Vai à COP em Belém? Visite os porões dos casarões históricos da cidade
Ao visitar Belém durante a COP, vale olhar além dos debates oficiais e dos espaços de visibilidade
Belém do Pará está sediando, neste mês de novembro, a 30ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP 30). E, para fugir do circuito turístico já consolidado na cidade, por que não voltar o olhar para algo que faz parte da própria identidade belenense? Trata-se da ocupação comercial dos porões dos casarões históricos, espaços que hoje abrigam sorveterias, cervejarias artesanais, restaurantes, casas de drinks e outros estabelecimentos que revitalizam o uso desses imóveis.
Quem vive ou circula por Belém certamente já notou os inúmeros casarões erguidos entre o século XIX e o início do XX, onde os porões se destacam nas fachadas elegantes das antigas residências familiares. Bairros como Nazaré, Batista Campos, Cidade Velha, Umarizal e até o distrito de Icoaraci preservam exemplares desse tipo de construção que compõe a paisagem histórica da cidade.
A partir dos anos 2000 – embora haja experiências desde a década de 1960, na zona comercial da cidade –, muitos desses imóveis passaram a abrigar atividades comerciais nos porões, em um movimento que combina preservação e reinvenção. Essa nova ocupação representa uma tentativa contemporânea de valorização do patrimônio por meio do uso misto, que concilia moradia e comércio.
Esse cenário, que requer constante atenção e atualização das normas de proteção do patrimônio cultural, pode servir de referência sobre como adaptar e reocupar espaços históricos sem cair em visões excessivamente tradicionalistas que paralisam o presente em nome do passado. O exemplo paraense mostra que é possível preservar com vitalidade: gerar emprego e renda, manter a função habitacional e, ao mesmo tempo, conservar a memória material da cidade.
Afinal, poucas coisas são mais sustentáveis do que viver em uma cidade onde se pode ir a pé à padaria ou à sorveteria do bairro, sem precisar de carro, habitando, com respeito e uso, a história viva de Belém.

Tanto Belém quanto diversas outras cidades brasileiras enfrentam a precarização de seus centros históricos. Mais do que isso, lidam com gestões públicas que ainda não encaram, de forma profunda, o desafio de dar novo sentido ao que antes servia a uma função e hoje perdeu sua utilidade prática. A resposta, certamente, não é demolir, até porque esses imóveis são joias da estética de outrora e testemunhos vivos dos modos de habitar e construir do passado.
É alentador perceber esse movimento em Belém, especialmente fora dos territórios consagrados do imaginário patrimonial, geralmente restritos a Minas Gerais, Bahia e Rio. Essa dinâmica revela que o patrimônio cultural também pode existir nas margens, nos usos cotidianos e nas adaptações espontâneas que mantêm a cidade viva e habitada.
Portanto, ao visitar Belém durante a COP, vale olhar além dos debates oficiais e dos espaços de visibilidade. Nos porões dos casarões históricos, há uma cidade que continua resistindo, feita de camadas, de reinvenções e de gente que encontra novos modos de viver o antigo. É nesses lugares, muitas vezes esquecidos pelas políticas públicas, que se revela uma lição essencial: preservar não é congelar o tempo, mas permitir que o passado siga respirando no presente.
João Polaro é pesquisador em políticas para o patrimônio cultural e museus. Mestre em Ciência Política pela UFPA, bacharel em Museologia e Relações Internacionais, dedica-se a investigar a relação entre Estado, sociedade e patrimônio cultural no Brasil.


Artigos bem feitos e excelente entendimento. Saiam da frente que a juventude veio para reivindicar o seu lugar. Fico ansiosa pelo próximo artigo