RESENHA DE O SENTIDO DAS ÁGUAS

Velhas ideias em novos formatos?

Resenha do novo livro do médico e escritor Drauzio Varella, O sentido das águas: histórias do Rio Negro (Companhia das Letras, 2025)

A região amazônica e o novo mundo estiveram no centro da produção de várias ideias formadoras do mundo moderno. A partir do choque entre as culturas originárias e o invasor europeu surgiram noções de natureza e cultura, civilização e barbárie. No mundo contemporâneo a região se mantém no centro dos debates sobre a possibilidade da ocorrência de uma catástrofe ambiental.

O mais recente livro do célebre escritor e médico Drauzio Varella, O sentido das águas: histórias do Rio Negro (Companhia das Letras, 2025) encaixa-se dentro desse panorama de formulações de ideias e discursos sobre a região amazônica. O foco da obra está nos povos regionais e na história do Rio Negro. Temos a menção a várias etnias indígenas (Tukano, Barés, Yanomamis), aos modos de vida dos ribeirinhos, às histórias de cidades e povoados da região (São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro, Manaus, Velho Airão, Novo Airão), seus dramas e violências sofridas.

Crédito: Divulgação

Os capítulos apresentam relatos de homens e mulheres que moram na região; a problemática do contrabando, do garimpo, da devastação ambiental e do tráfico de drogas. Há seções onde são narrados momentos importantes da história social do Rio Negro e descrições sobre a cultura de algumas das nações indígenas que habitam o rio.

Apesar de Varella ampliar a voz de pessoas comuns, e tratar todo o complexo ambiental e social amazônico com respeito, fica difícil não sentir que O sentido das águas é uma obra de aventuras para consumo nos centros urbanos do Brasil, Europa e Estados Unidos. Varella usa termos como “fantástico”, “incrível”, “um mundo a parte”, “nunca vi isso antes”. Reproduzindo a mesma dimensão discursiva de outras obras de séculos anteriores (Gaspar de Carvajal, Rodrigues Ferreira, Alfred Russell Wallace, Euclides da Cunha), cujo tom pode ser resumido nos trechos abaixo:

“Nas primeiras viagens ao Rio Negro, a imensidão das florestas e das águas me ofuscou os sentidos. Tamanha beleza não deixa espaço para enxergar além dela. As descrições das matas e dos rios reunidas neste livro procuram refletir esse encantamento.” (p.295)

“No mundo amazônico, o mais intrigante é que o real e o imaginário andam de mãos dadas pelo cotidiano.” (p. 298)

Não estou duvidando do humanismo do autor nem da boa intenção da editora em fomentar uma obra como essa. É uma obra com muitos méritos. Minha crítica é à relação social que torna possível esse tipo de texto; como amazônida nascido em Manaus e pesquisador da região, vejo que permanece a lógica de um lugar supostamente sem voz e de um povo diferente e bárbaro que precisa do homem civilizado (seja da metrópole colonial ou de outras regiões mais desenvolvidas) ecoar os sentimentos desse povo e formular as ideias sobre a Amazônia.

As representações sobre a Amazônia sempre foram formuladas de fora, a partir do europeu invasor, do colonizador, do intelectual do Sudeste ou a partir do Estado autoritário que tentou integrar à força durante a ditadura civil-militar. A verdade é que sempre tivemos uma voz própria, com nossa cultura, nossos autores, nossos artistas, nossos intelectuais, sejam eles indígenas ou não. Cabe a nós sermos ouvidos e superar o apagamento histórico que sofremos e não esperar por soluções vindas de fora ou que outras pessoas falem por nós.

Para quem deseja se aprofundar nos estudos amazônicos, recomendo a leitura de Amazônia Colônia do Brasil, de Violeta Loureiro; História da Amazônia, de Márcio Souza; A invenção da Amazônia, de Neide Gondim; Viagem das ideias, de Renan Freitas Pinto; Metamorfoses da Amazônia, de Marilene Corrêa.

A obra de Drauzio Varella, apesar de seus méritos e falhas, é uma boa introdução para quem ainda não conhece a complexidade da temática. Se a editora e o autor desejam mesmo ampliar a voz da região, então na próxima organizem uma publicação com pesquisadores e intelectuais regionais.

 

Ricardo Kaate Lima é doutor em Ciências Sociais (Unesp), autor de A Lança de Anhangá (Cachalote, 2024) e vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022).

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