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PLANO BIDEN

Viva o “risco sistêmico”!

por Serge Halimi
1 de abril de 2021
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Os Estados Unidos acabam, com efeito, de adotar uma das leis mais sociais de sua história. Ela descarta as estratégias econômicas feitas nas últimas décadas, que favoreciam as rendas do capital – “inovadores” e rentistas juntos – e castigavam as classes populares

Três dias antes da entrada de Donald Trump na Casa Branca, o presidente chinês, Xi Jinping, viajou para Davos. Advertiu os Estados Unidos contra o protecionismo. Hoje, é a política de retomada do crescimento, impulsionada por Joe Biden, que alarma os dirigentes chineses. Eles veem aí um “risco sistêmico” para a ordem econômica atual…

Os Estados Unidos acabam, com efeito, de adotar uma das leis mais sociais de sua história. Ela descarta as estratégias econômicas feitas nas últimas décadas, que favoreciam as rendas do capital – “inovadores” e rentistas juntos – e castigavam as classes populares; rompe com as políticas públicas assustadas com a volta da inflação e o surto do endividamento; e não procura mais lisonjear os neoliberais e seus financiadores com cortes de impostos, cujo produto acabava frequentemente na Bolsa e inflava a bolha financeira. 

Com seu plano de emergência de US$ 1,9 trilhão (quase 10% da produção da riqueza anual do país), que deve ser seguido por um programa de investimentos em infraestruturas, energias próprias e educação (US$ 3 trilhões em dez anos), o ex-vice-presidente de Barack Obama parece ter enfim aprendido as lições da história – e as do fracasso de seu antigo “patrão”, que, muito prudente, muito centrista, não ousou se aproveitar da crise financeira de 2007-2008 para impulsionar um novo New Deal. “Com uma economia mundial em queda livre”, justificou-se Obama, “minha tarefa prioritária não era reconstruir a ordem econômica, mas evitar um desastre suplementar.”¹ Obcecada pela dívida, a Europa se infligia no mesmo momento uma década de purgação orçamentária, de fechamento à chave de leitos de hospitais…

Um dos elementos mais promissores do plano Biden é sua universalidade. Todos os norte-americanos com rendimentos inferiores a US$ 75 mil por ano têm direito a um novo cheque do Tesouro no valor de US$ 1,4 mil por pessoa. Ora, há um quarto de século que a maioria dos Estados ocidentais condiciona suas políticas sociais a patamares de recursos cada vez mais baixos, a dispositivos de supervisão permanente, a “políticas de ativação” do emprego punitivas e humilhantes.² Resultado: os que precisam, mas não ganham nada, são estimulados a odiar as políticas públicas que lhes tiram alguma coisa para dar a outros. Depois, atiçados pela mídia, passam a imaginar que estão pagando para beneficiar vagabundos e parasitas.

A crise de Covid-19 pôs fim a esse tipo de maledicência. Nem erro nem imperícia podem ser atribuídos a todos os assalariados ou trabalhadores independentes cuja atividade foi brutalmente interrompida. Em alguns países, 60% dos que receberam um auxílio emergencial por causa da pandemia nunca tinham recebido nada antes.³ O Estado os socorreu “custasse o que custasse” e sem discriminações. Por enquanto, os adversários são poucos – fora da imprensa financeira e da China popular…

 

Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.

 

1 Barack Obama, A Promised Land [Uma terra prometida], Crown, Nova York, 2020.

2 Ver Anne Daguerre, “Emplois forcés pour les bénéficiaires de l’aide social” [Empregos forçados para os beneficiários da ajuda social], Le Monde Diplomatique, jun. 2005.

3 Segundo a consultoria BCG, citada em The Economist, Londres, 6 mar. 2021.



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