A CARTA DE JOESLEY BATISTA

Um pedido de desculpas oportunista

Joesley eximiu-se parcialmente da culpa, acusando o sistema brasileiro de não facilitar o progresso do empreendedor

por: Raphael Silva Fagundes
31 de maio de 2017

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“Desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são”
Renato Russo

De fato, nem sempre as desculpas são sinceras, mas quando não o são, o pedinte deve criar uma imagem de sinceridade, um etos capaz de convencer os afetados a perdoá-lo. Na iminência da queda do presidente Michel Temer, precisamos ter em mente que esse golpe dentro do golpe é apenas uma estratégia para acelerar as reformas conservadoras. Aliás, foi o mesmo motivo pelo qual se desencadeou o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Esta última fase, que pretende descarregar o golpe de misericórdia em um sistema agonizante, partiu das delações do empresário da JBS, Joesley Batista, que, em seguida, publicou um pedido de desculpas no qual, se analisado atentamente, é possível identificar o projeto de poder que impulsionou toda essa crise política na qual o Brasil se encontra.

A “carta aberta” foi uma tentativa explícita do empresário de não cair no que a filósofa judia Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”. Além de usar elementos retóricos fundamentais no que tange a virtude do orador, afirma-se que foi necessário burlar os seus valores para atingir um bem maior:

Nosso espírito empreendedor e a imensa vontade de realizar, quando deparados com um sistema brasileiro que muitas vezes cria dificuldades para vender facilidades, nos levaram a optar por pagamentos indevidos a agentes públicos.

O orador inventa “construções que ‘explicam’ tudo obscurecendo todos os detalhes”, apropriando-se de “clichês [que] têm em comum o fato de tornarem supérfluo o juízo e de se poder pronunciá-los sem nenhum risco”.[1] Esses clichês (de que há barreiras para se investir no Brasil) são atribuídos ao modelo político que se quer corromper, o mesmo que fez com que o empresário se enriquecesse. Não há risco de pronunciá-los porque em seguida o empresário faz uma comparação com os outros lugares onde suas indústrias proliferaram, valendo-se de outra estratégia argumentativa:

Em outros países fora do Brasil, fomos capazes de expandir nossos negócios sem transgredir valores éticos.
Assim construímos um grupo empresarial gerador de mais de 270 mil empregos diretos, com times extraordinários e competentes, que operam 300 fábricas em cinco continentes e oferecem mundialmente produtos de qualidade.

Pronto! No processo argumentativo, o fato é o que é comum para vários entes pensantes,[2] e é disseminada entre a população brasileira a ideia de que vivemos em um país onde há uma imensa dificuldade para se edificar grandes empresas, enquanto no exterior esse processo é muito mais tranquilo. Esquece-se, por exemplo, que o Brasil é um país onde grande parte dos lucros que os empresários ricos ganham não é tributada.[3] A própria imprensa, tacitamente, defende a ideia da “dificuldade de se vender facilidades”, como no caso da publicação da carta de Joesley pelo Estadão: “Em nota enviada à imprensa, empresário garante que não infringiu leis em outros países”.[4] Deixando subentendido que aqui foi necessário infringir as leis. Souberam exatamente o que destacar.

Outro elemento forte na retórica da carta são os valores. “Os valores estão simultaneamente na base e no termo da argumentação”, preenchendo um grande espaço no processo de persuasão.[5] Porque eles despertam a identificação por elementos emocionais, e é certo que “o espírito e alma da Eloquência consiste propriamente nos afetos”,[6] como nos mostra Fábio Quintiliano, famoso orador romano. Joesley e a imprensa querem nos persuadir de que há sinceridade e empenho nas palavras oportunas da carta. “Por isso estamos indo além do pedido de desculpas. Assumimos aqui um Compromisso Público de sermos intolerantes e intransigentes com a corrupção.”

No pós-escrito da obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Hannah Arendt demonstra que esse é um hábito que explica a “relutância evidente em toda parte em julgar nos termos da responsabilidade individual”. Dessa forma, Joesley eximiu-se parcialmente da culpa, acusando o sistema brasileiro de não facilitar o progresso do empreendedor. Tudo não passa de um embuste retórico.

O que está implícito é a consolidação do golpe com suas propostas de reforma da Previdência e Trabalhista. Não é por acaso que o empresário solta: “O Brasil mudou, e nós mudamos com ele”. Com as reformas não será mais preciso usar de corrupção para obter lucros. Será? O projeto é que para as reformas diminuírem a sua impopularidade é necessário colocar uma liderança menos impopular ou aumentar a força. Os fatos que ocorreram nas manifestações e o comportamento dos governantes evidenciam que estamos vagando entre essas duas propostas.

Mas será que Joesley teve que realmente se corromper? E para quê, já que é tão bem sucedido mundialmente? Ele foi forçado a violar seus princípios éticos para obter mais lucros e ficar ainda mais rico? Sartre uma vez disse que “o existencialista quando descreve um covarde, afirma que esse covarde é responsável por sua covardia” e existe “sempre, para o covarde, uma possibilidade de não mais ser covarde”.[7] Com esse pedido de desculpas, Joesley parece querer deixar de ser covarde, no entanto o que faz é contribuir para a queda de Temer e influenciar no processo de condenação da chapa Dilma-Temer, não por ser bonzinho, mas para dar o último golpe nos procedimentos iniciados em 2015-2016 e acelerar as reformas da Previdência e Trabalhista para, assim, de “consciência limpa”, poder satisfazer seus interesses econômicos no país.

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

[1] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad: José Rubens Siqueira. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

[2] PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie, Tratado de Argumentação: a nova retórica. Trad: Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão, São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.75.

[3] MENDONÇA, Heloísa. E se os ricos ajudassem a pagar o rombo nas contas públicas. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/19/economia/1463677506_618660.html.

[4] Joesley Batista pede desculpas em carta aberta. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,joesley-batista-pede-desculpas-em-carta-aberta,70001793981.

[5] REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. Trad: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p.165.

[6] QUINTILIANO, M. Fabio. Instituiçoens Oratórias. Trad: Jeronymo Soares Barbosa. Tomo Primeiro, Coimbra: Imprensa Real da Universidade, 1788, p.440.

[7] SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo.Trad: Rita Correia Guedes. p. 12. Disponível em: http://stoa.usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_humanismo.pdf.


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1 Comment

  • Desculpem, mas será que entendi? Segundo a lógica do sr. Joesley, no Brasil TODO empresário é corrupto (senão não conseguiriam se desenvolver). É isso?

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