FRANÇA E RÚSSIA, ADVERSÁRIAS MUITO PARECIDAS

Um ogro no espelho

Em 19 de agosto de 2025, Emmanuel Macron qualificou seu homólogo Vladimir Putin de “ogro” e “predador”. Segundo ele, a França deve se preparar para defender seus valores – democracia, liberdade, tolerância – contra o modelo iliberal de Moscou, inclusive militarmente. Se acreditarmos no presidente, nada há em comum entre França e Rússia. No entanto, o exame das instituições dos dois países revela algumas semelhanças perturbadoras

A priori, tudo opõe a França à Rússia. Seus sistemas político-econômicos, em primeiro lugar: ao regime capitalista liberal de mercado de Paris, Moscou contrapõe um sistema oligárquico sob tutela do Estado. Suas posturas geopolíticas, em seguida: a França defende uma ordem mundial sob hegemonia norte-americana; a Rússia, por sua vez, posiciona-se a favor de uma nova ordem mundial multipolar. Por fim, a natureza de suas democracias: quatro franceses se sucederam na presidência desde a chegada de Vladimir Putin ao Kremlin, que só a deixou entre 2008 e 2012 para tornar-se primeiro-ministro. No entanto, há um ponto estrutural em que França e Rússia exibem fortes semelhanças: o hiperpresidencialismo e as possibilidades institucionais de um enrijecimento autoritário, principalmente militar. Um exemplo: apesar da existência de disposições constitucionais que formalmente indicam o contrário,[1] os presidentes francês e russo, chefes das Forças Armadas, dispõem de prerrogativas que lhes permitem envolver discretamente seus países em…

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