Meio ambiente: um projeto de destruição - Le Monde Diplomatique

ELIMINAÇÃO DO RESTA DE DEMOCRACIA

Um projeto de destruição

por Mariana Mota
26 de junho de 2020
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O governo autoritário se aproveita das tristes mortes de brasileiros asfixiados pelo vírus para acelerar um colapso institucional

Passadas pouco mais de três décadas da redemocratização no Brasil, que concebeu a celebrada Constituição Cidadã, estamos hoje enquanto sociedade sendo sufocados pela força e violência de um projeto autoritário em curso no país. Projeto desavergonhado, de um presidente populista, que saiu das sombras da nossa história e galgou poder no Estado brasileiro se apoiando nas instáveis bases democráticas de um país que, nos últimos anos, tem assistido suas instituições serem corroídas por dentro. 

Com a sociedade quase sem ar, em meio a uma pandemia, que dificulta a ocupação dos espaços políticos e das ruas, o governo autoritário se aproveita das tristes mortes de brasileiros asfixiados pelo vírus para acelerar um colapso institucional, em benefício de interesses individuais e espúrios em detrimento da coletividade. 

Vistos como inimigos a serem eliminados, literalmente, tenta-se calar a imprensa livre, os próprios servidores públicos que atuam legitimamente em suas funções de Estado e a sociedade civil organizada, reduzindo a pó seu direito à participação popular em conselhos e colegiados. Para interlocução com as organizações sociais, foi criada uma secretaria com assento dentro da Presidência da República que, até ser questionada judicialmente a incompatibilidade do cargo, teve como responsável um agente secreto do serviço de inteligência. Se não há diálogo, o que há?!

E não para por aí. 

Mal dá para respirar, pois já começam a feder os dados que o governo tenta esconder. Começou com o IBGE, que mostra a cara feia do desemprego no país. Depois a demissão do diretor do Inpe, por dizer a verdade que os satélites revelam sobre o aumento acelerado da derrubada de nossas florestas. E, agora, o governo pretende esconder o número de corpos das vítimas da pandemia. Acontece que, para esse plano dar certo, o projeto autoritário-antidemocrático teria de reverter a opinião pública. Para isso, uma trupe de guerra anima as torcidas fanáticas (e armadas) que apoiam o governo, com um exército de robôs e muita desonestidade num cruzamento de cara de pau e maldade que liga diretamente o gabinete do ódio a uma potencial rede criminosa de fake news.

Para manter a carcaça do Estado em pé, dando ares de normalidade aos mais desavisados, dá-lhe indicações políticas sem capacidade técnica alguma para funções estratégicas somada a alta militarização. É o caso dos órgãos de proteção e preservação do meio ambiente, como o Ibama, que, à custa de sua autonomia e competência legal, assiste enfraquecido um plano inoperante, para inglês ver, que torra muito dinheiro enviando tropas das Forças Armadas para temporadas na floresta sem a experiência necessária para combater o tipo de crime que a queima.

E esse projeto não poupa nada. Nem mesmo os órgãos de justiça. O Ministério Público, que é independente do Poder Executivo, cujo dever é fiscalizar os limites constitucionais de exercício do poder e garantir as instituições que lhe são essenciais, também tem sido alvo de escolhas alinhadas aos anseios do governo. É o caso do novo coordenador da Câmara de Meio Ambiente do MPF, um procurador que, curiosamente, se apresenta pró grilagem de terras públicas. Curiosamente. Sua indicação tem causado revolta em seus colegas procuradores. Já não basta o desastre de um ministro de Meio Ambiente que atua contra a própria pasta? 

Operação Verde Brasil realizada por militared (Warley de Andrade/TV Brasil)
Operação Verde Brasil realizada por militares (Warley de Andrade/TV Brasil)

O resultado dessas decisões aventurescas o mundo inteiro vê. Recordes de desmatamento e aumento dos conflitos violentos por terra, que afastam mercados e investidores internacionais temerosos por mancharem seus produtos com a destruição da Amazônia, querida de seus consumidores e que salva o planeta do sufocamento por gases do efeito estufa. 

A capacidade de destruição desse governo ganha fôlego, a cada dia, e se retroalimenta, ao eliminar aquilo que ainda nos resta de democracia. E pode até levar a uma ruptura, já que temos um presidente acuado, e bicho assim é mais perigoso. Só que o estrago em dezoito meses de governo, e o que ainda está por vir, seria maior se não encontrasse a resistência de atores sociais que lutam para não abrir mão de seus direitos. Como a história já contou, e agora se repete, a força do campo democrático não dorme em defesa daquilo que lhe é mais caro, o direito de existir. 

Mariana Mota é coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace.



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