Vale tudo? - Le Monde Diplomatique

Esporte

Vale tudo?

por Maarten van Bottenburg
2 de outubro de 2009
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Exceção feita a morder e arrancar os olhos do adversário, no Ultimate Fighting tudo é permitido: socos e chutes, mesmo quando o adversário está caído e sem defesa, sufocamento, puxão de cabelo, chaves, cotoveladas e cabeçadas. O único resultado possível é o nocaute ou a desistência

Em 12 de novembro de 1993, o kick-boxeador e karateka full contact holandês, Gerard Gordeau, entra na jaula octogonal instalada na McNichols Sports Arena de Denver, Estados Unidos, para um “combate final” contra Teila Tuli, um lutador havaiano de sumô. Desde o início da luta, Tuli, que pesa 80 quilos a mais que seu adversário, avança sobre Gordeau. Este recua, evita o ataque, antes de puxar o oponente contra si, aproveitando seu próprio impulso.

Tuli cambaleia e cai sentado. Um tanto desconcertado, olha para cima. Com o arco do pé, Gordeau acerta rapidamente seu rosto. Um dente atravessa as barras da jaula e se perde entre os espectadores. No queixo de Tuli, escorre um filete de sangue. Inesperada e contrariamente à regra que determina que não haja “qualquer regra”, o árbitro interrompe a luta. Ela durou 26 segundos.

O “combate final” acabou e foi assistido por 80 mil lares americanos, graças aos canais pay-per-view . Mais tarde, eles veriam Gordeau ganhar mais uma vez, apesar de uma fratura na mão e um ferimento no pé, e finalmente perder a final, contra o jiu-jitsuka brasileiro Royce Gracie, que receberia US$ 50 mil de recompensa pela vitória do primeiro Campeonato de Ultimate Fighting.

Exceção feita a morder e arrancar os olhos do adversário, nesse tipo de luta tudo é permitido: socos e chutes, mesmo quando o adversário está caído e sem defesa, sufocamento, puxão de cabelo, chaves, cotoveladas e cabeçadas. Os homens lutam sem qualquer classificação por peso, assaltos, limites de tempo, júris ou pontos. O único resultado possível é o nocaute ou a desistência.

A apresentação pública dos enfrentamentos não faz nenhuma referência ao mundo do esporte ou a qualquer outra forma regular de competição. Como anunciam as capas dos jogos de vídeo dos primeiros torneios, “não há regras”.

O “combate final” ou “combate em jaula” conseguiu de imediato um espaço no campo das artes marciais com full contact (contato total). Sua súbita popularidade contribuiu para o surgimento de inúmeras variantes no mundo todo, como o vale-tudo no Brasil. A expressão “todos os golpes são permitidos” serve de denominador comum.

Quando esse fenômeno saiu do quadro das publicações sobre artes marciais e das revistas masculinas, como Playboy e Penthouse, instalou-se um inflamado debate público em vários países. Em 1996 e 1997, os organizadores sofreram um sério revés, quando vários canais pagos, cedendo à pressão política, se recusaram a pôr essas lutas no ar: na ocasião, o lucrativo mercado do pay-per-view quase desmoronou.

Como chegamos a esse estado de coisas? Bem, por muito tempo, a maior parte das artes marciais foi regulamentada segundo o interesse do conjunto dos praticantes. No entanto, como em finais do século XX as competições esportivas passaram a atrair multidões cada vez mais significativas, sua organização tendeu a se alinhar à demanda e interesses dos… espectadores!

Nos anos 1990, o mercado televisivo teve uma rápida expansão, graças às inovações da tevê a cabo e do satélite. Como as maiores redes americanas (ABC, NBC, CBS, Fox e ESPN) detinham os direitos dos eventos esportivos mais populares, as empresas de televisão menores, como a SEG, buscaram novos mercados. Elas é que mais influenciariam a organização dos combates em jaula. Como se tratava de conseguir o maior público possível, a técnica e o estilo perderam espaço em favor da sensação oferecida pelas lutas como espetáculo a partir de níveis de violência extremos.

Da mesma forma que a chegada do gravador facilitou a divulgação maciça da pornografia nos anos 1980, a televisão pay-per-view trouxe essa nova forma de diversão. A excitação é produzida ao ultrapassar os limites ordinários, pelos nocautes dramáticos, pela violência “verdadeira”, por tudo aquilo que, em geral, é inacessível e proibido.

Nos Estados Unidos, em pouco tempo os campeonatos de combate final passaram a fazer parte dos programas mais populares, e cada evento gerava mais de US$ 10 milhões. O primeiro campeonato de combate final organizado fora dos Estados Unidos aconteceu no Japão, onde conseguiu o mais alto nível de audiência jamais alcançado por um torneio de artes marciais.

O vídeo do primeiro UFC (Campeonato de Ultimate Fighting) inglês conquistou o primeiro lugar em locações. Dado seu sucesso comercial, outras empresas de mídia tomaram o bonde andando e criaram variações da fórmula UFC. Primeiro, o Peters Entertainment Group pôs no ar o “World Combate Championship”. Battlecade, que faz parte da General Media International e editor da Penthouse, lançou outro evento, o “Extreme Fighting”.

Sua organização refletiu claramente a dinâmica comercial: os árbitros, juízes e os responsáveis pela contagem de pontos foram substituídos por pessoas oriundas da indústria da mídia e da diversão: quem comanda o espetáculo da UFC é um ex-publicitário; a responsável pela produção e promoção não é uma associação esportiva, mas uma empresa de televisão pay-per-view. Apesar de os campeonatos de combate final terem sido, inicialmente, concebidos como um enfrentamento de diferentes estilos, os encarregados pela promoção perceberam que aos olhos da clientela de telespectadores isso não tinha a menor importância. Segundo Art Davie, que comanda o espetáculo da UFC, a vasta maioria do público pay-per-view é formada por “sujeitos que gostam do futebol da NFL (National Football League, a liga de futebol americano) e querem ação. Eles não parecem se interessar muito pelas nuances das artes marciais, e menos ainda pelo estilo de cada combatente”.

Empolgados com a violência banida da vida cotidiana, eles podem aproveitar da excitação proporcionada pela transgressão das regras habituais, assistindo aos enfrentamentos perigosamente próximos daquilo que é considerado como sendo a dura realidade de uma briga de rua.

Os lutadores, que atraem todos os olhares, têm evidentemente uma visão diferente. Para eles, as partidas representam sessões de riscos reais, mas circunscritos. Por que eles se expõem? Além de serem pagos por sua participação e, eventualmente, ainda ganharem o prêmio, concorrer é bom para sua reputação, que gera outras fontes de ganho: cursos, demonstrações, contratos para outros combates, papéis em filmes ou publicidade. Conscientes dos riscos, os atletas mais jovens e no ápice da carreira evitam esses tipos de luta. Para eles, um ferimento pode ter um efeito desastroso.

Quase todos são antigos campeões de esportes nos quais se ganha pouco dinheiro. Sua carreira se aproxima do
fim, por isso é o momento ideal para aproveitar seu “capital físico”. As competições dão a eles o estatuto de respeitabilidade no mundo das artes marciais. Entrar na jaula é sinônimo de ato de grande coragem e seu físico e a força que eles exibem perante as câmeras assustam.

Um deles descreve da seguinte forma a ambiguidade do que sente: “É uma luta de rua, mais que qualquer tipo de arte marcial. Eu faço. Já estive naquela jaula. E com certeza eu não perderia isso por nada no mundo. Mas posso garantir que um dia desses alguém vai acabar morrendo. E ficará ali, estendido no ringue. Como lutador, aquilo é uma experiência fantástica, que é preciso viver pelo menos uma vez. Mas como esportista e ser humano, posso dizer: o combate final é realmente duro demais. Eu não acho justo dar chutes na cabeça de alguém que está caído. Dá vontade de dizer: ‘Gente, basta lutarmos numa boa briga de rua’”.

Frente às campanhas de proibição promovidas por certos estados americanos, no Canadá e na Grã-Bretanha, os empresários modificaram suas estratégias. Às escondidas da mídia e da esfera política, eles programam competições que oscilam no limite da legalidade. O organizador dos combates nos Países Baixos, por exemplo, se “desterritorializou” para gravar as sessões, de modo a não chamar a atenção das autoridades; ele escolheu a ilha de Aruba, no Caribe, e São Petersburgo, na Rússia. Outra categoria se dedica a regulamentar os combates de modo mais estrito, fazendo com que eles sejam aceitos como “esporte” para conseguir as licenças de organização e, assim, voltar a ter acesso ao mercado do pay-per-view. Esse foi o caminho escolhido pelos organizadores do UFC nos Estados Unidos.

Em todo caso, a televisão paga, o mercado de DVD e o download na internet permitiram comercializar eventos para os quais os mecanismos de controle local e nacional já não funcionam. Aqui, a exemplo de outras esferas da vida social onde entram em cena fantasias e emoções, nada é mais excitante que aquilo que é apresentado como a derradeira realidade.

 

*Maarten van Bottenburg é professor de Sociologia do Esporte da Universidade de Utrecht (Países Baixos).



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