Um socialista em busca da Casa Branca - Le Monde Diplomatique

BERNIE SANDERS

Um socialista em busca da Casa Branca

por Bhaskar Sunkara
4 de janeiro de 2016
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As primárias nos Estados Unidos começam no dia 1 de fevereiro. Embora, do lado democrata, Hillary Clinton pareça bem colocada para ganhar, Bernie Sanders, seu adversário “socialista”, teve um avanço notável nos últimos meses. Apesar da oposição da mídia e do establishment de WashingtonBhaskar Sunkara


Debate entre os pré-candidatos à presidência Bernie Sanders e Hilary Clinton
Para os eleitores de esquerda nos Estados Unidos, uma das características mais marcantes de Bernie Sanders é seu percurso eminentemente familiar. O senador de Vermont e candidato nas primárias do Partido Democrata – do qual não é membro – para a eleição presidencial de novembro de 2016 surgiu na esfera pública da mesma forma que a maioria dos progressistas de seu país: por meio de organizações moribundas, que vivem à margem da vida política norte-americana.

Nascido no Brooklyn, em 1941, de pais judeus emigrados da Polônia, Sanders estava na faculdade quando se juntou à Liga da Juventude Socialista (Young People’s Socialist League, YPSL), seção estudantil do Partido Socialista da América. Nos anos seguintes, enquanto a YPSL desmoronava sob o peso de suas divisões, ele se atirava de cabeça nos combates de sua época: luta pelos direitos civis, contra a Guerra do Vietnã etc. Depois entrou no Partido da União e da Liberdade, uma pequena formação implantada no montanhoso estado de Vermont, onde disputou várias vezes, sem sucesso, os cargos de senador e governador.

No final da década de 1970, ele se retirou da política e envolveu-se em projetos de educação popular. Em 1979, gravou por sua própria conta, pelo selo Folkway Records, os discursos  de Eugene V. Debs, cinco vezes candidato do Partido Socialista da América à eleição presidencial. Assim, legou à posteridade declarações como “Eu não sou um soldado capitalista, sou um revolucionário proletário”, ou “Sou contrário a todas as guerras, com exceção de uma”. Verdadeiras profissões de fé na contracorrente, em um país que se preparava para abraçar a contrarrevolução de Ronald Reagan.

Dois anos depois, no entanto, para surpresa geral, Sanders conseguiu eleger-se prefeito de Burlington, a maior cidade de Vermont; um estrondo aclamado pelo The Vermont Vanguard Press, semanário local, que em uma edição especial proclamou a “República Popular de Burlington”. O novo prefeito colocou na parede de seu gabinete um retrato de Debs. Três vezes reeleito à frente do município, ele ficou mais ousado e, em 1990, conseguiu eleger-se de maneira independente para a Câmara dos Deputados. O cargo foi mantido até 2006, quando foi eleito senador de Vermont. O retrato de Debs agora enfeita seu escritório no Capitólio, em Washington.

 

Unir forças opostas

Como independente, Sanders não hesitou em se candidatar contra o Partido Democrata. Sua visão do socialismo, no entanto, lembra mais o ex-primeiro-ministro sueco (1982-1986) Olof Palme do que seu mentor, o pró-bolchevique Debs. Ele gosta de comparar as realizações do Estado de bem-estar sueco com as desigualdades que dividem a sociedade norte-americana, insistindo sempre na pobreza infantil e na falta de uma cobertura de saúde eficaz e acessível.

 

Em sua boca, a palavra “socialismo” remete sobretudo à longa e rica história do campo progressista nos Estados Unidos, amplamente ignorada pelos discursos oficiais. Na realidade dos fatos, sua linha política como senador de Vermont segue de perto a da ala esquerda do Partido Democrata. Como proclamava, em 22 de maio de 2005, Howard Dean, então chefe do Comitê Nacional do Partido Democrata, no programa Meetthe Press, “é simplesmente um democrata progressista. A realidade é que Bernie Sanders vota 98% do tempo com os democratas”.

Portanto, o único membro independente do Congresso não é um combatente revolucionário, nem mesmo um radical da estirpe de Jeremy Corbyn, do Reino Unido.1 Sua luta está relacionada à redistribuição da riqueza, não à sua propriedade ou controle. Em um discurso recente, ele lembrou que não acredita na “propriedade pública dos meios de produção”.2 Ainda assim, o fato é que seu compromisso progressista destaca-se claramente da posição pró-patronal da adversária Hillary Clinton.

A líder democrata e seu rival socialista são opostos em tudo. Não é apenas uma questão de estilo, ainda que a linguagem cautelosa de uma, que parece ter cada palavra pesada por seus assessores de comunicação, contraste com a verve sem floreios do outro. Também não é uma questão de trajetória, muito embora, no momento em que Sanders militava pelos direitos civis – em 1964 –, Hillary Clinton estivesse ao lado do candidato republicano ultraconservador Barry Goldwater. A diferença fundamental está na própria essência de suas visões políticas. Hillary, que em 2003 votou “sim” para a guerra no Iraque, nunca perde uma oportunidade de lembrar a seu público que ela “representava Wall Street” quando foi senadora de Nova York. Seu concorrente, feroz militante pacifista, pede votos por uma “revolução política”, que ele entende não como a construção de uma sociedade socialista, mas como a participação do povo na vida democrática do país, um pouco à maneira da “revolução cidadã” invocada na França por Jean-Luc Mélenchon.

Que um socialista possa ser popular na América do século XXI é algo que surpreende os observadores. A existência de personalidades políticas ancoradas na esquerda não é uma anomalia na Europa, mas o é nos Estados Unidos, país que jamais abrigou um partido popular de massa capaz de chegar ao poder e estabelecer um regime de redistribuição de grande magnitude. Porém, durante a maior parte do século XX, muitos militantes democratas continuaram a construir as bases de tal sistema. Sindicatos, organizações pelos direitos civis, associações: as forças sociais que investem nesse projeto não desapareceram. No entanto, como não controlam um partido fundamentalmente voltado à defesa dos interesses do capital, elas ficam excluídas do debate público, muitas vezes sem resistir a isso. Com o abismo que as separa dos notáveis do partido crescendo a cada dia, não é surpreendente que as palavras de um Bernie Sanders despertem interesse cada vez maior.

As posições ideológicas de Hillary Clinton baseiam-se amplamente na tradição da “terceira via” estabelecida pelos Novos Democratas. Estes se constituíram no final dos anos 1980, sob os auspícios do falecido Conselho da Liderança Democrata (Democratic Leadership Council, DLC). Sua plataforma, concebida para responder ao conservadorismo triunfante da era Reagan, postulava que o declínio dos movimentos sociais havia anunciado o fim de uma política de justiça fiscal, e que convinha aliar-se ao princípio de um Estado reduzido, focado no apoio às empresas, e não na proteção dos cidadãos – aos quais apenas se concederiam algumas migalhas simbólicas.

Ao longo dos anos 1990, o casal formado pelo presidente Bill Clinton e sua esposa contribuiu poderosamente para realizar essa mudança ideológica. Foi Clinton, e não Reagan, que proclamou o “fim do Estado de bem-estar como o conhecemos”. Aquela que era então primeira-dama – e advogada – não regateou seu apoio às reformas inspiradas pelos Novos Democratas, como a lei de 1996 que cortou os benefícios sociais dos mais pobres.3 Embora Barack Obama tenha prometido mudança, quando a enfrentou nas primárias do partido, em 2008, sua política na Casa Branca pouco se desviou do programa do antigo DLC – com exceção da reforma, inacabada, da saúde. Seu desejo permanente de compor com os meios de negócios decepcionou uma parte da base democrata.

Vários movimentos de esquerda tentaram, nos últimos anos, subverter a linha presidencial, sobretudo após a crise de 2008. Surgimento do Occupy Wall Street, greve dos professores de Chicago, mobilização dos trabalhadores do setor de fast-food, manifestações de rua contra a violência policial, debates públicos sobre as desigualdades de renda: menos destacadas pelos meios de comunicação do que os ridículos do Tea Party ou os delírios de Donald Trump, todas essas erupções sociais sugerem que a esquerda norte-americana, considerada agonizante, poderia estar em via de ressurgir.

O próprio Sanders descreveu sua candidatura como uma tentativa de consolidar e organizar essa esquerda dispersa que luta para ser ouvida: “Se me candidato, é para ajudar a construir uma coalizão que possa ganhar, que possa transformar a política”.4 Ninguém pode prever os efeitos a longo prazo de sua campanha; mas, seis meses após sua entrada na arena, parece que ele atingiu um ponto sensível no país. Alguns de seus comícios atraem dezenas de milhares de pessoas. Dez pontos atrás em Iowa, ele lidera a corrida em New Hampshire, onde deve ocorrer a segunda primária democrata. Ainda mais surpreendente, o candidato socialista teve uma angariação de fundos bem-sucedida – condição sine qua non para sobreviver na vida política dos Estados Unidos: ele já coletou US$ 41,5 milhões, de 681 mil doadores. Seu progresso levou Hillary a ceder em algumas posições: em outubro de 2015, por exemplo, ela anunciou sua oposição ao projeto do Grande Mercado Transatlântico (de livre comércio com a União Europeia), que até então apoiava.

No entanto, os obstáculos diante de Sanders continuam consideráveis, para não dizer intransponíveis. Na maioria dos estados tradicionalmente favoráveis aos democratas, os eleitores acreditam que suas chances de ganhar são menores que as de Hillary – embora as pesquisas apontem que ele ganharia de um candidato republicano. Além disso, Sanders não pode contar com o apoio de nenhum dos “superdelegados”, essa elite de notáveis e eleitos ou ex-eleitos que, sozinhos, representam um quinto dos delegados de uma convenção democrata. Mesmo as figuras mais progressistas do partido – como Elizabeth Warren, Jesse Jackson e Bill de Blasio – abstiveram-se de conceder-lhe apoio publicamente.

Para complicar ainda mais o quadro e fornecer uma indicação do estado atual do movimento sindical nos Estados Unidos, as organizações de trabalhadores não se esforçam para apoiar Sanders. Em novembro de 2015, o poderoso Sindicato Internacional de Trabalhadores de Serviços (SEIU), que representa 2 milhões de trabalhadores, tomou o lado de Hillary, apesar de vivos debates internos. Dois meses antes, a Federação Americana de Professores (AFT) havia feito o mesmo. Assim, Hillary já pode contar com o apoio de 9,5 milhões de sindicalizados, dois terços do total.5

 

O espantalho Donald Trump

Existem, entretanto, exceções notáveis: o National Nurses United, principal sindicato de enfermeiros e enfermeiras, com 180 mil membros, e o Sindicato Americano dos Trabalhadores dos Correios (APWU), que conta com 200 mil membros, colocaram-se ao lado de Sanders. Porém, as grandes centrais consideram prudente apostar na favorita. O mesmo vale para boa parte das redes da sociedade civil – especialmente os pastores negros, muito ouvidos em suas paróquias –, pouco inclinada a assumir riscos. Hillary não precisa, portanto, preocupar-se em demasia. Além de sua forte notoriedade, ela conta com o sucesso estrondoso de Trump, que leva muitos norte-americanos a focar a candidata aparentemente mais séria e tranquilizadora. Os Novos Democratas sempre souberam manter seu domínio apresentando-se como o mal menor…

A campanha de Sanders não visa transformar o Partido Democrata por dentro, como queriam fazer Eugene McCarthy em 1968 ou George McGovern em 1972, nem construir uma força de esquerda comparável à “coalizão arco-íris”, surgida na década de 1980 em torno da candidatura de Jesse Jackson. Mas oferece a milhões de abandonados uma oportunidade de erguer a voz e exigir algo diferente de uma política de conivência com Wall Street. É por isso que o candidato socialista agrada aos ouvidos dos eleitores: ele reabilita a ideia de que um Estado pode vir em socorro das pessoas desfavorecidas se tiver o apoio de movimentos sociais capazes de estabelecer um equilíbrio de forças com o poder do dinheiro.

Embora só tenha crescido ao longo dos últimos meses, o número de militantes envolvidos na campanha do candidato socialista não passa de alguns milhares. Em uma população de 330 milhões de pessoas, é pouco. Mas talvez não seja preciso mais que isso para instilar ideias de esquerda no debate público e dar argumentos àqueles que sentem confusamente que a “classe dos bilionários”, como diz Sanders, não é algo externo a seus problemas.

Dada a natureza e a história do Partido Democrata, participar de suas primárias é uma estratégia certamente ousada. Mas o senador independente de Vermont tem muito pouco a perder e muito a ganhar – a começar pelo nascimento de um novo público interessado naquela temida “palavra que começa com ‘s’”.

Bhaskar Sunkara é fundador e diretor de publicação da revista Jacobin (Nova York).



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