Tecnobrega, o ritmo mais popular do país - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA/RONALDO LEMOS

Tecnobrega, o ritmo mais popular do país

por Mariana Fonseca
1 de setembro de 2010
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“Você pode não saber, mas a maioria do Brasil sabe”. Com essa provocação Ronaldo Lemos inicia suas discussões sobre o tecnobrega. O ritmo chega a movimentar R$ 3 milhões/mês em aparelhagens para festas e outros R$ 3,3 milhões/mês com bandas e cantoresMariana Fonseca

Sem o auxílio da mídia tradicional e das grandes gravadoras, o mercado de tecnobrega sobrevive via redes sociais e vendas de CDs e DVDs por camelôs. Suas festas contam com equipamentos e tecnologia vistos apenas em shows de grandes nomes como da baiana Ivete Sangalo. São cerca de 400 novos CDs lançados por ano, sendo que uma grande gravadora no Brasil solta, em média, 10 CDs originais por ano. Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Ronaldo Lemos conta como a periferia está se apropriando das novas tecnologias e o tipo de indústria cultural que surge nesse contexto. Além de pesquisador do assunto, Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, diretor do Creative Commons Brasil e o único integrante latino-americano do Creative Commons Internacional. 

 

DIPLOMATIQUE – O que você aprendeu ao estudar a indústria da música nas periferias do Brasil?  

 

RONALDO LEMOS – Esse projeto continua e são muitas as lições que estamos aprendendo até hoje. A primeira lição é de que não estamos falando de uma cena “periférica”, mas sim da música mais popular do Brasil atual. É também um fenômeno global. Além do tecnobrega, há cenas similares, que praticam modelos de negócio parecidos, em toda América Latina e no mundo. Os exemplos são vários: a cumbia villera na Argentina, o kuduro em Angola, o bubblin no Suriname, a champeta na Colômbia, o kwaito na África do Sul e assim por diante. Por fim, aprendemos que o principal desafio dessas cenas é a informalidade. E informalidade traz instabilidade. Por isso, nosso projeto hoje inclui, também, o auxílio à formalização dessas cenas. 

 

DIPLOMATIQUE – Você usa a frase: “Vocês podem não saber, mas a maioria do Brasil sabe”, em palestras. A mídia tradicional e os chamados formadores de opinião estão longe de conhecer a cultura consumida no país? 

 

LEMOS – São muitas as razões. O antropólogo Hermano Vianna, que foi quem primeiro chamou a atenção para o tecnobrega, sempre diz que o “centro” está se tornando a “periferia da periferia”. A música circula hoje nas periferias com um dinamismo enorme, em um ritmo de inovação que não é visto na indústria tradicional. Nas periferias, a tecnologia é vista como amiga da música. Uma das principais barreiras para a visibilidade das culturas periféricas é um certo preconceito de que se trata de música de má qualidade. Não é correto isso. Tem muita coisa ruim, como tem muita coisa boa também, como em qualquer gênero musical, inclusive os considerados de “boa qualidade”. 

 

DIPLOMATIQUE – Regiões do Brasil, fora do eixo Centro-Sul, carregam o estereótipo de menos desenvolvidas. Mas, em seus estudos, você demonstra que o mercado musical dessas regiões usa tecnologias avançadas de última geração. Como esses músicos se apropriaram da tecnologia? 

 

LEMOS – O uso intensivo da tecnologia é parte do modelo de negócios. O Orkut é usado há anos para divulgar a música da periferia. Além dele, o YouTube virou um epicentro da música periférica brasileira. Até hoje fico impressionado ao ver bandas periféricas estreantes alcançarem rapidamente um milhão de acessos. Além disso, usa-se muito o MSN para troca de músicas e sites de compartilhamento, como 4shared e outros. Isso sem falar nas lan houses, que viraram centros de distribuição da música em todo o país, e no uso do celular, que é cada vez mais importante. Por outro lado, as bandas da periferia raramente usam Myspace, que no “centro” é identificado como uma rede de divulgação de música. 

 

DIPLOMATIQUE – Como funciona esse sistema de venda de CDs e DVDs e por que não pode ser chamado de pirataria? 

 

LEMOS – Na maioria dos casos que investigamos, os artistas autorizam expressamente os camelôs a venderem sua música, bem como eles mesmos colocam seu trabalho para circular livremente pela internet. Desse modo não é pirataria. Quem distribui tem o consentimento do artista, que vê essas redes, tanto nas ruas quanto na internet, como essenciais para construir uma carreira. É curioso porque isso concretiza algo que foi dito há alguns anos por um importante consultor de tecnologia americano, Tim O’Reilly: “Para os novos artistas, é melhor ser pirateado do que permanecer na obscuridade”. 

 

DIPLOMATIQUE – Você teria alguns números para exemplificar o tamanho e a importância da indústria do Tecnobrega no país? 

 

LEMOS – São muitos os números, mas para se ter alguma ideia do tamanho desse mercado, sabemos que as festas de aparelhagens movimentam R$ 3 milhões/mês, enquanto somente as bandas e cantores movimentam R$ 3,3 milhões/mês. As aparelhagens fazem parte de um mercado importante para a música paraense. Estima-se que o valor total da estrutura de todas as aparelhagens (ativos fixos) seja de, aproximadamente, R$ 16,4 milhões. Em média, o equipamento das aparelhagens custa R$ 23,4 mil (todas possuem computador laptop, equipamento de som, equipamento de luz etc.). Como 88% dos cantores e bandas nunca tiveram contrato com uma gravadora ou selo, os vendedores de rua são agentes importantes para a divulgação das músicas. Dentre esses, 51% incentivam a venda dos seus CDs pelos vendedores de rua e 59% avaliam positivamente o trabalho dessa rede para a sua carreira. Estima-se que o faturamento médio desse mercado de comercialização de CD e DVD de tecnobrega seja de R$ 1 milhão e R$ 745 mil, respectivamente. 

 

DIPLOMATIQUE – A internet e as novas tecnologias podem ser grandes ferramentas na democratização da cultura? 

 

LEMOS – A tecnologia mudou a ideia de cultura. Tornou o conceito muito mais abrangente e menos elitista. Hoje, cultura é tudo. Vale a frase dos anos 1990 cunhada pelo Arnaldo Antunes: “bactérias em um meio é cultura”. Isso quer dizer que o tecido cultural é hoje traçado por microações individuais, em que qualquer pessoa com acesso a um computador, em casa ou na lan house pode participar. A noção de gosto, do que é bom ou ruim, por exemplo, tornou-se relativa. Muita gente acha a música feita nas periferias ruim, seja o tecnobrega, o forró eletrônico ou o lambadão cuiabano, mas quem gosta dessas cenas não se importa com essa opinião. Essas cenas não precisam mais passar pelo crivo do centro para se afirmarem como legítimas. Os árbitros do bom gosto se descentralizaram também e, com isso, perderam sua importância. A esfera pública brasileira está se transformando. E a cultura é só a ponta-de-lança onde essas mudanças são mais visíveis. 

 

DIPLOMATIQUE – Você fez estudos na periferia de países da América Latina e da África. A distância entre o que a mídia mostra e o que é consumido pela maioria é tão grande como no Brasil?  

 

LEMOS – Foram vários estudos, que continuam até agora. Estamos finalizando uma pesquisa sobre a Cumbia Villera nas favelas de Buenos Aires. E também da Champeta, na Colômbia, em cidades como Barranquilla e Cartagena. As periferias latino-americanas estão todas conectadas musicalmente. Por exemplo, o sucesso do carnaval de Barranquilla deste ano foi uma música chamada “El Celular”, que nada mais é do que uma versão em Champeta da música “Alô, tô num bar”, da dupla de forrónejo Eric & Matheus. Essas são as músicas mais populares do Brasil e da Colômbia, ainda que o leitor do Le Monde Diplomatique Brasil possivelmente não esteja familiarizado com elas.

Mariana Fonseca é jornalista e editora-assistente de Le Monde Diplomatique Brasil.



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