Uma comparação de "utopias" - Le Monde Diplomatique

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO e 1984 U

Uma comparação de “utopias”

por François Brune
1 de setembro de 2000
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Admirável mundo novo tem como enredo social… o amor, alimentado ritualmente pelos “Cultos de Solidariedade”. Em 1984, a teia social é o… ódio. Um ódio fortalecido a cada dia por um esporte ritual intitulado “Os Dois minutos de Ódio”François Brune

Admirável mundo novo e 1984 marcaram a história do século 20 ao anteciparem e denunciarem as primeiras formas das sociedades totalitárias. Porém essas “utopias” não teriam tido tanto sucesso se modalidades complementares e seus traços comuns não anunciassem, na era da globalização e da multimídia, os perigos de totalitarismos futuros. Um breve paralelo entre as duas obras torna isso evidente.

Admirável mundo novo é, antes de tudo, o quadro de uma sociedade capitalista triunfante. A máquina de produção-consumo, globalizada, exige uma perfeita normalização do “cidadão”, mesmo antes de seu nascimento, através de manipulação genética, e pelo acondicionamento durante o resto da sua vida. Não há mais sujeitos, há massas anônimas, escravas de uma felicidade conformista que não escolheram.

As “delícias” da infelicidade

1984, por sua vez, descreve uma sociedade totalitária de natureza “comunista”. A economia da penúria e a ordem stalinista regem por todo o sempre os três super-Estados que partilham entre si o planeta. Os “cidadãos” sofrem uma disciplina física e mental conscientemente despersonalizante. Sua consciência reduz-se a uma ortodoxia pérfida, e sua existência, às delícias sado-masoquistas de uma infelicidade conformada.

Mais profundamente, Admirável mundo novo ilustra um totalitarismo da felicidade perfeita. A Cidade é uma Mãe, porém uma Mãe terrorista, que infantiliza e animaliza os cidadãos-bebês em nome de um “bem”comunitário do qual ninguém tem o direito de escapar.

Ódio à base de histeria sexual

1984 vai ainda mais longe, encarna um totalitarismo do puro poder. A ordem social regida aparentemente por um governante protetor (o Grande Irmão), na realidade obedece à lei do Pai sádico. Todos devem, literalmente, rebaixar-se a seus pés, sob seu olhar, e depois, da mesma forma, rebaixar seus “concidadãos”, num complexo totalmente infantil de medo e ódio.

Admirável mundo novo tem como enredo social… o amor, alimentado ritualmente pelos “Cultos de Solidariedade”. Porém trata-se de uma solidariedade impessoal, uma relação melosa com base numa sexualidade difusa, onde todo mundo “comunga” anonimamente.

Em 1984, a teia social é o ? ódio. O ódio por tudo e todos que pudessem minimamente sair da linha, um ódio fortalecido a cada dia, diante da Tela, no momento do esporte ritual intitulado “Os Dois minutos de Ódio”. Esse ódio é à base de histeria sexual: a sexualidade é reprimida para ser “convertida” em pulsão de poder.

O presente é eterno

Admirável mundo novo descreve uma civilização na qual a história não existe mais. A casta dirigente, para conservar eternamente sua dominação – sob o pretexto de fazer o bem dos homens, tem por objetivo essencial a “estabilidade social” obtida pelo amor à servidão. A finalidade proclamada é “fazer com que as pessoas gostem do destino de que não podem escapar…” O meio: as diversões audiovisuais que neutralizam a consciência crítica, e o “soma”, uma droga que leva à euforia sem o tédio do hábito.

1984 também suprime a História, uma vez que houve a “Revolução”; a classe dirigente institui, publicamente, a fraseologia revolucionária para desencorajar antecipadamente qualquer idéia de revolução futura. Nega-se o passado, como o futuro. Jornais e livros – reescritos, se necessário for – comemoram um presente eterno; é a “realidade” inventada pela classe dirigente, na qual todos são obrigados a acreditar – a consciência coletiva fica sem memória: constitui-se a partir do consumo da atualidade oficial.

Libertação coletiva e liberdade interior

Em ambas as Cidades, a política é avaliada tomando o existencial por referência: estreitas relações ligam, em profundidade, a estrutura psíquica do indivíduo e a ordem político-social que o aliena. O mínimo ato de existência, a mínima pulsão aparentemente espontânea, são, na verdade, o reflexo ou o produto de modelos ideológicos interiorizados desde a infância. Do que resulta que o combate militante contra a opressão do sistema começa pelo trabalho psico-político de lucidez sobre si próprio…

O cidadão que reflita sobre essas obras aprende, portanto, que não há libertação coletiva sem a reconquist



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