Uma conversa com André Giusti sobre seu novo romance
Só vale a pena se houver encanto (Caos e Letras, 368 págs.), acompanha um protagonista jornalista que atravessa o cenário político da capital
Imagine este cenário: sua vida pessoal passando por um período conturbado ao mesmo tempo em que estoura uma crise política no seu país e você é o jornalista responsável por cobrir esse acontecimento. Essa é a situação do personagem Alessandro Romani, no romance de estreia de André Giusti (@andregiustim68), Só vale a pena se houver encanto (Caos e Letras, 368 págs.).
No livro, Alessandro enfrenta uma série de perdas, desemprego, separação e morte – em meio aos bastidores da cobertura de acontecimentos recentes da política brasileira, como as manifestações de 2013 e a ascensão e queda da primeira presidenta do país. Ao longo do enredo do livro, o personagem reflete sobre paternidade, precariedade do jornalismo, virilidade e as expectativas de futuro que atravessam toda uma geração. Além disso, encontra-se na obra uma discussão sobre o estereótipo da masculinidade e a dificuldade de homens observarem e entenderem os próprios sentimentos.
André Giusti nasceu no Rio de Janeiro, onde viveu até os trinta anos, quando mudou-se para Brasília, cidade em que vive até então. Sua trajetória no jornalismo inclui passagens pelo Sistema Globo de Rádio (Rádio CBN), Grupo Bandeirantes de Comunicação, Fundação Roquete Pinto (TVE-RJ), Rádio e TV Justiça, entre outros. Atualmente, é assessor de imprensa do Senado Federal e repórter freelancer do #Colabora. Na literatura, foi finalista do Prêmio Jabuti em 1997 com Voando Pela Noite, Até de Manhã (7Letras, 1996) e semifinalista do Oceanos 2024 com As Filhas Moravam Com Ele (Caos e Letras, 2023). Só vale a pena se houver encanto é seu 11º livro e primeiro romance.

Confira abaixo uma entrevista com o autor
O personagem principal do seu livro é um jornalista e escritor carioca radicado em Brasília, bem como você. Até que ponto ele é inspirado na sua trajetória? Você considera o livro uma autoficção?
Alessandro Romani foi criado a partir da minha costela, certamente, mas ele sou eu e mais tantas pessoas verdadeiras ou fictícias. Se é autoficção que chamam, tudo bem, não vejo nenhum problema, e acredito que não se começou a fazer isso apenas de uns tempos para cá. Vale dizer que tudo isso tem como pano de fundo a situação política do Brasil entre 2002 e 2016, os bastidores da imprensa em Brasília e um pouco também de bastidor do mundo literário.
E por qual motivo você escolheu escrever sobre esse momento histórico e os temas que o permearam? Qual você diria que é o tema principal?
Eu precisava administrar e equacionar perdas e decepções em todos os níveis, desde o pessoal ao profissional passando pelo amoroso, e minha melhor maneira de equacionar tanto a dor quanto o prazer, tanto a alegria quanto a tristeza é escrevendo. Escrevi um livro para contar o que aconteceu comigo, mas também o que aconteceu, não foi bem do jeito que contei; o que não aconteceu, mas eu queria que houvesse acontecido, o que não aconteceu e agradeço por não ter vivido, e o que aconteceu com outrem e o que inventei. Acho que esses são os caminhos da chamada autoficção.
De uma maneira simplista, o tema principal do livro é a própria vida. Mas ramificando, o livro trata de como fazer de nossas vidas algo mais do que simplesmente viver.
O livro também tem certo tom existencialista, certo? Qual o principal questionamento estabelecido pela narrativa?
O embate do personagem principal e narrador, Alessandro Romani, contra a mecanicidade de acordar todos os dias e dormir todos os dias feito um autômato está representada muito no “pagar as contas”. Em determinado momento, quase que desesperado, ele se pergunta e pergunta a outra pessoa se a vida se resume a isso, a pagar contas. Outro dia, uma leitora próxima me chamava a atenção para o fato de que o livro é também sobre crescer e amadurecer através da dor e das perdas, encontrando nesse amadurecimento e nesse crescimento não apenas o sentido da vida, mas a alegria de viver. É um livro sobre mudanças na vida de um cara. Mas não há nada de autoajuda. Muito pelo contrário. Ele, inclusive, é bem crítico a essa história.
Visto que o livro é uma autoficção, como foi o processo de escrita dele, como ele te afetou emocionalmente?
O processo foi, antes de tudo, emocionalmente intenso. Ri e chorei muito enquanto escrevia esse romance. Às vezes parava e começava a dar gargalhada; em outras, caía num pranto convulsivo. Dependia da cena, do que a originou, de quem ou o que me inspirou a escrevê-la. Eu levei onze anos escrevendo esse romance, de 2012 a 2023, sendo que nos últimos anos o trabalho era diário, inclusive fins de semana e feriados. Ele teve cinco versões, até ser publicado. Passou pela leitura crítica do Sérgio Tavares, que elaborou um parecer bastante duro. Eu sempre brinco dizendo que quando eu li o parecer dele “eu perdi a vontade de viver”. Mas foi fundamental. A partir dele cortei excessos (e havia muitos, um excesso de excessos rs rs), refiz diálogos, tornei algumas partes mais contundentes e dei a elas a importância que mereciam. Uma outra mudança que considero fundamental, mas essa foi antes da leitura crítica, foi ter mudado a narração da terceira para a primeira pessoa. O livro ganhou força e veracidade.
Este é seu primeiro romance certo? O que te motivou a se aventurar em uma narrativa mais longa?
É meu primeiro romance. Até então, só havia trabalhado com conto, crônica e poesia. Chega uma hora, ao menos em meu caso, em que as coisas não cabem mais de forma confortável em gêneros de pouco espaço. Eu precisava falar mais, eu precisava escrever mais, e acho que precisava me sentir de fato um escritor. Não que antes não me sentisse, e não que um autor que só tenha contos, por exemplo, não possa se sentir, mas é que no meu caso, depois de cinco livros de contos, dois de crônicas, uma novela e dois de poemas, eu precisava desse desafio grandioso que é escrever um romance.
E como a bagagem dos seus livros anteriores influenciou na escrita do Só vale a pena se houver encanto?
Com a própria maneira de construir uma narrativa. Acho que não mudei nada no romance, apenas ampliei, e muito, claro, o que fiz até hoje nos contos. O jeito como escrevi o romance é o jeito como escrevo meus contos, procurando ter objetividade na narração, diálogos afiados, imagens claras, cenas fortes, texto direto, verbos de peso, personagens que deixem claro ao que vieram na história e a preocupação de abrir os capítulos pegando o leitor de um jeito que ele não largue o livro.
Uma característica importante desse romance é a prosa coloquial adotada pelo narrador-personagem. Esse aspecto é frequentemente no seu estilo de escrita?
Eu sou um autor que busca a elegância no texto, sem cair na tentação do esnobismo ou do academicismo, usando vocabulário por demais rebuscado. Acho que uma palavra inusual de vez em quando é válida. Sempre, complica a vida do leitor, e acho que num mundo com tantos escritores bons, a gente não deve criar problema para quem está nos lendo. Minha escrita é objetiva, assertiva, se eu digo que algo é vermelho, é porque é vermelho mesmo. Busco, além da elegância, algumas colheres de poesia, afinal eu também sou poeta.
Quais são suas principais influências artísticas e literárias? Quais delas influenciaram diretamente a obra?
Eu sempre fui influenciado pelos autores que li na adolescência: Fernando Sabino, Rubem Braga, Mário Quintana (que apesar de poeta, levo para mim também quando escrevo prosa) Luis Fernando Veríssimo, Chacal (mesmo caso de Quintana). E de trinta anos para cá, John Fante e Charles Bukowski. Este último colaborou demais para a atmosfera do romance. Lygia Fagundes Telles também me influencia na forma como constrói a narrativa, como apresenta seus personagens e com os temas que ela escolhe para suas histórias. Por fim, sou muito influenciado também pelo Rock e pelo Blues. Pode até nem ser pelas letras (no caso de Raul Seixas e do Blues, é), mas certamente pela musicalidade. Muita coisa que escrevi nasceu quando eu estava escutando Rock ou Blues.
O que vem por aí? Quais são seus próximos projetos literários?
Eu aprontei recentemente um livro de contos, mas não há prazo para ser publicado, ainda não mostrei para a editora. Ele está grande, talvez seja preciso tirar algumas histórias. Continuo escrevendo contos, poemas e crônicas (estas para o meu blog), o que para mim é um processo contínuo, e tomando notas para quem sabe, um novo romance.
Ana Ferrari é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

