MULHERES E O DESLOCAMENTO

Uma conversa com a autora e imigrante Lu Rodrigues sobre sua obra de estreia na ficção

Em Mariposas não voam longe, a autora traz contos com protagonistas mulheres que, a partir de suas individualidades, rompem com as imposições patriarcais.

A inadequação, a angústia e o não-pertencimento são alguns dos sentimentos fomentados na maioria das mulheres pelas imposições de uma sociedade ainda fortemente marcada pelas regras do patriarcado. Neste contexto, Lu Rodrigues lança uma obra que traz histórias de mulheres que enfrentam essas imposições e sustentam seus traços mais marcantes. 

Nos quinze contos reunidos no livro Mariposas não voam longe, publicado pela editora Litteralux, a autora traz mulheres que têm em comum uma sensação de inadequação que as levam a uma jornada em busca de sentido, seja ela interna ou externa. A obra – além de abordar temas complexos da realidade feminina como a descoberta do corpo, a ancestralidade, a maternidade e o envelhecimento – transita entre Brasil, Portugal e diferentes realidades. 

Lu Rodrigues nasceu em São Paulo e hoje mora em Lisboa, Portugal. É escritora, jornalista e mãe do Rafael e da Clara. Trabalhou por duas décadas em emissoras de TV brasileiras, como Rede TV!, Band e Record TV. Em 2017, decidiu dar uma pausa no jornalismo para aprender a ser mãe e se reencontrar na escrita. Desde então, escreve sobre maternidade, feminismo e autocuidado nas redes sociais – e fora delas também. Seu primeiro livro, Maternidade com autoamor, foi lançado em 2023 pela editora Labrador, porém Mariposas não voam longe é sua obra de estreia na ficção. 

Crédito: Divulgação

Confira abaixo uma entrevista com a autora: 

Por que escolher temas como o sentimento de não-pertencimento, de solidão e de inadequação femininos para abordar em sua primeira obra de ficção? Como esses temas se apresentaram na sua vida? 

Já trabalho os temas há alguns anos no meu projeto literário. Depois que virei mãe, senti na pele os preconceitos contra as mulheres no mercado de trabalho brasileiro, a invisibilidade quando se tem filhos e passei a estudar autoras feministas como bell hooks, Audre Lorde e Pabla Pérez San Martin. A partir daí, percebi que somos socializadas para seguir certos padrões, desde a infância. Temos que seguir algumas regras de beleza e de comportamento, para sermos as boas mães e boas esposas do futuro. É isso que a sociedade patriarcal espera de nós. Quando vem o envelhecimento, a mulher depara-se com uma solidão imensa e uma série de arrependimentos. Em muitas, também vem um desejo muito grande de romper com as normas pré-estabelecidas e finalmente viver do jeito que se deseja. 

E, em um contexto geral, o que te motivou a escrever esse livro? Como as opressões sobre as mulheres aparecem ao longo da obra? 

Minha grande motivação são os direitos das mulheres e mostrar o quanto a sociedade quer que nos sintamos inadequadas porque não somos as meninas mais bonitas e populares da escola na adolescência ou quando temos famílias que não nos acolhem do jeito que somos ou vivemos em lugares que não nos aceitam. Quando nossa maternidade não corresponde às exigências de uma sociedade cada vez mais rígida com as mães e o nosso envelhecimento é invisibilizado. A partir dessas questões, escrevo sobre um sistema que segrega as mulheres na sociedade, no mercado de trabalho e nos espaços de poder. Todas sofrem, mas escrevo também sobre as mulheres pobres, pretas e imigrantes, as que estão na base dessa pirâmide de opressão e nunca podemos nos esquecer disso. 

Como foi o processo de escrita dessa obra? Levou muito tempo para a construção dos contos e suas personagens? 

O processo de escrita vem acontecendo há três anos, desde que entrei para a comunidade de escrita da professora e escritora Ana Holanda e passei a escrever contos. Sempre vinham à minha cabeça histórias e temas ligados às mulheres, talvez porque seja um tema que pesquiso há oito anos. No ano passado, saí da Comunidade e tirei o ano todo para escrever o livro. Fiz acompanhamento literário com a escritora Nara Vidal, que me ajudou a criar um fio condutor para a obra e a pensar nas histórias. Também aprendi técnicas de contos com a escritora Fabiane Guimarães, tive duas excelentes professoras de ficção. No final do ano, apresentei o livro para a editora Litteralux, que se interessou pela publicação.    

Você comentou que pesquisa o tema há oito anos. Você pode contar um pouco sobre sua trajetória como pesquisadora? Como essa trajetória influenciou e influencia sua escrita?  

Após o nascimento dos meus filhos, comecei a investigar as questões sociais da maternidade no Brasil. Com a perda da minha mãe por um câncer, tive um burnout e decidi dar um tempo na carreira como jornalista na TV. Comecei a escrever sobre maternidade em blogs e em redes sociais e tornei-me jornalista freelancer. Participei de diversos cursos de escrita e estudei sobre o autocuidado feminista e saúde mental. Então, decidi escrever o meu primeiro livro, Maternidade com autoamor, lançado em 2023. Nos últimos três anos, comecei a estudar escrita literária, participei de uma coletânea no ano passado e este ano acontece a minha estreia na ficção literária com Mariposas não voam longe. 

Houve alguma pesquisa feita especificamente para escrever o novo livro? Teve algum ponto em que você decidiu estudar mais a fundo? Como ele influenciou essa pesquisa impactou na construção da obra? 

Sim, para ele fiz um estudo de arquétipos femininos de deusas, por causa do meu interesse em estudos da mulher na sociedade.  A estrutura do livro foi criada de acordo com o arquétipo da deusa das bruxas, Hécate. Ela é uma deusa da mitologia grega associada à magia, à noite, à lua, aos espíritos e às encruzilhadas. Ela é frequentemente representada como uma deusa tríplice. Em algumas tradições esotéricas modernas, como a Wicca e o neopaganismo, Hécate é associada à tríade Donzela, Mãe e Anciã (ou Bruxa), que simboliza os ciclos da lua, da vida e da feminilidade. A estrutura do livro tem três partes: a primeira parte são as donzelas, que representam a juventude, as novas possibilidades. A segunda parte chama-se mulheres-mães, porque traz a mulher adulta, seu poder, proteção e maturidade. E a terceira parte são as bruxas, as mulheres mais velhas que são repletas de sabedoria e se deparam com as questões de morte e transformação. 

Falando do Maternidade com autoamor, a experiência na escrita dele influenciou de alguma maneira a construção do Mariposas não voam longe?  Você consegue encontrar semelhanças nos livros? 

O primeiro livro é mais pessoal, pois é cheio de memórias sobre os meus primeiros anos com a maternidade, onde relato as minhas experiências pessoais e como sobrevivi ao tsunami daquela fase. Também é bem reflexivo, ao contrário deste que é um livro de contos. Acredito que as obras sejam completamente diferentes, mas nas duas estão temas recorrentes no meu projeto literário, como a pressão estética e social sobre as mulheres, a saúde mental e a solidão das mães, a sociedade patriarcal que nos sufoca.     

Você tem o hábito de ler majoritariamente obras escritas por mulheres, certo? Você poderia comentar um pouco sobre esse hábito e o porquê de ter fomentado ele? 

De alguns anos para cá, eu tomei a resolução de ler e apreciar preferencialmente a arte de mulheres. Assim como outras escritoras, percebi o quanto a nossa formação intelectual vem de conteúdo produzido por homens. Também tinha vontade de conhecer mais as mulheres vivas que estão hoje fazendo arte. Por isso, estou em meio a uma longa pesquisa de autoras contemporâneas. Adoro Elena Ferrante, é a minha escritora favorita. Gosto muito da ambivalência das personagens que ela cria e a relação da obra dela com a psicanálise. Mas recentemente me apaixonei por essa nova onda da literatura latina que mistura o horror, o social e as mulheres: Mariana Enriquez, Dolores Reyes, Mónica Ojeda. Sem dúvida esse estilo me inspira muito. Li vários contos para escrever o meu livro, inclusive os de autoras mais conhecidas no Brasil, como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. De uma brasileira contemporânea, cito Erva Brava, de Paulinny Tort, que foi o melhor livro de contos que li no último ano. 

Já que você citou as influências do livro e da escrita de contos, você poderia explicar por que escolheu este gênero para compor o livro? Desde quando você escreve contos? 

Comecei a escrever contos há três anos, na comunidade de escrita da minha querida professora, a Ana Holanda. Participei da comunidade entre 2022 e 2024. A ideia para o primeiro conto do livro surgiu durante um exercício, justamente, escrever um conto. Para fazer o texto, assisti um vídeo que narrava um conto de Machado de Assis, A Cartomante. Lembrei que era um dos meus contos favoritos quando era adolescente. Depois, relembrei o quanto gostava de ler e escrever contos quando era mais jovem. Quando a Ana leu meu conto, ela adorou e me incentivou a fazer outros. Desde então, passei a escrever e ler contos de novo. 

Quais mensagens você espera que mulheres que vivem as realidades que aparecem na nova obra levem após a leitura dela? 

As principais mensagens são que o não-pertencimento é um sentimento de inadequação que existe em várias fases da vida das mulheres e é muito difícil a gente se sentir parte de uma sociedade que nos exclui desde a infância até o envelhecer. Muitas de nós iremos sentir essa solidão e talvez buscar um espaço que faça sentido, para escapar desse voo em espiral das mariposas, que nunca leva a lugar algum. 

E quais foram os impactos da escrita do livro em você? Esse processo te transformou de alguma forma? 

Sim, foi um livro que me fez amadurecer como mulher e escritora. Consegui me colocar no lugar das minhas personagens e transitar pelas suas emoções, sonhos e desejos. Mariposas não voam longe me fez refletir sobre a minha própria solidão na infância e na maternidade e meu sentimento de não-pertencimento, que se acentuou muito depois que mudei de país. Acho que a minha busca pessoal pela ancestralidade também está presente no livro, o desejo de compreender a minha identidade e conhecer a história das mulheres da minha família. 

Crédito: arquivo pessoal

Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais. 

 

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