Uma entrevista com Cesar Garcia Lima sobre seu novo livro
Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital marca a estreia do autor nas narrativas curtas
Cesar Garcia Lima construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre poesia, crítica e reflexão acadêmica. Agora, o poeta, cronista e pesquisador estreia na narrativa curta com Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital, publicado pela Editora 7Letras. A coletânea reúne doze contos que exploram identidade, alteridade e deslocamento, trazendo personagens em crise e cenas urbanas atravessadas por humor, ironia e introspecção, adotando diversas formas de narrativa nos contos: há aqueles que são mais realistas, aqueles que se aproximam das fábulas, outros com traços ensaísticos; algo que dialoga com a trajetória diversa do autor.
Nascido em Rio Branco, Acre, Cesar Garcia Lima viveu até a adolescência no estado, com passagem por São Paulo, para onde mais tarde retornaria para estudar. Entre 1987 e 1988, morou em Paris e viajou pela Europa. Desde 1995, vive no Rio de Janeiro, para onde se transferiu como jornalista, passando depois a exercer a vida acadêmica. É autor dos livros de poemas Águas desnecessárias (1997), Este livro não é um objeto (2006), Trópico de papel (2019) e Bastante aos gritos (2021), e do livro de crônicas Vida desencaixada (2024).

Confira abaixo a entrevista com o autor
O título “Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital” é provocativo. Como ele nasceu?
O título surgiu de uma nota de um cruzeiro encontrada na rua em São Paulo nos anos 1990 e marca um momento da vida do personagem Lázaro, protagonista de “Escrito no dinheiro”, conto que abre o livro. Desde o momento em que encontrei a nota quis escrever uma história em torno dela. O volume traz uma seleção de textos mais antigos e outros muito recentes que espelham tanto minha relação primeira com a poesia quanto o exercício de uma escrita influenciada pela pesquisa e não ficção. Sempre fui leitor de narrativas curtas, que prefiro aos romances, e desde a pandemia estava exercitando com mais dedicação o fechamento dessas narrativas.
Interessante, e essa é sua estreia no gênero de contos, certo? O que esse marco significa na sua trajetória?
O livro é minha estreia no gênero conto e também na ficção, expressando uma passagem da poesia para a prosa. Isso não significa que eu tenha abandonado a poesia, mas que tenho também uma necessidade de expressão por meio da narração de história curtas de diferentes estilos, desde a fábula, contos que dialogam com a produção de outros autores como Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e mesmo a biografia de Tchekhov.
Você tem uma forte ligação com a poesia, visto que já publicou quatro livros do gênero… Como a poesia se mostra presente nos seus livros em prosa?
A poesia é o pano de fundo de toda minha produção literária. Publico poesia desde 1997, quando lancei Águas desnecessárias, pela Nankin Editorial (São Paulo), livro em que incluí uma parte em prosa intitulada “Indícios”. Também flertava com a prosa quando escrevi poemas narrativos como “A primeira lira de Dirceu”, publicado no mesmo livro e escrito durante uma oficina de criação realizada com o grupo Cálamo.
E por que publicar um livro de contos após tantos livros no gênero poesia? Você escreve contos desde quando?
Em 2024, publiquei um livro de crônicas, Vida desencaixada, e desde então senti uma urgência de publicar essa coletânea de contos. Escrevo contos desde os 15 anos, mas nunca tive muita disposição em publicá-los porque a poesia ocupava mais o centro da minha produção literária. Mas o fascínio pelos gêneros curtos em prosa tem crescido nos últimos anos e quis publicar um livro de contos até como uma maneira de “me livrar” dessas histórias, já que enquanto não publico um texto tenho a tendência de ficar reescrevendo o texto.
Quais são as principais influências na sua trajetória literária? E quais as influências diretas desta obra?
Na minha trajetória literária sinto a influência principal de poetas, desde Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Rilke, Elizabeth Bishop, Kaváfis, entre muitos outros. Mas a poesia dos anos 1970 também me afetou significativamente com Armando Freitas Filho, Cacaso, Ana Cristina Cesar (por quem fui obcecado durante certo período) e Paulo Leminski, que expandiram suas obras para os anos 1980. Também poderia citar, na prosa, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Graciliano Ramos, Marguerite Yourcenar. A lista de influências é grande, mas muitas delas se diluem de modo nem sempre evidente. Também tenho um vínculo antigo com o cinema e isso aparece em vários textos meus. No caso deste livro destaco a influência de Clarice Lispector, com dois contos que ecoam a obra dela (“O show da estrela” e “Retirada”), além de reflexos da leitura da Bíblia (“Escrito no dinheiro”), fábulas (“O cisne”), mitologia grega (“As ilhas de Dédalo”), entre outras narrativas.
Como sua vivência como jornalista influenciou na criação dos contos? Ela te ajudou de alguma forma no exercício da alteridade para a criação de personagens tão diversos?
O exercício do jornalismo me trouxe a necessidade de adotar um texto de teor mais objetivo. Fui aluno de Língua Portuguesa do poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos, na Faculdade Cásper Líbero, e ele me chamou atenção que seria necessário deixar a poesia um pouco de lado para enfrentar de maneira mais apropriada o mercado editorial… No início, isso me chocou pois eu idealizava muito o lado literário da profissão. Ao longo do tempo, a vivência em jornais, revistas e TV me fizeram perceber que muitas narrativas curtas poderiam nascer desse contato profissional com a realidade e apurei meu olhar para os personagens e as histórias que conhecemos, seja em uma reportagem ou mesmo por acaso. A necessidade de produzir com agilidade do jornalismo também me ajudou muito a levar as narrativas para o papel, já que muitas pessoas escrevem, mas nem sempre finalizam seus textos.
E sua vivência pessoal, de trânsito entre Acre, São Paulo, Rio de Janeiro e Europa, contribuiu em que medida para construir as narrativas e personagens?
Saí de casa muito cedo, aos 15 anos, para estudar em um colégio interno em São Paulo, e desde então coleciono histórias, lugares, personagens. Mas não gosto de levar a vida de pessoas que conheci ou mesmo as narrativas ouvidas diretamente para a prosa, como fazem muitos autores cuja origem profissional é o jornalismo. Evidentemente que ter nascido no Acre, estudado em São Paulo, vivido na França e me fixado no Rio de Janeiro me traz referências muito diversas, novas perspectivas. Viajar e conhecer outras culturas amplia o olhar sobre a existência e as pessoas, ainda que estejamos aprendendo sempre sobre o que significa nossa trajetória por este planeta tão maltratado pelos humanos. Algumas histórias do livro trazem personagens com origem identificável, como o Lázaro de “Escrito no dinheiro”, que é paulista, mas quer ser outra pessoa, inventar outra origem. Já um dos protagonistas de “Prefiro a língua de Verlaine e Rimbaud” é alemão. De alguma maneira minha inquietação pelo deslocamento aparece neles, já que isso é um dos motivos de impulso vital da maioria dos personagens.
Entre os doze contos, qual foi o mais desafiador de escrever e por quê?
“Escrito no dinheiro” é o conto que mais me deu trabalho e exigiu reescritas. A ideia inicial era criar uma novela gótica, com um personagem vampiro, mas fui transformando esse projeto ao longo do processo para me concentrar mais na ânsia de Lázaro por mudar de identidade. Trata-se de uma retomada do personagem bíblico de mesmo nome, mas sob uma perspectiva materialista e existencial: alguém que não sabe muito bem o que fazer da própria vida no Brasil dos anos finais da ditadura e que vive de forma profundamente alienada.
Com o passar dos anos, optei por eliminar boa parte da narrativa e condensar o texto em um conto, já que a concisão é uma das minhas obsessões literárias. Estou curioso para conhecer a recepção dos leitores diante do resultado.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

