Um novo agente toma o poder no Iêmen - Le Monde Diplomatique

O REVÉS DA IRMANDADE MUÇULMANA

Um novo agente toma o poder no Iêmen

por Laurent Bonnefoy
5 de novembro de 2014
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A tomada de Sanaa pela rebelião houthi em 21 de setembro de 2014 pôs fim à dominação da Irmandade Muçulmana, no poder desde o levante de 2011. A queda repentina da capital do Iêmen diante de um movimento xiita, sem grande resistência do Exército, representa para muitos uma surpresa e provoca leituras fantasiosasLaurent Bonnefoy

 Homem com perna amputada atravessa muro atingido por morteiro em Saana 

Em 2007, quando se iniciava um quarto ciclo da assassina “guerra do Saada” (mais de 30 mil mortos desde 2004), no norte do Iêmen, opondo o presidente Ali Abdallah Saleh a alguns membros da minoria zaidita xiita,1 poucos apostariam que o chefe dos rebeldes, Abdelmalik al-Houthi, se tornaria um dia o homem forte do campo político do Iêmen. Ele era então apenas o novo chefe dos houthis, um movimento armado que se inspirou em seu nome e se mobilizou na região setentrional de Saada. Nascido no início dos anos 1980, ele tinha sucedido a seu irmão mais velho, morto em 2004 nos combates, e a seu pai, cuja saúde estava deteriorada.

A reivindicação por parte dos houthistas de sua identidade zaidita aparecia como marginal em um país que não se estruturava mais prioritariamente em torno do enfrentamento entre zaidismo xiita (cerca de um terço da população) e chafeísmo sunita, majoritário. A favor de um processo de convergência histórica das identidades religiosas, a maioria das elites (entre elas o próprio presidente Saleh) e uma ampla parte da população, ainda que de origem zaidita, tinham abandonado essa afiliação à procura de uma identidade muçulmana mais global.2

Os houthistas se inscrevem desde 2004, de modo cada vez mais manifesto, num universo simbólico explicitamente xiita. Próximos do Irã e do Hezbollah, eles apoiam o regime de Bashar al-Assad na Síria e defendem slogans antinorte-americanos e anti-israelenses parecidos com os entoados em 1979 nas ruas de Teerã, ao mesmo tempo que se reapropriam de algumas festas especificamente xiitas, como a achura.3

Em seguida ao levante pacífico de 2011,4 a partida do presidente Saleh parecia deixar o campo livre para a principal formação de oposição: o partido Al-Islah, uma aliança da Irmandade Muçulmana com algumas elites tribais conservadoras. No auge da mobilização de 2011, o apoio logístico e humano oferecido pelo partido islamo-tribal e sua experiência tinham indiscutivelmente trazido a massa crítica necessária para o movimento revolucionário.

 

Reconfiguração do campo tribal

O governo de união nacional formado em novembro de 2011 para acompanhar a transição política consecutiva à demissão de Saleh contava com diversos membros do Al-Islah. Os órgãos de segurança foram progressivamente confiados a um número cada vez maior de pessoas próximas ao partido. Seus chefes apareciam enfim como os principais aliados do presidente interino Abderabuh Mansur Hadi, jogando o jogo da transição e reclamando para si a legitimidade revolucionária. Desde então, a trajetória do Al-Islah em direção ao poder parecia mais que provável, antes da série de fracassos sofridos pela Irmandade Muçulmana na região. Assim, a tomada de Sanaa pelos houthistas, adversários do Al-Islah, foi rapidamente interpretada dessa forma.

Fortalecidos pela lição aprendida com a expulsão de Mohamed Morsi pelos militares em 3 de julho de 2013, pouco mais de um ano depois da eleição do membro da Irmandade Muçulmana para a Presidência egípcia, os dirigentes do Al-Islah tomaram cuidado para não aparecer na primeira linha e não dar a impressão de confiscar o processo revolucionário. Mas seus aliados tribais e militares, que historicamente tinham tido um papel preponderante em sua base social, provocaram sua queda. A Irmandade Muçulmana do Iêmen deveria, a partir de então, rever suas ambições e seu modo de organização.

A ofensiva houthista em Sanaa escolheu como alvo principal Ali Mouhsin. Antigo conselheiro próximo do presidente Saleh, ele tinha encabeçado a primeira divisão blindada para conduzir a guerra de Saada contra os houthistas. Sua deserção em março de 2011 havia contribuído para a queda do déspota. A tomada da base de Mouhsin e sua fuga para a Arábia Saudita, em 21 de setembro de 2014, demonstram a vontade de vingança dos houthistas. Muitos notam também que o ex-presidente Saleh poderia ter apoiado discretamente os rebeldes, pedindo, por exemplo, aos militares que ainda eram leais a ele que não combatessem. Estranhamente, no dia da tomada de Sanaa, ele se contentou em postar em sua página do Facebook uma fotografia de si mesmo sorrindo.

 

Os dez filhos de Abdallah al-Ahmar, fundador do partido Al-Islah e grande líder tribal falecido em 2007, também sofreram pressões dos houthistas instalados na capital. Em sua luta contra a rebelião, o clã Al-Ahmar perdeu progressivamente o apoio das tribos do norte da capital, o que dá provas de uma reconfiguração profunda do campo tribal. Os novos mestres de Sanaa também fecharam rapidamente a universidade religiosa Al-Iman, mantida por Abdel-Majid al-Zindani, personagem controverso do Al-Islah e antigo companheiro de Osama bin Laden.

Tawakkol Karman, militante liberal do campo islamita e Prêmio Nobel da Paz em 2011, assim como Mohamed Qahtan, figura importante do Al-Islah que foi o pino mestre de uma aproximação com os socialistas5 e alguns partidos zaiditas no início dos anos 2000, tiveram suas casas saqueadas, o que deu à ofensiva houthista um ar de expedição punitiva anti-Irmandade Muçulmana, correndo o risco de alimentar as tensões confessionais entre os partidários da renovação zaidita xiita e os islamitas sunitas.

Al-Houthi e seu porta-voz, Ali al-Boukhaiti, colocaram a tônica numa dimensão mais global de sua ofensiva: a salvação da revolução de 2011. O anúncio, em julho de 2014, do fim das subvenções estatais aos produtos petroleiros serviu como estopim para a marcha dos houthistas em direção a Sanaa. Al-Houthi e seus apoiadores contestaram o aumento dos preços dos combustíveis e a diminuição do poder de compra, exigindo a destituição de um governo qualificado como corrupto. Eles pediam a aplicação das conclusões ambiciosas da Conferência de Diálogo Nacional (que inclusive eles não tinham apoiado durante sua adoção em janeiro de 2014) em matéria de luta contra a corrupção, de participação dos cidadãos na vida política e de partilha do poder.

Tais reivindicações deram aos houthistas um espaço social e político que ia além das fileiras dos zaiditas. Elas explicam, por um lado, a fraqueza da resistência diante de seu avanço em Sanaa, onde, em razão das migrações internas, uma parte significativa da população não é de origem zaidita. A falta de ação dos partidários do ex-presidente Saleh, até mesmo a relativa passividade dos apoiadores do presidente Hadi e da “comunidade internacional”, dão testemunho tanto de uma estratégia hostil à Irmandade Muçulmana quanto de uma vontade de conciliação visando evitar a ruptura e o uso de violência. Com relação a isso, a implicação da ONU e de seu representante especial, o marroquino Jamal ben Omar, foi decisiva na assinatura de um acordo em 21 de setembro entre os houthistas e o poder vigente.

Após o fracasso de um primeiro candidato, a nomeação árdua de um governo de tecnocratas dirigido por Khaled Bahah permitiu integrar os houthistas e marcou certa normalização. Ainda que estivessem organizados em milícias armadas que ocupavam os prédios públicos, eles não representavam apenas uma rebelião vinda de uma periferia geográfica e social, mas um segmento central do poder.

Para realmente ultrapassar a dimensão confessional, os houthistas deverão dar provas desse comprometimento. As dívidas são pesadas e as tensões com as forças sunitas continuam particularmente vivas. Alguns dias após a tomada de Sanaa, militantes da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) ameaçaram a rebelião e depois colocaram seu plano em ação. Um militante jihadista se explodiu no centro de Sanaa em 9 de outubro, matando 47 pessoas, às quais se somam vinte mortos em um atentado perpetrado no sul. No mesmo momento, Yahya al-Hajouri, ex-diretor do instituto salafista de Dammaj, organizava conferências em Aden e Taez, regiões exclusivamente sunitas, convocando uma mobilização contra aqueles que ele designa pelo vocábulo pejorativo de rawafidh(xiita).

A análise das motivações políticas, sociais e estratégicas do apoio da população de Sanaa aos houthistas permite com certeza dar nuances para a leitura confessional dos objetivos. No entanto, tal análise, saudável, não pode invalidar completamente a lógica de confessionalização dos conflitos. Esta se revela também uma herança do regime Saleh, que, desde o início da guerra de Saada em 2004, não parava de relembrar os houthistas de sua origem zaidita e suas ligações, inicialmente fantasiosas, com o Irã, ao mesmo tempo que instrumentalizava os islamitas sunitas.

Potência regional cuja ingerência marcou a história do Iêmen, a Arábia Saudita tem um papel mais complexo do que parece nisso tudo. O modo de leitura dominante no mundo árabe vê na atitude de espera da diplomacia saudita diante da ofensiva houthista o resultado de uma lógica hostil à Irmandade Muçulmana e de uma aproximação estratégica com o Irã. Essa explicação não é suficiente. A criminalização da Irmandade Muçulmana, qualificada pelo poder saudita como movimento terrorista, decorre claramente da política interna de Riad, de sua rivalidade com o Catar e de seu apoio ao regime do marechal Abdel Fattah al-Sissi no Egito. No entanto, os diplomatas sauditas lembraram diversas vezes que essa política não diz respeito à Irmandade Muçulmana no Iêmen.

 

Confusão em Riad

Mais do que uma manipulação saudita caracterizada por uma aliança inesperada (e a priori contra a natureza) com os houthistas contra a Irmandade Muçulmana, a passividade de Riad seria a expressão de uma fraqueza estrutural. A diplomacia do reino no Iêmen é marcada por uma incapacidade de agir, de formular uma política e objetivos. Essa incapacidade não é uma especificidade saudita. Os Estados Unidos e a União Europeia, que apoiam, como os países do Golfo, a transição política e o presidente Hadi, se revelam igualmente atordoados pela amplitude das crises que o Iêmen atravessa. Todos têm dificuldades em definir uma política entre a utilização maciça de drones contra a AQPA, o apoio ao Estado central e as restrições à imigração.

Resta o fato de que a crise das continuidades tradicionais da Arábia Saudita, principalmente o clã Al-Ahmar, assim como o aumento do poder da AQPA e do movimento de separação sulista, diminuem amplamente a eficiência de sua ação e a legibilidade da situação. Além disso, a multiplicidade dos agentes da diplomacia saudita – ministros, príncipes, agentes religiosos, estruturas extrapúblicas –, frequentemente concorrentes uns dos outros, parasita as políticas em curso. Tal pluralidade torna um pouco ilusória uma aproximação com o Irã, já que os diversos agentes da diplomacia saudita participaram durante anos da construção da “ameaça xiita” e da estigmatização desta tanto em termos religiosos quanto estratégicos.

BOX
Da unificação à vitória dos houthistas

 

1990. Unificação da República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte) e da República Árabe Popular e Democrática do Iêmen (Iêmen do Sul), sob a direção de Ali Abdallah Saleh, presidente do norte desde 1978.

 

1994. Tentativa de secessão do sul, esmagada pelo Exército.

 

2002. Início da campanha norte-americana de assassinato dos membros da Al-Qaeda no Iêmen. A partir de 2012, presença de forças especiais norte-americanas no território.

 

Janeiro de 2009. Fusão dos braços saudita e iemenita da Al-Qaeda, sob o nome de Al-Qaeda da Península Arábica (AQPA).

 

Janeiro de 2011. Início das manifestações contra o presidente Saleh. Enfrentamentos, por vezes armados, que duraram mais de um ano.

 

Março de 2011. A rebelião houthista, em curso desde 2004, toma a cidade de Saada.

 

Outubro de 2011.A militante Tawakkol Karman recebe o Prêmio Nobel da Paz.

 

27 de fevereiro de 2012. Saleh, que teve a imunidade acordada, entrega seus poderes ao novo presidente, Abd Rabbo Mansour Hadi.

 

Abril de 2012. Violentos combates entre o Exército e a AQPA na província de Abyane.

 

Março de 2013. Abertura da Conferência de Diálogo Nacional. Ela termina em janeiro de 2014 com um documento que deve permitir a redação de uma nova Constituição.

 

21 de setembro de 2014. Os rebeldes houthistas tomam Sanaa. Um novo governo é formado em 13 de outubro sob a direção de Khaled Bahah. Hadi permanece presidente.



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