Uma agenda da cooperação internacional - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA / DAVID MALONE

Uma agenda da cooperação internacional

por Silvio Caccia Bava
1 de julho de 2010
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A cooperação internacional tem apoiado o envolvimento da sociedade nas questões das políticas públicas. No ano passado, em todo o mundo, foram US$ 120 bilhões, um ano excepcional. Mas de agora em diante haverá cortes e reduções. E o que o IDRC quer apoiar são, principalmente, ONGs que fazem pesquisas de qualidadeSilvio Caccia Bava

O International Development Research Centre (Instituto Internacional de Pesquisas para o Desenvolvimento) é uma agência de cooperação canadense que receberá, a partir do ano que vem, US$ 300 milhões anuais para investir em pesquisas realizadas por ONGs e outras instituições em prol do desenvolvimento. O Brasil é um dos países em que o IDRC atua e, com a vinda do seu presidente, David Malone, o Le Monde Diplomatique Brasil teve a oportunidade de realizar a entrevista exclusiva que se segue.

 

DIPLOMATIQUE – Que tipo de prioridades o IDRC está definindo no momento?

 

David Malone– Nos próximos cinco anos vamos dedicar aproximadamente 30% do nosso dinheiro a pesquisas sobre agricultura (agriculture food security) e projetos para o meio ambiente. E em relação ao meio ambiente, temos desafios específicos: adaptação às mudanças climáticas, por exemplo. A adaptação não é uma coisa que se aprende no laboratório; você aprende observando a comunidade e como ela está se adaptando. E aí nossos recursos são úteis.

 

Em segundo lugar, há a questão da água. O Canadá é um dos países com maior quantidade de água pura do mundo e, assim como o Brasil, somos um país com grande extensão territorial e muitos recursos hídricos. Temos muitas quedas d’água e cachoeiras, lagos, rios muito poderosos. Estamos certos de que temos água pura suficiente para um desenvolvimento futuro.

 

Água, entretanto, é um assunto que suscita nacionalismos em qualquer país, porque todos acreditamos que não temos água suficiente, sempre queremos guardá-la para nós mesmos. Para proteger nossos interesses, o governo do Canadá criou uma legislação que proíbe a negociação de grandes quantidades de água não potável com os Estados Unidos. E olha que o Canadá e os EUA têm uma ótima relação; vocês podem imaginar o que ocorre entre países que não têm um bom relacionamento.

 

Com o crescimento da população e a provável redução da quantidade de água como resultado das mudanças climáticas, a questão da água é algo que precisa ser estudado mesmo em países como o Brasil, que tem uma quantidade enorme de água, mas que, como o Canadá, talvez não esteja administrando o uso de sua água de maneira sustentável. Adaptação às mudanças climáticas e a questão da água são dois aspectos do meio ambiente que vamos olhar de perto no futuro próximo.

 

Deixe-me falar mais sobre o que vamos fazer com nossos limitados recursos. Nosso orçamento este ano é de US$ 250 milhões, no ano que vem teremos cerca de US$ 300 milhões. Mencionei que 30% serão investidos em questões ligadas à agricultura e ao meio ambiente; outros 30% são para a área da saúde. E concentraremos nosso esforço nos sistemas de saúde: como esses sistemas funcionam para a comunidade? Como podemos ter atendimento para pessoas que vivem em áreas rurais e que tipo de atendimento médico é mais adequado para elas? Se você for capaz de fornecer apenas um sistema limitado, o que seria fundamental nesse sistema?

 

Atualmente há muito dinheiro para descobrir a cura das doenças que mais afetam os países ricos, mas o apoio a sistemas básicos de saúde tem sido de alguma maneira ignorado. Por isso, temos tentado nos manter fiéis aos sistemas básicos de saúde.

 

Nosso governo nos apresentou um desafio interessante há pouco tempo e nos deu um bom dinheiro para resolvê-lo, US$ 220 milhões, que é muito dinheiro para nós. O desafio era: por que não trazer pesquisadores de outros países e ver como podemos evoluir com isso? Entramos em contato com a Fundação Gates (Gates Foundation), porque eles têm um programa de financiamento para propostas interessantes envolvendo países emergentes. Eles acharam que nossa abordagem era interessante e resolveram nos ajudar com financiamento. Então isso nos permitiu crescer ainda mais. Não sabemos ainda se esse projeto vai ser bem-sucedido porque não há como garantir um resultado positivo rapidamente. E isso é algo difícil, porque governos e financiadores querem que você garanta o sucesso do projeto. Em pesquisa, no entanto, você não pode garantir resultados, você pode explicar os métodos e garantir o máximo esforço dos envolvidos.

 

Outra boa notícia é que instituições que não estavam trabalhando com sistemas de saúde nos últimos anos voltaram a trabalhar com isso, inclusive a Fundação Gates. O importante é que eles, assim como nós, também têm aprendido. E temos aprendido que às vezes o importante não é encontrar a cura, mas os sistemas de distribuição da cura. Você pode ter a melhor solução para a pólio, há boas soluções para evitá-la, mas se você não conseguir distribuir essa cura não adianta nada, o que tem acontecido em regiões remotas como o Norte da Índia e o Afeganistão.

 

A terceira área, que é muito importante e na qual temos um forte compromisso, é na elaboração de programas econômicos e sociais. Essa abordagem começou com o primeiro presidente do nosso primeiro comitê: sempre achamos que implantar programas econômicos sem programas sociais simultaneamente não resultaria em sociedades equilibradas.

 

Finalmente, trabalhamos com desenvolvimento de Ciência e Tecnologia. Cerca de 10% dos nossos recursos são destinados a essas áreas. No Canadá, a ideia básica é de que os países em desenvolvimento são tão capazes quanto nós. Então, se trabalharem em Ciência e Tecnologia, serão tão bem-sucedidos quanto nós. Mas chegar ao ponto em que eles possam trabalhar com Ciência e Tecnologia em alto nível não é fácil e temos adotado uma série de experiências em relação às maneiras de financiamento nessa área.

 

Outros 10% vão para projetos especiais, porque você nunca sabe quando um bom projeto vai bater na sua porta, por isso gostamos de ter um pouco de recursos guardados para esses momentos eventuais. Gostamos de analisar a maioria das propostas que recebemos. Metade dos projetos são aprovados de acordo com processos competitivos, a outra metade é fruto de uma certa curiosidade, da qualidade da ideia, de como essa ideia é atraente. Isso traz mais risco ao projeto, mas risco é uma parte grande do processo de desenvolvimento de pesquisas.

 

DIPLOMATIQUE – Vocês têm larga experiência trabalhando com outras instituições similares. Temos visto uma grande mudança nas políticas das agências de cooperação. Qual é a diferença entre IDRC em relação aos demais doadores e como vocês veem essas mudanças de maneira geral?

 

Malone– Em primeiro lugar, o que se pode ver é que a opinião pública quer que o dinheiro seja concentrado nas pessoas mais pobres e nos países mais pobres. Mas eles confundem os dois. Esquecem, por exemplo, de que a Índia, que não é mais um país pobre, mesmo assim tem 500 milhões das pessoas mais pobres no planeta. As pesquisas costumam simplificar esse assunto. De qualquer maneira, geralmente no Hemisfério Norte o foco tem sido dedicar mais recursos aos pobres.

 

Há também uma tendência de concentração, uma ideia de que se você investir em apenas três ou quatro países terá mais impacto do que se você investir em 20 ou 30 países. Dá aos doadores uma sensação maior de controle e de mais resultados, porque eles se sentem atores mais poderosos. Isso é algo que os governos e ministérios acreditam hoje em países como Noruega e Grã-Bretanha, por exemplo. Já o Canadá age em mais de 20 países, além de atuar em um ou outro problema específico em outros países. Por outro lado, há instituições como a nossa, que tendem a ser mais globais, mas não são todas.

 

De uma maneira geral, as fundações estão menos preocupadas com a justificativa de suas ações. A Fundação Ford, por exemplo, nunca se preocupou com o crédito ou a divulgação. Eles estão preocupados em fazer a diferença, não estão preocupados em parecer importantes, assim como a Fundação Rockfeller e muitas outras.

 

A ideia do IDRC é semelhante. Somos muito gratos à verba que recebemos do Parlamento Canadense, ao qual nos reportamos, e que delega ao nosso comitê o trabalho de orientar os nossos projetos.

 

Outra tendência é fiscalizar cada vez mais como será gasto o dinheiro doado. Não necessariamente para reduzir o volume de dinheiro, mas para saber se o dinheiro gasto está realmente fazendo a diferença. Nos últimos anos, os investimentos da cooperação têm sido, em minha opinião, importantes do ponto de vista do envolvimento da sociedade, e isso tanto no Brasil quanto na Índia.

 

O ano de 2009 foi surpreendente para a ajuda internacional. Passamos por uma grande crise econômica internacional, mas ao mesmo tempo foi o melhor ano em termos de verba para a ajuda, US$ 120 bilhões. Mas acho que será o último ano com esse perfil que veremos durante um bom tempo.

 

Tenho a intuição de que a maioria dos países estará reduzindo gastos em cooperação em vez de aumentá-los. O governo canadense está aumentando programas de ajuda em 8% este ano para atingir seu plano de dobrar a ajuda nessa década e dobrar a ajuda à África. Mas a partir daí esse valor será congelado provavelmente por quatro anos ou pelo tempo que demorar até eliminar o déficit.

 

Se você é um governo do Hemisfério Norte que terá que cortar o déficit, olha para o seu orçamento e vê onde pode cortar gastos: defesa e ajuda. Essas são duas áreas em que é possível cortar gastos nas nações do Norte. Por isso, os países que quiserem fazer ajustes sérios terão que olhar para essas duas áreas. No Canadá, certamente haverá cortes no orçamento de Defesa, assim como na questão da ajuda após o período que citei.

 

DIPLOMATIQUE – Sabemos que a pobreza é algo produzido por políticas públicas e outros fatores. Portanto, se quisermos encarar o desafio e eliminar a pobreza, o fator-chave não é a pobreza em si, mas a relação entre Estado e sociedade e a revisão das políticas públicas que produzem isso. Mas agora estamos em outro momento, estamos na fase de buscar novos paradigmas e novos modos de desenvolvimento. É possível manter o alívio da pobreza como elemento-chave das estratégias de cooperação?

 

Malone– Em primeiro lugar, concordo totalmente com sua análise. Vou dar um exemplo. O problema da Índia não é a falta de recursos nem é a falta de recursos do governo indiano, pois o governo indiano tem muitos recursos. O problema é a falência do governo indiano em fornecer bons serviços públicos para a população pobre, como ensino público de qualidade. Qualidade no atendimento da Saúde e na Educação é o que os indianos das regiões mais afastadas precisam, e daí eles não seriam mais pobres, teriam a capacidade de buscar melhorias econômicas sozinhos.

 

Uma coisa que odeio no Hemisfério Norte ou no Canadá é ouvir pessoas que querem ajudar tratando os pobres como se fossem vítimas patéticas. Eles são muito mais que isso, e é um erro infantilizar grande parte do mundo pensando dessa maneira. Se eles tivessem uma pequena quantidade do apoio que merecem, fariam muito. Isso na Índia é evidente, a combinação entre estruturas democráticas, a mídia livre – embora nem sempre muito responsável – e uma sociedade muito dinâmica tem sido um contraponto positivo em relação aos altos níveis de corrupção, aos políticos que atuam em causa própria e a todos os outros problemas. Estou convencido de que um processo de desenvolvimento é a solução para os problemas, a única questão é como podemos fazer para acelerá-lo.

 

DIPLOMATIQUE – Qual é o papel das Organizações Não Governamentais nessas sociedades?

 

Malone– Acredito que as ONGs têm uma enorme atuação em atividades bastante variadas. Há ONGs que têm um papel valioso em algumas áreas, outras que são boas em conectar diversas questões de maneira bastante sofisticada, outras que se concentram fortemente em um único tema e geralmente conseguem resultados efetivos. Mas acredito que as ONGs que fazem as conexões entre causas da pobreza e soluções para a pobreza, por exemplo, são muito interessantes porque são com essas ONGs que temos mais condições de interagir. E podemos aprender e apoiar o trabalho que elas fazem.

 

DIPLOMATIQUE – Qual é a opinião do IDRC em relação às pesquisas no Brasil? O grande desafio é realizar pesquisas relevantes que, após serem debatidas pela sociedade, se transformem em políticas públicas.

 

Malone– É um padrão que começa a ser cada vez mais repetido. Os Think-Tanks e as organizações de ativistas começam a ter uma influência cada vez maior. Se você olhar para a legislação mais recente, vai ver que grande parte nasceu de propostas realizadas por setores da sociedade e Think-Tanks. Em outros países isso também acontece. Sabemos que na China, o governo chinês, que por um lado projeta um controle total, constantemente consulta institutos de pesquisas. ‘O que devemos fazer?’, ‘O que podemos aproveitar dos seus programas?, ‘O que as pessoas realmente querem?’, ‘Como podemos fazer isso?’. É um governo muito mais consultivo do que parece para quem vê de fora, e ouvimos isso porque trabalhamos muito com instituições de pesquisa chinesas. O governo nem sempre faz o que os institutos sugerem, mas essa também é a realidade no Canadá, por exemplo.

 

DIPLOMATIQUE – O IDRC tem firmado acordos com instituições como a Hewlett Foundation e a Gates Foundation para financiar Think-Tanks. Qual é a intenção de vocês e por que é importante fazer isso? 

 

Malone– Em primeiro lugar, tenho de dizer que essa não foi uma ideia do IDRC. Muitas das boas ideias que o IDRC acaba trabalhando não são nossas. Essa foi uma ideia da Hewlett Foundation, uma fundação progressista e inovadora na Costa Oeste dos Estados Unidos, próxima à Universidade Stanford e que obviamente recebe suas verbas da Hewlett Corporation, a grande empresa de eletroeletrônicos.

 

Os fundadores da companhia queriam que seu dinheiro fosse investido em processos de desenvolvimento em todas as partes do mundo. Eles chegaram à conclusão de que construir institutos capazes em países emergentes para trabalhar em desafios de implantação de políticas também era importante. Então decidiram reservar uma boa quantidade de dinheiro durante dez anos – e esse período para uma instituição como a Hewlett Foundation permite reservar muito dinheiro – para instituições americanas trabalharem em certas áreas que eles consideravam importantes e também para apoiar instituições nos países em desenvolvimento. E, finalmente, chegaram até nós e nos perguntaram se gostaríamos de trabalhar com isso. Achamos que era uma ótima ideia, que iríamos também colocar parte do nosso dinheiro nesse projeto. Gostaria de aproveitar para homenagear a Hewlett Foundation, porque essa ideia foi deles e investiram muito dinheiro nela, muito mais do que poderíamos investir. E, mais recentemente no processo, a Gates Foundation – que se uniu a essa iniciativa, investiu a mesma soma que a Hewlett Foundation.

 

A ideia é descobrir Think-Tanks interessantes nos países em desenvolvimento, instituições de pesquisa que sejam interessadas em trabalho de alta qualidade. Que já tivessem alguma capacidade, mas que possam ampliar essa capacidade com mais recursos.

 

DIPLOMATIQUE – Instituições independentes ou acadêmicas?

 

Malone– Geralmente independentes, mas não fizemos nenhuma proibição às instituições acadêmicas. Em 2009, fomos capazes de anunciar 22 bolsas em onze países da África; este ano, muito em breve, vamos anunciar um grande número de bolsas em sete países da América Latina, quatro na América do Sul e três na América Central, além de algumas bolsas em cinco países no sul da Ásia. Por que esses países foram escolhidos? A Gates Foundation se concentra muito na África e no sul da Ásia; a Hewlett Foundation e o IDRC não têm preferência geográfica. Mas a Gates Foundation nos permitiu fazer mais no sul da Ásia e acho que outros parceiros vão se juntar a nós ainda nessa primeira fase da iniciativa.

 

Certamente gostaríamos de financiar uma segunda fase, acho que a Hewlett Foundation também concorda com isso. Mas temos de ser capazes de convencer os financiadores de que vale a pena fazer isso. Somos muito otimistas, incentivamos as instituições dos países envolvidos a competir pelas bolsas, apoiamos a potencialização de capacidades. O que também é algo em que o IDRC acredita de coração, porque sabemos que essa capacidade já existe e precisa apenas ser desenvolvida.

Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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