O massacre do povo guarani kaiowá - Le Monde Diplomatique

INDÍGENAS

O massacre do povo guarani kaiowá

por Caio Zinet, Israel "Sassá" Tupinambá, Mario Cabral
4 de Janeiro de 2012
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A morte de mais uma liderança indígena em Mato Grosso do Sul expõe massacre do povo guarani kaiowáCaio Zinet, Israel “Sassá” Tupinambá, Mario Cabral

O cacique Nísio Gomes, assassinado no dia 18 de novembro de 2011, foi mais uma das lideranças dos guarani kaiowá eliminada por pistoleiros contratados pelo agronegócio em Mato Grosso do Sul. A comunidade em que ele vivia foi atacada por jagunços, com armamento pesado, que além de o executarem deixaram vários feridos por balas de borracha. Os pistoleiros (funcionários de uma empresa de segurança privada, criada pelos fazendeiros) levaram o corpo do cacique e raptaram sua esposa e duas crianças do acampamento. Até o momento, nem o corpo de Nísio nem as pessoas raptadas foram encontrados.

O fato, pouco noticiado na grande mídia, expõe a situação dramática de um povo que é sistematicamente perseguido há 511 anos. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre 2003 e 2010, 253 indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul.

O poder dos latifundiários da região é tamanho que nem a presença de representantes do governo federal e da Força de Segurança Nacional é capaz de intimidá-los. Pouco depois da morte de Nísio, um grupo de pistoleiros e fazendeiros parou um ônibus com indígenas e entrou no veículo filmando e fotografando todos os presentes, em clara tentativa de intimidação do movimento indígena. Além de estarem fotografando indígenas ameaçados de morte, ainda conduziam veículos sem habilitação.

Representantes do Ministério da Casa Civil e da Força de Segurança Nacional que estavam a poucos metros do lugar do assédio solicitaram apenas que as fotos fossem apagadas das câmeras.

O cacique Ládio, filho de Marco Veron, líder indígena assassinado em 2003, esteve no dia 29 de novembro, em São Paulo, em um ato promovido pela Rede de Proteção aos Militantes Ameaçados de Morte para denunciar os recentes assassinatos de indígenas em Mato Grosso do Sul.

Além das mortes, Ládio apresentou o quadro geral da situação de seu povo, que, ao ser expulso de suas terras, é obrigado a morar na beira de estradas, em condições precárias de moradia, nutrição e saúde, e correndo o risco de atropelamento. “Estamos espremidos entre a soja, a cana e a estrada, vivendo em barracas de lona sem ter o que comer. Estamos jogados na beira da estrada como lixo”, disse Ládio.

Em cima das terras dos guarani kaiowá avança o agronegócio, seja por meio da produção de cana-de-açúcar, pela plantação de soja ou pelo pasto do boi. Um imenso deserto verde cobre vastas áreas indígenas em Mato Grosso do Sul. “Nossas terras em Mato Grosso do Sul estão passando por um processo de devastação total; lá um pé de cana vale mais que um índio, mais que uma criança indígena; um boi vale mais que toda uma comunidade indígena”, denunciou Ládio.

Enquanto o agronegócio se expande com incentivo do governo federal, a demarcação das terras indígenas segue em marcha lenta. A Constituição de 1988 previu que todas as terras indígenas fossem demarcadas em cinco anos, mas, passados 23 anos, exceto em algumas áreas, principalmente na Amazônia, isso não aconteceu.

O povo guarani kaiowá tem direito à demarcação de pelo menos 36 áreas. Desde 2007, aguardam a finalização do laudo antropológico da Funai e a assinatura da Presidência da República para serem homologadas.

A demora nas demarcações causa revolta nos indígenas, agravada pelo fato de que veem o agronegócio entrar livremente nessas áreas, devastando-as para o plantio de gêneros de exportação, como soja e cana, e a pecuária.

Além da devastação do meio ambiente em terras ainda não demarcadas, os indígenas sofrem nas terras já demarcadas. O cacique Ládio disse que é comum aviões dos grandes latifundiários sobrevoarem as terras indígenas despejando agrotóxicos.

Outro problema enfrentado nos limites das terras demarcadas é a descontinuidade entre as áreas. Por diversas vezes, os guarani kaiowá são obrigados a atravessar fazendas inteiras para acessar uma parte de terra demarcada onde há água ou outros recursos naturais. Além de terem de percorrer longas distâncias para conseguir água para beber, eles são muitas vezes impedidos de cruzar as fazendas.

 

Modelo agroexportador

Apesar de várias iniciativas e de alguns avanços civilizatórios, no Brasil e de modo geral em toda a América Latina ainda não superamos a herança colonial. Isso se reflete em alguns equívocos econômicos que se perpetuam em nossa história. Nós nos constituímos como exportadores de produtos primários ou manufaturados. No século XVI, o Brasil já exportava quantidades formidáveis de manufaturados, principalmente o açúcar, e por aqui se utilizava a tecnologia de ponta da época: os engenhos de açúcar. Porém, a existência de tecnologia de ponta e o volume de exportação não se refletiram em desenvolvimento econômico para os brasileiros, exceto para alguns. Aliás, estes podemos nominar como a elite do Brasil, que sempre se preocupou em se integrar com as elites dos países imperialistas, a europeia e mais recentemente a norte-americana, manifestando um imenso desprezo e afastamento de seu próprio povo.

Nas últimas décadas, a demanda por matéria-prima em volume crescente, antes da Europa e Estados Unidos e mais recentemente da China, definiram um processo de prioridade, na pauta de exportação do Brasil, de produtos primários. Uma das consequências de tal processo é o aumento do poder político do agronegócio e a expansão da fronteira agrícola. A visão hegemônica, que considera o que acontece nas regiões de expansão da fronteira agrícola – o ganho de capital a curto prazo e o uso de tecnologia na forma de produtos transgênicos, produtos químicos, tratores e computadores – como sinônimo de progresso, é tacanha. Na realidade, o Brasil está repetindo e agravando um modelo que reproduz e amplia o atraso, pois gera a devastação da natureza com esgotamento de seus recursos e aprofunda o sofrimento e o empobrecimento das populações, como ocorre hoje com os guarani que vivem em Mato Grosso do Sul e outras populações do país.

De outro lado, os principais antagonistas desse projeto − as populações indígenas, quilombolas, coletor-extrativistas e camponesas − representam os interesses mais progressistas e civilizatórios, que apontam para a superação da herança colonial, incluindo o modelo econômico, e da ideologia construída para mantê-la. Mas, até o momento, os interesses retrógrados prevalecem.

 

Subsistência ameaçada

Privados de suas terras, os guarani kaiowá, assim como outros povos indígenas espalhados pelo território brasileiro e suas fronteiras, têm suas condições de subsistência seriamente ameaçadas, uma vez que a terra é sua fonte de sustento. É a terra que provê o alimento, os remédios, enfim, tudo o que é necessário para a reprodução da vida.

Tolhidos do direito de acesso à terra, sobrevivem com o pouco que podem plantar e o que conseguem comprar. Ládio informou que, em alguns casos, a comida não é suficiente para todos na aldeia, o que obriga os adultos a comer raízes cruas de árvores para que as crianças e os idosos tenham o que comer.

Essa situação eleva o índice de mortalidade infantil entre os guarani kaiowá. De acordo com dados do Ministério Público Federal, o coeficiente de mortalidade infantil entre esses indígenas é de 38 a cada mil crianças nascidas vivas, muito superior à média nacional de 25 a cada mil crianças.

Outro índice que assusta é o de suicídio entre os jovens guarani kaiowá: o Ministério Público Federal estima que chegue a 85 por cem mil pessoas.1 A proximidade com a cultura urbana e a falta de terra para viver de acordo com as tradições indígenas foram apontadas por Ládio como os principais motivos para os suicídios.

Apesar do quadro devastador, o povo guarani kaiowá vai continuar lutando por seus direitos, retomando suas terras, realizando atos e passeatas para que a sociedade reconheça a tragédia em que vivem. “Não queremos cesta básica, queremos nossa terra para plantar. Nossa sobrevivência depende disso. Não vamos recuar, vamos lutar até o final. Nossa briga é para podermos viver nas terras de nossos ancestrais e que, portanto, são nossas por direito”, afirmou Ládio.

 

Caio Zinet, Israel “Sassá” Tupinambá, Mario Cabral são pesquisadores fazem parte da Rede de Proteção aos Militantes Ameaçados de Morte.



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