A DEMOCRACIA DOS PEQUENOS E O TEMPO DO CLIMA

Um relato sobre as dificuldades no Rio Grande do Sul

Estamos preparados para lidar com eventos climáticos que já não podem ser tratados como exceções?

Na correria do tempo, ou talvez no tempo da correria, sobra pouco espaço para interromper o fluxo cotidiano, conversar e refletir sobre aquilo que estamos vivendo, enquanto expressões como “o tempo fechou”, “o clima esquentou” e “vem chuva por aí” permanecem incorporadas ao vocabulário social como maneiras corriqueiras de falar sobre acontecimentos que, durante muito tempo, pareciam pertencer apenas ao ritmo natural das estações e às particularidades de cada região. O problema é que esse cotidiano mudou, e aquilo que durante décadas foi tratado como ocorrência excepcional passou a integrar a experiência de diferentes gerações, entre ciclones, tempestades, enchentes, secas e vendavais cuja frequência e intensidade exigem uma mudança na forma como pensamos o espaço social, as cidades e as responsabilidades do poder público.

Costumamos dizer que tempestades sempre existiram e que o que não tínhamos eram celulares para filmá-las, uma expressão que contém alguma verdade porque hoje registramos mais, compartilhamos mais e acompanhamos acontecimentos que antes ficavam restritos à memória de quem os viveu, embora a intensidade de imagens não seja suficiente para explicar aquilo que acontece depois, quando as águas baixam, as câmeras desaparecem e a vida cotidiana precisa ser reorganizada em meio às perdas materiais, aos deslocamentos, às dificuldades econômicas e às incertezas sobre o futuro.

Esta não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto. Em 15 de julho de 2023, publiquei História de um ciclone e a democracia dos pequenos, refletindo sobre os efeitos de um evento extremo e sobre a maneira como comunidades menores aparecem ou desaparecem das prioridades políticas quando a emergência deixa de ocupar o noticiário[1]. Em maio de 2024, publiquei Inundações no Rio Grande do Sul: eventos climáticos extremos e lições para os demais estados[2], diante das grandes enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e colocaram novamente uma questão que permanece sem resposta satisfatória: estamos preparados para lidar com eventos que já não podem ser tratados como exceções?

Retomar essas reflexões significa reconhecer que a emergência climática entrou definitivamente no campo da política, porque a maneira como uma sociedade responde às enchentes revela suas prioridades, sua capacidade de planejamento e a qualidade de suas instituições, sobretudo quando é necessário decidir quem será protegido, quais espaços receberão investimentos, quais populações serão atendidas primeiro e de que maneira os recursos públicos serão utilizados na reconstrução.

Moradores em rua alagada pela enchente no município de Eldorado do Sul.
Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

A democracia depois da água

Quando uma enchente destrói uma casa, interrompe uma estrada ou deixa uma cidade sem energia, a emergência aparece como um problema imediato, concreto e incontornável, mas quando a água baixa, começa um processo menos visível no qual é preciso reconstruir, definir prioridades, distribuir recursos, estabelecer responsabilidades e decidir quais áreas serão recuperadas primeiro, de modo que cada uma dessas decisões produza consequências que podem permanecer durante décadas na vida das pessoas e na organização dos espaços.

É nesse momento que a democracia precisa funcionar, porque democracia significa participar das decisões que afetam a vida cotidiana, ter acesso à informação, acompanhar a utilização dos recursos públicos e poder cobrar aqueles que receberam a responsabilidade de administrar o espaço, especialmente em situações de desastre, quando as escolhas feitas durante a reconstrução podem determinar o futuro de uma cidade por muito tempo.

Nas pequenas e médias cidades, essa dimensão aparece de maneira ainda mais evidente, porque as distâncias entre população, autoridades e instituições são menores e quase todos conhecem alguém que perdeu a casa, o comércio, a lavoura ou o trabalho, fazendo com que a tragédia deixe de ser uma estatística distante para assumir nome, endereço, relações familiares e histórias que permanecem na memória coletiva.

É por isso que a democracia dos pequenos importa, pois os municípios menores não podem aparecer somente quando uma tragédia produz imagens capazes de mobilizar a opinião pública, enquanto as comunidades atingidas não podem ser reduzidas a cenários para fotografias políticas, discursos de ocasião ou campanhas de solidariedade que desaparecem quando a atenção pública encontra outro assunto.

A solidariedade é fundamental em situações de emergência e, em muitos momentos, constitui aquilo que impede que um desastre produza consequências ainda maiores, mas ela precisa caminhar ao lado de políticas públicas permanentes, de instituições preparadas e de mecanismos de participação capazes de acompanhar o período posterior à emergência, quando o interesse público deixa de estar concentrado na sobrevivência imediata e passa a envolver decisões sobre reconstrução, prevenção e adaptação.

O oportunismo cívico

É nesse intervalo entre a emergência e a reconstrução que aparece o que podemos chamar de oportunismo cívico, entendido como a transformação da dor coletiva em capital político, oportunidade de autopromoção, disputa institucional ou construção de reputações, processo que se torna ainda mais evidente em um ambiente no qual as redes sociais transformaram a presença pública em uma forma permanente de comunicação política.

A tragédia produz visibilidade e a visibilidade produz oportunidades, enquanto uma fotografia, um vídeo, uma doação ou uma visita podem circular durante horas como demonstração de eficiência, compromisso ou liderança, fazendo com que a imagem da ação muitas vezes passe a disputar espaço com a própria ação e com a necessidade de acompanhar aquilo que será realizado quando a emergência deixar de produzir audiência.

Nas primeiras horas, essa diferença pode ser difícil de perceber, porque a urgência mistura solidariedade, obrigações institucionais, iniciativas comunitárias e interesses políticos, mas o verdadeiro teste começa depois, quando os voluntários retornam para suas cidades, as equipes de televisão deixam os locais atingidos e as redes sociais encontram outro assunto, enquanto permanecem as casas destruídas, as estradas interrompidas, as escolas que precisam ser reconstruídas, os agricultores que perderam suas safras, os comerciantes que perderam seus negócios e as famílias que precisam reorganizar suas vidas.

A emergência pode produzir uma fotografia, mas a reconstrução exige anos, e é justamente nesse intervalo que se torna possível distinguir a ação pública orientada pelo interesse coletivo da presença política orientada pela oportunidade.

O tempo da política e o tempo do clima

Quando o escritor Érico Veríssimo (2004) dedicou mais de uma década para escrever sua obra clássica, O tempo e o Vento[3], ele retratava um Rio Grande do Sul marcado por guerras, revoluções, miscigenação, transformações políticas. Era o paradoxo entre a permanência do tempo e a mudança dos ventos. Érico apostou que o no mundo rio grandense, as transformações sempre chegariam. Mas, essas mudanças chegaram em relação aos eventos climáticos recentes?

Existe uma diferença profunda entre o tempo da política e o tempo do clima, porque as respostas emergenciais precisam ser rápidas enquanto a prevenção exige continuidade, planejamento e capacidade de sustentar políticas públicas durante períodos que ultrapassam os ciclos eleitorais, considerando que uma cidade não se torna resiliente em poucos meses, a recuperação de rios e áreas degradadas exige tempo, a arborização urbana leva anos e a adaptação da infraestrutura depende de recursos e decisões que precisam ser mantidas mesmo quando deixam de produzir resultados imediatamente visíveis.

O calendário político funciona em outra velocidade, pois governos possuem mandatos, gestores precisam apresentar resultados e políticos precisam demonstrar realizações, enquanto obras visíveis produzem reconhecimento e medidas preventivas trabalham com aquilo que se pretende evitar, criando uma situação curiosa na qual uma política eficiente de prevenção pode produzir justamente a ausência de acontecimentos capazes de demonstrar publicamente sua importância.

Ninguém inaugura uma enchente que deixou de acontecer, e essa característica ajuda a compreender por que a adaptação climática precisa ser pensada como política de Estado, sustentada por planejamento de longo prazo, participação social, transparência, controle público e capacidade institucional para construir decisões que sobrevivam às mudanças de governo.

Tudo está se repetindo

Em 2024, em meio às enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, escrevi que a Tragédia dos Comuns havia deixado de ser apenas um conceito para se transformar em uma experiência concreta, porque as ruas alagadas, o abandono, a disputa entre o público e o privado, a ocupação de áreas de risco, o desmatamento e a destruição dos biomas revelavam uma sociedade diante de um problema que pertencia a todos, mas cujas consequências eram distribuídas de maneira profundamente desigual[4].

Naquele momento, escrevi sobre planejamento, prevenção, educação ambiental, participação política, defesa civil e políticas públicas capazes de chegar à base, em um alerta que permanece atual porque os diagnósticos continuam disponíveis, os estudos continuam sendo produzidos e a ciência continua apontando os riscos, enquanto a distância entre aquilo que sabemos e aquilo que efetivamente fazemos permanece como uma das principais dificuldades da política climática.

Agora, quando vemos novamente a água avançar, as cidades sofrerem e as mesmas perguntas voltarem à superfície, fica difícil tratar cada episódio como se fosse uma surpresa, porque a repetição revela que estamos diante de uma realidade conhecida e de problemas que continuam sem solução estrutural.

Tudo está se repetindo porque pouco mudou.

A Tragédia dos Comuns está mais comum do que nunca, pois rios, matas, áreas de preservação, cidades, territórios e o próprio clima constituem bens compartilhados que continuam submetidos a interesses imediatos, disputas políticas, especulação imobiliária e uma lógica econômica que frequentemente transforma aquilo que pertence a todos em oportunidade para poucos.

Em 2024, escrevi que “as respostas são muitas, mas as resoluções poucas”, e a frase permanece atual porque não faltam diagnósticos, estudos, pesquisas, alertas científicos, planos ou propostas, enquanto continua existindo uma distância considerável entre o conhecimento acumulado e as decisões efetivamente tomadas[5].

O problema está na água que volta, mas está igualmente na incapacidade de aprender com a água que já passou, porque a cada enchente contabilizamos perdas, procuramos responsáveis, mobilizamos solidariedade, reconstruímos aquilo que foi destruído e prometemos que será diferente na próxima vez, até que a próxima chuva coloca novamente diante de nossos olhos aquilo que já conhecíamos.

A tragédia, nesse sentido, deixa de ser um acontecimento isolado e passa a revelar uma forma de funcionamento da sociedade, na qual reconhecemos que o problema é coletivo enquanto distribuímos seus custos de maneira profundamente desigual.

Em 2024, escrevi que a dor se tornava universal e não individual, e hoje é preciso acrescentar que a responsabilidade precisa seguir o mesmo caminho, pois o enfrentamento das mudanças climáticas depende de decisões públicas, instituições capazes de planejar e uma sociedade disposta a acompanhar aquilo que é feito em seu nome[6].

A natureza não está nos perseguindo, porque somos nós que continuamos administrando nossos territórios como se seus limites não existissem, tratando rios, áreas verdes, encostas e cidades como espaços disponíveis para uma ocupação permanente, mesmo quando os próprios acontecimentos demonstram que o território possui limites que não podem ser ignorados indefinidamente.

O futuro que anunciávamos chegou e está se repetindo.

Quem escuta depois da tragédia?

A Defesa Civil acumulou experiências importantes, as instituições aprenderam com os desastres anteriores e existem avanços na prevenção e na resposta às emergências, mas permanece uma distância entre aquilo que sabemos que precisa ser feito e aquilo que efetivamente conseguimos realizar, distância que aparece nas cidades pouco arborizadas, nas ocupações em áreas de risco, nas construções inadequadas, nas redes de infraestrutura vulneráveis e nos sistemas urbanos que não foram preparados para uma realidade climática cada vez mais instável.

Existe ainda uma dimensão menos visível, que aparece quando a cobertura jornalística diminui e a vida cotidiana precisa voltar ao normal, porque depois de uma grande enchente permanece o medo da próxima chuva, a insegurança de voltar para casa, a dificuldade de reconstruir vínculos e a sensação de que aquilo que foi perdido pode desaparecer novamente.

A água pode desaparecer das ruas enquanto continua presente na vida das pessoas, e a reconstrução precisa considerar essa dimensão, porque a perda material possui números e pode ser contabilizada, enquanto o medo, a insegurança e a ruptura das trajetórias individuais e familiares permanecem mais difíceis de medir.

Por isso, a saúde mental precisa fazer parte das políticas de recuperação, assim como precisam fazer parte delas a reconstrução das casas, das escolas, dos hospitais, das estradas e dos sistemas de energia, pois uma cidade não se recupera apenas quando sua infraestrutura volta a funcionar, mas quando seus habitantes recuperam alguma capacidade de imaginar um futuro possível naquele espaço.

A democracia precisa chegar antes da próxima tragédia

Talvez uma das principais lições dos últimos anos esteja na necessidade de discutir prevenção antes que a água suba novamente, porque esperar a próxima tragédia significa aceitar que continuaremos reagindo às consequências enquanto adiamos decisões capazes de reduzir os riscos.

O debate climático precisa partir dos territórios atingidos, e pequenas e médias cidades precisam ocupar espaço nas decisões que definem políticas de adaptação, enquanto as comunidades precisam participar das escolhas sobre reconstrução e prevenção, porque conhecem os territórios onde vivem e possuem uma experiência que dificilmente pode ser substituída por decisões tomadas à distância.

A democracia dos pequenos não é uma democracia menor, mas uma democracia próxima, cotidiana, na qual as consequências das decisões públicas podem ser percebidas diretamente por aqueles que vivem nos territórios e na qual autoridades e cidadãos compartilham espaços, problemas e responsabilidades.

Talvez seja necessário diminuir um pouco a velocidade, ouvir mais, planejar mais e acompanhar de maneira permanente a execução das políticas públicas, construindo decisões que não dependam da comoção de uma semana ou da visibilidade de uma fotografia, mas que permaneçam quando a emergência deixar de produzir audiência.

A solidariedade é fundamental quando a água sobe, mas a democracia precisa continuar funcionando quando ela baixa, porque é justamente quando o sofrimento deixa de ser notícia que começa a disputa pelo futuro dessas cidades.

O clima tem seu tempo, a política tem o seu, e as pessoas continuam pagando a diferença entre os dois.

 

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. É pós-doutorando em Estudos Marítimos (PPGEM/EGN). Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel).  Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.

Etiene Villela Marroni é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCPol/UFPel). Doutora em Ciência Política (UFPel). Também coordena o grupo de pesquisa Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFPel/UFF). É autora de vários livros, dentre os quais, “Governança Oceânica e o Planejamento Espacial Marinho: uma perspectiva histórica”.

 

[1]MARRONI, Etiene. A história de um ciclone e a democracia dos pequenos. Revista Cedepem, v. 3, n. 3, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/cedepem/article/view/30995.

[2]MARRONI, Etiene. Inundações no Rio Grande do Sul: eventos climáticos extremos e lições para os demais estados. Brasil em Foco, n. 5, mai. 2024. Disponível em: https://www.kas.de/documents/265553/19294627/S%C3%A9rie+Brasil+em+Foco+05+-+2024.pdf/8740ffea-ae03-a5d0-e6bd-3eeee6fdb207?version=1.0&t=1716304930495.

[3]VERISSÍMO, Erico. O Tempo e o Vento. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[4]Marroni, 2024

[5]Idem.

[6]Idem.

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