Um ponto de vista comunista
Atlas de Política Experimental, fruto do trabalho de pesquisa desenvolvido pelo Subconjunto de Prática Teórica e lançado em junho pela GLAC Edições, permite desapegar do lamento pela perda de um referencial comum que orientava a política revolucionária
A leitura do Atlas de Política Experimental – livro fruto do trabalho de pesquisa desenvolvido pelo Subconjunto de Prática Teórica – me evocou duas sensações. Escolho começar esta resenha compartilhando-as, já que talvez elas não sejam só particulares. A primeira é um certo sentimento de melancolia. E a melancolia é um apego ao passado, a algo que se perdeu no passado. Acredito que isso não é à toa, porque principalmente desde os governos de Temer e Bolsonaro a gente vem perdendo muitas coisas – pelo menos, para mim, esse é o marco do começo das perdas. E esse sentimento de melancolia encontra ressonância em muitos materiais produzidos pela esquerda marxista, que constatam, e ao mesmo tempo lamentam, a dilaceração do mundo do trabalho e as dificuldades de organização política dos trabalhadores. A constatação é importante, mas o lamento pode ser paralisante. Daí resulta um quase consenso de que um mundo foi perdido, e de que não existe mais outro mundo possível. A segunda sensação é a de viver num ambiente já saturado, onde parece que se fala tanto, que circulam tantas ideias e tantas informações, mas que no fundo nada de verdadeiramente novo surge.
O Atlas é uma leitura que oferece um outro ponto de vista. Começa explorando a ideia de que existem mundos sociais – bem diferente do que achar que não existe nenhum mundo – e que, além disso, as diferentes formas de estar nestes mundos, bem como de eles interagirem entre si, produzem coisas novas. Explicando de forma teórica, os autores baseiam-se na ideia do filósofo Karatani de que existem três lógicas sociais. A da reciprocidade, nas quais o intercâmbio social ganha a forma da dádiva e da dívida – é o que forma o laço de afinidade entre as pessoas e entre as organizações. A lógica da propriedade, em que o intercâmbio social assume a forma da pilhagem e da redistribuição – em que as fronteiras entre o que é meu e o que é seu demarcam quem tá dentro e quem tá fora, como o muro de um condomínio. E a lógica do valor e do mercado, tão bem descrita por Marx, em que as trocas sociais são pautadas pelo dinheiro e pela circulação de mercadorias.
Nós vivemos no capitalismo, onde a lógica do valor é dominante. Com a leitura do Atlas, compreende-se que, apesar de dominante, esta não é a única lógica que existe. Isso já é uma brecha na maneira como costumamos pensar, acreditando que não há um fora do capitalismo. Além disso, operar com essas três lógicas abre novos caminhos para pensar a multiplicidade da luta política. Existem algumas lutas, como as mais típicas do mundo do trabalho (sindicatos, greves, etc.), que conflitam mais abertamente com a lógica do valor. Quer dizer, são lutas contra a exploração, que se dão em torno de tentar puxar a margem do valor mais para o lado do trabalhador e menos do capital. Existem outras lutas que conflitam mais com a lógica da propriedade, ou seja, são as lutas contra a expropriação. Já outras lutas contrariam os processos de segregação, assumindo como direção para a militância a criação de comunidades. O livro traz, portanto, uma abertura para considerar a pertinência das várias lutas políticas, sem considerar que uma deve assumir a vanguarda, em detrimento das outras. Esse ponto de vista permite também desapegar desse lamento pela perda de um referencial comum que orientava a política revolucionária.
Outro ponto importante é o fato de que a percepção desses diferentes mundos e dessas diversas lutas não é simplesmente teórica – ou seja, não basta apenas ler o Atlas ou o Karatani –, mas depende do ponto de vista de onde você olha e do lugar no qual sua prática política te insere. Por exemplo, o artigo “O trampo da treta: notas sobre organização e militância na luta dos entregadores de aplicativo no Brasil” evidencia que, se você olhar de um ponto de vista externo, compreende-se a luta dos entregadores como uma reivindicação por melhores condições de trabalho – uma luta em torno do valor. Mas, dependendo do lugar onde você se insere dentro desta luta, torna-se perceptível que esta não pode prescindir do apoio de uma comunidade, que garante as condições de reprodução social do próprio movimento político e dos militantes. Quer dizer, as lutas políticas possuem múltiplas camadas, aqui, no caso, as lutas em torno do trabalho se articulam às lutas em torno da comunidade.
Nesta apresentação, repeti diversas vezes a expressão “ponto de vista”, e isso não é ao acaso. É justamente porque uma das ideias importantes do livro é a de um “ponto de vista comunista”, apresentada no capítulo homônimo. Trata-se de pensar o comunismo não apenas como um “sistema social novo e desejável”, mas sim como “uma posição estratégica que, imersa em diferentes lutas políticas, busca constantemente descobrir os ‘interesses comuns’ entre elas, tendo em vista a constituição do proletariado em classe” (p.52). Os comunistas seriam então estes que enxergam as diversas lutas – e também as diferentes camadas de uma mesma luta – como algo que pode ser costurado. E só é possível fazer isto de dentro das próprias lutas.
Então, o Atlas é um convite, um incentivo, para sair da crítica à prática. Ele também fornece certos recursos teóricos para pensar a política sem cair numa idealização – tanto da própria luta política, quanto de suas conquistas – e também sem tomar os fracassos como derrotas definitivas. Se antes falei da melancolia – o luto não feito pelo ideal perdido –, sabemos que a idealização – o ideal projetado no futuro – é apenas a outra face da mesma moeda.

Um desses recursos teóricos é situar a prática política não como uma forma já dada, mas, pelo contrário, como algo da ordem da experimentação – o que não significa pensar a prática como uma ação irrefletida ou desorientada. Essa dimensão da política enquanto experimento torna-se mais palpável – menos abstrata – no decorrer da leitura. O livro começa com uma exposição mais teórica e, ao final, encontramos artigos que transmitem a experiência de movimentos e organizações, fazendo um balanço de suas estratégias, seus impasses e seus ganhos. Entre essas experiências, incluem-se a greve dos entregadores de aplicativos, a concepção de um instituto voltado a estudantes precarizados e o projeto político de democracia radical e economia solidária colocado em prática em Jackson, capital do Mississipi, nos Estados Unidos. É uma transmissão muito importante, e sincera, porque transforma certos erros e acertos em acúmulos para experiências futuras. E também porque tem a coragem de evidenciar certos aspectos que, na maior parte das vezes, são tomados como mero pano de fundo das organizações políticas e, portanto, acabam passando despercebidos, mas que no fundo são essenciais. Por exemplo, como as organizações lidam com questões ligadas à sobrevivência dos militantes, com situações de conflito e justiça interna, com os diferentes pontos de vista que seus militantes possuem, com impasses na comunicação e na interação entre os militantes e entre as camadas de uma organização ou movimento político.
Martina Schneider Rodrigues é psicanalista e integrante do Espaço Comum de Organizações (ECO).

