“100 discos para conhecer Aguardela” e o realismo fantástico da grande mátria América Latina
“As coisas têm vida própria[…]tudo é questão de despertar a sua alma.”
Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão
Você pode ainda não saber, mas Aguardela é um recanto de mundo, numa terra de tamanho sem fim e sem limites, dessa grande mancha territorial que chamamos de América Latina. Terra de tantos sonhos ceifados, de incompletudes cotidianas. Destinos nunca manifestos e de areais ilusões revoadas aos ventos. Mas que de tantos é vida que não se fecha… Que apesar de tudo, sangra, pulsa, renova em eternas esperanças do devir que se anuncia… Em meio a tantas dores e desilusões, nunca deixando de reinventar e reimaginar o mundo!
Seara de tantas histórias, narrativas e povos que aqui se amalgamam, mesmo que a contragosto ou em desencontro a todas as possibilidades! Terra de perdida pureza, purificada a cada gota de suor e sangue derramados. De um povo para sempre livre das ilusões de morte e ódio de raça suprema, latinos mestiços de todas as raças que somos desde ontem e para todo sempre! Por mais que os medíocres de coração e alma a isso não aceitem…
Povos das estrelas dos céus de todo mundo que aqui vieram somar e gerar novas razões de vida aos povos que aqui já habitavam e encantavam, nesse rincão sem fim! Flor de mundo abençoada pelas forças de Oxalá, Tupi, Buda, rebento de Nazaré e demais mundanas divindades, de pés sujos e sorriso na face! Que exala o doce aroma de Oxum!
Em que as lógicas pretensamente racionais buscam explicar e se fazer enquadrar nas teorias de um velho mundo, a muito já morto e cada vez mais carcomido! E nunca conseguem causar nada mais do que intelectualismos vazios e pretensiosos. Incapazes de analisar e refletir aquilo que não conseguem enxergar, mesmo quando nu ante aos seus olhos… Imagine compreender o que não consegue nem saber viver… Teorias sem alma, sem tesão e sem felicidade! Incapazes de responder as ilógicas dessa região que transcende toda razão que se de fora dos sonhos, inspirações, amores e tesões de se viver a vida como se deve de fato vivê-la! A pleno gozo, sem vergonhas ou pudores de qualquer tipo!
Não sendo por acaso que as suas melhores interpretações ocorrem, se manifestam, para aquém e além dos limites acadêmicos estritamente eurocêntricos. Pretensamente neutros em suas análises e objetividades. Incapazes de compreender a grandiosidade daquilo que não se pode ser compreendido pelas lentes de um perfeccionismo que não existe! Ou a partir de olhares de falsos gigantes que enxergam os de baixo como se fossem meros objetos de suas pesquisas, de suas certezas, de suas falácias…
O que explica a construção do realismo fantástico enquanto muito mais do que um conceito, de um gênero, mas de um processo autônomo – não necessariamente consciente – de se buscar contar a vida como ela é. Ganhando contornos e características para além do campo literário. Abordando, dialogando, se intercalando e mesclando enquanto uma nova forma de manifestação crítica de consciência em que diferentes expressões e manifestações se tornam una em sua diversidade e pluralidade. Tudo aquilo que é cultural, político, social, econômico e religioso, acaba tendo seus limites e regras características e definidoras dissolvidas e redefinidas pelas realidades de vidas que aqui ocorrem e se manifestam.
Desde o campo da leitura, passando pelo universo musical e das canções, das pinturas e artes gráficas, do teatro e do cinema… Tudo se torna um ato poético de celebração a vida e a alegria! Não em um sentido alienatório, mas enquanto modo de viver ante tantas clivagens e impedimentos que se colocam como para impedir os semeares destas paragens! A realidade que aqui se dá não é palpável em um viés cartesiano, não cabe em números ou cálculos, nem em tabelas ou gráficos! Pois o impossível não existe onde ele é fruto cotidiano!
Mas não se engane, isso não significa que sacrifícios e dores são sejam elementos comuns nossa volta. Desde sempre, enquanto malditas mazelas que literalmente matam novas experiências de vidas a todo instante. Mas sendo por isso, que o realismo fantástico latino-americano se dê como uma forma de uma prece de esperança. De um testemunho, de um registro e ato de afirmação de que aqui estamos para muito, mas muito, mais do que sobreviver! De que aqui estamos para viver, reinventar e poetar o mundo!
Uma tradição de reexistências que pode ser associada, desde a obra de Zé Limeira (1886-1954), o poeta do absurdo, com seus poemas sertanejos surrealistas, passando por diferentes recortes e produções bibliográficas, desde Jorge Amado (1912-2001) em Tenda dos Milagres, Gabriel García Márquez (1927-2014) em Cem anos de solidão, Mario Vargas Llosa (1936-1925) em Pantaleão e os visitantes, Érico Veríssimo (1905-1975) em Incidente em Antares até Aílton Krenak em Futuro Ancestral. Sem deixar de navegar pelas ondas sonoras e poéticas de Lula Côrtes (1951-2011) e Zé Ramalho em Paêbirú, no álbum manifesto Tropicália, Jorge Mautner e Nelson Jacobina (1953-2012) em Maracatu Atômico, passando pela Santana Band, que acabaria por alargar os limites do universo dessa grande terra mágica, para além dos limites geográficos e geopolíticos, reinserindo o território californiano a esse devaneio onírico e libertário. Reconquista e recriação territorial, sem um único disparo de bala ou bomba, sem uma única guerra, que se fez consolidar a partir da constituição do universo das HQs dos irmãos Hernandez em Love and Rockets. Sendo importante pontuar as produções cinematográficas, como a versão de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) de Macunaíma ou Deus e o Diabo na terra do sol de Glauber Rocha (1939-1981). Um conjunto de cultura libertária, ampla e diversa, que contribuiu diretamente para o alargamento do conceito estritamente literário que se dava ao conceito de realismo mágico. Ampliando suas formas e sentidos, assim como o seu alcance, circulação e recepção.
O que referente ao Brasil, nos possibilita incluir a produção de quadrinhos, charges e cartuns, como exemplos dessa produção cultural antissistema por excelência. Desde a Turma do Pererê, do Ziraldo (1932-2024), passando pelo processo de antropofagia realizada com os quadrinhos Disney nos anos 1970, em que se realizaram histórias próprias do personagem Zé Carioca – em especial as com autoria de Ivan Saidenberg (1940-2009) e Renato Canini (1936-2013) – sem a autorização, e ciência, da matriz estadunidense. Até as produções quadrinísticas com temáticas de brasilidade de Flávio Colin (1930-2002), como o Curupira e Caraíba, ou de puro escárnio e nonsense surrealista, como a Lo três amigos, de Angeli, Laerte e Glauco.
Um mundo ao qual, 100 discos para conhecer Aguardela, de Daniel Lopes e Raphael Salimena, tão bem retrata, nos fazendo mergulhar ao seu interior a cada virada de página. Viagem gráfica que nos possibilita termos um auto olhar, um outro e maior entendimento sobre quem somos de fato enquanto uma experiência de humanidade que se deu e se desenvolveu a partir de experiências civilizatórias de exploração, dominação e alienação humana que são indefensáveis. Mas que a partir desta, desenvolveu formas de vivências e de reconstruções humanísticas inimagináveis e, até mesmo impensáveis, que se dão em desacordo, em contestação e confronto ante as normativas sociais discriminatórias e reacionárias vigentes! Lançando luz sobre um conjunto, toda uma série de humanidades que não deveriam existir! Mas que existem e continuam de diferentes formas e possibilidades, a ré encantar o mundo a sua volta! Em que nada é impossível, nem mesmo o impossível!
Um exemplo do momento de inventividade e pluralidade da criação quadrinística brasileira, e dos diferentes sentidos e possibilidades, que uma expressão artística possuí, para ao mesmo tempo constituir a sua própria narrativa gráfica e imagética. Sem deixar de estabelecer possibilidades de interpretações que ampliam o sentido original de sua concepção. A partir da soma de diferentes álbuns, que com as suas respectivas capas, acabam gerando uma narrativa concisa e articulada, com um sentido narrativo que fornece uma identidade conceitual a obra.
Processo narrativo nada fácil, e corajoso, em vista que sua estruturação artística poderia acarretar numa discursiva fragmentada e confusa. Risco que a obra passa ao largo, transportando a quem se insere as suas páginas a uma viagem por paragem recém-descoberta, desse sempre estimulante e surpreendente universo de fantasias e sonhos latino-americanos.
Uma construção artística que se dá partir dos desenhos primorosos de Raphael Salimena, utilizando várias técnicas de composição e pinturas para cada álbum por ele retratado ao longo da obra. Que somadas, apresentam ao leitor o mundo mágico de Aguardela, seus habitantes e particularidades. Com traços e estilos totalmente diferentes entre si. Para demarcar as personalidades e características de cada artista ou grupo retratado. Além de servir para evidenciar a temporalidade de diferentes gerações que criaram e desenvolveram esse universo musical. Composição de narrativa que se completa e melhor se elabora com os argumentos e textos desenvolvidos em parceria entre Salimena e Daniel Lopes. Dando origem a um ousado conjunto gráfico. Articulado e desenvolvido sequencialmente… Não sendo uma publicação quadrinista tradicional. Passando longe de ser uma história em quadrinhos padrão, em sua concepção e forma. Funcionando artisticamente, como uma porta de entrada para os leitores vivenciarem uma nova realidade, onírica e poética, um outro jeito de se existir e ser!
Obra que possuí um formato e identidade visual, que reproduz um long play. O que sutilmente induz que a pessoa acabe por ler essa obra, como se fosse reproduzir o mesmo comportamento de ouvir um disco fonográfico. No sentido de contemplação e imersão, em se ater aos mínimos detalhes, ao se atentar as particularidades de cada capa. Passando pelo perfil histórico dos artistas, assim como das letras e fichas técnicas de cada canção. Dessa forma, tomando consciência das informações codificadas que dão forma e sentidos ao álbum gráfico. Tal qual a experiência de se deixar levar sensorialmente ao se ouvir um disco rodando na vitrola.
Estímulo a imagética, tal qual um rompimento entre os véus de realidade, daquilo que é real ou não, entre o lúdico e a mesmice, para levar o leitor a vivenciar novas experiências. Intenção artística que ganha novas potências e sentidos, quando o projeto dessa obra gráfica, ganha uma composição própria chamada “Dora”. Uma sensível – e bela – homenagem do cantor e compositor da Baiana Sound System, Russo Passapusso1 a sua uma amiga, vendedora de discos na cidade de Salvador, que lhe foi referência fundamental para sua formação e desenvolvimento musical. Havendo a chance de utilizar essa canção associada a cantora “Dorinha”, a personagem basilar do universo musical retratado em 100 discos para conhecer Aguardela. A partir daí, nos apresentando e inserindo as dinâmicas dessa comunidade musical, que se forma a partir da convivência dos diferentes álbuns e compactos, com as suas capas que constituem e dividem um mesmo espaço. Na certeza de que Dora, já falecida em nosso mundo, está viva e presente aos cotidianos dessa cidade de criatividade, sons e cores sem fim.
Aguardela é o nome da cidade que me faz lembrar da saudade que guardo por ela.
É saudade sem buraco no peito,
Saudade que preenche de outro jeito,
É espera que se transforma em esperança,
Como velhinhos se transformam em crianças,
Sonho vivo que me alcança quando acordo e quando deito.
Faz de um sono um soneto. (PASSOPUSSO, 2024)
Em que as barreiras entre imaginário e concretude se faz esmaecer, já na introdução da obra, quando Passapusso nos apresenta suas aventuras e prazeres na terra de Aguardela. Sendo essa premissa existencial transcendida e potencializada a partir da sua canção homenagem a sua amiga. Desse modo, quebrando o conceito de “quarta parede”, não havendo mais um impedimento, uma separação entre um universo ou realidade que se faz representar e entre quem o está lendo-interpretando.

Tudo é possível, tudo se faz e tudo existe nessa cidade de álbuns fonográficos, localizada na grande terra mátria da América Latina. Dessa terra que é a soma, o amalgama entre culturas indígenas, afros, ibéricas e asiáticas. De uma diáspora ainda em constante construção e resistências, contra todas as mediocridades reinantes de uma pretensa ordem mundial de cunho eurocêntrico, racista e eugenista.
Realismos – que não deveriam ser e nem existir – fantásticos e nada ilusórios. Mas que existem por e a partir de suas poéticas, que se fazem enquanto eternidades, se renovando a cada amanhecer. De Antares a Palomar, do Sul para o Norte. Do Atlantico ao Pacífico, das páginas de papel as ondas sonoras, das pinturas as imagens em movimento cinematográficos, das poesias nas ruas, aos saraus, as peças de teatro, do chamego aos balés… Com todas as artes em comunhão, em convivência e aprendizado com os seres fantásticos, mágicos e encantados. Dessa terra sem fim, de amor infinito, ao qual Aguardela é um de seus recantos mais inusitados e surpreendentes.
Este livro de Raphael Salimena e Daniel Lopes […], além de um guia pra conhecer mais sobre os artistas de Aguardela, é um registro histórico fundamental sobre um lugar muito especial que precisa ser mais amplamente reconhecido. Sei que quem vê cara, não vê coração, mas descobri que aqui em Aguardela dá pra sentir no coração quando vemos as capas desses discos antes de ouvir a canção. As capas dos discos contam histórias, quebram segredos, revelam arranjos, encontros, desencontros, revoltas, coragens e medos…
Aguardela é sobre tudo isso… e muito mais. (PASSAPUSSO, 2024)
Que agora se revela para todos aqueles que possuem coração na alma para enxergar o mundo em toda a sua infinitude de belezas nada impossíveis. Que as vezes deixamos de vivenciar, entorpecidos em nossa mediocridade cotidiana de viver para sobreviver. Como que a nos lembrar e acalentar que, ao afinal de tudo, e acima de tudo, o amor é – sempre – bom!
Deixa a música rolar! É só saber chegar e seguir os encantos de Dora/Dorinha… Vire a página… Respire fundo… E tenha certeza de que nada mais – nem você – será como antes!
Aguardela te espera, boa viagem!
Christian Ribeiro é doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular de Sociologia da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.
Bibliografia:
SALIMENA, Raphael & LOPES, Daniel. 100 discos para conhecer Aguardela. São Paulo: Pipoca & Nanquim, 2024.
1 Acompanhado do coletivo musical “Pé no Chão” e dividindo vocais com a cantora Karina Buhr, podendo a canção ser ouvida através do link: https://www.youtube.com/watch?v=eJelnfIAnck

