Tenho um pensamento sempre otimista - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA MARTINHO DA VILA

Tenho um pensamento sempre otimista

por Guilherme Henrique
2 de maio de 2018
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Aos 80 anos, o sambista Martinho da Vila afirma que debate racial acontece, mas ressalta que situação do negro no país está distante do ideal

O sol que castiga o gramado dos campos de golfe do condomínio de alto padrão localizado na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, parece não alcançar os andares mais altos do prédio em que vive Martinho da Vila. O amplo apartamento do artista é arejado e fresco, sem os incômodos do calor externo.

Poucos móveis compõem a sala do cantor, predominantemente branca, com livros espalhados pelo cômodo. Na mesa central, uma obra que traz Fidel Castro na capa. O título apresenta imagens variadas do líder da Revolução Cubana, falecido em 2016, aos 90 anos. “Estive lá na década de 1980. Gostei muito de Havana e Varadero. As praias são lindas”, relembra Martinho.

Na varanda estão o computador e o sofá. O sambista se acomoda entre as almofadas e dá as costas para a vista privilegiada do mar carioca. Vestindo calça preta, camiseta azul com o título de seu último álbum (Alô, Vila Isabeeeel!!!) e chinelo, Martinho da Vila une a experiência de seus 80 e a malemolência característica quando o tema é a política nacional. “Confesso que estou deslizando, escorregando desses assuntos. Não acredito no governo brasileiro e nos poderes institucionais”, admite.

Quando o assunto é música, no entanto, Martinho abre o leque de considerações acerca da indústria fonográfica e da produção atual. “Tem hora que a música boa incomoda. As pessoas, em muitos momentos, não querem ouvir nada que seja bom, não querem pensar”, explica. Dono de uma discografia extensa, iniciada em 1969 e composta por mais de cinquenta trabalhos, ele já não vê sentido em gravar discos como antigamente. O último álbum foi “um mimo da Sony”, garante, ciente de que o alcance do produto não será o mesmo de anos anteriores.

Ao Le Monde Diplomatique Brasil, Martinho da Vila ainda discorreu sobre as transformações sociais ocorridas no Rio de Janeiro nos últimos anos, a intervenção federal que acontece na cidade, o protagonismo do negro na formação cultural do país, as influências literárias que permeiam seus dezesseis livros e a atuação como embaixador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no Brasil.

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LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL Certa vez, você afirmou que o samba “às vezes é tratado como coisa nova, às vezes como coisa antiga”. Qual momento estamos vivendo?

MARTINHO DA VILA – O samba está sendo tratado como novidade. Tem uma juventude boa, que está descobrindo o samba, fazendo coisas diferentes.

 

O que você tem ouvido no samba? Algo que tem chamado sua atenção?

Tenho o conceito de que é o crítico de música que precisa falar se algo é bom ou ruim. Música, poesia, você gosta ou não gosta. Não dá para dizer se é ruim ou bom. O que é bom para mim pode ser ruim para outra pessoa. Tem coisas de que eu não gosto e grande parte gosta.

 

Você já disse que não há nada mais político que o samba. O estilo tem desempenhado esse papel? Qual é o momento da MPB nesse aspecto?

Sempre fez isso. A música e o compositor são influenciados pelo tempo e meio em que vivem. Ele fala das coisas que estão acontecendo, relatando segundo sua ótica, e isso é uma atividade política. O repentista nordestino, às vezes pouco letrado, faz os repentes com uma força política enorme. E não é uma política engajada. A música não deve ser engajada politicamente, porque música é arte. Você precisa fazer arte. Se ela serve para política ou outras coisas, fica em segundo plano. Não se pode fazer intencionalmente, senão vira panfletagem. O próprio criador pode mudar seu pensamento ao longo do tempo. O artista, de maneira geral, deve fazer arte.

 

Em entrevista recente ao Le Monde Diplomatique Brasil [jan. 2018], Mano Brown falou sobre a diferença entre fazer música para conscientizar e sensibilizar. Entre esses dois “estilos”, o que a música faz com mais eficácia?

Sensibilizar, sem dúvida. A música é boa quando toca a pessoa. Na arte, por exemplo, há um quadro famoso, elogiado por todos, e às vezes eu não acho nada especial nele. Mas, se eu passar por ele duas, três vezes, e aquela pintura me fizer pensar, sentir algo, então ela alcançou seu objetivo, porque ela sensibiliza. A função da arte não é agradar só aos olhos ou aos ouvidos. Nos meus shows, tem muita gente que vibra, se emociona, porque ouviu a música que ama. Há aquele que não conhecia essa mesma canção e fica parado, sem se mexer, meio que espantado. E tem aquela pessoa que chora de emoção… Se você se sensibiliza, faz o outro pensar e abre a mente dele.

 

Há quem diga que a música, atualmente, é feita da mesma maneira, com o advento da tecnologia. Você sempre diz que não se pode perder a melodia e que isso tem faltado. Como equilibrar as duas coisas?

É difícil. Tem hora que a música boa incomoda. As pessoas, em muitos momentos, não querem ouvir nada que seja bom, não querem pensar. Elas não vão a um espetáculo para ver uma proposta do show, a mensagem que ele carrega, a riqueza melódica da música, a sua poética, o bom desempenho do artista, da voz, da banda. Querem ir ao show para pular, gritar, sem se preocupar com nada. Não há um método para reverter isso. A única coisa que pode trazer a atenção do público para a música mais elaborada é o sucesso que ela faz. A partir daí as pessoas podem voltar a consumir isso.

 

Martinho, você sempre gravou muitos CDs, quase um por ano desde que começou a carreira, no fim da década de 1960. Recentemente, no entanto, afirmou que já não vale a pena esse formato de veiculação. Essa mudança tem impactado seu trabalho?

Impacta muito. Fiz um disco este ano, o Alô, Vila Isabeeeel!!!, e valeu a pena, porque ele não é comum. Esse trabalho foi feito para a Vila Isabel, contando sua história, quase um documento histórico. Aí vale a pena. Mas, de resto, não interessa mais para as gravadoras. Elas precisam fazer um investimento que não tem o retorno esperado. Hoje é tudo digital. A maioria das gravadoras nem funciona mais como gravadora. Elas costumam gravar um artista que é importante, que já rendeu muito, com sucesso, que ainda tem moral. Fora isso, as gravadoras não produzem mais: elas só distribuem. Atualmente, o artista que for fazer um disco vai ter que produzi-lo e arcar com os custos de tudo. Quando o trabalho está pronto, ele leva à gravadora e mostra o resultado. Se a gravadora aceita, ótimo, porque significa que ela vai distribuir o álbum e fazer um projeto de marketing. Mas a empresa não vai reembolsá-lo pelo que o artista gastou. Estamos voltando ao tempo do compacto simples, que trazia duas músicas, uma de cada lado do vinil. Se o compacto vendesse, aí gravávamos algo maior. E tem outra coisa: gravar não significa que vai tocar, porque o rádio é outro problema… Fora isso tem a internet, as mídias sociais. Se tudo der certo, aí você faz um disco. O que a Sony fez comigo foi quase um mimo.

 

Na música “Sempre a sonhar”, que está no álbum mais recente, há um trecho que diz que “um dia o morro vai descer em uma tremenda euforia”. Como você analisa as transformações urbanísticas do Rio de Janeiro nos últimos anos?

Esse assunto dá uma palestra de três horas… Enfim, tudo avançou. Você não pode dizer que o Rio de Janeiro do passado era melhor que o atual, porque não era. O passado dificilmente é melhor que o presente. As pessoas falam “ah, quando eu morava naquele subúrbio, com os meus amigos, com o meu barbeiro, era tão bom”, mas hoje tá morando na Barra da Tijuca. Aí você pergunta se ele quer voltar para o subúrbio e ele não quer. Quando eu morava na favela, havia os sambas que falavam do barracão de zinco. A realidade é outra, mudou. Não tinha luz, agora tem. Mas eles continuam no abandono, como antigamente. Só que agora com alguns benefícios. Nós temos duas cidades distintas no Rio de Janeiro: uma de quem mora no morro e nas periferias, e a cidade de quem mora no meio disso, bem distante da realidade.

 

Qual é sua opinião sobre a intervenção federal?

Confesso que estou deslizando, escorregando desses assuntos políticos do momento. Não acredito no governo brasileiro e nos poderes institucionais. Não acredito na integridade do Supremo Tribunal Federal (STF). Tudo está girando em torno do marketing político, então a tendência é dizer que isso não é boa coisa, que é mais uma jogada. A verdade é que não quero saber muito… Você não tem mais em quem confiar na política. Ao mesmo tempo, pela minha personalidade, não posso ser pessimista e dizer que não há saída para o Brasil. Mas eu não vejo um caminho.

 

Em “Brasil mulato”, um verso diz: “branquinha, faça com ele a sua miscigenação”, para em seguida afirmar que “o Brasil de amanhã será lindo”. Como estamos no debate sobre o racismo, a miscigenação e a integração do negro na sociedade?

Tenho um pensamento sempre otimista. Esses, os otimistas, mudaram o mundo. Os pessimistas não mudaram nada, porque eles não acreditam em nada. A tendência é que avancemos nesse debate e nessa integração. Os primeiros militantes do movimento negro foram aqueles que tinham coragem de reclamar, de questionar. O negro estava em um emprego e, se ele reclamasse de algo, era punido. Depois da reclamação veio a fase de protestar, com Abdias Nascimento [1914-2011, escritor e ativista] e toda aquela turma. Em seguida, veio o período em que as pessoas tiveram que aceitar a relevância do negro para a sociedade brasileira, para a formação da identidade do país. Tiveram que assimilar a nossa importância cultural, não só na música popular, mas nas artes em geral, reconhecendo nomes como Machado de Assis, Aleijadinho e tantos outros. Agora, estamos na fase de ocupar os postos. Falando popularmente: o direito ao trabalho. Há empresas que não empregam negros. Você vê uma foto do governo atual e não vê negros, não há ministros negros. É preciso dizer que avançamos pelo fato de discutirmos isso, algo que não acontecia no passado. O debate está nas universidades. O que falta é a representação. Olhar as instâncias públicas e ver isso, seja na esfera federal, estadual ou municipal.

 

Você falou há pouco sobre pessimismo e eu me lembrei de uma frase do José Saramago, que sentia aflição por entrar em um mundo injusto e sair dele ainda mais injusto. Aos 80 anos, qual é sua reflexão acerca do futuro para seus filhos, netos, na questão do racismo?

A reflexão acontece e, muitas vezes, o sentimento é de tristeza. Essa inclusão ainda está muito distante no Brasil. Não a vejo próxima. Mas eu acredito que seus filhos, por exemplo, vão encontrar uma situação melhor, porque tudo está sendo discutido. Olha a gente aqui, falando disso. Esse papo já é uma ação. O ideal dessa relação ainda está distante e vai demorar para chegarmos lá, mas estamos no caminho.

 

Você é filiado ao PCdoB, apesar de não ser militante. É uma forma de exercer cidadania? Qual é o nível da participação popular para resolver os problemas políticos do país?

Não me filiei para ser militante, participar das ações do partido ou me candidatar a algum cargo público. Foi para incentivar as pessoas a se filiarem a algum partido. É verdade que nossos partidos não têm uma linha bem definida… Não dá para dizer qual é a ideologia dos partidos que temos, isso não funciona mais. Agora, o cidadão que não é ligado a nada se torna, como dizemos na linguagem popular, o “defunto barato”. Quando ele pertence a uma organização, até mesmo uma escola de samba, ele já tem gente com ele. Filiado a um partido, o cidadão pode ir às reuniões, opinar, se candidatar e interagir.

 

Você tem um disco chamado Rosa do povo, em alusão ao livro de Carlos Drummond de Andrade. Há outro escritor que você leia muito?

Gosto de Machado de Assis. Comecei nesse negócio de literatura por causa dele, depois de estudar sua vida e obra para um enredo de escola de samba. Li muito Machado e Jorge de Lima. Mas não tem aquele que seja o principal, o meu guru. Tem grandes nomes da literatura, famosos internacionalmente, e com os quais eu não tenho nenhuma ligação, não li ainda. A verdade é que não gosto muito de ler best-seller… Geralmente o best-seller está envolvido no esquema da editora, que tem o livro como um produto de renda. Então, a editora tem um livro e faz dele o foco da companhia. Ela investe, trabalha, faz projeto de marketing. Eu gosto de entrar numa livraria e pegar um livro aleatoriamente.

 

Qual é o peso da literatura em sua escrita musical? Essas duas coisas se conversam ou são processos criativos distintos?

Eu não gosto de fazer juntos. Me planejo para começar um álbum e terminá-lo antes de iniciar outra coisa. Literatura e composição musical são processos bem distintos, e cada um tem uma forma. Há escritores que ficam reclusos para fazer um livro. Há algum tempo estive com a Nélida Piñon [escritora brasileira] e ela estava indo a Portugal para escrever um livro. Eu já não tenho muito isso. Escrevo em qualquer lugar.

 

Você esteve sempre relacionado com a CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]. Em entrevista ao site do Le Monde Diplomatique Brasil [14 mar. 2017], o escritor angolano Pepetela afirmou que a união entre os países só ocorre quando há interesses envolvidos. Qual é sua opinião sobre isso?

Em termos de CPLP, Portugal está na frente, apesar de acharem que eles não estão interessados nesse processo. A sede está lá, inclusive. Por exemplo: em Portugal há canais de televisão para o público africano, algo que não existe aqui. O Brasil poderia ser mais participativo, mas não é. A CPLP ainda não está forte, porque são países muito distintos. Nem tanto em termos culturais, mas em termos sociais. Há diferença entre Brasil e Angola, Brasil e Moçambique, Portugal e Guiné-Bissau… É difícil equalizar isso em uma organização na qual, teoricamente, todo mundo deve colaborar de modo igual. Alguns países não podem colaborar muito, e outros, que podem, não o fazem. Os adeptos da lusofonia têm que lutar para que isso se fortaleça.

 

Ainda sobre a lusofonia, há poucos escritores africanos que fazem sucesso no Brasil…

Mas o objetivo é chegar a isso, a esse intercâmbio. Quando eu trouxe o Canto Livre de Angola, nunca uma delegação de um país africano havia visitado o Brasil. A música angolana, africana, para entrar aqui, é uma dificuldade gigantesca. No meu tempo, não se falava nada disso. O continente africano mal aparecia nos livros. Ainda tem muito pouco, mas você já consegue encontrar algumas coisas.

 

Para encerrar, há uma crônica sua do livro Conversas cariocas cujo tema é sonhar. Você descreve a importância do sonho para a vida. Queria saber quais são seus sonhos aos 80 anos.

Sonhar é sempre bom. Quem não sonha não realiza. Quem sonha baixo realiza baixo. Não tenho grandes sonhos, porque sempre trabalhei com oportunidade. Não fico sonhando mil coisas ao mesmo tempo. Estou aqui vivendo, fazendo minhas coisas, tranquilo, navegando neste mundo complicado, neste Brasil difícil. Uma pessoa com 80 anos, atualmente, ainda está jovem. Tenho lenha para queimar. Não posso ficar pensando em quanto tempo ainda tenho. Antigamente as pessoas queriam envelhecer para fazer algo. Isso mudou, a ciência evoluiu. O tempo está a meu favor.

 

*Guilherme Henrique é jornalista.



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