Trabalho e divisão sexual em ‘O peso da inexistência’, de Carolina Frutuozo
Vencedora do segundo concurso de contos do Podletras, a autora aborda, em seu novo romance, o mundo do trabalho e sua divisão sexual
Em uma realidade cuja tendência cada vez mais se aproxima da informalidade e precarização do trabalho, incluindo a desvalorização de títulos universitários, se expressa, de um lado, maior investimento nessa temática na literatura, em particular no gênero do romance.
Lançado no ano de 2024, pelo Selo Podletras, O peso da inexistência, romance de Amélia Greier, pseudônimo de Carolina Frutuozo, trabalha variadas temáticas: identidade, memória, mercado de trabalho, cotidiano e relações familiares sob uma perspectiva de gênero. Escrito em primeira pessoa por uma narradora não nomeada, a história é sobre uma dona de casa e seus “títulos”: mãe, atendente de caixa, doceira, esposa, dentre outros.

Amélia Greier é o pseudônimo literário de Carolina Frutuozo, escritora paulistana radicada em São Carlos, SP. Como autora, recebeu a medalha Adélia Prado da Academia Feminina Mineira de Letras, em 2019, e participou da publicação coletiva do livro (Con)ciência. Historias de la ciência brasileña promovida pela Universidade de Salamanca, em parceria com a FIOCRUZ, em 2021. Em 2024, publicou seu primeiro livro infantil, Bem-te-vi, uma lição que bem ouvi, pela Editora Ases da Literatura
Dentro da literatura brasileira contemporânea, vários autores abordam o trabalhador e o mundo do trabalho, para não dizer a diferença entre profissão/função e o cotidiano das relações sociais nessas categorias. José Falero, Giovani Martins, Giovana Madalosso e Andréa Del Fuego são alguns desses destaques. Você chegou a ter influência de escritores que trabalham diretamente com esses tópicos?
Embora eu reconheça a importância dos autores citados na representação do trabalho na literatura brasileira contemporânea, minha escrita não partiu diretamente dessas influências. A inspiração para este livro nasceu da precariedade emocional e material presente nos clássicos A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, e Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Tais obras me inspiraram porque revelam vidas à margem e transformam o cotidiano em matéria literária e política. Outra grande referência foi a obra Um quarto só seu, de Virginia Woolf. A ideia de que a mulher precisa de meios materiais e simbólicos para existir como sujeito, e não apenas como função, foi uma premissa importante para a construção do romance.
Em seu livro, a narradora não é nomeada, ou seja, não sabemos seu nome próprio, mas por meio de funções gramaticais normalmente por locuções adjetivas e complementos nominais (esposa de, mãe de). Por que a escolha desse recurso?
A ausência de um nome próprio para a protagonista foi uma escolha estética, visando reforçar a ideia de que ela não existe por si mesma, apenas como função e utilidade social. Esse recurso evidencia sua subordinação e sua ligação quase indissociável aos papéis que lhe são atribuídos, como se a sua identidade estivesse sempre condicionada ao outro e aos requisitos externos. Ele também mostra como a precariedade material – a de não possuir nem mesmo um substantivo! – pode acabar com a possibilidade de existir como sujeito de sua própria história.
Essa opção narrativa nasceu ainda na construção do conto Pano de Fundo, o “conto de origem” do romance, vencedor do concurso que possibilitou a sua publicação. Nele, temos os mesmos personagens, mas a mulher é apresentada como o próprio cenário da dinâmica familiar, um elemento que, embora relegado à segunda importância, é indispensável para que a história do marido e dos filhos aconteça. Para intensificar essa ideia, escrevi o conto inteiro em voz passiva, revelando essa mulher como uma agente invisível e necessária das ações que estruturam a vida ao seu redor. O romance, portanto, amplia esse gesto com outras técnicas.
Como foi o processo da escrita, em particular no tocante ao prêmio que recebeu no Concurso Podletras e da escrita do romance? Ele nasceu a partir da sua colocação no concurso, certo?
O processo de escrita começou com o conto Pano de Fundo, vencedor do 2º Concurso de Contos Podletras. A premiação deu visibilidade ao texto e abriu a possibilidade concreta de publicação, o que me levou a transformar aquilo em uma obra mais ampla. O conto já continha a estrutura central do romance: a precariedade emocional e material da dona de casa, o apagamento feminino, a relação entre trabalho e identidade. A partir disso, a escrita se expandiu em outros temas pertinentes, como a precarização do trabalho e o que significa existir no capitalismo tardio. Portanto, o livro nasce da colocação no concurso, mas sobretudo da necessidade de aprofundar em uma experiência que já estava presente na narrativa curta.
Seu livro tem recebido bastante feedback de produtores de conteúdo e críticos literários. Imaginava a repercussão? Como você vê o resultado desse livro nas mãos do público?
Eu não imaginava a repercussão que o livro teria dentro do cenário literário independente. Quando escrevi, imaginei que se tratava de um tema muito específico e cotidiano, que talvez pouco interessasse aos leitores, sobretudo os mais jovens. A recepção positiva me mostrou que há um público atento a narrativas que tratam dessas questões.
O resultado desse livro tem sido muito revelador. Cada leitura devolve uma camada diferente daquilo que construí: alguns se reconhecem na exaustão, outros na invisibilidade, outros na precarização, e há ainda quem se veja na instabilidade da existência moderna. Para mim, isso é profundamente gratificante. Esse retorno diverso confirma o poder que a literatura tem de coletivizar experiências que, à primeira vista, parecem ser individuais.
A personagem principal é colocada dentro de uma possível perspectiva de gênero e da categoria do trabalho. Nós temos a divisão sexual das tarefas na casa e na vida pública da narradora, além de uma função comum para mulheres: a doceira ou caixa de supermercado. Algumas leituras podem sugerir que seu livro está vinculado para uma ou outra perspectiva com mais ênfase. Você percebe o seu livro em uma delas?
Entendo que há várias possibilidades de leitura da obra, mas não vejo ênfase em uma única perspectiva, porque, para a mulher, gênero e trabalho se misturam, um condiciona o outro. Independentemente da classe social, a mulher-mãe-e-esposa é direcionada a certos papéis sociais (pilar emocional, cuidadora, responsável pela administração do lar), e esses papéis acabam determinando o tipo de trabalho que ela pode exercer, limitando sua trajetória profissional, sua vida acadêmica e até a sua performance no mercado de trabalho.
É claro que, quanto menor a classe social dessa mulher, maior tende a ser o apagamento e a sensação de inexistência, porque maior é a pressão para que ela cumpra esses papéis de forma integral. No entanto, mesmo nas classes mais abastadas, essas duas dimensões não deixam de operar. Há, sim, uma rede de apoio mais ampla (babás, faxineiras, cuidadoras), mas isso não elimina a expectativa social de que a mulher esteja vinculada a essas funções.
Por isso, não vejo como dissociar as duas perspectivas. O gênero determina os trabalhos possíveis; esses trabalhos, por sua vez, reforçam os papéis de gênero; e ambos moldam a subjetividade, organizando e limitando a existência feminina.
O Peso da Inexistência aborda diferentes temas, como as relações familiares, as desigualdades de classes, o fetichismo dos objetos e indivíduos, a mulher e o trabalho. O que te motivou a escolher esses temas?
Os temas do livro nasceram da observação do cotidiano e das inquietações que atravessam a minha própria vida. Todos esses assuntos estruturam silenciosamente a existência da protagonista – e, de certa forma, a de muitas mulheres – por isso, ao organizar o enredo, eles surgiram naturalmente como pautas centrais. Além disso, eu queria dar forma literária à experiência do apagamento, essa sensação de “inexistir em sua própria vida”, que tantas vezes é encoberta por convenções e expectativas sociais. Talvez, ao trazer essas vivências dolorosas para a literatura, elas pudessem finalmente ser vistas e, consequentemente, legitimadas.
A questão do trabalho informal e da perda do prestígio, valorização de títulos universitários, são um ponto chave do seu livro, uma vez que a narradora, o marido e os demais personagens sentem a angústia de um “projeto de vida” que não foi o prometido a eles, como se fosse uma ordem cronológica de amadurecimento pessoal e profissional de cada um de nós na sociedade. Comente mais a respeito dessa relação causal no seu romance e da sua visão tanto de autora quanto pessoal sobre.
Essas questões são centrais no romance porque representam a experiência de toda uma geração atravessada pela crescente precarização do trabalho. Os personagens cresceram sob a ideia de que havia uma ordem cronológica e meritocrática de amadurecimento – estudar, trabalhar, conquistar estabilidade financeira e profissional – e de que o esforço individual seria suficiente para garantir esse percurso. Quando o mercado não consegue mais cumprir essa promessa, surge uma sensação profunda de inadequação, como se o fracasso fosse pessoal, não estrutural. Como o trabalho formal é, inclusive, uma forma de identidade e pertencimento, surge também a sensação de “inexistência”.
Essa discrepância entre expectativa e realidade produz a angústia que permeia o livro: empregos precários, informalidade, diplomas que não mais garantem estabilidade ou mobilidade social, carreiras interrompidas ou nunca iniciadas, existências inteiras à mercê dos caprichos do mercado e um genocídio econômico silencioso. A relação causal, portanto, não é linear, mas circular: os personagens precarizados são vistos como “trabalhadores Sísifos”, condenados a empurrar a pedra de um projeto de vida que nunca chega ao topo. Quanto mais investem em formação, esforço e disciplina, mais percebem que a estrutura econômica os devolve ao ponto de partida. E, ao retornarem, carregam ainda o peso adicional da culpa, como se as falhas fossem individuais, e não fruto de um sistema que opera pela ampliação das desigualdades.
Como autora, eu queria justamente trabalhar a ideia de que não existe um caminho linear de realização profissional e emocional. As transformações políticas e econômicas dos últimos anos mostram que, cada vez menos, o mundo irá corresponder aos roteiros de vida que tínhamos nas décadas passadas. Então, não há sentido em moldar existências com expectativas irreais e ultrapassadas, como se a vida fosse apenas uma sequência de metas produtivas. Caso o façamos, estaremos condenados a um ciclo interminável de esgotamento, culpa e frustração.
Na minha visão pessoal, além de tudo isso, também creio que é necessário recuperar uma forma de existir que não esteja inteiramente submetida ao mercado. Precisamos ser mais humanos e menos rentáveis; precisamos parar de transformar cada aspecto da nossa existência em produtividade e produto, pois isso destrói a subjetividade e nos distancia de experiências gratuitas e essenciais (ócio, criação, contemplação, convivência, intimidade, etc).
É interessante notar o uso de pseudônimo; “Amélia Greier”, não sendo típico na prosa contemporânea. É uma assinatura e identidade que carrega desde o começo de seu percurso na literatura? Por que a escolha desse nome em contraste com o nome verdadeiro?
O pseudônimo “Amélia Greier” nasceu de uma exigência dos primeiros concursos literários dos quais participei, como uma forma de ocultação da minha identidade real. Entretanto, com o passar dos anos, ele se tornou uma espécie de nome artístico, uma assinatura literária que aparecia em todos os meus trabalhos.
Estaria mentindo se dissesse que há grandes intenções por trás da escolha desse nome fictício. Quando sou perguntada, geralmente conto a versão que, de fato, ocorreu: meu nome, Carolina Pereira, é muito comum, e havia centenas de outras Carolinas Pereiras em concursos e publicações. Já Amélia Greier só tinha uma, por isso a preferência. Porém, confesso que esse acontecimento não justifica inteiramente a escolha. Talvez eu tenha escolhido pela necessidade de ocultar a Carolina Pereira. Ou pela vontade de ser algo mais singular do que a ordinária Carolina Pereira. Os motivos não são claros nem mesmo para mim. Mas Amélia Greier me acompanha em todos os textos, como um “porque sim” que faz mais sentido no íntimo do que na lógica.
Você percebe a diferença de autoria feminina e masculina dentro da temática do mundo do trabalho e do trabalhador, em especial na literatura brasileira nos últimos anos? Sentiu isso durante o processo da obra em questão?
Eu percebo diferenças no ponto de vista da experiência e do trabalho com a linguagem. Na autoria masculina, o trabalho aparece de maneira mais “palpável” e externa, como um promotor de violências e injustiças; um formador de identidade; como resistência à miséria e até mesmo como uma bagagem moral e social transmissível. Na escrita feminina, o trabalho me parece bem mais interiorizado, surgindo mais na subjetividade e no corpo (cansaço, trauma, abandono, culpa, obrigações sociais) antes de se manifestar na vida externa.
Apesar das minhas influências serem todas femininas, senti essa diferença ao construir o casal protagonista da obra. Carlos enxerga o trabalho como medida de valor social e forma de se situar no mundo. Sua relação com a carreira é prática: se ele fizer “tudo certo”, o mundo lhe devolverá estabilidade. Já a protagonista feminina vive o desemprego e os problemas econômicos de maneira mais íntima, emocional e existencial.
Lorraine Ramos Assis é redatora, pesquisadora e crítica literária. Publicou em diversas revistas e jornais nacionais e estrangeiros, como Jornal Cândido, Revista Cult, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura na UFRJ.

