Três ilusões e o caminho da derrota: notas sobre a conjuntura -

O DESAFIO DAS FRENTES

Três ilusões e o caminho da derrota: notas sobre a conjuntura

por Jones Manoel
1 de março de 2021
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A busca a todo custo por uma frente ampla não tem lastro na realidade e está fadada ao fracasso

Na história das organizações políticas da classe trabalhadora, em momentos de transição geracional e derrota estratégica, é comum uma “crise de criatividade”. Os dirigentes envelhecidos e desatualizados de novos métodos e táticas tendem a uma eterna repetição de formas de fazer política já consagradas – as quais, em outros momentos da história, deram resultados positivos, mas agora tendem a ser expressão de anacronismo e paralisia.

As esquerdas brasileiras passam por esse momento. A geração do fim da ditadura militar e que teve papel central na criação da Nova República está envelhecida, perdida, sem norte político e tático e não consegue responder às mudanças rápidas da política brasileira e da dinâmica geopolítica. Uma das expressões disso é a permanência de três ilusões centrais que refletem uma tentativa – consciente ou não – de repetir o cenário dos anos 1980 e 1990. 

Primeiro, existe um grito onipresente, desesperado, pela formação de uma frente ampla para enfrentar a extrema direita. O conceito clássico de frente ampla diz respeito a uma união de setores da classe trabalhadora, camadas médias e burguesia em momentos de ameaça fascista, de extrema direita ou de invasões imperialistas (tomando a forma de frente nacional, um dos tipos da frente ampla). Ela geralmente opera numa perspectiva defensiva, evitando a piora das condições de luta e buscando acumular forças para uma futura ofensiva.

Como podemos ver, é pressuposto para a existência da frente ampla a disposição de setores da burguesia e suas expressões políticas (partidos, entidades de representação empresarial etc.) para formar tal unidade. Ao final de 1970, por uma série de motivos, setores da classe dominante brasileira, notadamente a burguesia paulista, descolaram-se do regime e passaram a defender a abertura “democrática”. Combinado a isso, os Estados Unidos – com o extermínio das vanguardas revolucionárias no continente – apoiaram a volta às democracias burguesas. Frentes como as Diretas Já foram expressão não da vontade ou da genialidade de líderes de esquerda, como Brizola, Lula e Luís Carlos Prestes, mas de condições objetivas de classe e do momento histórico.

(Crédito: Vitor Flynn)

 

Atualmente, nenhum setor da burguesia deseja uma frente ampla e a derrota do bolsonarismo. Este vem conseguindo entregar um pacote de ataques à classe trabalhadora, à soberania nacional, a regulamentações ambientais e a empresas públicas que abre largas perspectivas de lucro para as classes dominantes. Como bem mostrou o professor Edmilson Paraná,1 a frente ampla já foi formada, e ela está com o governo. A busca a todo custo por uma frente ampla, tentando repetir o cenário do fim da ditadura, não tem lastro na realidade e está fadada ao fracasso, colocando no colo das esquerdas a responsabilidade por construir essa “unidade” à custa da deserção de qualquer proposta e identidade política de esquerda.

O segundo erro é imaginar que o impeachment de Bolsonaro seria igual ao de Collor e de Dilma, considerando apenas a popularidade e a base no Congresso e ignorando o fator militar. O bolsonarismo é, antes de tudo, o projeto militar que encontrou no deputado miliciano do Rio de Janeiro a sua figura carismática. Temos o governo mais militarizado da história brasileira, com números que variam – a depender da fonte – entre 8 mil ou 9 mil militares no governo. O bolsonarismo, em cada crise ou abalo político, militariza mais o governo: foi assim com o Ministério da Saúde, a Casa Civil e agora a Petrobras. 

As esquerdas brasileiras, mesmo os setores socialistas e comunistas, abraçaram Bobbio e esqueceram Lenin: ignoram o poder das armas, a dimensão violenta de toda política, e se veem despreparadas, na teoria, na ação política e na organização, para lidar com fuzis e coturnos. Com nobres e raras exceções, como a brilhante análise Carta no coturno – A volta do Partido Fardado no Brasil (Baioneta, 2020), temos uma fuga do problema e a enésima tentativa de bajular os militares, poupando-os de críticas, ou então – o que é pior – buscando esse ou aquele “general democrático”.

Por fim, vivendo um ciclo eterno de autoilusão, os setores majoritários da esquerda brasileira apostam tudo em 2022, como se um novo governo fosse capaz de restaurar tudo que foi quebrado, voltar à normalidade. Como disse Marx, sim, a história se repete, mas primeiro como farsa e depois como tragédia. A ofensiva burguesa com o “teto de gastos”, a contrarreforma trabalhista e previdenciária, a destruição do complexo do petróleo e gás e a privatização de subsidiárias da Petrobras e BR Distribuidora, a “autonomia” do Banco Central e o novo pacote de ataques – como o fim dos mínimos constitucionais para saúde e educação – criaram uma amarração institucional que torna impossível governos de pacto de classe em que “todos ganham”, como os governos de Lula e, até certo ponto, de Dilma Rousseff. Alguém tem de perder!

A ideia de que uma nova eleição, com a derrota de Bolsonaro, vai recuperar o Eldorado da democracia – que nunca existiu para as maiorias – ignora a geopolítica – o poder militar, as contrarreformas neoliberais do Estado, o acirramento da pressão militar-imperialista dos Estados Unidos na América Latina e a ofensiva reacionária da burguesia interna. Ilusão perigosa, que condena nosso povo trabalhador a uma longa noite de derrotas. A classe dominante como um todo não deseja conciliação, padrões mínimos de democracia política e direitos econômicos e sociais, e não será um “gestor experiente” – Lula, Ciro Gomes, Flávio Dino ou qualquer outro – que conseguirá mudar isso. Não é questão de diálogo, mas de força, de luta – de luta de classes. Eles estão prontos para a guerra (e os fuzis já estão com o governo). E nós? 

 

*Jones Manoel é historiador, professor, comunicador e educador popular e militante comunista.

 

1 Edmilson Paraná, “A ‘frente ampla’ já existe – e ela está com Bolsonaro: a economia política do impasse brasileiro”, Observatório da Crise, 20 maio 2020.



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