Tudo dentro da ordem. - Le Monde Diplomatique

EGITO

Tudo dentro da ordem.

por Gilbert Achcar
4 de março de 2011
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Temendo uma vez mais atrair a mão forte do regime egípcio, a Irmandade Muçulmana decidiu não se associar à convocação do movimento contra Mubarak; só no terceiro dia ela começou a participar dos protestos, com a presença de sua força organizada. Ao final, declarou sua intenção de fundar um partido político legal.Gilbert Achcar

Contrariando a maioria dos prognósticos, a revolta egípcia foi desencadeada e liderada por uma coalizão de forças predominantemente laica e democrática – conformada por partidos, associações e redes de internautas. É verdade que as organizações de influência islâmica e seus membros, a título individual, participaram desse movimento, mas em pé de igualdade com formações de importância marginal antes do início da revolta, além de grupos mais próximos de dissidentes do leste europeu de 1989 do que de partidos de massa ou das vanguardas revolucionárias, protagonistas tradicionais de insurreições sociais.

Se no caso tunisiano a discrição do movimento islamita pode se explicar pela repressão feroz, que impediu a ação do partido Ennahda, paradoxalmente, a atitude covarde da Irmandade Muçulmana egípcia estava baseada no próprio estatuto desse partido, até então tolerado pelo regime militar.

Depois de chegar ao poder, em seguida à morte de Gamal Abdel-Nasser, em setembro de 1970, Anuar El-Sadat facilitou a volta da confraria à cena pública e sua ascensão como contrapeso à esquerda nasseriana, tida como radical. A Irmandade se inscreve plenamente na liberalização econômica (infitah) promovida pelo coveiro do nasserismo, o que se traduz sociologicamente pela crescente influência, em seu seio, do número de integrantes da nova burguesia egípcia. Isso, claro, não impede que eles combatam impiedosamente a corrupção galopante.

A confraria se construiu como movimento político reacionário e religioso, cuja preocupação principal era – e continua sendo – a islamização das instituições políticas e culturais egípcias e a promoção da xaria como fonte de legislação. Contudo, a Irmandade também serviu de antídoto político a grupos integristas extremistas e violentos.

Já Sadat nunca deixou de recorrer ao argumento religioso para legitimar ideologicamente seu poder frente à contestação social e nacionalista. Preocupado em compensar o impacto do impopular tratado de paz assinado por ele com Israel, em março de 1979 (menos de seis semanas após a revolução iraniana), ele providenciou para que a Constituição sofresse emendas no ano seguinte, de modo a inscrever a xaria como principal fonte de toda legislação”, a despeito do fato de a população egípcia ser composta de uma importante minoria cristã. Essa concessão, porém, não foi suficiente para conquistar o apoio da Irmandade Muçulmana ao tratado israelo-egípcio.

Foi então que Sadat decidiu acabar com a influência da confraria. Em 1981, alguns meses antes de ser assassinado , ele lançou contra ela uma vasta campanha de prisões. Pouco após sua ascensão à presidência, como sucessor de Sadat, Hosni Mubarak mandou soltar os integrantes da Irmandade. No início, o novo presidente se apresentou como um homem moderado e sóbrio, diferente de seu predecessor. Ele também procurou compor com a Irmandade, a fim de contar com uma base de sustentação popular, ao mesmo tempo em que perpetuava o regime de liberdade controlada de Sadat.

 

a inspiração que veio da turquia

As relações da Irmandade com o regime ficaram mais tensas em 1991, por ocasião da participação do Egito na coalizão comandada pelos Estados Unidos contra o Iraque, durante a Guerra do Golfo. E, nos últimos dez anos, a Irmandade viveu dividida entre a fraqueza conservadora de seus dirigentes mais velhos e a pressão de uma parte de seus executivos mais jovens, no sentido de uma reivindicação mais ativa de liberdade política. Em 2002, os partidários de uma posição política mais audaciosa se sentiram então encorajados pela ascensão ao poder, pela via parlamentar, do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) na Turquia, de origem muçulmana conservadora. A experiência parecia confirmar a possibilidade de um modelo até então considerado impraticável! A Turquia marcava uma mudança sobretudo porque Washington e a União Europeia deram sua benção a esse novo estado de coisas. Confrontada em 2004, ao ver desmoronar o “motivo” de sua guerra contra o Iraque (“a presença de armas de destruição em massa”), a administração Bush alegou a “promoção da democracia” como objetivo oficial da política americana no Oriente Médio. Incentivadas pela evolução tranquilizadora da experiência turca, não faltaram vozes em Washington para defender uma atitude mais aberta para com a Irmandade Muçulmana egípcia. Cedendo à pressão, mesmo que de má vontade, Mubarak introduziu o pluralismo nas eleições de 2005 e concedeu mais cadeiras parlamentares à oposição, em especial à confraria. Com isso, o líder egípcio esperava demonstrar que as eleições livres no Egípcio beneficiavam a Irmandade mais do que a outros. Alguns meses depois, em janeiro de 2006, a vitória eleitoral do Hamas, na Palestina, jogou uma pá de cal na declarada pretensão dos Estados Unidos de “promover a democracia” na região em geral e no Egito em particular.

Ao ascender ao poder, Barack Obama discursou no Cairo, em junho de 2009, afirmando seu apoio à democratização da região. Após algumas hesitações, a Irmandade se fez representar na Associação Nacional pela Mudança a coalizão predominantemente liberal, criada em fevereiro de 2010, tendo como figura de proa Mohammed El-Baradei. Entretanto, alguns meses depois, ignorando os apelos da oposição liberal, de boicote às eleições parlamentares de novembro-dezembro, os Irmãos Muçulmanos participaram do primeiro turno na esperança de, em troca, conseguir a renovação de uma boa parte dos mandatos. Mas o resultado não lhes deixou outra escolha a não ser boicotar o segundo turno.

O país se transformou então em barril de pólvora, e a centelha veio da Tunísia. Redes sociais e coalizões de jovens oponentes ao regime conclamaram a manifestação de 25 de janeiro último. Temendo uma vez mais atrair a mão forte do regime, a Irmandade decidiu não se associar à convocação. Só no terceiro dia é que ela se juntou ao movimento, decidindo participar dos protestos com a presença de sua força organizada. Simultaneamente, os dirigentes da confraria tomaram o cuidado de multiplicar os elogios ao exército por saber que esse núcleo duro do regime seria chamado a assumir um dos lados do conflito, decidindo o rumo da situação.

Quando Mubarak designou o chefe dos serviços de informação, Omar Suleiman, como vice-presidente, e este último conclamou a oposição ao que chamou de “diálogo”, o comando da Irmandade aceitou se encontrar com ele. Essa concessão, somada à recusa de se aliar à fase inicial do movimento de revolta, contribuiu para desacreditar a confraria entre os jovens dirigentes da mobilização (os chebab). Finalmente, quando Mubarak cedeu, a Irmandade saudou a junta militar, enquanto pedia que fossem libertados os prisioneiros e que o estado de sítio fosse suspenso. Além disso, declarou sua intenção de fundar um partido político legal.

Dessa forma, a confraria contribuiu para a chamada “transição dentro da ordem” (orderly transition), defendida por Washington desde o início da insurreição egípcia. A Irmandade se viu obrigada a dar garantias, afirmando que não tinha aspirações a tomar o poder, mas tão somente a gozar de direitos democráticos. Foi assim que Essam El-Errian, um dos dirigentes da confraria, afirmou ser “contra o Estado religioso”, mas a favor de um Estado civil de referência religiosa1”. O termo árabe usado – marja’iyya – pode designar uma instância jurídico-teológica encarregada de verificar a compatibilidade com o Islã, das leis votadas pelo Parlamento, e dotada de um veto legislativo nesse sentido.

Para garantir o apoio da Irmandade, os militares nomearam para o comitê de revisão da Constituição um dos membros mais vistosos da confraria, o advogado e ex-deputado Sobhi Saleh, autor de um livro contra a laicidade. E colocaram como líder desse mesmo comitê Tareq El-Bishri, jurista que sublinha a necessidade de fundamentar a legislação do país na xaria.

Mas, enquanto o potencial revolucionário de 25 de janeiro não tiver sido sufocado, sua eventual radicalização, pode acabar dando origem a uma corrente de esquerda, em comparação com a qual a Irmandade Muçulmana apareceria como um mal menor. Tanto para Washington quanto para seus clientes militares egípcios.

Contrariando a maioria dos prognósticos, a revolta egípcia foi desencadeada e liderada por uma coalizão de forças predominantemente laica e democrática – conformada por partidos, associações e redes de internautas. É verdade que as organizações de influência islâmica e seus membros, a título individual, participaram desse movimento, mas em pé de igualdade com formações de importância marginal antes do início da revolta, além de grupos mais próximos de dissidentes do leste europeu de 1989 do que de partidos de massa ou das vanguardas revolucionárias, protagonistas tradicionais de insurreições sociais.

Se no caso tunisiano a discrição do movimento islamita pode se explicar pela repressão feroz, que impediu a ação do partido Ennahda, paradoxalmente, a atitude covarde da Irmandade Muçulmana egípcia estava baseada no próprio estatuto desse partido, até então tolerado pelo regime militar.

Depois de chegar ao poder, em seguida à morte de Gamal Abdel-Nasser, em setembro de 1970, Anuar El-Sadat facilitou a volta da confraria à cena pública e sua ascensão como contrapeso à esquerda nasseriana, tida como radical. A Irmandade se inscreve plenamente na liberalização econômica (infitah) promovida pelo coveiro do nasserismo, o que se traduz sociologicamente pela crescente influência, em seu seio, do número de integrantes da nova burguesia egípcia. Isso, claro, não impede que eles combatam impiedosamente a corrupção galopante.

A confraria se construiu como movimento político reacionário e religioso, cuja preocupação principal era – e continua sendo – a islamização das instituições políticas e culturais egípcias e a promoção da xaria como fonte de legislação. Contudo, a Irmandade também serviu de antídoto político a grupos integristas extremistas e violentos.

Já Sadat nunca deixou de recorrer ao argumento religioso para legitimar ideologicamente seu poder frente à contestação social e nacionalista. Preocupado em compensar o impacto do impopular tratado de paz assinado por ele com Israel, em março de 1979 (menos de seis semanas após a revolução iraniana), ele providenciou para que a Constituição sofresse emendas no ano seguinte, de modo a inscrever a xaria como principal fonte de toda legislação”, a despeito do fato de a população egípcia ser composta de uma importante minoria cristã. Essa concessão, porém, não foi suficiente para conquistar o apoio da Irmandade Muçulmana ao tratado israelo-egípcio.

Foi então que Sadat decidiu acabar com a influência da confraria. Em 1981, alguns meses antes de ser assassinado , ele lançou contra ela uma vasta campanha de prisões. Pouco após sua ascensão à presidência, como sucessor de Sadat, Hosni Mubarak mandou soltar os integrantes da Irmandade. No início, o novo presidente se apresentou como um homem moderado e sóbrio, diferente de seu predecessor. Ele também procurou compor com a Irmandade, a fim de contar com uma base de sustentação popular, ao mesmo tempo em que perpetuava o regime de liberdade controlada de Sadat.

 

a inspiração que veio da turquia

As relações da Irmandade com o regime ficaram mais tensas em 1991, por ocasião da participação do Egito na coalizão comandada pelos Estados Unidos contra o Iraque, durante a Guerra do Golfo. E, nos últimos dez anos, a Irmandade viveu dividida entre a fraqueza conservadora de seus dirigentes mais velhos e a pressão de uma parte de seus executivos mais jovens, no sentido de uma reivindicação mais ativa de liberdade política. Em 2002, os partidários de uma posição política mais audaciosa se sentiram então encorajados pela ascensão ao poder, pela via parlamentar, do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) na Turquia, de origem muçulmana conservadora. A experiência parecia confirmar a possibilidade de um modelo até então considerado impraticável! A Turquia marcava uma mudança sobretudo porque Washington e a União Europeia deram sua benção a esse novo estado de coisas. Confrontada em 2004, ao ver desmoronar o “motivo” de sua guerra contra o Iraque (“a presença de armas de destruição em massa”), a administração Bush alegou a “promoção da democracia” como objetivo oficial da política americana no Oriente Médio. Incentivadas pela evolução tranquilizadora da experiência turca, não faltaram vozes em Washington para defender uma atitude mais aberta para com a Irmandade Muçulmana egípcia. Cedendo à pressão, mesmo que de má vontade, Mubarak introduziu o pluralismo nas eleições de 2005 e concedeu mais cadeiras parlamentares à oposição, em especial à confraria. Com isso, o líder egípcio esperava demonstrar que as eleições livres no Egípcio beneficiavam a Irmandade mais do que a outros. Alguns meses depois, em janeiro de 2006, a vitória eleitoral do Hamas, na Palestina, jogou uma pá de cal na declarada pretensão dos Estados Unidos de “promover a democracia” na região em geral e no Egito em particular.

Ao ascender ao poder, Barack Obama discursou no Cairo, em junho de 2009, afirmando seu apoio à democratização da região. Após algumas hesitações, a Irmandade se fez representar na Associação Nacional pela Mudança a coalizão predominantemente liberal, criada em fevereiro de 2010, tendo como figura de proa Mohammed El-Baradei. Entretanto, alguns meses depois, ignorando os apelos da oposição liberal, de boicote às eleições parlamentares de novembro-dezembro, os Irmãos Muçulmanos participaram do primeiro turno na esperança de, em troca, conseguir a renovação de uma boa parte dos mandatos. Mas o resultado não lhes deixou outra escolha a não ser boicotar o segundo turno.

O país se transformou então em barril de pólvora, e a centelha veio da Tunísia. Redes sociais e coalizões de jovens oponentes ao regime conclamaram a manifestação de 25 de janeiro último. Temendo uma vez mais atrair a mão forte do regime, a Irmandade decidiu não se associar à convocação. Só no terceiro dia é que ela se juntou ao movimento, decidindo participar dos protestos com a presença de sua força organizada. Simultaneamente, os dirigentes da confraria tomaram o cuidado de multiplicar os elogios ao exército por saber que esse núcleo duro do regime seria chamado a assumir um dos lados do conflito, decidindo o rumo da situação.

Quando Mubarak designou o chefe dos serviços de informação, Omar Suleiman, como vice-presidente, e este último conclamou a oposição ao que chamou de “diálogo”, o comando da Irmandade aceitou se encontrar com ele. Essa concessão, somada à recusa de se aliar à fase inicial do movimento de revolta, contribuiu para desacreditar a confraria entre os jovens dirigentes da mobilização (os chebab). Finalmente, quando Mubarak cedeu, a Irmandade saudou a junta militar, enquanto pedia que fossem libertados os prisioneiros e que o estado de sítio fosse suspenso. Além disso, declarou sua intenção de fundar um partido político legal.

Dessa forma, a confraria contribuiu para a chamada “transição dentro da ordem” (orderly transition), defendida por Washington desde o início da insurreição egípcia. A Irmandade se viu obrigada a dar garantias, afirmando que não tinha aspirações a tomar o poder, mas tão somente a gozar de direitos democráticos. Foi assim que Essam El-Errian, um dos dirigentes da confraria, afirmou ser “contra o Estado religioso”, mas a favor de um Estado civil de referência religiosa1”. O termo árabe usado – marja’iyya – pode designar uma instância jurídico-teológica encarregada de verificar a compatibilidade com o Islã, das leis votadas pelo Parlamento, e dotada de um veto legislativo nesse sentido.

Para garantir o apoio da Irmandade, os militares nomearam para o comitê de revisão da Constituição um dos membros mais vistosos da confraria, o advogado e ex-deputado Sobhi Saleh, autor de um livro contra a laicidade. E colocaram como líder desse mesmo comitê Tareq El-Bishri, jurista que sublinha a necessidade de fundamentar a legislação do país na xaria.

Mas, enquanto o potencial revolucionário de 25 de janeiro não tiver sido sufocado, sua eventual radicalização, pode acabar dando origem a uma corrente de esquerda, em comparação com a qual a Irmandade Muçulmana apareceria como um mal menor. Tanto para Washington quanto para seus clientes militares egípcios.



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