Uma entrevista com Marcelo Nery sobre sua estreia literária
Em Flores Astrais, Nery traz o estilo gótico para encarar medos coletivos e explorar temas como memória, preconceito e religiosidade
Nos tempos recentes, observamos o retorno da estética e narrativa góticas, a exemplo de adaptações cinematográficas como Nosferatu e Frankenstein, além de séries como Wandinha. Porém, estamos acostumados com esses elementos sendo trabalhados majoritariamente em países estrangeiros, com realidades muito distintas do nosso cotidiano. Em Flores Astrais, o autor transpõe o gótico na realidade do interior profundo de Minas Gerais.
Publicado pela editora Mondru, o romance traz uma saga familiar gótica que mistura sobrenatural, crítica social e memórias traumáticas. A história acompanha Tiago Amaral Grandi, jornalista gay que retorna à fazenda da família nos anos 1980 e se vê cercado por segredos, assombrações e o peso de uma herança marcada por intolerância e hierarquias raciais.
Com uma narrativa que transita entre o real e o espectral, Nery constrói um retrato pungente das violências ocultas atrás de retratos de família, explorando temas como luto, religiosidade e preconceito. Sua escrita é influenciada tanto por clássicos como Edgar Allan Poe e Agatha Christie quanto pela tradição oral mineira, resultando em um estilo poético e direto, carregado de tensão e ironia.
Marcelo Nery é mineiro nascido em Belo Horizonte, mas dividiu a infância entre a capital e o interior de Minas Gerais, em São Brás do Suaçuí e Entre Rios de Minas, de onde vêm seus pais. Traz uma bagagem multifacetada: foi professor universitário por 16 anos, coordenou o curso de Jogos Digitais da PUC Minas e hoje atua como designer de games na ARVORE Immersive Experiences, trabalhando com grandes franquias do mercado como a série The Boys, os monstros da Universal Studios e projetos autorais. Conta histórias desde criança, quando ainda achava que fazer drama era um hábito, não um talento, e agora concretiza a sua paixão por escrita com a publicação de Flores Astrais.

Confira abaixo a entrevista pingue-pongue com o autor
Flores Astrais é definido como uma “saga familiar gótica rural mineira”. O que significa, para você, trazer o gótico para o interior do Brasil?
O gótico se estrutura principalmente a partir de atmosferas, sendo o medo presença constante. Nossa literatura já explorava essa atmosfera há muito tempo, vide que autores como Álvares de Azevedo e até mesmo Machado de Assis exploravam aspectos como o delírio, a morte e a perversidade humana em suas obras. Um aspecto muito importante para o gótico também é trazer à tona heranças que deveriam estar ultrapassadas, porém insistem em se mostrar presentes, tal qual a herança colonial brasileira de violências e imposições.
Acredito que a diferença entre o gótico europeu e o brasileiro está na estética, em que elementos tipicamente europeus, como castelos e nevoeiros, são substituídos por elementos da nossa realidade, como casarões dos barões do café e a poeira vermelha das estradas de terra. Ah, sem esquecer o corvo, que aqui vira urubu.
Como você disse, o gótico trabalha muito com os gêneros de mistério, suspense e terror. Por que você escolheu esses gêneros para trabalhar no livro?
Sempre me interessei pelo mistério, não como gênero, mas como forma de olhar o mundo. O suspense psicológico e o realismo sombrio me permitem falar de temas profundos sem nomeá-los. Escrevo dentro desse território híbrido, entre o real e o simbólico, aquilo que pode ser, que confunde, que tenha várias interpretações dependendo do ângulo que se olha.
O protagonista Tiago retorna à fazenda após vinte anos. Em que medida esse retorno espelha suas próprias memórias pessoais?
Flores Astrais é um livro íntimo, uma autoficção mascarada de “novelão brasileiro”. Ele me obrigou a revisitar lembranças difíceis e traduzi-las em linguagem. A religiosidade, o moralismo e o silêncio moldaram o Brasil (e minha família), e ainda determinam como amamos e sentimos culpa. Cresci entre essas contradições, vindo de uma família católica do interior de Minas, e percebi que as histórias mais potentes nascem do conflito entre fé e desejo, passado e presente.
Ao revisitar memórias pessoais e coletivas, que aspectos da herança emocional brasileira você quis expor ao leitor?
Acredito que o Brasil é um país que teve sua estrutura formada a partir de uma série de heranças, não apenas de terras e sobrenomes, mas também de elementos mais sombrios como mentiras, violências e imposições. Grandes exemplos disso são as heranças da escravidão, da ditadura, da desigualdade social e de gênero, da intolerância religiosa, que permeiam nossa sociedade e geram uma série de dramas sociais e opressões.
Como você concebeu a história deste livro? E como foi o processo de escrita dele?
Essa é uma história que pré-existia nessa época em que eu escrevia, com uns 16 anos. Daí, o ponto de partida foi a ideia um retorno à minha própria infância (Tiago retornando à fazenda depois de 20 anos). Eu queria entender o que significa “voltar”. O livro foi escrito rapidamente, em 2 semanas, mas a elaboração e lapidação da pesquisa histórica, expansão de cenas, leituras críticas, leituras beta, leituras sensíveis levou cerca de dois anos. Mais que escrever uma história, precisei revisitar memórias pessoais e do país. É um livro que exige escavação: da terra, da família e de mim mesmo.
Como a escrita surgiu na sua vida e qual o papel dela na sua trajetória?
A escrita é algo presente em minha vida desde a infância, quando eu escrevia solitariamente minhas histórias em uma máquina de escrever Olivetti de minha irmã. Esse meu lado escritor acabou ficando esquecido por anos e, durante a pandemia, voltou como uma erupção. Na minha infância, escrevi cerca de 12 livros (em estilo Série Vaga-Lume, que era o que eu mais lia à época). Meu envolvimento com a literatura (e minhas notas no ensino público de BH) me fizeram ser convidado para compor o juri do concurso de Literatura Infanto-Juvenil João de Barro. Desde então, os livros se tornaram um refúgio, talvez até fuga, para uma criança/adolescente gay que cresceu na década de 1980 e 1990 sendo massacrado por preconceitos na TV, na escola, na rua e dentro de casa. Assim, aprendi a ouvir o ritmo da narrativa, a eliminar o excesso e a confiar mais na sugestão do que na explicação. Flores Astrais é o resultado dessa maturação: menos preocupado em impressionar, mais interessado em dizer o essencial.
Falando do livro em si, a atmosfera do casarão mineiro é quase um personagem. Qual foi sua inspiração para construir esse cenário opressivo?
Tem uma certa ironia em falar de “inspiração”, como se o casarão tivesse nascido puro e eu tivesse decidido colocar mofo em cima. A base está nas casas reais do interior de Minas, que atravessam gerações acumulando tudo o que nunca foi resolvido. O gótico, em sua essência, se constrói com atmosferas. O casarão se torna vivo ao organizar quem ocupa cada espaço, quem circula, quem observa e quem é observado. E há ainda a camada histórica dessas construções erguidas sobre estruturas de poder e violência. No livro, bastou eu olhar para o ambiente sem romantizar: o casarão guarda, distorce e devolve o que acontece dentro dele.
O livro mistura sobrenatural, crítica social e kitsch. Como você equilibrou esses elementos na construção da história?
Não tratei esses elementos como camadas separadas. O sobrenatural surge como distorção de personagens já marcados por culpa. A crítica social está na própria estrutura das relações, não em discurso. Já o kitsch me interessa como excesso; fui fortemente influenciado por folhetins televisivos, como todo mundo que viveu as décadas de 1980 e 1990. As estéticas do exagero e do clichê me atraem. Tudo que é levado a sério demais começa a rachar. Para mim, o equilíbrio surge ao permitir que tudo se contamine sem hierarquia.
Quais são suas principais influências artísticas e literárias? Quais influenciaram diretamente Flores Astrais?
Eu sou bastante eclético; mas, como um leitor interessado por mistério, suspense e narrativas fantásticas, não poderia deixar de ser influenciado por Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Edgard Allan Poe e, no Brasil, Stefano Volp, Raphael Montes, André Vianco. No audiovisual, como todo mundo que cresceu nas décadas de 1980 e 1990, fui impactado por novelas e minisséries que moldaram minha voz narrativa mais visual, cinematográfica e dramática (ou kitsch, como o Santiago Nazarian apontou). Flores Astrais dialoga com tudo isso, criando um universo gótico rural mineiro, bebendo de um realismo mágico recheado de mistério e revelações inesperadas. Mas a influência mais direta vem mesmo da tradição oral mineira, das histórias contadas em voz baixa, entre café e reza, na calada da noite banhada por grilos e vagalumes para criar uma atmosfera ainda mais fantástica. É ali, no cochichar de Minas, que o mistério começa.
Você tem uma trajetória que abrange desde a área acadêmica, até a tecnologia e o esoterismo. Você poder comentar um pouco mais sobre isso e como essas dimensões influenciam sua forma de narrar histórias?
Fui professor de computação, sou game designer e tarólogo, e tudo isso acaba influenciando minha forma de construir narrativas, tanto no ritmo quanto na estrutura simbólica. E esse é um livro com muitos símbolos. Gosto de pensar que escrevo como quem investiga um mistério como Poirot: com método, mas também com intuição.
Que reflexões ou mensagens você espera que o leitor leve de Flores Astrais?
O passado se disfarça e continua assombrando. Com coragem, é possível amar e resistir mesmo nas ruínas. Embora a história se passe no interior (de Minas e de cada personagem), ou seja, a individualização das situações abordadas, essas histórias, na verdade, sempre estão entrelaçadas às estruturas maiores – políticas, sociais e espirituais – e que estamos sujeitos. Romper essas estruturas não é simples, mas muitas vezes é a única forma de nos curarmos e seguir adiante.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

