Há coisas que só cabem no silêncio: uma entrevista com o escritor Bruno inácio
Em nova edição pela Reformatório, com três contos inéditos, De repente nenhum som, de Bruno Inácio, reúne histórias de uma mesma família do interior paulista para pensar o silêncio como violência, afastamento, cumplicidade e recusa ao ruído do presente
De repente nenhum som nasceu de uma experiência real: a queda da sua avó materna, sozinha, no quintal, em 2018. Como foi o processo de transformar essa lembrança em ficção sem que ela virasse autobiografia?
Acredito que só consegui isso por ter esperado alguns anos para escrever a história. A minha avó morreu em 2018, pouco depois da queda, mas só escrevi o conto em 2022. A primeira versão da história foi publicada na Revista Subtextos e, na época, eu ainda não pensava em escrever um livro em que o silêncio e as relações familiares fossem os temas centrais.
A protagonista de “Céu de ninguém” é bem diferente da minha avó, mas as duas partilham algumas características, como a melancolia e um olhar mais pessimista sobre a existência. Então, por mais que não seja uma história biográfica, a minha avó é muito importante para essa narrativa e para esse livro como um todo.

O silêncio é o fio condutor dos 15 contos. Por que você acha que esse tema ainda é pouco explorado na ficção brasileira contemporânea?
Desde que fiquei obcecado pelo tema do silêncio, passei a enxergá-lo em muitos lugares, dentro e fora da literatura. No entanto, por ser algo com diferentes significados, acredito que ainda há muito espaço para falar sobre silêncio na literatura brasileira contemporânea. Afinal, silêncio pode ser violência, afastamento, cumplicidade, raiva, repressão e tantas outras coisas. Há, inclusive, aquilo que só pode ser dito pelo silêncio. Não por acaso, o tema continua a me interessar e ainda me parece repleto de possibilidades para que escritores e escritoras construam suas ficções.
O livro é construído como uma família contada em fragmentos, histórias isoladas que também se completam. O que te fez escolher essa estrutura, em vez de uma narrativa única e linear?
A escolha surgiu logo que escrevi os primeiros contos. “Céu de ninguém” já estava pronto quando comecei uma oficina de criação literária com o Carlos Eduardo Pereira e escrevi “Alô, alô, freguesia” e “Seis minutos de análise no novo divã”. Percebi que as três histórias abordavam os mesmos temas e que aqueles personagens pareciam orbitar um mesmo universo. Naquele momento, decidi que escreveria um livro de contos em que todos os personagens fariam parte de uma mesma família.
Você é jornalista, mestre em comunicação e assessor de imprensa. De que forma esse ofício, marcado por frases curtas e diretas, molda sua escrita de ficção?
Ao contrário de muitos colegas, não sou exatamente um jornalista apaixonado pela profissão. Escolhi o jornalismo exclusivamente por conta do segmento cultural e da possibilidade de ser pago para escrever, mesmo que não seja ficção. Ainda há o agravante de existir bastante alienação na profissão, com muitos jornalistas que reproduzem com orgulho discursos que exterminam a subjetividade do indivíduo e seu direito ao descanso. Não há nada de incrível ou admirável em ficar ligado no celular o dia todo ou trabalhar por vários dias consecutivos sem folga.
Apesar disso, tenho interesse pelo jornalismo literário e acredito que ele tenha influenciado a minha escrita, não só pela estrutura das frases, mas por ser uma área do jornalismo que permite que o profissional escreva com a calma necessária para escolher cada palavra.
Os três contos inéditos da nova edição nasceram de oficina literária conduzida por Cintia Moscovich. O que essa experiência mudou na forma como você escreve?
A oficina da Cintia Moscovich é bastante recomendada por escritores e escritoras em evidência no cenário literário. Agora, em 2026, finalmente tive a oportunidade de participar das aulas e fiquei impressionado com a capacidade que a Cintia tem de mexer com a nossa criatividade, ao mesmo tempo em que trabalha aspectos mais técnicos da nossa escrita e nos arranca gargalhadas com suas histórias inusitadas.
Diante dos exercícios propostos durante a oficina, resolvi voltar para o universo de De repente nenhum som e escrever mais contos sobre a família do livro. Assim, surgiram as três narrativas inéditas que aparecem na edição publicada pela Reformatório.
O livro saiu originalmente pela Sabiá Livros, uma editora independente, e agora ganha nova edição pela Reformatório. Como você olha para esse percurso?
A Reformatório é uma das minhas editoras preferidas, digo isso há bastante tempo. Quando surgiu a oportunidade de publicar a segunda edição de De repente nenhum som e um romance inédito com a Reformatório, fiquei muito empolgado e confesso que essa empolgação está longe de passar. Mas também devo muito à Sabiá Livros, que publicou a primeira edição de “De repente nenhum som” e meu livro anterior, “Desemprego e outras heresias”.
Acredito que chegar a uma editora que é referência nacional em literatura representa o amadurecimento da minha escrita e a conquista da confiança de um editor incrível – o que é uma honra enorme, já que o Marcelo Nocelli sabe muito bem em quais autores e autoras apostar.
A nova edição reúne orelha de Marcelino Freire, prefácio de Bethânia Pires Amaro e quarta capa de Natércia Pontes. O que a leitura desses três nomes trouxe para a forma como você entende a própria obra?
Tive a sorte de encontrar muitas pessoas generosas no meio literário. Marcelino, Bethânia e Natércia são exemplos disso. Três grandes nomes da nossa literatura, que permanecem atentos à escrita de quem está começando agora. Ter sido elogiado por eles e por outros autores e outras autoras – como Marcela Dantés, Monique Malcher, Lilia Guerra, Carlos Eduardo Pereira, Jaques Fux, Julia Dantas, Xico Sá, Morgana Kretzmann e Marilia Arnaud – ainda é meio surreal para mim. É a realização de um sonho e um importante incentivo para continuar acreditando no meu texto.
Você nasceu em Ituverava, interior de São Paulo, e vive em Uberlândia desde 2018. Como essa dupla geografia aparece, ou se esconde, no livro?
De repente nenhum som é ambientado em uma cidade parecida com Ituverava, com alguns elementos comuns às cidades do interior paulista. Já Uberlândia, embora não apareça tanto na minha ficção, representa muito na minha trajetória literária. A mudança de uma cidade com 40 mil habitantes para a segunda maior de Minas Gerais contribuiu bastante para que eu tivesse acesso a certas oportunidades e experiências que transformaram a minha escrita.
Vivemos um momento de excesso de informação e de ruído constante. Escrever sobre o silêncio, hoje, é também uma forma de resistência? Como você pensa essa relação entre ficção e o tempo presente?
Acredito que sim. Poucas coisas são tão confortáveis quanto o silêncio da cumplicidade. E, nesse contexto, enxergo o silêncio como extensão para outras formas de resistência, como deixar o celular de lado no momento de assistir a um filme e ter momentos de ócio sem a culpa imposta pelo capitalismo.
O que você espera que fique com quem terminar de ler De repente nenhum som?
Espero que fique uma nova perspectiva sobre tudo aquilo que só cabe no silêncio.
Isabelle Rieger é jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também é licenciada em Letras – Português (PUCRS). Tem interesse em literatura, imagem, educação e cultura.

