Viver como rico numa cidade de pobres - Le Monde Diplomatique

PARADOXOS

Viver como rico numa cidade de pobres

por Julien Brygo
30 de agosto de 2010
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Em Glasgow, maior cidade da Escócia, a população vive em um grande contraste social. Por um lado o mercado de luxo cresce e os hotéis cinco estrelas se espalham. Por outro, a esperança de vida entre bairros ricos e pobres pode variar em 28 anos, segundo dados da Organização Mundial de SaúdeJulien Brygo

“Você pensa que os clubes privados são reservados à elite? Aos ricos? Aos pretensiosos? Está coberto de razão. Aliás, esta é a nossa razão de existir”. Imprensado entre uma loja de vestidos de noiva, pubs para executivos e escritórios de negócios, o Glasgow Art Club, situado no coração do centro mercantil, apresenta-se como “o segredo mais bem guardado de Glasgow”. A porta desse casarão burguês de estilo vitoriano é aberta por um mordomo, vestindo um traje de três peças, que escolta os convidados até a sala principal. Toda semana, neste clube de elite, os notáveis da cidade têm hora marcada com a caridade.

    

Nele, o mais antigo Rotary Club da Escócia, fundado em 1912, organiza um ritual, um encontro caracterizado por amabilidades, trocas de favores e discussões interessadas. Uma oportunidade para cumprimentar os amigos, divertir-se num lugar excepcional e, eventualmente, acenar com talões de cheques em prol de uma boa e nobre causa.

Confortavelmente sentado à mesa de honra, o presidente, Michael Guy, levanta-se, endireita desajeitadamente seus suspensórios pretos e desfecha um golpe de martelo seco no sino de prata. São 13 horas e a refeição está solenemente iniciada. Os 40 convivas do dia – banqueiros, donos de seguradoras, advogados ou diretores de empresa – levantam-se e juram fidelidade à Rainha. O presidente, de 67 anos, está incomodado por um pesado colar feito de uma centena de pequenos retângulos nos quais foram gravados os nomes dos seus 98 predecessores e que vale 38 mil libras (cerca de R$ 100 mil).
Embora atrapalhado pelo seu penduricalho, Guy consegue esboçar um diagnóstico da grande pobreza que assola a cidade, sobretudo nos bairros do leste. “Em Glasgow, há certos bairros onde se vive menos tempo do que no Iraque! O estilo de vida, a depravação… Sabemos disso. Glasgow sempre foi uma cidade onde os pobres e os ricos viveram lado a lado. Foram os imigrantes irlandeses que contribuíram para reduzir as estatísticas. Mas, vamos e venhamos, não é tão grave assim. São apenas bolsões de pobreza, e Glasgow é realmente uma cidade vibrante, com museus fantásticos, shows extraordinários, pessoas excepcionais!”.

Em agosto de 2008, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma pesquisa revelando que a diferença de esperança de vida entre uma criança nascida num bairro rico de Glasgow – no Sul e no Oeste – e outra nascida num bairro pobre da mesma cidade – no Leste – era de 28 anos1. Intitulado “Acabar com a discrepância em uma geração”, esse relatório apontou que certos bairros da cidade eram detentores do recorde da mais baixa esperança de vida na Europa: 54 anos para os homens, 75 anos para as mulheres. Considerando os remédios preconizados2 – acesso universal aos bens elementares (água, alimentos, moradia, atendimento médico, energia), educação, cultura, urbanismo harmonioso e boas condições de trabalho –, esse estudo deveria ter o efeito de um tsunami, mas foi apenas uma marola.

Peter Steven, “um dos membros mais ricos do clube”, segundo Guy, mal consegue encontrar palavras para se expressar. Ele reflete por um momento e então articula: “Por que existe uma tão grande diferença de esperança de vida entre os ricos e os pobres nesta cidade? É porque os pobres se alimentam mal e herdam esses maus costumes dos seus pais. É por causa da educação. Nós, no Rotary Club, temos muito orgulho por estarmos conduzindo ações nas escolas dos bairros pobres da cidade. Muitos daqueles de quem você está falando vivem das ajudas sociais e não têm outra fonte de renda. Para eles, é mais barato comprar fish &chips3 do que comer bem!” Com a faca na mão, Michael Guy também atribui esse recorde europeu a um dos pratos mais populares da Escócia, o famoso “Fish Supper”4.

Caridade
Algumas horas antes dessa refeição ritual, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, havia apresentado o plano de austeridade mais drástico do pós-guerra na Grã-Bretanha, cuja meta é economizar 110 bilhões de euros até 20155. Para compensar o anunciado congelamento dos investimentos nas escolas situadas em áreas pobres – 4,1 bilhões de euros –, o ministro da educação, Michael Gove, anunciou o pagamento de 4,7 milhões de euros ao Teach First Charity, que tem como objetivo convencer “os melhores professores” a ensinarem nos bairros carentes6. Enquanto a mão direita opera cortes com sabre, a mão esquerda dá esmolas. Será esse um resumo satisfatório da questão social em Glasgow?

No púlpito, George Russel, um ex-funcionário de uma multinacional das telecomunicações, conclama a dar um “sobressalto da caridade” frente ao “ataque da coalizão no poder contra os serviços públicos”. “Com os cortes orçamentários que estão por vir, David Cameron conta com a caridade. Para conseguirmos construir uma sociedade homogênea, todos teremos de desempenhar nosso papel. Pessoas como a gente, que têm dinheiro, deverão dar mais, é uma certeza”. Mas o presidente deseja chamar a nossa atenção para outra realidade da cidade, mais agradável. “Como vocês sabem, muitos negócios são atraídos por Glasgow. As centrais de atendimento, as seguradoras, os centros de serviços financeiros etc. Existe, sobretudo, uma excelente oferta hoteleira. Aliás, recentemente, um novo cinco-estrelas abriu suas portas à beira do Rio Clyde. Um hotel magnífico…”.

Nas décadas de 1980 e 1990, a poeira dos fornos que havia encoberto Glasgow com um véu escuro foi areada por meio de subvenções importantes. Os estaleiros, as minas de carvão e as aciarias haviam sido fechados. Foi feita uma remodelagem, uma maquiagem, uma raspadura. “Glasgow, a Escócia com estilo”, proclama desde então os cartazes em toda a área comercial e seus arredores. “Os pobres foram empurrados para a periferia e as moradias sociais foram vendidas ao setor privado, por obra de Margaret Thatcher que tinha uma verdadeira ojeriza por moradias sociais. A ‘cappucinoização’, um processo similar ao da gentrificação7, podia então começar”, analisa Bridget Fowler, uma socióloga da Universidade de Glasgow.

Turismo e infraestrutura
Vinte anos após ter obtido o título de “capital europeia da cultura”, em 1990, a cidade projetada pelo arquiteto Charles Rennie Mackintosh reivindica ser uma das três capitais europeias da arte contemporânea. Ela abocanha  prêmios (“cidade britânica da arquitetura e do design” em 1999), atrai  eventos esportivos importantes8 e turistas afortunados, por conta, entre outros, de sete campos de golfes privados e cinco hotéis cinco-estrelas, ou seja, 1.358 quartos de luxo. Não surpreende, portanto, que ela colecione as reportagens elogiosas na imprensa europeia, a qual esquece sistematicamente de mencionar as diferenças de esperança de vida entre os moradores.

Situada no topo da escala em matéria de taxa de desemprego, de morte por overdose, de câncer no pulmão ou de assassinato com arma branca, Glasgow concentra também as grandes fortunas. Em 2007, o “mapa dos milionários britânicos9” contava 11.288 “glaswegians” (como são chamados em inglês os nativos da cidade), o que coloca Glasgow no sétimo lugar deste ranking em todo o Reino Unido. A muito burguesa Edimburgo, com “apenas” 9.738 milionários, fica cinco postos atrás.

Mas, como viver rico numa cidade de pobres? “Estou voltando da Índia, e posso lhe dizer que o pessoal do leste de Glasgow se sai muito bem com relação aos indianos. Os pobres de Glasgow são ricos se comparados com a população do Malaui!” No quarto andar do seu império, a City Refrigeration Holding – um grupo gigante que prospera no setor dos equipamentos para imóveis e emprega mais de 12 mil assalariados pelo mundo afora –, o multimilionário William Haughey, 53 anos, relativiza as conclusões da OMS. “Não existem nem fome nem problemas sanitários nesses bairros. Não são razões para a pobreza que explicam esses números desastrosos. E tampouco razões sociais. Eu penso que esses problemas existem há muito tempo”.

Dono de uma fortuna avaliada em pelo menos 120 milhões de euros10, Haughey de fato não esperou que lhe dissessem o que fazer com o seu pé-de-meia: ele planeja construir em Glasgow a “maior casa da Escócia” – cuja licença foi negada –, organiza a transformação da sua empresa numa multinacional globalizada e reserva uma porção da sua riqueza – cerca de 8% – para a caridade. “Nós somos muito discretos em relação às nossas atividades filantrópicas. Por intermédio da minha fundação, a City Charitable Trust, eu doei cerca de 10 milhões de libras esterlinas (R$ 26,5 milhões)”. William Haughey considera como uma questão de honra retribuir à comunidade. Aliás, ele aponta o fato de que a sua luxuosa mansão na Flórida hospeda mensalmente “o empregado do mês e sua família”. Nos últimos anos, ele notabilizou-se, sobretudo, por prestar ajuda a uma organização que hoje está mal das pernas: o Partido Trabalhista. De fato, com contribuições de mais de 1,3 milhão de euros, ele foi o mais generoso doador escocês do partido derrotado nas recentes eleições. Aliás, o antigo primeiro-ministro Gordon Brown esteve presente na inauguração do seu quartel-general, em 2009. “As fortunas de Glasgow como a de William Haughey aumentaram consideravelmente no decorrer da última década, em parte graças à prodigalidade de Gordon Brown com as finanças públicas”, comentou o jornal britânico The Times em 14 de março de 2010.

Do outro lado do Rio Clyde, na Rua Buchanan, a sétima rua mais cara do mundo em termos de aluguéis, Kevin, Michael e William batem pernas, com o currículo na bolsa e um hambúrguer na mão. Nativos dos bairros pobres de Glasgow, os célebres Castlemilk e Easterhouse, eles são o que a imprensa chama de gangsteres. Não contestam o rótulo: “A minha gangue chama-se The Young Byre Fleeto. Os nossos codinomes são: YHF, YBF ou HF”, diz o rapaz de 18 anos, que narra com uma simplicidade desconcertante suas façanhas, suas proezas armadas e seus dias de fúria. Segundo diversas fontes, haveria de 150 a 200 desses grupos organizados nos bairros pobres de Glasgow.

“Eu cresci com o desemprego; nunca conheci meu pai e a minha mãe está sem trabalho”, diz William, que acaba desistindo finalmente de entregar seu CV nos bares e nas lojas e resolve passar com Kevin, 18 anos, pai de dois filhos, uma das suas tardes habituais: dois uísques e quatro chopes, depois dos quais os garçons se recusam a servi-los; então, eles engolem comprimidos de Valium, misturados com cidra comprada numa quitanda. Eles têm cicatrizes por todo o corpo: “Foram combates com as outras gangues. Não conhecemos outra coisa, aqui em Glasgow: todo mundo tem uma faca, e nós guerreamos uns contra os outros”.

À mesa do Crystal Palace, um bar na proximidade do Rio Clyde, Michael explica que ele está “determinado a sair da cultura das gangues”. O seu pai aparece. “Eu também fui integrante de uma gangue na minha juventude. Isso me levou à prisão”, diz, dando tapinhas nas costas do filho antes de tomar seu chope e de partir para bater ponto na delegacia. Michael, em liberdade vigiada em consequência de uma rixa, indaga, fitando seu interlocutor nos olhos: “Você pensa que nós somos maus? Porque todo mundo nos rejeita: por causa da nossa maneira de falar, de nos vestir, de nos divertir…” Quando ouve falar em William Haughey, Michael pula da cadeira: “Esse sim, é um verdadeiro gângster!”.

No Royal Exchange Square, no restaurante Rogano, um dos lugares mais seletos da cidade, sir Tom Hunter respira fundo e começa a contar sua história de sucessos. Em 1998, à frente de uma rede de lojas de calçados, um negócio que ele havia iniciado “na traseira de uma van com apenas dois cheques de 5 mil libras esterlinas11”, esse homem que descreve a si mesmo como um “capitalista aventureiro”, vendeu seu capital ao seu concorrente, a JJB Sports. Ele embolsou 310 dos 345 milhões de euros da transação. Dez anos mais tarde, se tornaria o primeiro multimilionário da Escócia, com uma fortuna avaliada em 1,3 bilhão de euros.

Sem saber o que fazer com tanto dinheiro, decidiu então “educar-se” e conheceu Vartan Gregorian, o diretor da Carnegie Corporation de Nova York. “Ele me familiarizou com o lema da Carnegie, ‘os ricos que morrem ricos caem em desonra’. Isso me impressionou e pensei: ‘por que esperar até morrer para colocar meu dinheiro a serviço de boas causas?”12 Tom Hunter apresenta de fato alguns traços em comum com o “barão ladrão” Andrew Carnegie, um magnata americano dos trilhos de ferrovias que legou ao bom povo 2,5 mil bibliotecas e uma famosa sala de concertos nos Estados Unidos. Fundador do fundo de aplicações West Coast Capital, Hunter faturou em 2009 cerca de 4 bilhões de euros de mais-valias com as suas operações de compra, reestruturação e revenda de sociedades em apuros. “Tenho atualmente 10,5 mil de assalariados sob as minhas ordens, direta ou indiretamente”.
Contudo, as “perdas colaterais” sofridas com os seus investimentos – demissões, economias diversas e reestruturações – ficam em segundo plano quando esse homem, enobrecido pela rainha em 2005, menciona suas grandes obras de caridade. “Por intermédio da Fundação Hunter, eu doei cerca de 50 milhões de libras esterlinas, sempre para os campos da educação e do desenvolvimento econômico”. Tom Hunter é exatamente o que David Cameron está procurando: um multimilionário filantropo, disposto a compensar com a ação os efeitos dos cortes orçamentários, especialmente na educação e na saúde. A quantia que ele legou para “boas causas” equivale ao preço da sua casa no Cap Ferrat13 que ele vendeu para russos meses antes da derrocada financeira de 200814

Disputa adormecida?
Ricos bonitos, atentos, generosos; pobres inativos, drogados e alcoólatras: os clichês da época vitoriana perduram. Mas qual força política estaria empenhada a acabar com eles? Em Glasgow, nunca esse “ódio entre classes” esteve tão polido, discreto, invisível. Os 28 anos de esperança de vida que separam os bairros pobres dos ricos foram evacuados do mundo político, expulsos do espaço público onde a segregação geográfica garante a impermeabilidade entre os meios. O fato de uma espécie de apartheid social perpetuar-se sem que isso provoque grandes turbulências é revelador do trabalho ideológico que foi realizado ao longo dos últimos 30 anos para reformular os cacifes que estariam em jogo na luta, em termos tradicionais, familiares, quase tranquilizadores: aqui, como no século XIX, coexistem pobres depravados e ricos filantropos. “Esta negação das classes explica por que nenhum sociólogo se debruçou sobre a condição dos ricos de Glasgow”, critica Paul Littlewood, um sociólogo aposentado da Universidade de Glasgow.

Ao horizonte sem perspectiva de muitos corresponde o futuro resplandecente dos outros. “O mercado do luxo se desenvolve com rapidez. A cidade está simplesmente fabulosa. Todas as grandes marcas já têm as suas lojas aqui. Glasgow ocupa o segundo lugar depois de Londres em termos de consumo em lojas na Grã-Bretanha”, sublinha Summera Shaheen, a diretora da Diamond Studio, uma boutique de pedras preciosas situada no centro da cidade. No início de março, Shaheen lançou a associação Love Luxury Glasgow, uma sociedade de empresas que prosperam no campo do luxo. Limusines, spas, boutiques de luxo, percursos de golfe… “Nós temos como alvo principal a clientela escocesa, é claro, mas também os novos ricos russos”. Ao ouvir mencionar o estudo da OMS, ela faz careta. “De qualquer forma, são muito escassas as chances de ver a nossa clientela cruzar as pessoas de quem você está falando. A maior parte das áreas perigosas encontra-se fora da cidade. Além disso, você sabe, os glaswegians são generosos. Esta semana, três eventos de caridade vão ocorrer na cidade”.

Estariam aplicando a mesma receita na cúpula do Estado? A coalizão entre os conservadores e os liberais democratas concentra a maior quantidade de milionários já observada num governo britânico. Dezoito dos 23 membros do “gabinete de austeridade”, ou seja, quatro quintos, têm contas bancárias com sete zeros. Segundo o Sunday Times, a sua fortuna coletiva alcança 50 milhões de libras esterlinas15. Ninguém duvida de que nesses dias que se seguem ao anúncio do mais drástico plano de rigor infligido aos britânicos em décadas, eles saberão doar um pouco da sua riqueza para compensar os efeitos da sua política.

Julien Brygo é jornalista.



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