Um professor perseguidor por apoiar os estudantes - Le Monde Diplomatique

ESCOLAS DE LUTA - GOIÂNIA

Um professor perseguidor por apoiar os estudantes

por Diego Mendonça, Elisa Di Garcia e Ricardo Roquete
1 de abril de 2016
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Leia a entrevista completa com o professor de História da Universidade Federal de Goiás, Rafael Saddi, preso e criminalizado por apoiar o movimento estudanTil secundaristaque recebeu a equipe do Le Monde Diplomatique Brasil em sua casa em GoiâniaDiego Mendonça, Elisa Di Garcia e Ricardo Roquete

DIPLOMATIQUE – Quem é o Rafael? Que agora está na mídia como professor rebelde, cooptador de jovens, aquele cara que foi preso, perseguido. Quem é o Rafael?

Rafael Saddi – Pergunta difícil demais. Acho que é alguém que tem dificuldade de conseguir se definir assim. Em toda essa luta contra as OS, eu tenho me entendido como professor e pesquisador. Porque o meu envolvimento nessa luta veio das minhas relações que eu desenvolvi com a escola. Desde que eu entrei na universidade eu tenho pesquisado didática da História. Então me dediquei a investigação sobre o ensino da história, sobre as funções da História na orientação das vidas das pessoas, e criei vários projetos que eu desenvolvo dentro das escolas tentando dialogar tanto em formação de professores, quanto pensar o ensino de história junto com alunos da escola pública. Então eu coordeno PIBID, trabalho com estágio na universidade. Então eu criei relações muito fortes com a escola. Então quando veio o projeto de OS a minha reação foi natural ao projeto. Foi porque eu estou pesquisando escola, porque eu estou pensando os problemas da escola pública. Porque eu percebi via pesquisas o que que esse projeto efetivamente significa. Então apesar de ter criado ou retornado à ideia do Rafael militante, eu ainda não consigo me enxergar como um militante, mas como um professor que tá cumprindo o seu papel de se posicionar frente as mudanças na educação.

DIPLOMATIQUE – Sobre essa situação, que é a atual situação que é esse processo de resistência e luta, diz respeito à implantação das OS no ensino público em Goiás. Por que o Rafael e por que o movimento dos secundaristas são contra as OS?

São muitos motivos. Talvez o primeiro seja o fato de que as OS significam uma flexibilização. Primeiro na contratação de serviços, de prestação de serviços. E segundo uma flexibilização das relações de trabalho. Essa contratação de serviço significa o quê: o estado ao transferir para as OS as escolas, ela pode contratar sem os procedimentos que o estado precisa usar. Contratar serviços. Então o estado precisa fazer licitação, garantir igualdade entre os concorrentes e tudo o mais, se ele quiser fazer uma reforma na escola, por exemplo. A OS não precisa disso. Como uma empresa privada ela contrata quem ela quer. Ela não responde aos mesmos procedimentos que o estado precisa responder. Então esse processo de flexibilização que, pra quem defende a OS é justamente o ponto positivo porque dá agilidade pros procedimentos, pras compras, pras coisas que precisam, pra gente é simplesmente uma forma de facilitar um desvio de dinheiro público que já acontece via licitação, porém com muito mais dificuldade, com fraudes, com um conjunto de procedimentos ilegais. Então a OS dá uma certa legalidade pra possibilidade de você contratar quem você quiser. E analisando o que tem acontecido na saúde, tanto em Goiás quanto em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Brasil inteiro, o que as OS fazem? Elas contratam empresas laranjas ou as mesmas empresas, ou empresas da sua própria família pra esse serviço. Então você cria uma máfia em volta da escola, que transfere dinheiro direto. Quer dizer, eu vou fazer uma reforma e preciso de 8 milhões pra fazer a reforma na escola, eu vou lá e contrato uma empresa que é, na verdade, da minha família, e faço uma obrinha lá e pego o restante. Então na questão da flexibilização de serviços existe uma facilitação desse desvio de dinheiro público pras empresas privadas. Quando a gente foi estudar quem são essas OS que foram qualificadas pelo governo, aí a gente percebeu que isso é uma comprovação. O problema pra nós não é simplesmente: “Ah, porque essas OS não são idôneas. Então se forem outras com um histórico de idoneidade então aí tudo bem”. Não. O fato de não serem idôneas só comprova aquilo que a gente imaginava. Esse processo de facilitar o desvio de dinheiro público pra empresa privada.
O segundo motivo é a flexibilização das relações de trabalho. Quer dizer, OS não precisa, inclusive por decisão já, por interpretação do STF, ela não precisa fazer concurso público. Então quem é contratado pela OS, ele passa a ser um funcionário da OS, ele é privado, ele não é público, embora ele esteja trabalhando em uma escola que supostamente e juridicamente permaneça pública, ele é funcionário privado. Então o que ela faz é um processo simples, seletivo e tudo o mais. Com isso acarreta um conjunto de perdas, como por exemplo, é a OS que define junto com os trabalhadores – e nesses acordos coletivos a gente sabe que quem tem poder é o patrão – o salário. Sem concurso público o professor perde a estabilidade, e os demais trabalhadores da educação. E aí é uma tendência no estado de Goiás que já não faz concurso público desde 2010, a não ter mais concursos públicos mesmo, porque existe uma cláusula no edital de OS que é, nesse edital específico pras 23 escolas de Anápolis, que a OS tem a obrigação de manter somente 30% dos professores efetivos do estado. Ou seja, em torno de 70% dos professores hoje são efetivos. Ou seja, ela pode pegar a escola com 70% de professores efetivos – tem uma escola de Anápolis dizendo que tem 89% de professores efetivos – e simplesmente tirar esses caras e fazer um conjunto de outros processos pra ter empregados privados.

DIPLOMATIQUE – O regime de contratação seria CLT?

CLT. E aí ela tem vantagens com isso, por exemplo essa coisa de criar um cabide de empregos. Por que o funcionário privado ela coloca…

DIPLOMATIQUE – Na fila do desemprego…

Exatamente.

DIPLOMATIQUE – Se não quer, tem um tanto aí na rua.

Exatamente. E aí tem esses interesses econômicos, que é abocanhar mesmo uma grana que é o dinheiro que vai pra educação. A criação de cabides de emprego, que também se relaciona diretamente com a criação de curral eleitoral. Por exemplo, uma das OS, ela está vinculada à Faculdade Cambury que é do (Giuseppe) Vecci.

DIPLOMATIQUE – Que é o candidato do Marconi.

Que é o candidato do Marconi pra prefeitura (de Goiânia). Então existe uma possibilidade grande de com o domínio das escolas você ter um conjunto de funcionários que estão a mercê de você, dependendo daquele emprego e tal, e por isso vão fazer o que você mandar fazer. Inclusive fazer a campanha eleitoral, como já acontece no estado. No interior é muito comum funcionários contratados, que não são efetivos, terem que ir pra rua com bandeiras de candidatos na época das eleições.
Esses são dois motivos mais gerais que eu acrescentaria o que significa a lógica do processo mesmo, que é um processo que não começou hoje, mas que se intensifica com a ideia das OS, que é a inserção de uma visão empresarial, ou, pelo menos, o crescimento dessa visão empresarial, no âmbito da educação pública. E aí isso gere toda a lógica. Essa coisa, se a empresa que vai lucrar com o processo, embora juridicamente a OS não tem fins lucrativos, é obvio que o Cachoeira, por exemplo, que a OS do Cachoeira não vai trabalhar de graça, não vai administrar de graça, sem ganhar nada…

DIPLOMATIQUE – Pois é, mas a própria secretária reconheceu em entrevista que sabe, que a Seduce sabe que as OS almejam lucro.

Exatamente. Inclusive ela disse que preferia a PPP, a Parceria Público Privada, porque era mais transparente. Ela tem que mostrar qual lucro que ela teve. A OS não. Tem um lucro embutido. E mais, o lucro precisa ser ilegal. Quer dizer, pra obter o lucro ela precisa cometer corrupção. Ela precisa desviar esse dinheiro público de alguma forma. E é fácil fazer isso no procedimento de OS. E também a gente não pode reduzir à forma jurídica e falar então é sem fins lucrativos, logo é sem fins lucrativos, não. Se você analisar sociologicamente, toda estrutura te leva a produzir lucro de outra forma. Não o lucro legal, mas o lucro via ilegal, via corrupção e tudo o mais. Superfaturamento do serviço e tudo o mais. E existe um monte de coisa que a muito tempo tá ligada à educação pública, que são produção de apostilas, empresas de produção de apostilas, cursos de formação de professores. É um conjunto de empresas, de empresários da educação, que lucram com a educação pública. Com esse sistema de OS isso se intensifica, e se torna um excelente mercado na verdade, porque só com essas 23 escolas, segundo o cálculo do professor Tadeu Alencar Arrais, claro que é um cálculo de estimativa, é uma estimativa de 67 milhões só pra 23 escolas, que uma OS receberia. A OS que ganhar esse edital agora. No ano. Em uma mesa redonda com o Marcos das Neves, o Marcos Tucano, que trabalha na Secretaria de Educação, que é inclusive dono do colégio Integrado Jaó, e é o técnico responsável pela produção do edital, ele disse que o cálculo ainda é maior, é 72 milhões mais ou menos, que essa OS vai receber por ano. Isso sem os termos aditivos. Porque o que aconteceu na Saúde é que tem um contrato, esse contrato impressionantemente aumentou em muito o dinheiro que é destinado às OS em relação ao dinheiro que era destinado anteriormente pra esses hospitais geridos pelas OS. E também, além dos contratos serem maiores, envolvendo um dinheiro maior, tem os termos aditivos. Que é o que? No projeto que a OS fez, que o governo aprovou, na minuta de contrato, não tinha a reforma da escola, mas aí ela fala: olha vamos precisar reformar porque a gente percebeu que aqui não dá pra ter aula e tudo mais, aí pelo 8 milhões, 9 milhões, e o estado vai lá e aprova. Isso está acontecendo na saúde. Ele vai lá e aprova o termo aditivo, sem passar por ninguém.

DIPLOMATIQUE – E vai aditivando.

Vai aditivando.

DIPLOMATIQUE – Isso tem que passar pela assembleia também ou é só do executivo?

Não. A secretaria de educação mesmo, no caso a secretaria de saúde mesmo, que libera. Entendeu? Então quer dizer, e o contrato prevê isso, a possibilidade mesmo de o que não está previsto ser aprovado depois via Secretaria de Educação, isso pra educação. Então é muito dinheiro envolvido. Gera outros problemas, que é essa lógica empresarial, na educação tem uma especificidade, porque tudo isso que eu coloquei até agora é o mesmo problema com a saúde, pra educação isso tem algumas especificidades, que é, que também pode ser pensado na saúde mas aqui é voltado pra questão pedagógica – que tipo de ensino, que tipo de formação essas empresas estão preocupadas? Como elas pensam a educação? Que tipo de proposta pra educação elas são capazes de fazer? Quando você lê as falas dos diretores de OS que estão concorrendo, ou fica evidente nas entrevistas que eles não tem conhecimento nenhum, que estão caindo de laranja nessa coisa, ou quando apresentam algumas concepções é sempre essa lógica empresarial mesmo, de fazer o professor trabalhar, intensificar o tempo de trabalho do professor, fazê-lo dedicar todo o tempo, as 40 horas, aos alunos, à orientação dos alunos. Quer dizer, parece ser – nossa que bom, os professores terem mais tempo e tal, de trabalhar com os alunos. Mas não é. Na verdade é um modelo mesmo idêntico aos modelos por exemplo do McDonald’s. Assim, nós vamos fornecer bônus e dar visibilidade pro profissional que se dedicar. É uma lógica empresarial que pra educação é muito preocupante. Por exemplo, hoje o professor trabalha 42 horas, grande parte dos professores, a maior parte dos professores, eu imagino, isso é uma pesquisa que eu ainda estou fazendo, mas uma boa parte dos professores trabalha 42 horas dentro de sala de aula. Que absurdo…

DIPLOMATIQUE – Os efetivos do estado?

Os efetivos do estado. O que é assim, absurdo, porque não tem como a educação funcionar dessa forma. Não é a quantidade de tempo que ele tem que estar com os alunos que vai definir uma qualidade da educação. Porque todas as discussões de educação que falam por exemplo do professor-pesquisador, é impossível nessas condições porque o cara está 42 horas dentro de sala de aula. Qual o tempo dele preparar aula? Qual o tempo dele pesquisar?

DIPLOMATIQUE – Mas há uma diferença entre a universidade e a escola pública.

Então, no ensino federal o professor trabalha geralmente 8 horas dentro de sala de aula e dedica o resto à pesquisa e extensão, e orientação de alunos. Sem isso, sem um tempo pra pesquisa, pra preparação de aula, pra se dedicar ao ensino não tem como a educação funcionar, só que a lógica empresarial é justamente você trabalhar mais, super-exploração do trabalho, que é inclusive uma forma deles conseguirem economizar essa grana pra poder desviar. Outra coisa são metas. Uma educação por metas, por resultados. Qual é a nota do IDEB dessa escola? É preciso chegar a nota tal. Só que o IDEB que supostamente mede o índice de qualificação, ele tem vários problemas. Veja, o estado de Goiás é o primeiro lugar no IDEB. No último IDEB do ensino médio ele ficou no primeiro lugar do Brasil. O maior IDEB do Brasil. Porém em relação ao último IDEB, ele aumentou  diminuindo as notas de português e matemática, que são as únicas notas, vamos dizer assim, qualitativas, de provas mesmo, que o aluno faz. Ele faz uma prova de português e matemática. Essas notas pioraram, dos alunos goianos, dos alunos de Goiás. Piorou. A nota piorou, mas o IDEB aumentou. Aumentou por que? Por que eles começaram a passar os alunos, que é uma outra, a taxa de rendimento que conta no IDEB. Então, quer dizer, todo mundo fala – aluno hoje não reprova. Todo aluno sabe, todo professor sabe que não pode reprovar. Por que? Por que se implementou uma lógica de notas do IDEB. A escola precisa tirar nota boa no IDEB, pra tirar nota boa no IDEB a gente passa todo mundo. Então, que se dane a qualidade. Não importa se o ensino é bom. Mais ainda, o desprezo às outras disciplinas, especialmente as disciplinas críticas – história, filosofia, sociologia. Cada vez mais essas disciplinas vão perdendo espaço dentro da escola. Porque não importa o pensamento crítico, o que importa é atingir as metas.

DIPLOMATIQUE – Então, pra além dessa identificação das práticas, dos procedimentos, são assumidamente e obviamente baseados numa lógica de mercado, empresariais, isso tudo recai numa consequência simbólica e de resultado efetivo em que vai predominar uma lógica de vida liberal ou neoliberal, assim, em última análise.

Exatamente.

DIPLOMATIQUE – Até na formação dos estudantes, da juventude, vamos dizer assim. Que é o que seria o papel da escola, o papel estratégico de formação, dentro do ambiente da democracia representativa, do estado, de cidadania, vamos dizer assim. E a cidadania que vai prevalecer num ambiente de ensino assim seria essa lógica do mercado.

Exato.

DIPLOMATIQUE – E isso só potencializa isso? O que você acha? Num ambiente assim, numa leitura mais macroeconômica e política, ideológica até.

O projeto é justamente esse, ele está bem inserido nas concepções neoliberais de educação. Que, como a gente sabe, começou a ganhar espaço, a ganhar força, na década de 90, aqui no Brasil. Assim, com mais intensidade na década de 90. Veja que não é um processo que retorna simplesmente, ele só ganha intensidade agora, e muita intensidade. Porque veja, a política neoliberal é justamente essa – o que importa é atingir as metas, os índices. Isso tem tudo há ver com a reestruturação produtiva mesmo, do trabalho. Quer dizer, não importa mais o modelo do trabalhador cumprir as horas dentro da fábrica. Ficar lá 8 horas por dia batendo ponto. O que importa é colocá-lo pra trabalhar de forma flexível, mas de forma muito mais intensa. Então, que ele faça em casa, ou que ele vá lá no final de semana, mas o que importa é que ele tenha metas pra atingir e as metas sejam cumpridas. Esse tipo de relação de trabalho, ela colocou o trabalhador numa situação que parece de liberdade, mas na verdade, é de super-exploração. Quer dizer, ele não consegue mais ter tempo nenhum, porque todo tempo dele ele precisa estar tentando atingir as metas e tudo o mais. Essa é a concepção que está colocada pra educação. Quer dizer, intensificar as metas, que os alunos e os professores atinjam metas, se eles não atingir metas eles são punidos por não atingir essas metas, então ele cria uma lógica de estar sempre dependente e com uma aparência de liberdade. Falar assim – olha, o fracasso é meu, se eu não conseguir alcançar, o fracasso é meu. Então eu vou acabar pagando por esse fracasso que eu não consegui atingir. A educação foi voltada nisso, então se cria um conjunto de índices educacionais, de grandes avaliações, e essas grandes avaliações é que vão medir a qualidade da educação. Se o país atinge metas, se as escolas atingem metas, aí você cria um conjunto de hierarquias de pressão, que tira a autonomia completa do ensino do professor. Que é, o estado define as metas, a Secretaria de Educação repassa e cobra dos diretores, os diretores cobram dos professores, e a escola vai criando um conjunto de mecanismos pra punir, pra pressionar e tudo o mais. Por isso hoje no estado de Goiás você tem um controle completo sobre o currículo. Quer dizer, o professor tem que estar falando o tempo inteiro o que ele está dando em cada sala, em cada aula. Coisa que antes a gente fechava a porta e ali, se por acaso, você percebeu, por exemplo, que aquela sala lida com as meninas da sala de uma forma machista, e você, por exemplo, eu no caso, como professor de história, reformulava o meu currículo. Começava a falar – eu preciso discutir a história das mulheres, discutir relações de gênero na história, pra ver se eu consigo transformar essas relações aqui que precisam ser pensadas por esses alunos. Bom, isso não é mais possível. Ou, pelo menos, a tendência neoliberal é eliminar essa possibilidade. O professor passa cada vez mais a aplicar…

DIPLOMATIQUE – Só aplicar um receituário.

Um receituário inclusive com a política de apostilas. Você tem um apostilão lá e aí você não precisa mais de um professor bem formado. Pode ser qualquer um, porque ele é só um aplicador de apostila. A apostila tá lá prontinha, o feito que ele precisa é que o aluno consiga aprender aquela apostila pra sair bem nos testes. E óbvio, todo projeto é pensado pro trabalho, formar. Pra que serve a massa? Pra que serve a escola pública? Pra formar esse povo pro trabalho, botar essa galera no mercado de trabalho. Aí tem todo um projeto da Confederação Nacional da Indústria, a importância da educação pro trabalho, de como é necessário, a gente tá precisando de quadros qualificados pro trabalho. E veja, a escola, estruturalmente a escola, ela nunca conseguiu se afastar disso, desse papel estrutural dela, de formação de mão de obra pro trabalho. Tanto que, a gente sempre gastou muito tempo com o que que o aluno sai aprendendo da escola: a obedecer, cumprir ordens, a ficar sentado, a ter disciplina. Coisa fundamental para o mundo do trabalho. Então ela já cumpre esse papel de disciplinar o aluno, dele aprender a ficar quieto num lugar, sentado numa cadeira e obedecer, calar a boca, ficar quieto, sentar. Que é o que o professor faz o tempo inteiro, nesse papel, de um disciplinador, de um gestor da ordem, da administração da sala de aula. Isso sempre existiu, a grande questão é que existe uma contradição dentro da escola. O espaço, além de ser um espaço que cumpre esse papel estrutural, ele cumpre um papel de aglutinação, de sociabilidade, de criação de relações, de reflexão sobre conhecimentos que não são dados em outras ordens, de discussão sobre a ciência, de reflexão sobre problemas que estão colocados na atualidade da sociedade e tal. E sempre foi uma luta entre esses espaços, disciplinadores para o trabalho e esses espaços críticos, esses momentos de sociabilidade e de crítica que a escola produz. O que está acontecendo, o que acontece com a lógica neoliberal é que ela vai limitando cada vez mais esses espaços críticos. Ela consegue impor uma agenda de metas, uma agenda hierárquica de pressão que vai tirando a nossa autonomia de construir esse espaço de reflexão. As OS e as escolas militares cumprem isso de forma excelente. Quer dizer, é justamente eliminar o que resta desse espaço, de crítica, de sociabilidade e tudo o mais, porque aí todo é controlado via de cima.

DIPLOMATIQUE – A gente ia chegar nisso, que são números que a própria secretaria, a Seduce passou pra gente, que hoje no estado tem 27 escolas militarizadas. 27 num universo de escolas parece tudo bem, parece um número reduzido. Mas se a gente pensar no que são 27 escolas militarizadas, é muito. E 23 estão destinadas a esse processo das OS. Ou seja, então isso tudo deixa um pouco claro que é um projeto político, ideológico, total por trás disso e que a tendência é só expandir.

É.

DIPLOMATIQUE – Como que você vê isso? É um projeto do governo do estado? É um projeto que parte do meio empresarial, dos detentores dos meios de produção? Como está o estado nisso aí, e se é um projeto político grande? Como é isso?

O que eu consegui averiguar até agora, porque é muito difícil você chegar aos bastidores. Como que o projeto foi formulado, quem está pensando ele…

DIPLOMATIQUE – É um mesmo projeto, dos militares e das OS?

Não. Não é um mesmo projeto.

DIPLOMATIQUE – Em última análise, assim.

Em última análise sim. Na minha opinião sim. Veja, há alguns indícios que você consegue tentar entender qual que é o projeto do governo do estado. Por exemplo, teve uma fala do Marconi Perillo que ele diz, em um evento, que tinha alguns professores do estado que gritaram palavras de ordem contra ele e tudo o mais, e que ele foi e no outro dia decidiu que tinha uma solução pra esses vagabundos e indisciplinados que não queriam trabalhar – escola militar. E efetivamente, os professores do Mobilização dos Professores de Goiás, que é o MPG, um movimento de professores independente do Sintego, eles falavam isso, só que o Marconi vai dar essa entrevista na Bahia bem depois. Ele fala – “eu decidi lá e eu fiz, coloquei as escolas militares. Identifiquei a escola de cada um desses professores e coloquei a escola militar lá”. Esses professores já falavam isso, que foi uma punição à greve dos professores e que ele escolheu as escolas que aderiram à greve e onde havia militantes do MPG. Quando os professores falavam isso era muita…

DIPLOMATIQUE – Muita conspiração.

Muita teoria da conspiração. Depois o Marconi afirma isso em entrevista pública. Tem até um vídeo gravado dele falando de boca cheia isso. Quer dizer, um elemento que está por trás das escolas militares e das OS é o controle sobre a força de trabalho. O controle político da força de trabalho. Quer dizer, os professores sempre deram muito problema de resistência, de greve, de criação de enfrentamento contra o governo do estado. As escolas militares simplesmente elas conseguem efetivamente eliminar a greve. As OS então, acabou a greve. Porque, veja, você coloca professores contratados lá dentro, o cara fala – se fizer greve está demitido.
Então existe um projeto, as OS e a escola militar é um projeto do Marconi de controlar politicamente os professores. Uma das ideias é essa – eliminar resistência, greve, os enfrentamentos que os professores têm feito. E é um projeto muito bom pra isso, que efetivamente ele consegue minar a força de uma categoria. Até porque nas OS, por exemplo, você passa a ter dois tipos de professores. Três, na verdade – o efetivo, o contrato CLT e o contrato temporário. Quer dizer, qual a força dessa categoria? Sem contar o que que isso vai gerar na previdência, porque aí você tem menos contribuições, menos pessoas contribuindo, isso vai depois minar a previdência dos professores e tudo o mais. Mas tem esse objetivo político, de controle político da força de trabalho, da resistência e da luta. Só que isso tem sido pensado com as empresas. Porque, veja, quando você percebe que todas as OS organizadas, praticamente todas as 11 OS que foram qualificadas, possuem vínculos diretos, são homens de confiança, ou que apresentam vínculos diretos com o governador, ou com o grupo no poder, e são empresas que sempre estiveram aí se beneficiando do estado…

DIPLOMATIQUE – Comprovadamente de forma ilegal.

Comprovadamente de forma ilegal. Então você vê que esse interesse econômico também é forte, quer dizer, o interesse político e o interesse econômico pensados juntos. São duas questões que contribuem para pensar a importância de um projeto como esse. Por isso não é fácil a luta contra as OS também. Por isso que essa luta gera uma repressão muito forte, porque é muita grana envolvida. Muito interesse envolvido.

DIPLOMATIQUE – Isso é outra coisa que queria te perguntar, que é justamente isso, se num ambiente em que já existe uma segurança de trabalho, a contratação de professores efetivados, já existe esse ambiente de repressão, de perseguição, imagina na implementação das OS.

Exatamente.

DIPLOMATIQUE – E, se a repressão ela se expande, até pra quem não é desse universo, mas é da sociedade, queria até chegar na prisão, dentro desse processo de perseguição sistematizada que acontece aqui em Goiás aos opositores. Como isso vai se ampliar nos ambientes das escolas?Militarizadas e OS.

Exatamente. Porque, veja, hoje o professor, por conta desse processo neoliberal de avanço nas políticas educacionais, o professor no estado de Goiás hoje, ele já não tem mais a autonomia da luta. Veja, porque funciona assim, o contrato dele, pra ele poder ter um salário mínio, assim, minimamente razoável, ele tem que cumprir essas 42 horas. Só que ele não consegue cumprir essas 42 horas na escola, em uma escola. Então alguns colocam ele cumprindo naquela escola, outros coloca ele pra trabalhar em duas escolas, por exemplo. Se por acaso em uma escola que ele cumpre 28 horas, se ele por acaso participou de uma greve, ou participa de uma manifestação contra a OS, a secretária de educação pressiona o diretor, pro diretor tirar as horas que ele tem lá. Então aí ele tem que se virar pra arranjar a complementação. Senão ele perde o salário, diminui o salário dele bruscamente, ou senão ele vai trabalhar em várias escolas, uma do outro lado e tal, e perde a qualidade, complexa o indivíduo e tal. Então quer dizer, isso faz com que o professor fique na mão do estado. E ele usa isso muito. Outra questão é a gratificação do diretor, eu não sei exatamente quanto está a gratificação agora, mas houve um aumento significativo nos últimos anos, na gratificação do diretor, que coloca o diretor completamente dependente do estado. E como, apesar de eleito ele é tirado facilmente, a toda hora – eu vou tirar esse diretor e colocar um interventor. Isso acontece o tempo inteiro aqui no estado. Então quer dizer, já existe um controle sobre a força de trabalho muito grande na secretaria de educação. Não há autonomia nenhuma de resistência, de luta e tal, de posicionamento crítico frente ao governo. O professor morre de medo. Ele é pressionado o tempo inteiro. Foi o que aconteceu nas ocupações. Os professores que apoiaram as ocupações foram ameaçados de cortes, de tudo quanto é jeito.
E mesmo os que não participaram ou que não apoiaram, eles foram pressionados dizendo assim – se a sua escola continuar ocupada nós vamos tirar a gratificação de vocês. Se a sua escola for ocupada nós vamos, aí começaram a orientar os pais para matricularem em outras escolas e não mais naquelas porque estão ocupadas, e vocês não vão ser modulados na escola. Ou seja, vocês vão ter que ser transferidos – vai perder turmas aqui e você vai perder aulas. Então, foi um conjunto de pressões pra colocar os professores contra os alunos. Muitos caíram nessa e foram pra cima dos alunos – “vocês tem que desocupar”!

DIPLOMATIQUE – Os professores e a sociedade. No início a mídia teve um papel muito importante.

Fundamental. Mas aí voltando a essa questão do projeto. Um projeto é esse, veja, quando a secretaria de educação fala que serão 23 escolas, na verdade, o decreto inicial é de 30% da rede estadual. É 25 a 30% da rede estadual. 30% das escolas de Goiânia, esse é um decreto do governador de 15 de outubro do ano passado. 30% das redes de Goiânia, Aparecida e entorno de Brasília, e 25% do resto da rede passaria pra mão das OS. Isso daria em torno de 300, um pouco mais de 300 escolas passariam pra mãos de empresas privadas. Quer dizer, é um projeto amplo. Da mesma forma a escola militar. Nós temos 27, mas a ideia era até o final do ano passado passar pra 50 escolas militares. Quando ele decidiu que ia militarizar as escolas dos professores que estavam participando da greve, ele imediatamente fez um decreto pra militarizar 8 escolas de uma vez, em junho, e em agosto as escolas já estavam nas mãos da polícia. Já começou como escolas do colégio da Polícia Militar. E as escolas estavam em greve, os professores voltaram da greve, em férias, voltaram das férias já numa outra escola, numa escola com 20 policiais lá dentro controlando, administrando toda a escola. Quer dizer, nem precisa falar que constitucionalmente isso é absurdo porque fere a LDB, o princípio de gestão democrática, que a comunidade tem que participar das decisões, da administração da escola. Fere a lei de eleição do diretor, porque o diretor da escola militar é retirado e é colocado um militar pra dirigir. Só que as coisas vão acontecendo assim, de forma ilegal.
Então é um projeto, a ideia é essa. Outra coisa que o governador falou – “nós precisamos acabar com a estabilidade, a estabilidade é o pior mal que se tem no funcionalismo público”.

DIPLOMATIQUE – É que gera vagabundos.

Gera vagabundos e tal. Então o objetivo é esse mesmo. Implantar esse sistema, não só na educação, a lei de OS de 2005, que foi aprovada no estado, lei estadual, ela implica em OS em todas as áreas, cultura, segurança pública, que teve toda uma discussão que foi barrada, de terceirizar os presídios, saúde, pesquisa, universidade, inclusive a UEG está no rol de futuras. Então em todas as áreas a ideia é tentar implementar esse modelo. Eu acho, a minha avaliação, é que esse movimento conseguiu desmoralizar o sistema de OS. E ele era central, porque desmoralizar agora implicaria em ter que recuar em todas as outras áreas que viriam. Eu acredito que o movimento conseguiu desmoralizar e em toda área, se quiser implementar agora, vai ter resistência. Porque as pessoas já não estão cruas em relação à OS, já olha pra OS com uma crítica, já mais receoso do que significa isso.

DIPLOMATIQUE – Pois é, chegou num ponto que queria tocar também. Acho nós estamos vivendo um momento novo em Goiás. Eu, pelo menos, não me lembro ou não tenho notícia dessa eferverscência, de resistência, de mobilizações e tal, acontecendo há tanto tempo e seguidamente. E, ao mesmo tempo, sob um ambiente sufocante de perseguição, de repressão, você mesmo foi vítima de prisão. E a gente vê aí tem o movimento de luta pelo transporte, tem a luta dos professores, professores independentes do Sintego, agora a gente vê o processo de ocupação das escolas. A repressão está aí forte, esse ambiente sufocante, muito sufocante, com apoio da mídia, inclusive com o apoio da sociedade também, todo esse constructo aí. Mas a resistência está aí também, forte e crescendo. Como você analisa esse momento em Goiás? É um momento sui generis que está sendo vivido aqui?

Eu acho que sim. É um momento extraordinário. É um momento em que o que é comum, o que é normal, ele se perde, tudo ganha em extraordinário. É um momento extraordinário, é um momento que as coisas aparecem, acontecem de forma assim, meio encantadoras. Que na minha opinião começou em 2013. 2013 já foi um momento, aqui em Goiás, aqui em Goiânia principalmente, um momento bem extraordinário. Começou na luta pelo transporte, inclusive antecipando grande parte das lutas nacionais contra o aumento da tarifa. Então veja, eu acho que uma das características desse momento extraordinário é o fato de ter inserido, entrado nessa luta, e até sendo protagonista dessa luta, uma população bem jovem. Tanto em 2013, quanto agora. Agora mais ainda. Mas em 2013 já há uma juventude, um pessoal secundarista, um pessoal da universidade. Alunos, jovens, bem novos, sem uma tradição de partidos políticos tradicionais, sem uma tradição de organizações dentro de uma organização política, com um caráter muito combativo, com uma disposição de enfrentamento, que sem ela na minha opinião nenhum dos dois movimentos teria explodido, ou teria conseguido êxito. E criando do nada, criando as coisas sem muitas referências, sem uma tradição de luta que indicasse o que deveria ser feito. Só uma disposição muito de combater, uma ausência de vínculos com o estado ou com as organizações burocráticas. Tanto que, embora existiam estudantes vinculados a algumas organizações políticas, nenhuma dessas organizações políticas conseguiu dirigir o processo. Efetivamente predominou a ideia de que nós somos apartidários, somos autônomos, e nós não queremos conchavos e vínculos, e não tem arrego. Não tem arrego. Nós não negociamos.

DIPLOMATIQUE – Mas sem negar a organização.

Sem negar a organização. E uma solidariedade, uma organização que se dá muito de forma espontânea, não tem uma estrutura, mas que se dá de forma espontânea pela necessidade de estar junto e a solidariedade. Quer dizer, as escolas foram sendo ocupadas. Teve um grupo que começou ocupando de estudantes do Lyceu, ocupou o JCA e depois ocupou o Lyceu, esse mesmo grupo, mas depois o negócio explodiu e essas pessoas nem se conheciam. Não existia uma organização como eles tentaram criar a ideia de uma organização com táticas guerrilheiras comandadas por 9 professores e advogados e jornalistas, que saiu no Diário da Manhã e tal, que comandava tudo isso. Comandava um bando de estudantes pra fazer essas coisas. Não, o negócio foi explodindo, mas a ideia de nós eramos parte de uma mesma coisa, de que aquela era a nossa luta. Acontecia alguma coisa numa escola do outro lado do estado, os estudantes daqui – “vamo lá pra Goiás porque lá tão tentando derrubar a escola lá, derrubar a ocupação, vamo lá pra ajudar eles a resistir”. Quer dizer, foi se criando laços e organizações e formas de se organizar bem espontâneas e puras, puras assim, bem, o adolescente marca muito esse movimento, porque a pureza do adolescente, a falta, a ausência de estar marcado já por uma vida que te leva a compromissos, a endurecimento, a perda de sensibilidade com as coisas e tal, e a intransigência típica do adolescente – “não tem arrego e pronto. Não, não, não, não”! Chegou a hora de desocupar. Não nós temos que resistir, nós vamos resistir e bater o pé e firmar. Então criou um novo movimento, sabe? Que, claro, os laços que se criaram nas lutas de 2013 foram fundamentais, ajudaram a potencializar especialmente o apoio a essas novas lutas, o apoio as ocupações, e essa luta criou novos laços. Laços assim, que são muito loucos, porque não são laços de organizações políticas, não são laços de categorias, mas extrapola as categorias, que é estudante secundarista, estudante universitário, professores da universidade, professores do estado, professores do município, diferentes municípios, todos engajados, artistas, todos engajados em um mesmo movimento e que testou a sua solidariedade, e quem você é, criou laços na luta mesmo, na batalha de sangue, no momento de repressão, em enfrentamentos terríveis e tal. A minha avaliação é o seguinte, a própria conjuntura de repressão, o modo como a repressão se dá, e a ausência de das tradições da esquerda, das organizações de tradição da esquerda, esse vácuo que o momento político nacional forneceu, que é o fato de as organizações estarem todas vinculadas ao governo e por isso não lutar, deixar vácuos de lutas que outras pessoas, não tão engajadas nessas organizações precisam cobrir, propiciou um momento em que, propiciou inclusive uma radicalização dessa luta, que as lutas fossem mais radicais. Porque efetivamente você não negocia com o Marconi. Ninguém negocia com o Marconi. Ninguém vai sentar pra negociar, por exemplo, a pauta do transporte. Não existe negócio. Não existe negociação pra OS. Não foi discutido. Vai ter e pronto. Ele fez o decreto e pronto, vai ser do jeito que foi as militares, e vai ser. Então não há negociação e, também, quando não há negociação não há espaços pras organizações que querem lucrar com a negociação, pro pensamento moderado. Tudo isso potencializa um movimento radical. Um movimento de enfrentamento. Um movimento que também não negocia, não faz conchavos e mantêm sua pureza. Mantêm sua sinceridade e honestidade. Então, quer dizer, a gente está criando, criou em 2013, criou agora, laços e militantes novos que vão produzir muita coisa ainda. O movimento que se criou hoje, eu tenho certeza que as lutas não vão parar. Ainda vai surgir muita luta em Goiás. Efetivamente esse tempo tem sido muito bom pra produzir, pra ressurgir os movimentos, os movimentos autênticos das categorias. Nem eram as categorias. Os movimentos autênticos da luta, instrumentos de luta que vão gerar novas lutas aí.

DIPLOMATIQUE – E você acha que o endurecimento da repressão, teve os prisioneiros da luta do transporte que foi em 2014, não é isso?

2014.

DIPLOMATIQUE – Os meninos foram até pra CPP, não é isso?

Isso, foi em 2014.

DIPLOMATIQUE – E agora teve a prisão de vocês, foram 31 pessoas presas. Você acha que essa repressão ela intimida, ela promove o recuo dessa intensidade de resistência ou ela pode estar colaborando com um fortalecimento desse processo de solidariedade? Como você visualiza isso? Porque o ambiente está sufocante.

Eu acho o seguinte, em 2014, quando ela veio com tudo, ela eliminou a resistência. Conseguiu paralisar o movimento. Não foi ela sozinha, mas ela conseguiu. E eu acho que ali o Marconi conseguiu pensar – “opa, essa é a tática perfeita, a gente conseguiu matar um movimento que tava botando pra valer na rua e tal”. Porque ela conseguiu barrar? Pela criação do ambiente de terror. De repente em um dia os caras entram na casa, invadem a casa de 3 pessoas, levam presos, igualzinho os métodos da ditadura, e solta que tem uma lista de mais gente aí que vai ser buscada, vão ser perseguidas. Então quer dizer, criou um ambiente de terror…

DIPLOMATIQUE – Gera um terror.

Gera um terror, e as pessoas foram fugindo, saindo de casa, se escondendo, tentando viajar, sair do estado. Veja que clima de terror de ditadura que se criou. E as pessoas naquela época não estavam tão preparadas pra isso. Elas nunca tinham vivenciado, por serem muito jovens, um ambiente de terror desses. Por mais que se criticava a democracia, ainda acreditava nos processos legais. O fato é que eu tenho direito a me manifestar, que isso não é crime. Por mais que em todas as manifestações a polícia descia o cacete, levava preso, pagava a fiança saía imediatamente. Sabia das ilegalidades cometidas mas seria muito absurdo invadir assim, de forma tão absurda, sem provas nenhuma, inclusive juntando como provas panfletos e livros, como provas de que era uma organização criminosa. Era muito absurdo o processo, muito ilegal. Então ninguém imaginava. Acho que ninguém esperava que fosse nessa intensidade. Isso fez realmente morrer o movimento naquele momento. Todo mundo ficou com muito medo. O desgaste que você tem também pra tirar as pessoas da prisão. Toda a mobilização, todo o medo, apesar do medo, ter que dar as caras e mobilizar as pessoas e ir pra rua. Desgastou o movimento, efetivamente a prisão dos meninos acabou dando uma arrefecida na luta do transporte. Só que agora você tava lhe dando com pessoas com muito mais experiência nesse processo. As pessoas já tinham essa experiência, já imaginavam, já contavam com a operação 2,80, como foi chamada a operação que prendeu os meninos. Uma operação 2,80 na escola, nessa luta pelas escolas, muita gente já contava com isso, esperava isso. A forma como se organizou já contava com isso, com mais cuidados com a internet, com mais cuidados com as conversas telefônicas, com bem mais cuidado. Só que era inevitável. Quer dizer, o fato da gente esperar isso, a gente já conseguiu se preparar melhor um pouco, pra isso. Em segundo lugar, o terror criado não foi igual ao terror da 2,80. Eles não conseguiram criar esse terror ao ponto de as pessoas dizerem – “nós vamos embora e nãnãnã”. Não. Acho que, por exemplo, o fato de prender um professor da universidade…

DIPLOMATIQUE – Isso que eu ia te perguntar.

Isso aí contou muito porque aí falou – “não pera aí…”. Envolveu muito mais instituições…

DIPLOMATIQUE – Avançou um limite.

Avançou um limite, que não foi feito lá na 2,80. O fato das acusações serem bem menos graves, porque, veja, na 2,80 você tinha ônibus queimados. O ônibus queimado é uma atitude política. Então você pode responder assim, com muito esforço dá pra responsabilizar militantes e falar assim – esses militantes é que queimaram essa coisa, esses militantes queimando ônibus.

DIPLOMATIQUE – E o dano é acintoso né, é visual. Todo mundo vê, por exemplo…

Exato. Todo mundo vê que está queimado o ônibus, está quebrado o ônibus. Agora, quebrar a escola, ou quebrar a Seduce, não é uma atitude política. Não faz sentido você ir lá e quebrar a Seduce e esperar a polícia. Entende? Não é um ato político. Quebrar é só nos criminalizar. Então não cola. O discurso do governo ainda ficou bem pior. Porque não consegue organizar esse discurso direito e falar – aquele professor da universidade, infelizmente as pessoas pensam assim, doutor, entrou na Seduce e saiu quebrando? Isso não faz sentido pras pessoas. E esperou a polícia? Então é um discurso muito, enfim…

DIPLOMATIQUE – Absurdo.

Absurdo. Muito absurdo. Então, quer dizer, tem esse lado da repressão não ter conseguido criar um argumento plausível pras essas prisões. Tem esse lado da experiência já ter sido colocada, tem o lado dos laços hoje são muito maiores do que os laços que criaram no transporte. Acho que o transporte conseguiu fazer até mais, mas os laços eram menores. Porque os laços que se criaram no transporte permaneceram e criaram novos laços agora. E era uma luta que expandiu. Quer dizer, não eram só os estudantes que estavam no transporte, agora são estudantes das escolas que nem viram essa luta, era criança naquela época. E, professores de várias unidades…

DIPLOMATIQUE – E espalhado. Periferia de Aparecida de Goiânia, de Senador Canedo.

Exatamente. A região Noroeste de Goiânia, São Luís de Montes Belos, Goiás, Anápolis. Várias escolas. Os laços estão muito mais fortes. A repressão não consegue barrar esse movimento. Não barra. Não conseguiu. E essa coisa, fortalecer os laços de solidariedade. Gente que não estava na luta, falou não, aí não. Agora não, pelo amor de Deus. Aí vamos deixar esses meninos apanhar, ser preso, deixar o professor que eu conheço lá, ser preso porque ele tá apresentando críticas ao projeto? Então eu acho que foi vitorioso. Foi um tiro no pé, a prisão nossa. Tanto que aí o Ministério Público entrou com as denúncias, o discurso da sociedade mudou radicalmente, até a imprensa deu uma diminuída na criminalização. Porque tava todo dia lá querendo falar que são vândalos, que tão quebrando a escola, que tão não sei o que lá. Diminuiu isso, começou a falar que não está tendo diálogo, que o governo não está dialogando e isso gera tensões e radicalizações e tudo o mais. Então quer dizer, houve uma solidariedade nacional e internacional, que se apresentou e passou a saber o que está acontecendo em Goiás. Tanto que a gente vai vencer esse projeto. Quer dizer, houve um recuo completo, não tem legitimidade mais nenhuma. Acho que a prisão ajudou a não ter legitimidade e as pessoas vão falar: o que que é isso? Eu não tô acompanhando direito, mas eu tô vendo essa confusão aí, deixa eu ver o que que é. A hora que vai ver, é só ler cara, é só ler o projeto, é só ver as análises que o movimento fez, que vai entender que é um processo absurdo que tá rolando.

DIPLOMATIQUE – Você já foi preso antes, em processo político? E, quando você teve lá dentro com os meninos, preso… foi uma casinha sua prisão? O pessoal armou.

Armou.

DIPLOMATIQUE – Já vinha meio que ameaçando. Eu queria que você contasse um pouco essa situação. Meio que dando essa dica: “oh, tu vai rodar”!

Então, eu fui detido um mês antes, acho que talvez menos de um mês antes, um mês, exatamente um mês antes da minha prisão, foi a primeira desocupação de escola feita em Goiás. Foi feita de forma violenta. A polícia militar invadiu o…

DIPLOMATIQUE – Em qual escola?

Colégio Ismael. Ismael é uma escola de periferia na região noroeste de Goiânia. O que a polícia fez? Lá tem um agravante, é a única escola em que os alunos, principalmente os alunos do ensino fundamental, que geriam a escola. Era molecadinha, criança, não era nem secundarista. Então tinha 20 a 25 alunos dormindo lá na escola no dia em que a polícia chegou 6 horas da manhã, um pouco antes das 6. Fardada segundo os alunos. Entrou na escola. Bateu na galera, chutou todo mundo, deu cacetada em todo mundo e botou pra correr. Aí os meninos saíram e ficaram na porta, indignados, putos, e ligando pras pessoas, pros apoiadores, pedindo que os apoiadores fossem lá, os advogados e tudo o mais. Como eles arquitetaram? A polícia invadiu tirou os meninos, já estava combinada uma manifestação dos pais as 7, pela desocupação, pais, diretores, tudo o mais. Tudo orquestrado pela Secretaria de Educação. A hora que tiraram os meninos os pais entraram. E o carro de som que estava contratado pra manifestação, com os meninos lá na porta, jogou o carro de som, eu sei porque, eu tava em casa, acordei de manhã, abri a internet e vi as denúncias. Jogaram o carro de som que atropelou 2 meninos. Um ficou com fratura exposta. O carro de som da comunidade. Aí, imediatamente fui pra lá. Quando eu cheguei lá, um clima de tensão terrível. Os meninos firmes, tentando barrar a entrada das matrículas, porque o carro de som ia anunciar as matrículas. Já saiu anunciando as matrículas. Veja como estava tudo armado. Quer dizer, a escola está aberta, pode vir fazer matrícula, pais. Esse carro de som que atropelou os meninos. Ok, aí os meninos machucados e tudo mais eu falei: vamos sair daqui. Porque tava muita tensão com a polícia militar lá, um monte de P2 lá dentro. Tenso com a comunidade, com determinados diretores de escola, coordenadores da escola, pais, ameaçando os meninos e tal. Eu falei – vamos sair, vamos pro IML, vamos pro Ministério Público e depois pro IML, fazer a denúncia e garantir as provas de que houve essa agressão, não adianta ficar aqui agora. Eles falavam – “Não, nós vamos reocupar a escola”. Eu falei – não gente. Eu e outros apoiadores que estavam lá. Aí a gente dividiu os alunos nos carros. Quando eu saí com os meninos no carro, 3 carros me trancam, não eram carros policiais.

DIPLOMATIQUE – Não eram identificados.

Não estavam identificados. 3 carros me trancam junto com outro professor que estava atrás de mim, me seguindo. Todos nós 2 com alunos no carro, alunos secundaristas. Mão na cabeça, arma na cara, mão na cabeça, sai do carro, não sei o que. E nisso, depois eu descobri, era polícia civil. E o delegado, ele tava diretamente na operação, e ele ainda afirma assim pra mim – “É professor, agora nós vamos jogar tudo nas suas costas”. Aí eu –  jogar o que nas minhas costas? E ele –  “Organização criminosa, dano qualificado, furto e corrupção de menores”.

DIPLOMATIQUE – Furto?

É, porque disse que sumiram coisas da escola. A gente foi levado pra delegacia, quer dizer, depois de a coisa acalmar, falaram assim – “vocês vão acompanhar a gente até a delegacia pra colher o depoimento de vocês e tal”. Eu falei – Isso é um convite ou uma ordem? Aí ele: “É um convite”. Eu falei – então se for um convite eu vou recusar, o que acontece se eu recusar? “Se você recusar a gente te leva a força”. Aí fomos, chegou lá a gente não quis prestar depoimento sem advogado. Criamos uma pressão, eles começaram a tratar a gente melhor, bem melhor, lá dentro. Aí liberou. O jornal O Popular inclusive fez uma matéria sobre os professores da UFG, porque outra professora da UFG que tava num outro carro, também foi levada e detida junto. E uma funcionária da UFG, servidora da UFG. Isso já deu uma grande repercussão. Como assim, leva os caras detidos pra depor e tudo o mais, por que seguiram o carro deles? Então ali já tinha desconfianças de que, antes eu já tinha, mas agora ficou mais claro, de uma perseguição.

DIPLOMATIQUE – E teve o fato do Colégio Cecília Meireles também?

O fato do Cecília, mas não me envolveu tão diretamente. Assim, não era comigo o problema ali.
Mas o que acontece, desde que eu tinha escrito, eu escrevi um texto que era “Dando nome aos bois”, em novembro do ano passado, 16 de novembro. Quando eu escrevi esse texto, que era apresentando, dizendo quem que era quem nas OS, e as relações que essas OS tinham, inclusive relações criminais, criminosas com membros do governo, e dando nome a essas pessoas, eu já comecei a ficar muito visado. Eu comecei a perceber carros me seguindo, nas manifestações os policiais me mirando, por exemplo, teve manifestação que eu tentava afastar as tensões, aí quando eu estou lá de costas e sai um policial e vai em cima de mim, tem que ser comigo. E o tempo todo me seguindo, vendo que o tempo inteiro eu estava controlado, telefone grampeado. Mas eu não tinha recebido nenhuma ameaça. Aí depois dessa detenção, pra mim ficou claro que havia uma perseguição, e uma tentativa de me colocar como criminoso, de imputar crimes pra mim. Aí, um mês depois teve a prisão. Na prisão aí que ficou claro o processo mesmo de alvo, de ter me tornado um alvo. Porque quando eles me prenderam, um tenente-coronel da polícia militar colocou o dedo na minha cara e falou assim – “Você é o professor da universidade de história né”? Falei – sou eu mesmo. Então, quer dizer, ele já tinha claro quem eu era, me levaram lá…

DIPLOMATIQUE – Fez questão de deixar claro.

Fez questão de deixar claro. E, outro cabo da polícia militar também, enquanto eu estava detido lá, enquanto eu tava sendo levado pro IML, ele fez questão também de dizer – Eu te conheço há muito tempo, eu sei, por exemplo”, ele dizia, “eu sei que vocês lá estão sozinhos lá na universidade, só tem você, um professor da geografia”, que era o Tadeu, e realmente era um professor da geografia que apareceu mais e um grupo da educação, “eu sei exatamente quem são vocês”. Quer dizer, um cabo do Choque, os caras têm mapeado, e não só mapeado, tem colocado a disposição de pessoas que vão fazer a ação, não são nem quadros da inteligência só que o nosso nome tá circulando. O que é muito preocupante mas é a prática do governo, sempre foi a prática, desde de 2013. P2 infiltrado, mapeando tudo, esse tipo de intimidação. Aí depois da prisão eu ainda fui seguido aqui na porta de casa. Tenho sido seguido em vários lugares. Estou tomando um conjunto de cuidados, que é não andar de carro sozinho, porque na cautelar nossa fica lá, a única coisa que entrou na cautelar além das coisas normais é não usar drogas. Não tinha nada a ver porque não encontraram drogas, não encontraram nada, mas falam que é procedimento padrão. Só que drogas é algo muito fácil de plantar. Então o medo que eu tenho de estar andando sozinho no carro, vejo os caras me seguindo e de repente eles em tal lugar me tranca, abordagem da polícia, uma droga lá. Aí pela cautelar eu vou ficar preso até o julgamento do processo, ou seja, um ano e meio, 2 anos preso esperando o processo ser julgado.

DIPLOMATIQUE – Sem contar o espetáculo que isso vai gerar.

Exato. Então assim, a sensação que eu tenho é isso, o que eles puderem me queimar. Tava claro antes, tava claro quando eles colocaram no Diário da Manhã, estamparam a minha foto com mais 8 pessoas, como líderes de uma organização criminosa, uma organização guerrilheira e tudo o mais. Quer dizer, um texto claramente criminalizador. Dois dias antes do jornal, o governo já tinha falado que tinha iniciado uma operação de investigação dos líderes e que ia imputar os crimes aos líderes. Crimes de ocupação das escolas. Só que no outro dia o juiz barrou a reintegração de posse. Entendeu?

Então ele não conseguiu criminalizar naquele momento. Tentou criminalizar agora com as depredações que eles forjaram nas escolas e na Seduce.

 

DIPLOMATIQUE – Pois é, e no dia da prisão, a sua prisão mesmo em específico, com você foi uma casinha. Os caras… você tava do lado de fora da Seduce.

 

É, foi o seguinte. Os estudantes decidiram ocupar. Os secundaristas mesmo decidiram ocupar. Antes tinha tido uma ocupação do MST e da CUT. como os secundaristas em luta são autônomos eles não…

 

DIPLOMATIQUE – Eles não compuseram.

 

Eles não compuseram essa ocupação. Inclusive nem sabiam da ocupação. Ficaram sabendo depois da ocupação. E, resolveram ocupar a noite, assim que o MST e a CUT saíssem.

 

DIPLOMATIQUE – E era no mesmo dia em que tava tendo a …

 

A entrega dos envelopes. Então a entrega dos envelopes era de manhã, teve a entrega. A ideia dos secundaristas era ocupar pra mostrar pra sociedade as irregularidades da mudança de local da entrega dos envelopes. Mostrar a irregularidade do processo de entrega dos envelopes. Porque era pras ele, segundo o edital, ocorrer na Seduce. Estava lá o horário, o lugar e tudo o mais. Quando o MST ocupou ela transferiu pro Oscar Niemeyer sem publicidade, sem lançar no Diário Oficial a mudança de local, sem nada. Simplesmente ligou pras OS e falou – vai ser no Oscar Niemeyer a entrega dos envelopes. Então isso é completamente ilegal. Então a ideia era chamar a atenção da sociedade pra isso. Então os estudantes ocuparam a Seduce pra isso, porém não teve negociação. Quando os estudantes ocuparam eu fui pra lá. Começaram a me mandar umas mensagens eu fui pra lá, e quando a polícia chegou eu estava no pátio da Seduce falando com os estudantes. Eles estavam dentro do prédio e eu falava com eles. Porque na hora que eu cheguei eu vi uma movimentação muito grande dos seguranças, inclusive gritando pra polícia e avisando e o povo falando que ia fechar, o cerco ia fechar, que o choque ia vir, que não sei o que. Então eu estava avisando os alunos – Tá tudo bem aí? Os seguranças correndo atrás dos caras, aquela gritaria. Vocês estão bem? Parece que o choque vai fechar, a coisa vai fechar, o trem vai ser feio aqui, tá tudo bem? Gritando dentro do pátio da Seduce, não dentro da Seduce. Rapidamente fecharam ali. Estávamos eu e 2 alunos da universidade, no pátio. Rapidamente eles fecharam o cerco, trancou toda a Seduce, toda a área da Seduce, inclusive eu fiquei dentro do cerco. E falei com os alunos: vamos lá ver como que tá a situação ali na porta. Fomos lá e vimos os advogados lá na porta. Já tinham um monte de apoiadores lá, preocupados com a situação. E os advogados já vieram falar comigo – “Não tem ordem pra negociar, vão chegar já prendendo e batendo em todo mundo, eles não tão com ordem pra negociar, eles não vão negociar nada, a polícia já vai chegar batendo e prendendo”. Quando ela chegou me falando isso, os policiais já deram um empurrão nela, chegaram assim, fechando o cerco, não deixaram eu falar com ela nem nada. E nisso o Choque já tinha invadido ou a GRAER. Eu achava que era o choque, mas depois um amigo meu do Choque me falou: não, não foi a gente, você deve ter confundido, deve ter sido a GRAER. Invadiu, inclusive por cima, me parece. Os helicópteros desceram por cima. E aí, como eu estava no pátio, eles cercaram a imprensa e os advogados. Não deixavam eles chegarem perto. Então eles não conseguiam ver nada, nem acompanhar nada. Como eu estava no pátio eu conseguia ver tudo que tava acontecendo lá dentro. Mais próximo pelo menos. E nisso, o que eu vi foi, eles puxando um aluno que estava no chão. E então eu vi um policial chutando a cabeça desse aluno. Menor de idade. Como eu estava no pátio, gritei – “Ou, você não pode fazer isso não”! Só que tinha uma grade que me separava deles. E eu gritando que eles não podiam fazer aquilo, nós três que estávamos lá gritando. Aí um dos policiais virou pra mim e falou assim – “Se quiser sair vai sair agora. Sai, vai pra lá! Senão você vai ser preso como se estivesse lá dentro”. Eu respondi que não sairia, que não ia deixar eles fazerem aquilo, que ia acompanhar tudinho o que estavam fazendo, vendo o que faziam com os alunos. “Aqui eu tô vendo”. Como se eu dissesse, sou testemunha. Ele falou – “Então tudo bem”! Aí prenderam os alunos, colocaram os alunos nas paredes, não dava pra ver se tinham batido mais. Só nesse momento que chutaram o aluno, jogaram spray de pimenta na cara de uma menina menor, um negócio muito agressivo. E aí colocaram eles sentados, isso tudo eu vi. A situação estava calma. Eu tava do lado de fora do pátio e inclusive um jornalista do O Popular me chamou e perguntou se a gente dava entrevista. Dei a entrevista pela grade pra ele, ou seja, ele testemunha que eu não estava lá dentro né, que os meninos foram presos e eu lá do lado de fora. Aí chegou um policial bem calmo, tranquilo e falou – “O Senhor quer acompanhar ali a retirada dos alunos pra garantir a integridade física deles? Acompanhar pra ver que nada aconteceu com eles? O Senhor pode acompanhar a retirada deles”? Eu falei: “Claro, posso sim”!

 

DIPLOMATIQUE – O canto da sereia…

 

Aí os dois perguntaram se podiam também. Ele disse que “claro, por favor, os três”. Aí quando a gente entrou, este comandante que eu achava que era do choque mas que pode ser da GRAER, virou pros alunos sentados e falou:  “Olha pra cada um aí, confere aí como cada um tá, veja bem o jeito de cada um”. Aí eu olhei. Ele falou de novo – “Conferiu? Então senta que você tá preso rapaz! Senta do jeitinho deles que você está preso! Mãos pra trás…”. Aí já me deu voz de prisão. Aí botou os maiores em fila, algemou, e nisso ele chegou em mim e falou isso, um outro policial, da PM, um tenente-coronel, perguntou assim – “Quem aqui já foi preso”? E olhando pra mim. “Quem já foi preso? Vou perguntar só mais uma vez”. E nada. Aí ele pegou e falou assim – “Você já foi que eu sei. O Sr é o professor da Universidade Federal. História não é?!” Falei que era eu mesmo mas que não tinha sido preso. Ele tava se referindo provavelmente à operação lá… Aí liberou a imprensa, e a liberação da imprensa foi o seguinte – “filma a cara de um por um”, esse tenente-coronel dizendo, “Você apanhou”? E quinze câmeras na sua cara. A pessoa respondia – “Não senhor”! Perguntava de novo – “Você apanhou”? Aí olhou pra minha cara e eu não falei. Perguntou se eu apanhei e respondi – “Sou professor da Universidade Federal de Goiás, estava do lado de fora, os caras me trouxeram aqui e me prenderam. Vocês são jornalistas…”. Só que só deixaram entrar os cinegrafistas, nem jornalistas tinha. Enfim, foi esse o abuso, depois toda a situação de ilegalidade lá na prisão, os procedimentos todos. Era pra gente ter saído assim que prestou o depoimento. Ficamos preso num ônibus, detidos dentro de um ônibus, fomos prestar os depoimentos na Draco, do crime organizado. Só 5:30, 6 da manhã que a gente conseguiu sair, terminar os depoimentos. Continuamos no ônibus, expostos até 9h da manhã. O povo tava indo trabalhar e vendo nosso ônibus lá a gente preso. Até 9h da manhã. A Draco fechada já, fechou foi embora. O que acontece, era pra gente ter tido a audiência nossa imediatamente, daria pra ter. Mas o delegado não mandou o documento pro juiz de audiência. Pro Fórum Criminal fazer a audiência. Ou seja, ele protelou pra que a gente ficasse mais tempo, tanto é que ficamos 48h. Aí fomos pra DEIC, a partir das 9h da manhã. Ficamos presos lá no “corró” que é onde os presos tomam banho de sol, já era uma tentativa de colocar os presos contra a gente. Tipo – “vocês vão ficar sem banho de sol enquanto estes estudantes estiverem aí”. Esse era o papo lá. Mas a gente conseguiu conversar com eles. E fomos muito bem tratados pelos presos lá. E deixaram a gente exposto no sol, com muito sol, sem água. Só fomos ter água a noite, por conta dos próprios presos pegaram uma água do chuveiro deles lá e passaram a água pra gente beber. Depois liberaram pra gente tomar um banho neste chuveiro. No outro dia também, sem banho, sem água, toda água que veio foi dos presos. Não deixaram entrar os colchonetes. Entraram só quatro colchonetes pra quinze pessoas, a gente dormiu no chão, cheio de insetos, sujo pra caralho, inclusive onde a gente mijava. Absurdo a situação. Tudo ilegal. Como eles sabiam que a gente não ia ficar preso, que era muito absurda a acusação, não havia individualização do crime, não tinha como falar que algum estudante ali quebrou alguma coisa. Inclusive o MP disse que os indícios, os danos apresentados nos autos, eram insignificantes. Quer dizer, uma porta arrombada, um extintor espalhado numa sala…

 

DIPLOMATIQUE – E o MP procurou ouvir vocês?

 

O Ministério Público? Não.

 

DIPLOMATIQUE – Ele está numa ação completamente independente, não entrou em contato… Sobre a prisão, sobre todo este processo.

 

A gente desde dezembro, no dia da primeira ocupação de escola, enquanto um grupo ocupou a escola, um grupo de manifestantes foi pro MP pra entregar as denúncias das irregularidades das OS.

 

DIPLOMATIQUE – E foi isso que provocou essa ação?

 

Foi essa denúncia junto com outras denúncias que o Sintego tinha feito, e os professores de Anápolis, que também juntaram um documento e fizeram. Então aquilo que o Fernando Krebs montou está baseado nestas denúncias e em outra pesquisa que ele fez. Ele acrescentou muita coisa da pesquisa dele mesmo em relação as OS. Mas houve uma iniciativa da sociedade, dos movimentos pra colocar o MP dentro. Existem outras coisas que até agora o MP não se posicionou, por exemplo, aquele P2 que foi flagrado colocando uma arma na cabeça de um aluno…

 

DIPLOMATIQUE – Na rua né?! De dia…

 

Exatamente. O roubo da câmera da UFG, desse mesmo P2 que colocou a arma nele, roubou uma câmera de um aluno, bateu no aluno e roubou a câmera dele, colocou dentro do carro e sumiu, até hoje esta câmera está desaparecida. Da agressão aos meninos lá no Cecília Meireles, que eles bateram em dois meninos, o sargento Gerson, que chegou com o cassetete e bateu em dois meninos lá que estavam recebendo doações por cima do muro. Duas crianças, adolescentes no caso.

 

DIPLOMATIQUE – Rafael, dois pontos pra fechar. Queria saber de você como está a situação na UFG, da universidade, como está a situação do apoio, até em resposta a esta provocação da polícia, pra gente tentar entender, e na sequencia teve o fato do Consuni, houve uma provocação de um movimento mais organizado de tentar revogar aquela aberração do título de Doutor Honoris Causa pro Marconi. E a universidade recuou nisso. Como tem sido a relação da universidade institucionalmente com você, com os colegas de trabalho, outros professores, como tem sido isso?

 

Há muito tempo que não acontece na universidade. Acho que no Brasil inteiro. Um professor de universidade federal. Teve o caso da professora da UERJ, que era coordenadora da pós na UERJ, especialista em Wittgeinstein, que foi presa nas manifestações da Copa. Em universidades federais, acho que tem muito tempo que não acontece isso mesmo. Então isso deu um baque na universidade muito grande. Há muito tempo vários professores tem produzido pesquisa sobre OS, tem se debruçado sobre OS e tem cobrado uma posição da universidade, têm dito que a universidade tem sido omissa em relação a questão das OS. Tanto que antes de ser preso, eu fui preso na segunda, sexta saiu uma reportagem minha no jornal do professor da ADUFG, onde eu falo justamente isso, da omissão intelectual da universidade, não conseguir fazer um parecer intelectual sobre a questão das OS, e da omissão política em relação aos professores que estavam sendo perseguidos, de não se colocar claramente em defesa destes professores e fingir que isto não estava acontecendo. Com a prisão foi impossível, nunca vi a universidade tão aquecida, o calor que se criou dentro da universidade, porque muitos professores e alunos ficaram muito indignados com a situação, foram pra cima da reitoria. Aí houve uma briga interna dos departamentos. Acredito que em vários, se brincar em todos os departamentos teve professor mexendo com a questão, falando – “Olha, a gente tem que se posicionar”. E aí, claro, os conflitos internos, professores que acham que a posição tem que ser moderada, que a gente não tem que se envolver, e os professores falando que era um absurdo aceitar que se mexesse com a universidade, com alguém do quadro da universidade, e professores que diziam que isso não diz respeito à universidade, que é uma questão pessoal de um professor, é uma questão pessoal, ideológica deste professor. Na minha opinião prevaleceu a indignação e a solidariedade da universidade. Tanto que se organizou uma carta muito pesada questionando o reitor, essa carta foi entregue ao reitor assinada por muitos professores, questionando a omissão do reitor. O reitor, assim que a gente foi preso, no outro dia ele já estava lá, ele foi junto com o diretor da Faculdade de História lá na prisão, pra dar apoio e respaldar institucionalmente, pra dizer “Ó, vamos garantir a legalidade aqui dentro. Que não tenha abusos com estes e alunos e professores da UFG”. Então ele teve esta atitude de ir, mas ele não tinha se posicionado sobre as OS e sobre as perseguições publicamente. Com a carta dos professores que foram à reitoria e fizeram manifestação, ele se posicionou. Com a pressão dos alunos no dia que a gente foi preso, ele liberou um ônibus para os alunos e manifestantes irem à prisão e Fórum Criminal. Então a reitoria acabou tendo que se envolver.

 

DIPLOMATIQUE – Não foi espontâneo né?!

 

Foi a partir das pressões internas na universidade. Mas ela se posicionou, tanto que escreveu um texto sobre OS, é moderado o texto, bem moderado mas deixa uma posição clara. A universidade é contra as OS, tem preocupação com este processo, defende a escola pública e gratuita e tem preocupação com este processo de passar pra mão de organizações privadas. Então a reitoria tomou uma posição a partir da prisão em relação às OS. O problema é que, como tava muita indignação, espontaneamente as unidades acadêmicas começaram a pedir a cassação do título Honoris Causa do Marconi, não foi um movimento combinado, surgiu do departamento de filosofia. “É um absurdo, vamos tirar o título desse cara”. E propôs e aprovou no departamento de filosofia. A faculdade de educação aprovou. A faculdade de história não chegou a discutir mas o diretor se comprometeu, falou que é o que a unidade quer, está claro que a posição da unidade é contra, então vou votar pela retirada deste título. A regional da Cidade de Goiás inteira fechou e aprovou a retirada do título. Então começou um processo de articulação mais ou menos espontâneo ou de uma unidade que começou a conversar com as outras, e levaram pro Consuni. Só que o Consuni tem gente de vários campi, não se chega assim no Consuni. E também não era claro quais são as relações, não era claro pra ninguém. Acredito que pra quem propôs, a impressão que se tinha era uma questão moral, questão ética. Olha, não vamos respaldar a perseguição e não vamos aceitar um título que ninguém entende o motivo, de dar um título de Honoris Causa pra uma pessoa como esta, ainda mais agora.

 

DIPLOMATIQUE – Esse título é da gestão Milka, não é isso?!

 

Rafael: Isso foi da gestão Milka, que inclusive depois ganhou a Secretaria de Educação. Depois virou secretaria do governo. Ninguém sabia da intensidade das relações do governo do Estado com a universidade. Especialmente em um momento de crise, momento de corte de verbas do governo federal. O financiamento que a universidade recebe do governo do Estado passou a ser relevante. Acredito que em termos absolutos não é relevante, mas passa a garantir algumas coisas. Inclusive relações que já foram negociadas antes, dívida de luz na Celg, que passa pela mão do Estado, terrenos. Então depois da não revogação é que passou a ficar claro, as pessoas começaram a pesquisar e mostrar que existe uma relação muito forte. E o discurso da reitoria era justamente esse – “a gente não pode tomar atitudes, a gente tem que manter nossas relações com o Estado, relações boas, a gente não pode se envolver…”. Acabou que minha figura se tornou de novo, sem ter organizado, assim como o movimento de ocupações, se tornou uma figura alvo dentro da universidade. Porque deu a impressão que o pedido se dava porque eu fui preso. Então era uma questão minha. E aí eu comecei a ser atacado dentro da universidade, como se não bastasse toda a imprensa atacando. O Diário da Manhã fez aquilo, depois vários jornalistas, entre aspas, inventaram um monte de histórias sobre mim. Inclusive vou me reunir com um advogado sobre isso, entrar com um processo contra cada um. Falaram que eu era financiado pelo Mauro Rubem, pelo Rubens Otoni, que eu era do movimento pró-Dilma. Os caras não me conhecem efetivamente. Enfim, um conjunto de mentiras, cada ideia, que eu era um guerrilheiro de carteirinha, petista e não sei o que, todas aquelas coisas absurdas. E fui atacado inclusive por pessoas agora, tipo “O cara agora tá enfrentando a instituição, agora vamos atacar ele”. Quem tava neutro nesta história. Inclusive um artigo de um professor que é aposentado mas que é vinculado aos quadros da ADUFG, vinculado aos quadros da reitoria, tem uma boa relação com ela, falando que eu devia ser preso mesmo, porque eu tava desobedecendo a lei, provocando a desordem pública, e que aquilo não tinha nada a ver com a universidade, era uma questão pessoal minha. Ou seja, acho que foi um erro, porque efetivamente a maior parte da universidade se mobilizou ou se indignou com a situação. Porém o Consuni não é democrático, as unidades não tem representação direta no Consuni. Pelo contrário, são um conjunto…

 

DIPLOMATIQUE – São delegados…

 

E as Pró-Reitorias ligadas ao reitor, são várias Pró-Reitorias, todas têm votos dentro do Consuni, sem contar estes interesses que determinadas unidades acabam se vinculando, como por exemplo o compromisso de criar a Universidade Federal de Catalão e de Jataí, que é uma luta antiga de Catalão e Jataí e que agora o Marconi encarnou e é uma figura chave pra garantir isso. Então os caras não querem criar tensões. Então todos esses interesses sobrepuseram as discussões que a universidade na minha opinião apoia. Agora vai ter um plebiscito, está sendo puxado de baixo pra cima. Um plebiscito simbólico, que é pra mostrar que a comunidade universitária, estudantes, professores e técnicos, efetivamente são contra este título, ainda que o Consuni como representação da universidade o legitime e o garanta. Também a filosofia entrou com processo pedindo a revogação da decisão, porque segundo a filosofia houve várias irregularidades na forma como as votações ocorreram, que existe uma prática lá de que quando uma votação desta ocorre é preciso criar uma comissão que vai avaliar o título e isso não foi feito. Enfim, é isso. Resultado, eu acho que depois da prisão eu sinto que tenho apoio institucional que vem das bases, professores, alunos e técnicos, esse apoio é muito grande. Quando eu falo “eu”, sei que não sou eu uma pessoa. São as pessoas envolvidas nesta luta, os professores, os estudantes que se envolveram nesta luta têm o apoio da universidade, da comunidade universitária. E inclusive têm o apoio institucional em relação às perseguições e às OS. A universidade se posicionou em relação às OS e várias unidades se posicionaram em relação às perseguições, que não aceitariam esse tipo de coisa, que é absurdo. Porém em relação ao título Honoris Causa, aí é uma outra luta, querer vincular diretamente pode ser um erro na interpretação, pode parecer que a luta contra as OS não tem apoio, ou pode parecer que é a universidade falando em defesa do Marconi, e não é a universidade né.

Diego Mendonça é mestre em Direitos Humanos e Cidadania e realizador audiovisual. Elisa Di Garcia é mestre em História e realizadora audiovisual. Ricardo Roquete é produtor cultural e audiovisual, músico e jornalista de ocasião.



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