão como as milícias se tornaram parte do Estado e o impacto desse avanço para a democracia
Quase cem políticos fluminenses foram assassinados entre 1988 e 2022. Um olhar atento a esses casos revela um padrão inquietante de violência política letal e de conluio com polícias militares e outras patentes do Exército brasileiro
Seis anos depois, revivemos um luto com a prisão dos possíveis mandantes. Agora, a luta segue por justiça para o estado do Rio
Naquele auditório, repleto de defensoras, não ficamos teorizando sobre conceitos ou tratados, importantes para garantir marcos legais, mas falamos de nossos mortos e da urgência de seguir mesmo quando nossa vida está constantemente ameaçada
A mesma perspectiva que embasou o colonialismo – de estupros, assassinatos, destruição da natureza, roubos e apagamento de memórias – perdura até hoje. Essa perspectiva corrobora a repetição de um modo de vida e produção que a médio e longo prazos não significam outra coisa senão a morte – e coletiva. É o esgotamento como premissa
A eleição deste ano será a primeira com a legislação de combate à violência política de gênero em vigor. Em 2018, mais da metade das eleitas afirmou ter sofrido algum episódio de assédio ou violência no espaço político, segundo relatório “Perfil das Prefeitas do Brasil”.
Neste 14 de março completamos quatro anos sem a presença física de Marielle. Mas ela segue presente nos atos políticos, quando seu nome é evocado. Mais do que retórica, este grito traz a imagem e a presença do símbolo que Marielle se tornou. Confira entrevista com Anielle Franco, diretora do instituto que leva o nome da sua irmã
A ferramenta da interseccionalidade nos possibilita desvelar a marca que sela os corpos e subjetividades considerados transgressores na realidade brasileira e que permeia Marielle Franco e tantas outras vidas
No Brasil pequeno e mesquinho da casa-grande, todos são iguais perante a lei, mas uns são mais iguais do que outros. E num país racista como o nosso, esses outros, com os quais se rompe eticamente e os quais não se reconhece como iguais em humanidade, são mulheres e homens negros das periferias e favelas. É sobre eles que a barbárie é dirigida e legitimada
No Brasil, a estrutura social e de poder está profundamente marcada pelo colonialismo, pelo escravismo e pela segregação. Não é preciso que o assassino de uma parlamentar negra deixe um bilhete escrito expressamente “made by a racist”, para que se justifique falar de racismo como parte integrante da motivação