Uma questão xiita? - Le Monde Diplomatique

ARÁBIA SAUDITA

Uma questão xiita?

por Alain Gresh
junho 1, 2003
compartilhar
visualização

Discriminados e sem direitos religiosos, os xiitas sauditas vivem na principal zona de produção de petróleo do país, o que inspira neoconservadores norte-americanos a sonharem com a divisão do reino, mas não, os representantes desta minoriaAlain Gresh

Ao contrário das grandes cidades sauditas, muito americanizadas, com avenidas intermináveis decoradas por uma infinidade de shopping centers, Qatif tem um lado autêntico, com suas ruas estreitas, seu mercado de peixe (o maior do reino) e suas palmeiras – por muito tempo, as tâmaras foram a principal fonte de riqueza dessa província do leste. Desde a primeira descoberta, em 1938, o petróleo passou a dar o ritmo à vida da província (El-Hassa). Mas, além de ser o principal pólo do ouro negro, a região tem outra característica: a maioria de sua população é xiita. Quantos seriam? Na verdade, ninguém sabe. Talvez dois milhões, aos quais se devem acrescentar os nativos da Ismaília, concentrados no sul, na província de Najran1 – ou seja, entre 10 e 15% da população do país.

Numa casinha de Qatif, seis pessoas discutem o futuro do país. Todos xiitas, representam todas as correntes da sociedade, da esquerda aos nacionalistas árabes, passando pelos islamitas radicais. Eles próprios se espantam – ontem, estavam tão divididos… – de poder dialogar serenamente. Todos eles assinaram a convocatória feita por 450 personalidades – entre as quais, pela primeira vez na história do reino, 46 mulheres – em prol dos direitos dos xiitas2.

Petição por direitos iguais e contra divisão do país

Seis pessoas discutem o futuro do país. Todos xiitas, representam todas as correntes da sociedade, da esquerda aos nacionalistas árabes, passando pelos islamitas radicais

Intitulada “Parceiros da nação”, a petição – como explica um dos presentes – “é um gesto de abertura em direção do Estado. Colocamo-nos, decididamente, no contexto nacional e recusamos qualquer tentativa de divisão do país”. O texto pede o fim da discriminação contra os xiitas, principalmente no caso de contratações em empregos públicos; o restabelecimento de seus direitos religiosos; o fim das campanhas de ódio contra eles (tanto nas escolas quanto nos meios de comunicação); a liberdade de construírem mesquitas, de criarem centros culturais, de publicarem livros… “Inserimos essas reivindicações num contexto mais amplo”, explica um deles. “Assinamos essa convocatória dos 104, no mês de janeiro, exigindo reformas globais.”

Apesar da presença predominante de um islamismo sunita muito rigoroso, nem sempre os xiitas passaram por uma situação difícil no reino. “Ibn Saud conquistou a região de El-Hassa em 1913 sem sangue”, lembra uma professora universitária. “A população sedentária, os notáveis, agruparam-se e até financiaram a expansão posterior. Em troca, Ibn Saud deixou os xiitas administrarem seus negócios através de suas próprias instituições religiosas e seus tribunais.”

A procura por interlocução

A revolução iraniana de 1979 radicalizou os conflitos com os xiitas, ocorrendo enormes manifestações, severamente reprimidas, nas regiões orientais.

Esse pacto subsistiria até a década de 60, quando o rei Faiçal manipulou o islamismo em sua luta contra Nasser. Pouco a pouco, os xiitas foram sendo privados de seus direitos, principalmente religiosos. A revolução iraniana de 1979 radicalizou esses conflitos, ocorrendo enormes manifestações, severamente reprimidas, nas regiões orientais. Em 1993, o rei Fahd concluiu um acordo com a oposição xiita no exterior e o principal representante desta, xeque Hassan Saffar, voltou do exílio. Apesar da situação melhorar, as dificuldades, no entanto, persistiam. Um religioso explica, por exemplo, que “tínhamos conseguido o direito de construir mesquitas para atender às necessidades de uma população em expansão. Mas foram necessários três anos para que o decreto fosse publicado e sua aplicação, na prática, tem a oposição da administração”. A petição dos 450 traduz essa impaciência.

“Entramos em contato com o escritório do príncipe herdeiro Abdallah para enviar o texto”, conta um dos signatários. “Sugeriram que o mandássemos na terça-feira, quando se realiza a reunião semanal em que ele recebe pedidos e reivindicações. Recusamos. Estabeleceu-se, então, contato com Abdelaziz Al-Tuwayjiri, principal assessor de Abdallah. Ele nos convidou a jantar em sua casa. Discutimos abertamente durante duas horas. Ele nos afirmou que o príncipe herdeiro estava convencido da importância do problema.”

Risco de secessão

Muitos sauditas estão convencidos de que os EUA pretendem – como defendem alguns pesquisadores – dividir o reino e criar uma república xiita

No dia seguinte, 30 de abril, o príncipe herdeiro recebeu 18 dos signatários numa reunião de 25 minutos. Reafirmou sua vontade de encontrar uma solução e sua vontade de criar uma comissão de discussão entre religiosos sunitas, xiitas e naturais da Ismaília. Outras medidas seriam tomadas, mas quando? Os signatários não ficaram muito otimistas, principalmente porque a imprensa saudita não divulgou a petição nem o encontro com o príncipe herdeiro.

O tempo passava, os problemas se acumulavam. “Pertencemos a uma geração”, explica um xeque, “que teve uma experiência política, que passou pelas prisões. Somos mais realistas. Mas ninguém sabe muito bem o que querem os jovens”. Uma testemunha lembra as manifestações em Safwa, por ocasião da invasão israelense da Cisjordânia, principalmente de Jenine, na primavera de 2002. “Na quinta-feira, havia só umas trezentas pessoas na manifestação. Mas no dia seguinte, os jovens, sem qualquer orientação ou direção, se reuniram aos milhares: estavam lá a juventude ?dourada?, a juventude pobre e as mulheres. Ficamos espantados…” Quem irá controlar esses jovens? Seriam eles tentados pela secessão, num momento em que se assiste ao renascimento dos xiitas iraquianos e em que a deposição da ditadura de Saddam Hussein foi saudada por 13 autoridades xiitas sauditas, entre as quais Hassan Saffar?

Terreno fértil para teorias conspiratórias

“Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos para o reino e isso nada tem a ver com nossos direitos”, explica um intelectual xiita.

Aqui é um terreno fértil para teorias conspiratórias e muitos sauditas estão convencidos de que os Estados Unidos pretendem – como defendem alguns centros de pesquisa próximos aos neoconservadores – dividir o reino e criar uma república xiita, que controlaria o petróleo e seria, é claro, aliada de Washington. Recentemente, Robert Jordan, embaixador norte-americano em Riad, explicou: “Não pensamos que seja correto discriminar pessoas unicamente por serem xiitas, assim como não achamos adequado discriminar quem quer que seja por suas convicções religiosas. O fato dos xiitas não poderem participar do governo, em minha opinião, é um problema. Fico satisfeito em saber que há um embaixador xiita da Arábia Saudita no Irã e que existem alguns xiitas no Majlis Al-Chura3.”

Não há como contestar essas observações e, no entanto, elas foram muito mal recebidas pelos xiitas. “Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos para o reino e isso nada tem a ver com nossos direitos”, explica um intelectual xiita. “Os apelos que fazem reforçam a desconfiança em relação a nós, fazendo-nos aparecer como agentes de países estrangeiros. O reino tem que iniciar as reformas, que são indispensáveis, mas longe de ingerências externas.”

(Trad.: Jô Amado)

1 – A população da Ismaília representa uma ala dos xiitas. Passou por várias mutações ao longo da história. Um grupo famoso, a chamada Seita dos Assassinos, reivindicava ser da Ismaília. Três de suas ramificações existem até hoje: os drusos; os que reconhecem a autoridade do Aga Khan; e, finalmente, uma última corrente, que se implantou principalmente na Arábia Saudita e no Iêmen. A respeito desse movimento, existe um livro recente, de Farhad Daftary, Les ismaéliens, ed. Fayard, Paris, 2003. Em relação à discriminação dos nativos da Ismaília na Arábia Saudita, ler o Human Rights Watch Report 2003.

2 – O texto na íntegra, em árabe, foi publicado pelo jornal Al-Quds Al-Arabi, Londres, 1º de maio de 2003.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



Artigos Relacionados