A INVENÇÃO DA VIOLÊNCIA COMUNITÁRIA

Um dispositivo de repressão contra a emancipação popular no Haiti

Desde 1994, bandidos e polícia fazem uma cogestão da segurança pública com o objetivo de conter o projeto de emancipação popular

É próprio do neocolonialismo continuar organizando ou compartimentando os espaços sociais e geográficos em zona de ser e zona de não ser em função do critério racial. A necropolítica se constitui como a norma nas zonas de não ser. Até o capitalismo se aproveita da desvalorização das vidas humanas nas zonas de não ser para intensificar sua exploração econômica. Numa zona como essa, o direito do precariado racializado de fazer frente aos mecanismos nacionais e globais de precarização da sua vida é sutilmente negado. O clima político violento e repressivo instaurado pelo necropoder pós-pandêmico inviabiliza as iniciativas populares de denúncia e reivindicação. A repressão comunitária pode ser entendida como uma tática liberal-colonial concebida na esteira do programa de apagamento da figura do soberano, por considerar mais eficiente uma necropolítica liberal do que uma necropolítica estatal para oprimir e reprimir o precariado racializado no Haiti.

Invenção da violência comunitária no Haiti

A violência existe em toda sociedade no planeta; no Haiti, sempre houve violência na família, na política, nos bairros etc. Como e quando a violência começou a ser percebida como um fato ou uma ação comunitária? Essa pergunta nos levou ao programa de Redução da Violência Comunitária (RVC). O programa de Redução da Violência Comunitária (RVC) da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) foi estabelecido em 2006 sob os auspícios da seção de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) do Escritório do Estado de Direito e Instituições de Segurança (Orolsi) do Departamento de Operações de Manutenção da Paz (DPKO) das Nações Unidas (MINUSTAH, 2016). Assim, a resolução S/RES/1702, em sua décima primeira recomendação, solicita “à Minustah que reoriente seus esforços de desarmamento, desmobilização e reintegração, para promover esse objetivo, em direção a um programa abrangente de redução da violência comunitária adaptado às condições locais, incluindo assistência a iniciativas para fortalecer a governança local e o Estado de Direito e para proporcionar oportunidades de emprego a ex-membros de gangues e jovens em situação de risco, em estreita coordenação com o Governo do Haiti e outros atores relevantes, incluindo a comunidade doadora” (tradução nossa, 2006, p. 3).[1]

A violência comunitária pode ser entendida aqui como atos violentos cometidos por pessoas armadas nas zonas ou bairros precários. Assim, essa violência, ao ser qualificada como fato ou ação comunitária, tende a ser vista como um ato isolado da dinâmica social e global das violências de classe, gênero e raça que atravessam a sociedade haitiana. Por meio desse programa (RVC) formalizado pela resolução S/RES/1702 de 2006, a Minustah inventou um novo tipo ideal de violência que não corresponde ao gênero de violência existente nos bairros populares. Como resultado, ao longo dos anos essa ideia foi trabalhada até se tornar realidade, graças a grandes investimentos e à colaboração de muitos setores da sociedade, como as ONGs, o setor privado, o setor cultural e o Estado.

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Crédito: 666shaniy/Pixabay

A música do artista Belo intitulada “Lakou trankil” [2] foi lançada em 2006, no mesmo ano do estabelecimento do programa de RVC pela Minustah. Nessa música, o artista preconiza paz e tranquilidade para o “lakou”. Este último é um modo de organização da vida ou uma estrutura camponesa de solidariedade que tem muitas características parecidas com as comunidades de outras tradições culturais da América Latina. Nesse sentido, o título e o conteúdo da música de Belo, que se refere ao “lakou” como comunidade, são metafóricos em relação ao programa de redução da violência comunitária no Haiti. Um grupo social foi claramente apontado e identificado como responsável pela violência comunitária nessa famosa frase: “Nou vle lapè, nou pa vle gè, dread natty dread, nou vle pou sa chanje pou lakou a kapab trankil”.[3] Sua música é nutrida de muitos preconceitos sociais em relação ao visual dreadlocks, que supostamente seria o principal instigador da violência nas comunidades. Para direcionar melhor sua mensagem, ou para se dirigir à categoria “dreadlocks”, ele escolheu ritmar sua música no gênero musical reggae.

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Foto do artista Belo no videoclipe da música “Lakou trankil”. (Fonte: YouTube)

No videoclipe da música, o artista não deixa aos demais a tarefa de adivinhar a relação entre sua música e o propósito da missão onusiana da época. A violência chamada de comunitária que a Minustah pretende reduzir foi a mesma que ele traduziu em “Lakou trankil” em uma linguagem propriamente haitiana e popular. Por isso, ele filmou a presença dos capacetes azuis no vídeo para evitar dúvidas. Mas as gangues, enquanto agentes de violência comunitária, não podiam se consolidar como atores influentes sem as contribuições importantes de outros setores da Internacional comunitária e da sociedade haitiana. Elas passaram a se denominar agentes de desenvolvimento por sua participação crucial nos projetos de desenvolvimento comunitário das ONGs (OLIVIER, 2020). Na verdade, cabe às ONGs a responsabilidade de criar empregos para a reinserção social das gangues, conforme a recomendação da resolução S/RES/1702. Essa ideia de que as gangues são líderes comunitários também é promovida por alguns membros do setor privado numa entrevista concedida por Reginald Boulos ao jornalista Yvenert F. Joseph sobre a crise haitiana. Essa entrevista se desenrolou nas ondas da Rádio Sans Fim (RSF), cuja frequência é 92.3 e 97.5, em 2019, durante o período de efervescência política de 2018 a 2021:

Jornalista: “Diz-se que o senhor Reginald Boulos mantém relações com certos integrantes de grupos armados nos bairros populares, em particular no Cité Soleil. Eles recebem financiamento seu para funcionar. É verdade?”.

Boulos: “Eu vou responder claramente. Sim, trabalhei no Cité Soleil por cerca de 14 anos. Tenho relações com Ti Hougan, Ti Gabriel e Isca, que são atualmente, para mim, os líderes dessas zonas. Não sou responsável pelo desarmamento dos homens armados de Cité Soleil; há um corpo de polícia nacional para essa tarefa. Não financio ninguém para abastecimento de armas e munições; financio atividades esportivas e escolares, então eu os financio para fazer programas sociais. Com efeito, quando há ausência do Estado em um bairro como Cité Soleil, Ti Hougan, Ti Gabriel, Isca, Lolo, Ti Croix e Chinois substituem o Estado. Essa é a realidade”.

A apreensão da atividade das gangues como ação comunitária pela Internacional comunitária levou à apropriação distorcida dos valores de comunidade autêntica das massas populares haitianas. Pois a expressão “Viv ansanm” (viver solidário ou bem viver) refere-se à lógica de solidariedade comunitária dos camponeses, a partir da qual eles desenvolvem práticas solidárias de trabalho ou de agropecuária. “Viv ansanm” se apresenta como o princípio básico da organização do “lakou” em si e como o princípio de regulamentação das relações entre os “lakou” que conformam cada zona do espaço rural haitiano. A federação das gangues, formada no decorrer do ano de 2020 pelo governo Jovenel Moïse, abertamente amparado pelos países membros do Core Group, se denomina “G9 Viv ansanm, fanmi e alye”. Como atores colocados em um determinado papel, eles o desempenham muito bem em uma interação simbólica, maquiando suas atividades violentas com o valor “Viv ansanm” da comunidade rural haitiana.

O gangsterismo: uma ação comunitária

Queremos diferenciar vida comunitária e ação comunitária antes de tudo para poder desenvolver minhas reflexões neste trabalho. A vida comunitária se refere às práticas de solidariedade, resistência e apoio mútuo entre pessoas do precariado rural e urbano. Já a ação comunitária se explica pela motivação exógena da intervenção de um conjunto de atores que tendem a forjar, circunscrever e isolar certos problemas sob a alegação de que são questões de comunidade. De outro modo, ela pode ser entendida como uma ação que responde aos interesses hegemônicos globais. Cada vez que a Internacional comunitária precisa intervir sobre um assunto, ela o problematiza como uma questão comunitária, em vez de uma questão social sistêmica. Assim, a questão do gangsterismo passou a ser problematizada como comunitária pelos atores da Internacional comunitária desde 2006, no Haiti, por meio da Minustah. Com o passar do tempo, as gangues vieram a se tornar conscientes do seu papel de agentes comunitários e o gangsterismo passou a ser definido como um tipo de ação comunitária. A ação comunitária, por ter o individualismo e o colonialismo como força motora, se destaca como uma racionalidade contrária à vida comunitária autêntica. Por isso, o gangsterismo, o capitalismo, o onguismo e as missões internacionais se definem, pela sua lógica, como ação comunitária. Neste trabalho, entendemos por violência comunitária um tipo de violência vinculado à lógica liberal-colonial da ação comunitária promovida pela Internacional comunitária. Contudo, não pretendemos estudar a violência comunitária em todas as suas dimensões, mas apenas em sua dimensão repressiva.

Jean-Anil Louis-Juste define a Internacional comunitária como “o complexo movimento internacional que promove esse tipo de ação individual-comunitária contra o movimento comunista, no mundo” (LOUIS-JUSTE, 2007, p. 167). Com foco no estudo do desenvolvimento comunitário, ele forjou esse novo conceito para caracterizar o imperialismo contemporâneo com caráter humanitário. Mas, no presente trabalho, pretendemos chamar atenção para outros aspectos constitutivos da lógica operatória da Internacional comunitária. Com efeito, o modo operatório da Internacional comunitária repousa em dois pilares: neoliberalismo e neo-racismo. A Internacional comunitária, por meio das ações dos agentes comunitários, reproduz a lógica necropolítica e a retórica civilizadora do colonialismo no Haiti. Mas, embora a função do Estado de responder às demandas populares não seja a única que foi transferida para agentes comunitários (as ONGs, missões internacionais e grupos armados), constatamos que sua função de reprimir o precariado insurgente também foi compartilhada com esses agentes. Assim, o necropoder, apesar de ter o Estado como sua sede de predileção, opera também por meio de dispositivos não estatais, como o mercado, as ONGs, as missões humanitárias internacionais e os grupos armados das zonas precárias. A implantação e a exploração do capitalismo no mundo respondem aos critérios de classificação racial ou de colonialidade das sociedades; assim, destacamos um capitalismo para a zona de ser e um capitalismo para a zona de não ser. A repressão comunitária é liberal por levar adiante a agenda neoliberal de desestatização e desterritorialização no Haiti; ela é também neocolonial por reproduzir as práticas de violência racial que reforçam o Haiti como zona de não ser, conhecidas como necropolítica na contemporaneidade.

Essa forma de controle da vida e de planejamento da morte do precariado, vinculada à necropolítica, que acabou escapando dos mecanismos institucionais de repressão do Estado em favor dos agentes comunitários, se denomina repressão comunitária neste trabalho. A repressão comunitária propicia capacidade de contenção da insurgência do precariado sem a necessidade de intervenção direta do Estado. Ela tem o papel de condicionar as massas populares a sentir a crise social de modo comunitário e a buscar solucioná-la no âmbito comunitário distorcido. A repressão comunitária é um dispositivo de violência de proximidade em relação às massas populares, que se articula com a lógica liberal-colonial da Internacional comunitária. A repressão comunitária pretende despossuir o Estado de sua última prerrogativa. Desde a década de 1990, os atores políticos fizeram tudo o que puderam para alinhar a violência estatal com a violência comunitária, mas acabam finalmente se chocando no cenário pós-pandêmico da crise haitiana, porque a lógica da violência comunitária é um contrapeso à lógica da violência estatal, conforme a agenda necropolítica liberal da Internacional comunitária para o Haiti.

Contudo, o Estado haitiano não tem um projeto contrário e alternativo à agenda necropolítica da Internacional comunitária, embora perca importância e relevância dentro de uma agenda necropolítica liberal que prefere, de qualquer forma, não dar destaque à figura do soberano. Nesse sentido, o cenário pós-pandêmico (a partir de 2021) da crise haitiana oferece um campo de observação de um novo modelo de repressão que reforça as respostas comunitárias despolitizadas das massas populares. O cenário pós-pandêmico deixou o Estado ainda mais fragilizado diante do avanço desastroso da globalização; a sociedade, ou o precariado, por sua vez, tão habituado a lidar com a necropolítica estatal, ainda não consegue articular respostas adequadas à necropolítica liberal. A desterritorialização e a desestatização propiciadas pela violência comunitária das gangues são essenciais para a dinâmica da globalização liberal necropolítica.

A repressão na origem e na lógica da chamada violência comunitária no Haiti

Após anos de repressão e massacres por parte do exército haitiano durante o regime ditatorial dos Duvalier, finalmente em 1990 as lutas populares resultaram na eleição do presidente Jean-Bertrand Aristide por sufrágio universal. Sete meses depois de sua posse, a produção nacional aumentou e o salário dos trabalhadores da zona franca subiu de 15 para 28 gourdes (BARTHELEMY, 2008). O presidente norte-americano George Bush pai não gostou do caráter popular do governo de Aristide e forneceu apoio à oligarquia haitiana até que o Exército haitiano o derrubou em 1991. Aristide se exilou enquanto os movimentos populares de resistência continuavam a luta contra a junta militar. Finalmente, em 1994, com o apoio do presidente norte-americano Bill Clinton, o ex-presidente Aristide retornou ao Haiti escoltado pelas tropas estadunidenses para a restauração da democracia.

O retorno de Aristide sob a bandeira norte-americana marcou sua ruptura com a democracia popular e seu compromisso com a democracia liberal. Com efeito, em 1995, o governo de René Préval, sob a influência de Aristide, decretou uma nova tarifa aduaneira, que passou de 20% para 8%. Esse percentual de 20% havia sido estabelecido pelo ministro da Economia Lesly Delatour em 1987, enquanto a tarifa era anteriormente estimada em 50% (Ibidem). Apesar disso, Aristide obteve um segundo mandato com uma vitória esmagadora nas eleições presidenciais de 2000. Contudo, ele foi deposto novamente pela oligarquia local, com a ajuda do presidente norte-americano George Bush filho, em 2004, por vingança política. Por conseguinte, entre 1994 e 2004, os movimentos populares conheceram um período de divisão e declínio devido ao desvio político de Aristide para o neoliberalismo.

Isto é, o retorno de Aristide ao país e ao poder, comprometido com a paz democrática liberal, levou ao retrocesso na dinâmica política dos movimentos populares. Ele provocou a desmobilização de uma boa parte desses movimentos, que acreditavam na melhoria de seus problemas sociais com ele. Essa situação gerou insatisfação entre os líderes políticos aliados e causou também uma fragmentação dos movimentos populares em vários blocos, dependendo do partido ao qual estavam organicamente vinculados. Para consolidar a paz democrática liberal, Aristide armou seus seguidores, conhecidos como “Chimè (Raivosos)”, [4] nos bairros populares. Ele distribuiu certos cargos importantes para eles nas instituições públicas em processo de privatização. Também os mobilizou para intimidar e enfrentar violentamente as mobilizações estudantis entre 2003 e 2004.

No ano de 2004, abriu-se um novo ciclo de movimentos populares no Haiti a partir da deposição de Aristide e da intervenção das forças multinacionais onusianas conhecidas como Minustah. Antes dessa, as ONGs não operavam dentro dos parâmetros da manutenção da paz. A partir de 2006, com a adoção da resolução S/RES/1702, a Minustah canalizou todos os esforços da Internacional comunitária e da sociedade haitiana para combater um tipo de violência que ela qualificou como comunitária e desestabilizadora. Desde então, intensificou-se a mobilização comunitária nos bairros populares onde as gangues se radicam em detrimento da mobilização contestatória.

Todavia, no pano de fundo da crise, as demandas populares permanecem as mesmas: participação política e melhores condições de vida. O ciclo político pós-2004 fracassou em oferecer alternativas ao liberalismo pós-Guerra Fria em aplicação desde 1987. Nessa sequência, em 2011, o contexto pós-terremoto propiciou a vitória de Michel Joseph Martelly nas eleições, apoiada pelos Estados Unidos por meio do Core Group, mas denunciada por fraudes em larga escala pelas mobilizações populares. Em 2016, a vitória de Jovenel Moïse, também apoiado por Martelly e Washington, foi contestada pelas mobilizações populares e pelos partidos adversários por suspeitas de fraude. As contestações resultaram na anulação dos resultados e, após uma transição de um ano, Moïse foi novamente confirmado por Washington nas eleições de 2017. Em consequência, em 2018, as massas ocuparam novamente a cena política para exigir mudanças do Estado e da comunidade internacional. Em conclusão, a experiência democrática haitiana foi marcada por fraudes eleitorais, golpes de Estado e contestações populares e partidárias por causa da intromissão de Washington no processo.

Após o terremoto de 2010, Michel Joseph Martelly venceu as eleições presidenciais em razão do apoio considerável da Internacional comunitária. Em contrapartida, ele ampliou a abertura da economia nacional ao mercado global liberal, adotando o slogan “Haiti is open for business”. Para manter a lógica política liberal, criou também seu grupo de fiéis seguidores, chamados “bandidos legais”, que cumprem a vontade do presidente sem hesitar. Isso virou uma prática normalizada na gestão política e administrativa da sociedade haitiana. Pois bem, em 2016, o Estado permitiu que Fritz Deshommes, reitor de facto da Universidade Estatal do Haiti (UEH), constituísse seus próprios grupos armados, entre eles estudantes pró-statu quo, para reprimir os movimentos estudantis. Essa experiência resultou na construção de uma milícia universitária após a crise da universidade em 2018.

Para garantir a eficiência dos planos liberais, é imprescindível um certo equilíbrio de poder entre policiais e bandidos. Essa conciliação implícita entre as duas forças levou certos indivíduos a acumular muito poder em seus bairros ao assumir, ao mesmo tempo, funções de bandido e de policial. Este é o caso da maioria dos integrantes de uma facção criminosa chamada “Base Pilate”, radicada nos bairros meridionais de Porto Príncipe. Essa organização de bandidos foi fundada no final da década de 1990, durante a gestão do partido Lavalas, e, a partir de 2011, passou a fazer parte dos “bandidos legais” durante a gestão do partido PHTK. Desde 1994, bandidos e polícia fazem uma cogestão da segurança pública com o objetivo de conter o projeto de emancipação popular.

Com os bairros populares sob controle do crime, muitas vezes os habitantes são impedidos de sair para participar das mobilizações, sob pena de serem expulsos de seu bairro. Segundo Osna e Lucien, a função das gangues é diversa: 1) desempenhar o papel de censores e sancionar os habitantes que, sem sua avaliação, participam das mobilizações populares; 2) promover um choque entre as organizações progressistas e os habitantes dos bairros populares; 3) criminalizar os movimentos (OSNA e LUCIEN, 2023). Não por acaso, em 2020, um relatório do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH) declarou que “o maior controle do G9 sobre partes da área metropolitana parece ter tido um impacto nas tendências gerais da criminalidade durante o período em análise. Os homicídios intencionais denunciados à polícia diminuíram 12% entre 1º de junho e 31 de agosto e resultaram em 328 vítimas (incluindo 24 mulheres e 9 crianças), em comparação com 373 (incluindo 9 mulheres e 12 crianças) durante os três meses anteriores” (BINUH, 2020, p. 5, tradução nossa).[5] A federação das gangues sob o nome de G9 foi uma iniciativa do Core Group e do governo Moïse. Assim, a intervenção internacional humanitária, de 1990 até hoje, tornou-se um grande espetáculo liberal que pretende resolver uma crise que a Internacional comunitária e a oligarquia local continuam alimentando. No fim, constatando a gravidade da situação, a Internacional comunitária admitiu a função repressiva das gangues contra a mobilização popular: “Desde a presidência de François Duvalier e, em particular, desde as células de Michel Martelly, as gangues são utilizadas para perturbar o processo político, intimidar a oposição e a população em geral e garantir votos e lucros econômicos. Essas gangues se multiplicaram ainda mais a partir de 2018, instrumentalizadas pela elite política e econômica, assim como pelos altos funcionários, para reprimir a mobilização popular (por exemplo, no âmbito de negócios controversos, como o escândalo Petrocaribe), cometendo massacres (por exemplo, La Saline) ou paralisando as atividades sociais e econômicas (peyi lok, ou “pays verrouillé”)”[6] (ONU, set. 2023, p. 13-14).

 

Samuel Morancy é graduado em Ciência Política e Sociologia pela Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila) e mestrando no Programa de Pós-graduação em Integração Contemporânea da América Latina (Ppgical-Unila).

 

Referências

BARTHELEMY, Yves. Haiti et la mondialisation néolibérale: une nouvelle dépendance coloniale (1970-2008). Kaye Pwogresis no 1, ASID, Port-au-Prince, 2008.

BELO. Lakou trankil. 2006. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=bICDkyVqLv4&list=RDbICDkyVqLv4&start_radio=1> Acesso em 05 de janeiro de 2026.

BINUH. Relatório S/2023/674. Publicado em 15 de setembro de 2023. Disponível em: <https://www.ecoi.net/en/file/local/2100024/N2324628.pdf>. Acesso em 20 de janeiro de 2026.

Entrevista do empresário Réginald Boulos sobre sua relação com os gangues nos bairros populares precários. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=PZZXSx3qlKs>. Acesso em 25 de dezembro de 2025.

LOUIS-JUSTE, Jean-Anil. Internacional comunitária: ONGs chamadas alternativas e projeto de livre individualidade: crítica à parceria enquanto forma de solidariedade de espectáculo no desenvolvimento de comunidade no Haiti. Recife, 2007, 354 folhas. Tese (doutorado), Universidade Federal do Pernambuco, CCSA, Serviço Social, 2007.

MBEMBE, Joseph A. Necropolítica. Arte & Ensaios. Revista do ppgav/eba/ufrj, n. 32, dezembro de 2016, Rio de Janeiro.

MINUSTAH. Community violence reduction (CVR) programme in Haiti. Lessons learned exercise. Written by Jan J. Voordouw et. al. Published on June 16th of 2016

OLIVIER, Djems. Territoires de la violence, territoires des ONG: Quelle (in)cohérence? Paris, 2020, 422 feuilles, Thèse (Doctorat), Université Paris 6 – Vincennes – Saint-Denis, École doctorale: sciences sociales – ED 401, Laboratoires dynamiques et recomposition des espaces, Géographie, 2020.

ONU. Resolução 1702. Disponível em: <https://docs.un.org/en/s/res/1702(2006)>. Acesso em 22 de janeiro de 2026.

OSNA, Walner; LUCIEN, Georges Eddy. Gansterisation d’Haiti: du contrôle territorial au démantèlement des mouvements populaires. France Amérique Latine Magazine (FALMAG), No 153, Paris, Avril 2023. Disponível em: <https://www.franceameriquelatine.org/3d-flip-book/fal-mag-153/>.

 

[1] Requests MINUSTAH to reorient its disarmament, demobilization and reintegration efforts, to further that goal, towards a comprehensive community violence reduction programme adapted to local conditions, including assistance for initiatives to strengthen local governance and the rule of law and to provide employment opportunities to former gang members, and at-risk youth, in close coordination with the Government of Haiti and other relevant actors, including the donor community;

[2] Comunidade em paz (tradução nossa).

[3] Queremos paz, não queremos guerra, dread natty dread, queremos que isso mude para que a comunidade possa ser tranquila (tradução nossa).

[4] Também chamados chefes de OP (Organização popular). Com isso, o Aristide banalizou as organizações populares que lutavam veementemente para uma melhora das condições sociais de vida, contra a ditadura e o imperialismo.

[5] Le renforcement du contrôle du G9 sur certaines parties de l’agglomération semble avoir eu une incidence sur les grandes tendances de la criminalité au cours de la période à l’examen. Les homicides volontaires signalés à la police ont diminué de 12 % entre le 1er juin et le 31 août, et ont fait 328 victimes (dont 24 femmes et 9 enfants) contre 373 (dont 9 femmes et 12 enfants) au cours des trois mois précédents (BINUH, Setembro 2020, p. 5).

[6] Depuis la présidence de François Duvalier et en particulier depuis celle de Michel Martelly, les gangs sont utilisés pour perturber les processus politiques, intimider l’opposition et la population en général et s’assurer des votes et des profits économiques. Ces gangs se sont multipliés encore plus à partir de 2018, instrumentalisés par l’élite politique et économique ainsi que par de hauts fonctionnaires pour réprimer la mobilisation populaire (par exemple, à la suite d’affaires controversées, comme le scandale Petrocaribe), commettre des massacres (par exemple, La Saline) ou paralyser les activités sociales et économiques (peyi lok, ou « pays verrouillé » (ONU, Sept. 2023, p. 13-14).

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