Todos crianças - Edição 154 Le Monde Diplomatique Brasil

A POPULAÇÃO SE TORNOU ESPECTADORA

Todos crianças

por Serge Halimi
29 de abril de 2020
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Confinada, infantilizada, estupefata e ao mesmo tempo aterrorizada pelas redes de informação 24 horas, a população se tornou espectadora, aniquilada

Mais uma vez o mundo deles cai por terra. E não fomos nós que o quebramos. Evocamos neste momento o programa econômico e social do Conselho Nacional da Resistência, a conquista dos direitos sindicais e as grandes obras do New Deal. Mas muitos maquisards [membros da Resistência francesa na Segunda Guerra Mundial] tinham conservado suas armas e na rua um povo esperava pela passagem da “Resistência à revolução”. Este inclusive era o lema de jornal clandestino da época chamado Combat. De seu lado, Franklin Roosevelt soube como fazer alguns patrões norte-americanos entenderem que as revoltas dos trabalhadores e o caos social arriscavam varrer seu adorado capitalismo. Eles então tiveram de compor.

Hoje não há nada disso. Confinada, infantilizada, estupefata e ao mesmo tempo aterrorizada pelas redes de informação 24 horas, a população se tornou espectadora, passiva, aniquilada. Por força da situação, as ruas ficaram vazias. Não há mais “coletes amarelos” na França, nem Hirak na Argélia, nem manifestações em Beirute ou em Santiago. Como uma criança assustada com o estrondo da tempestade, cada um espera para saber o destino que o poder lhe reserva. Porque os hospitais são ele; as máscaras, os testes, são ele; as transferências de dinheiro que permitirão aguentar alguns dias a mais são ele;1 o direito ou não de sair – Quem? Como? Quando? Com quem? – é ele, e sempre ele. O poder tem todos os poderes. Médico e empregador, ele também é nosso juiz para a aplicação de penas, é quem decide a duração e a dureza de nosso confinamento. Por que se surpreender com o fato de que 37 milhões de franceses, um recorde, o dobro da audiência da final da Copa do Mundo de futebol de 2018, tenham ouvido o presidente da República em 13 de abril, quando ele falou em onze redes ao mesmo tempo? O que mais eles poderiam fazer naquela noite?

César Habert Paciornik

A vertigem aumenta quando esse poder não sabe para onde está indo. Suas decisões são ameaçadoras, mesmo quando se contradizem. As máscaras? Elas eram inúteis, isso era certo, tanto que não as tínhamos. Tornaram-se úteis de novo – ou seja, potencialmente capazes de salvar vidas –, desde que a tenhamos. Entende-se que o “distanciamento social” é necessário, mas a distância de segurança aumenta em 50% quando um francês vai para a Bélgica ou atravessa o Reno, e dobra se ele vier a atravessar o Atlântico. Finalmente, em breve saberemos que idade e quais características físicas nos impedem de sair de casa. Era melhor ser velho e gordo outrora que “idoso” e “acima do peso” hoje: os primeiros tinham pelo menos domínio sobre seus passos. E por que as crianças em idade escolar deixariam de ser contagiosas para os professores próximos da aposentadoria, a quem sempre se recomenda manter distância dos netos?

Um dia nos tornaremos adultos novamente. Capazes de entender e impor outras opções, inclusive econômicas e sociais. No momento, estamos recebendo golpes sem poder devolvê-los; falamos no vazio e sabemos disso. Daí esse clima pegajoso, essa raiva sem emprego. Um barril de pólvora no meio de uma sala, esperando o fósforo. Depois da infância, a idade da rebeldia…

 

Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.

 

1 Nos Estados Unidos, o nome de Donald Trump aparece no cheque de cerca de US$ 1.200 por pessoa que o Tesouro dos Estados Unidos acaba de enviar para dezenas de milhões de cidadãos.



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