ENTREVISTA

Tarso de Melo reapresenta a poesia para novos e velhos leitores em “Música do mundo”

Em entrevista, o poeta defende a importância dos poemas num mundo de desatenção e diz que poesia e inteligência artificial são opostos.

Poesia é difícil. Talvez essa seja uma das poucas lições que você lembre de suas aulas de literatura no colégio. É uma literatura distinta, críptica e hermética, e os poetas são seres humanos de outra categoria, avessos ao funcionamento normal do mundo, mitologizados como heróis ou denunciados como vagabundos.

Mas e se a poesia não for tão difícil assim? Ou melhor: e se a dificuldade for parte da diversão, e não um desafio a ser superado, uma pergunta de vestibular a ser decifrada? O poeta e editor do selo Círculo de Poemas Tarso de Melo parte desses preconceitos e pressupostos para reapresentar a poesia para novos e velhos leitores em seu ensaio Música do mundo: introduções à poesia, lançamento da Fósforo.

Foto: Divulgação

O livro não se propõe a definir o que é poesia, mas escolhe um caminho maximalista: quanto mais expressões poéticas, melhor. “O poema se escreve com tudo o que for preciso”, escreve Tarso na introdução. Logo depois, em resposta à pergunta “o que é poesia?”, ele retruca que “cada poema, ao ser criado, dá uma nova resposta para essa imensa pergunta”.

A intenção não é categorizar, dividir ou explicar, mas sim abrir as portas para que mais pessoas possam se encantar com uma literatura que é feita em parceria entre poeta e leitor, que também cria o sentido daquilo que está lendo. Poemas não são equações com resultados únicos. Por isso mesmo, podem ser tantas coisas diferentes: canções ou textos escritos, sonetos com rigor formal ou versos livres (que, mesmo livres, ainda requerem muito rigor artístico).

Tratando da história da poesia, do sentido de fazer poemas ou das características formais e rítmicas de um texto poético – sempre com belos exemplos que vão de clássicos brasileiros, como João Cabral de Melo Neto, Gonçalves Dias e Ana Cristina Cesar, até grandes poetas estrangeiros, como Rimbaud e Robert Frost –, o autor empolga o leitor com a possibilidade de descoberta que a poesia abre. Nessa abertura para a novidade, o ensaio acaba tendo um pouco de poema, também.

Tarso defende que é um momento propício para sair em defesa da poesia: enquanto os celulares são máquinas de “distração em massa” que funcionam de acordo com uma “economia da desatenção”, os poemas representam uma distração superior, “uma espécie de salvação que me repõe em contemplação de algo e, no fim das contas, de mim mesmo”.

Música do mundo (Fósforo) vai ser lançado em São Paulo na sexta-feira, 29/06, numa conversa com a comunicadora e radialista Roberta Martinelli na recém-inaugurada Livraria Espelho, em Higienópolis.

Confira a conversa com Tarso de Melo sobre o que é e o que não é poesia, qual o sentido de ler poemas quanto temos tantos vídeos pra assistir no Instagram e no TikTok e se robôs podem ser poetas.

Tarso, você começa o livro mostrando que existem diversas definições possíveis para poesia, muitas vezes contraditórias entre si. Você cita o poeta mexicano Octavio Paz, que escreve que a poesia é tanto uma forma de revelar esse mundo como uma maneira de criar outro, um convite para viagem e um regresso à terra natal. Se tudo isso é poesia, e se a poesia pode ser encontrada na música, na canção popular, no rap e em objetos híbridos de pintura, dança e teatro, o que não é poesia?

Não sei. Tanto para responder “o que é poesia?” quanto “o que não é poesia?” a gente cai numa cilada: no dia seguinte, algum poeta pode provar o contrário. A história da poesia é bonita justamente por conta disso. Cada poeta que surge nas mais diferentes culturas ampliou o que se chamava de poesia e, portanto, deixou menor o campo do que não é poesia.

Eu aprendi muito com Octavio Paz, e ele ensina que uma das formas de conhecer a poesia é o poema. E, portanto, as mais variadas formas de poema são formas diferentes de chegar perto disso. Ele usa uma imagem muito bonita e diz que o poema é o lugar de encontro entre o homem e a poesia. Isso muda muita coisa, porque aí você passa a olhar para a variedade de formas experimentadas pelos poetas, do haicai ao rap, do repente ao soneto, dos poemas épicos aos poemas visuais, como formas diferentes de fazer com que eu esteja por perto da poesia, formas de abrir uma janela para essa coisa inesgotável que se chama poesia.

A poesia é essa substância que aparece nos poemas, mas que não se confunde com eles. Então, pouco se limita a eles. Ela parece das mais diferentes maneiras, e todos que se colocam em algum momento para escrever e ler poesia estão ampliando as possibilidades de relação com isso. Definir a poesia é negar a natureza dela, porque a poesia é criação, ou seja, é algo que não existe ainda. O poeta é aquele que coloca algo no mundo, mas o leitor também é alguém que coloca algo no mundo quando lê. Quando ele se aproxima de um poema para ler, ele está criando algo, também, porque é uma relação tão particular entre o que o poeta fez e aquilo que o leitor extrai e a forma como ele extrai, que aquilo é tão novo quanto a escrita.

De onde surgiu a ideia do livro? O subtítulo é “introduções à poesia”. Em que tipo de leitor você estava pensando que talvez gostaria de alguma dessas introduções?

O livro tem dois movimentos. Um mais longo, que é o da minha leitura de poesia desde a adolescência, trinta e tantos anos lendo e recolhendo livros, e percebendo que algumas coisas foram se juntando: essas leituras todas e as atuações que eu tenho feito em torno da poesia como editor, poeta, crítico ou organizador de eventos. Essas coisas foram se moldando na minha cabeça, além de uma consciência de que os poetas pensam sobre poesia de uma maneira diferente, um diferente bom, já que partem do lugar da criação.

Eu queria puxar a conversa do livro a partir daí. Mas o livro, propriamente, tem a ver com um segundo movimento bem mais recente, que é o meu trabalho no Círculo de Poemas [selo de poesia da editora Fósforo]. Eu entrei no Círculo de Poemas sabendo falar com quem já lia poesia, que foi o que eu passei a minha vida fazendo. Mas eu tive que aprender – e estou tendo que aprender – a falar com quem não lê poesia ainda. Esse desafio é incrível, e esse livro todo, de certo modo – os cinco ensaios, nos 50 tópicos que os dividem –, organiza esses movimentos, esses caminhos. Também tem um sexto capítulo, que para mim é caríssimo, que é o da bibliografia. É uma bibliografia especializadíssima de poesia, de coisas que eu fui coletando durante a vida e que me serviram de base para essa conversa.

Eu tentei escrever um livro que fica entre o mergulho nessa bibliografia e, obviamente, na obra dos poetas, e o leitor do outro lado, mas deixando claro o tempo todo que tudo que você, leitor, souber sobre poesia não pode se colocar entre você e os poemas. Vá aos poemas. É basicamente essa a indicação que eu tenho feito. Leia. Depois, tudo que você aprender sobre poesia, desde as técnicas até as questões históricas e teóricas, tudo isso é auxiliar à leitura.

Você falou do seu papel como editor do Círculo de Poemas. Você sente que há mais espaço para poesia no mercado editorial hoje, em comparação com quando você era um adolescente que começou a ler poesia?

Certamente o lugar da poesia hoje é muito diferente do que eu vi nos últimos anos. Eu brinco que a gente, que ia atrás de livros de poesia nas grandes livrarias de rede, tinha que saber caçar, porque o livro ficava lá embaixo, no chão, escondido, perdido, o livreiro nem sabia onde tinha colocado. Eram poucas as livrarias com uma quantidade significativa de livros de poesia, expostos com respeito.

De um tempo para cá, e acho que o Círculo tem muito a ver com isso, as coisas mudaram. São muitos livros do selo, estamos chegando a 120 até o fim do ano, e eles formam um objeto incrível ali na prateleira. Eu me divirto de chegar nas livrarias e ver a coleção do Círculo de longe. Eu tiro foto, inclusive, para guardar. E isso não só do Círculo, mas de várias outras editoras que foram chegando.

Uma editora como a Fósforo, que é recente, mas já surge com uma inserção muito boa no mercado e vai fazendo esses livros chegarem a lugares que não estavam acostumados com isso, também muda algo nos outros editores de poesia e nas outras editoras, porque eles passam a olhar para isso e pensar em tentar e distribuir.

Nos últimos tempos, curiosamente da pandemia para cá, várias livrarias pequenas, de rua, abriram em São Paulo, Minas [Gerais], Curitiba, Porto Alegre e no Rio de Janeiro, que já tinha mais. Várias livrarias de rua estão fazendo esse trabalho de criar uma curadoria de livros fora da lógica das grandes distribuidoras, e a poesia também entrou essa onda.

Então são vários fatores ao mesmo tempo, até de tentativa de sobrevivência das próprias livrarias e editoras pequenas diante das livrarias e editoras gigantes. Você tem, de um lado, a venda de livros pela internet por uma gigante internacional [Amazon]. Você tem grupos editoriais brasileiros que se juntaram com estrangeiros e viraram uma coisa gigantesca. Então você tem vários movimentos acontecendo, mas, ao mesmo tempo, tem uma resistência dos pequenos. Um dos trabalhos do Círculo é estar muito próximo desses pequenos. Para quem está trabalhando fora da lógica dos blockbusters, todo apoio e parceria é importante. O Círculo trabalha também com isso.

Mas é evidente, também, que a gente tem uma geração de poetas muito rica atualmente, em vários sentidos. Poetas que já têm primeiros livros muito maduros e importantes, poetas vindo de diferentes lugares da sociedade, dizendo coisas que até então não eram ditas nos livros… são muitos movimentos. As questões de gênero, de raça e de classe no Brasil vão ganhando uma projeção. Elas sempre estiveram na poesia, mas não com esse destaque.

Era muito comum, 25 anos atrás, um crítico fazer um panorama e falar: “Para entender a poesia brasileira da década de 90, você pode ler esses cinco ou dez poetas.” Eu acho que hoje isso é impossível – mesmo olhando o passado. Hoje ninguém se arriscaria a tentar fazer uma afirmação generalizante como essa sobre a poesia. “Ah, o que importa para ler hoje é isso.” Não! Leia! Vai ler. Os poetas estão se multiplicando e fazendo coisas, você não vai dar conta de tudo. Só leia.

Com essa renovação da geração atual, também vem uma renovação da forma como se lida com o passado. Cada um vai trazendo a sua tradição nova, e o Círculo faz esse movimento de publicar poetas brasileiros e estrangeiros de diferentes gerações. Vão aparecendo coisas novas, e o Círculo pode ser uma espécie de portal para essa cena diversa da poesia, com um pouquinho de tudo, indicando caminhos. Não é a afirmação de uma corrente, não é a afirmação de um jeito de ver a poesia como um grupo. Historicamente isso sempre teve sua função, mas não é o papel do Círculo.

O meu livro também está sendo pensado nesse meio, que é o meu jeito de ver. O meu interesse é mais ampliar aquilo que se lê, como se lê, do que restringir. Não excluir. Essas perspectivas de “você deve ler isso” ou “precisa ler assim” nunca me interessaram muito.

Talvez porque eu leio como poeta. Eu sei que perco se me restringir, se passar a escolher demais aquilo de que eu me alimento. Prefiro o máximo de abertura possível, e acho que é um momento muito propício para isso.

O que é ler como poeta? O que constitui um leitor de poesia?

A leitura de poesia tem um traço muito diferente dos outros livros, de ficção ou não ficção. O livro de poesia não é um recipiente em que você vai, retira algo e vai embora. Você vai até ele, ele fica em você, você fica com ele, ele te transforma em alguma medida.

O livro de poesia é muito mais parecido com um disco do que com outros livros. Por que um disco? Se eu pergunto para você “já ouviu Tom Jobim?”, e você responde “já ouvi, vou passar para outra”, não é assim. Você sabe que aquele primeiro contato vai ficar com você. Pode não ser o Tom Jobim, podem ser outros. Mas você está ali formando sua discoteca, sua playlist. A poesia é muito mais dessa natureza.

Isso, para mim, significa duas coisas. A poesia é de contato longo. Eu leio um livro pela primeira vez e posso pensar que não me pegou, mas outras coisas eu leio e já penso: “nossa, eu vou ler isso de novo”. Algo em mim, mesmo sem formular dessa maneira, sabe que eu quero ter aquele livro por perto. Minha bibliotequinha vai se formando, quase uma discoteca. Igual um quadro que você olha uma vez, sai de perto dele e ele fica te acompanhando, você quer ver de novo. Uma foto ou um filme que você gosta, você volta naquilo. É diferente de ver um filme e dizer: “Já vi, pode levar a fita embora que eu não vou ver de novo.” O livro de poema é dessa outra natureza.

Isso pressupõe uma certa dose de aventura e jogo na leitura. Se eu vou ler um poema querendo simplesmente tirar dele um sentido que acaba ali, não vou tirar nada. Nossa fase de formação e educação passa muito por aí: leia o poema, tire dele o que é necessário, anote o que você precisa e vá embora. Essa não é a relação com o poema. O poema tem essa relação viva, orgânica, que vai mudando. Eu mudo como leitor e ele muda.

É muito diferente de falar: “Ah, eu já li um livro sobre tal período da história, eu já entendi, eu gravei as informações”. A primeira leitura do poema é a primeira, mesmo. Ela pressupõe que vai haver segunda, terceira, quarta. Ela pressupõe que você vai voltar. E ainda que você não volte voluntariamente para ele, se algo fizer você encontrar de novo com ele, ele tá lá vivinho, tanto reacendendo aquela relação, aquela memória do primeiro contato que você teve, quanto propondo outras coisas.

Sabe onde acontece muito isso? Eu poderia dar o exemplo do rádio, já que eu sou mais velho, mas eu posso dar do Spotify. Quando acaba o disco que você se propôs a ouvir, ele começa a tocar outras músicas aleatoriamente. Ele traz umas coisas que você pode não esperar. Eu sempre deixo tocar. Porque o algoritmo vai trazer coisas de que eu gostei muito que não sei por que razão se afastaram em outro momento, ou coisas que eu ainda não ouvi e passo a gostar.

Já que falamos de algoritmo, vou entrar em assuntos digitais. No Música do mundo, você escreve que a poesia requer um novo esforço de atenção, nos chama a sair do automático, parar um pouco a vida e entrar na cadência do poema. O que significa ler poesia num mundo algoritmizado, em que a atenção virou uma commodity disputada pelas big techs o tempo inteiro?

A poesia é uma retomada da atenção. A gente se acostumou a viver o tempo todo com essa maquininha de distração em massa que é o celular. Eu estou com as pessoas, mas não estou prestando atenção em quase nada. É quase impossível hoje a gente estar fazendo só uma coisa. No lugar em que eu cheguei agora, entrei no banheiro masculino e duas pessoas estavam com o celular em cima do mictório. Não estavam só fazendo xixi, mas também assistindo alguma coisa no celular.

A gente passou a se acostumar demais com isso. Às vezes as pessoas preferem comer sozinhas porque elas querem que sua atenção total vá para essa desatenção total que é o celular. É uma atenção absolutamente fraturada, porque o celular está te dizendo mil coisas ao mesmo tempo. Você fica sugado por isso. Você está conversando com alguém e, de repente, a pessoa é sugada pelo celular. A pessoa some da sua frente e volta meio que vindo de outro lugar. A gente se acostumou com essa maluquice de ser engolido por essa desatenção.

O poema também tem uma espécie de distração. Quando começo a ler um poema, ele também me suga. Mas ele me suga completamente, sem a fragmentação própria do aparelho tecnológico. Essa distração é uma espécie de salvação para mim, porque ela me repõe em contemplação de algo e, no fim das contas, de mim mesmo. Ler poesia é parar e ser absorvido pelo poema. Tanto que a leitura de poesia dificilmente vai ser compatível com ler e olhar o celular ao mesmo tempo. É o contrário.

O poema mais louco possível é uma prova de sanidade no mundo que a gente está vivendo, como se a gente falasse “espera aí, eu quero voltar”. Ele te exige a atenção, exige uma certa cerimônia. Nessa economia da desatenção, o poema é a aposta na atenção.

Vou continuar na seara das big techs. Agora, uma IA generativa pode produzir um soneto em segundos. É claro que poesia não é só obedecer a uma forma, mas o que um poeta humano tem que um robô de IA não tem?

A palavra “poesia” é o contrário de inteligência artificial. A palavra vem do grego antigo, o verbo poiein, que quer dizer “criar”. A única coisa que a inteligência artificial não faz é criar. Ela trabalha em cima de informações prontas. Parece que ela está criando alguma coisa, mas está o tempo todo trabalhando a partir de informações já existentes. São dois mundos diferentes. Só o poeta, inclusive pelo erro, é capaz de criar, de fazer alguma coisa que não existia ainda.

Vai aparecer um entusiasta de inteligência artificial dizendo que não é bem assim, que o poeta também está criando a partir do repertório dele, mas nós vamos colocando coisas novas no mundo.

Eu não acredito em uma discussão sobre tecnologia que não seja uma discussão de natureza política. Nós temos que tomar a postura política de dizer que não queremos, que não é só uma questão de técnica. “Já que a IA pode até fazer melhor, vamos deixar de fazer”. Não, nossa opção política é dizer: “Eu vou fazer, ainda que seja pior, mais lento e menos informado do que a IA”. Sinto muito, mas eu prefiro o erro e o desencaixe que a poesia representa.

As grandes contribuições da poesia são coisas que eu acho que a IA nunca vai conseguir fazer. Os poemas são pessoas se mostrando frágeis, mostrando que todo esse império da racionalidade e da força que foi criado nos últimos séculos, e que tanto se acreditou que resolveria todos os nossos problemas, na verdade é a causa de muitos outros problemas. O poema se afasta desse império de alguma maneira. Mostrar que a gente erra, que a gente é falho, que a gente é fraco, essas são as nossas forças.

Você escreve no livro que a poesia é muitas vezes colocada num lugar distante, protegido, longe do leitor comum, que acha que precisa de algo especial para entender a poesia e os poetas. Você também recusa as definições fáceis e convencionais do que é poesia. Será que essa indefinição pode acrescentar ao medo que algumas pessoas têm de mergulhar nos poemas?

Esse risco existe, mesmo. Mas eu prefiro esse risco do que todas as outras famas que a poesia carrega. Ela já carrega a fama de ser difícil, complicada e inútil. No contraponto a isso, eu prefiro essa abertura máxima para a poesia.

Seria muito falso falar: “Vem atrás da poesia que ela vai te dar isso, vai te ensinar aquilo.” Pode ser que poemas específicos até façam isso, mas estabelecer essa relação funcional com a poesia é algo muito complicado.

O início da sua fala me fez lembrar de uma coisa que é muito importante para o livro [Música do mundo]. Inevitavelmente, a gente fala de poesia e pensa em livros de poesia, em leitura. Mas a minha defesa básica é que a gente convive com a poesia de modo muito mais rico e sofisticado a partir de atos que não são, propriamente, de leitura.

Quando a gente fala que as pessoas têm um mal-estar com a poesia, estamos falando de uma das possibilidades poéticas, que é o livro de poemas. Mas a gente exclui todas as outras. As pessoas estão acostumadas – no Brasil, pelo menos – a uma sofisticação incrível do ponto de vista poético, e isso está em todo lugar, o tempo inteiro, com gerações e gerações de artistas fazendo canções de altíssimo nível.

Eu estou mais interessado em pegar esse embalo e tentar levar as pessoas para outras formas poéticas menos populares do que separar a forma mais popular da menos popular – e ainda mais fazer o que muito se faz no meio poético, que é colocar a mais impopular das formas de acesso à poesia, o livro, acima de todas as outras, como se fosse a única.

Ficar falando “o Chico Buarque não é poeta, é letrista”, ou “o Mano Brown é rapper, não é poeta”… Quem ganha com isso? Qual o interesse de fazer esse tipo de distinção?

Depois da nossa conversa e do livro, acho que dá para perceber que a poesia não é um bicho de sete cabeças. Ao mesmo tempo, talvez ela seja um bicho de um milhão de cabeças, e que bom, vai dar para desbravar e se aventurar. Qual seria sua primeira dica para alguém que te perguntasse: “O que eu faço para começar a ler poesia?”

A primeira coisa que eu diria seria: pegue o livro Música do mundo e leia os poemas. Ali eu coloquei alguns dos poemas que eu amo na vida. Dentro do livro tem uma antologia de poemas, e é fácil de identificar porque a poesia forma uma mancha diferente na página. É o que eu tenho indicado para quem não está acostumado a ler poesia, muito menos vai ler um ensaio sobre poesia. E são poemas incríveis que estão dentro do livro, e é em torno deles que eu escrevi o ensaio.

Eu brinquei outro dia que eu escrevi isso tudo só para poder publicar esses poemas todos num livro só. Poemas do [Jorge Luis] Borges, do Manuel Bandeira, do [Paulo] Leminski, da Ana Cristina Cesar, da Miriam Alves…

Você pode começar pelo meu livro, mas o importante é que você vá direto aos poemas. Leia o poema, deixe o poema falar com você primeiro, sem pressa para saber o que dizer sobre ele. Eu brinco que, se as pessoas fossem num show e a gente tivesse o mesmo tipo de “prova” que se faz em torno da poesia, elas não iriam mais em show. Se a gente perguntasse “o que você achou dessa música?”, “por que você gosta?” ou “o que ela quis dizer?”, ninguém vai querer ir nisso. É muito chato. É isso que a gente precisa evitar.

Ouça o que o poeta quer dizer da forma como ele diz, sem se preocupar em ter um discurso sobre aquilo. Em grande medida, a poesia é justamente escolher as palavras com que algo vai ser dito. Não precisa de outras. São aquelas. Se você quiser, depois, ler outras coisas, entender mais, detalhar, explicar, isso é ótimo. Mas não vamos colocar o carro na frente dos bois.

 

Eduardo Lima é um jornalista paulistano que cobre cultura, política, ciência e meio ambiente, com passagem pelo Le Monde Diplomatique Brasil e Superinteressante. Atualmente, atua como assistente editorial no Intercept Brasil.

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