11ª edição da Feira Literária da Zona Sul de SP tematiza a memória e resistência das periferias em forma de arte
A 11º edição da FELIZS homenageia Ana Dias em programação diversa no Parque Santo Dias
Em 2014, a Feira Literária da Zona Sul de São Paulo surgiu como uma iniciativa de poucas pessoas com um amplo imaginário. A Feira do coletivo FELIZS, em sua 11ª edição, reúne uma programação gratuita cheia de conversas literárias, oficinas, espetáculos, expressão poética e cênica, exposição de editoras independentes, gastronomia e artesanatos em diversos espaços públicos até o dia 27 de setembro, na Praça do Campo Limpo.
O evento neste ano também tematiza Memória e resistência: “a luta não é para hoje é para sempre”, com base em frase dita pela ativista, educadora popular e mãe, Ana Dias. É também viúva de Santo Dias, líder operário assassinado em 1979 durante a ditadura militar, em um piquete em Santo Amaro.
Ana Dias facilmente se tornou um símbolo de resistência periférica e inspiração para todas as mulheres líderes de movimentos sociais. Ela articulou os Clubes de Mães, as Comunidades Eclesiais de Base e o Movimento contra a Carestia.
As organizadoras da feira, Diane Padial e Tania Dias Rocha e Silva, ressaltaram que o evento “é uma potência enorme”, mas que a iniciativa enfrenta um escasso orçamento.
Padial contou que a iniciativa de escolher a temática da ditadura militar auxilia para que lembre-se da história para não repeti-la. Todo ano, o evento utiliza um tema central para concentrar as discussões das conversas.

A importância da democratização do livro
Silva menciona também a criação da Moeda Literária, uma campanha de arrecadação disponível na plataforma Benfeitoria e única do evento. Estudantes da rede pública de periferia, professores e mediadores de leitura de coletivos da Zona Sul recebem um valor para comprar diretamente de autores e editoras
A iniciativa proporciona, como a organizadora afirma, um poder de escolha, pertencimento e capacidade de fortalecer vínculos através da leitura. “Através dessa moeda, a criança pode acessar a literatura em um ciclo completo. A feira possibilita que os livros saiam dos imaginários dessas crianças, jovens e adultos, para que ela se interesse pelo livro.”
Silva complementa que: “quando ela encontra uma história destes autores independentes que escrevem sobre a realidade, ela se vê representada, seja pela sua cor de pele, os seus cabelos, a sua linguagem, as suas dificuldades ou por conta dos seus sonhos, isso dá potência de poder para as crianças. A aproximação de um poeta ou de uma artista com essas crianças, elas sentem que ela pode, – ‘se eu tentar, se eu quiser, se eu caminhar, eu posso ser artista, escritor, poeta, eu posso ser’. Quando ela abre o livro e conhece o autor ao vivo, a criança entende: ‘Eu posso estar aqui’.”
O projeto organizado pela equipe do FELIZS é uma iniciativa patrocinada pelo Itaú via Lei Rouanet e conta com o apoio do Sesc, Fundação Tide Setubal, PMLLB, Câmara Periférica do Livro e Fábrica de Cultura do Jardim São Luís.
Regina Lemmi é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

