32 anos: uma homenagem às mães de Acari

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32 anos: uma homenagem às mães de Acari

Acari | Rio de janeiro
por Radar Covid-19 Favela
26 de julho de 2022
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O caso Acari e a participação das mães na mobilização e nas lutas que passaram a encampar na busca por justiça e reparação configura-se como o pontapé inicial da experiência política dos movimentos de mães de vítimas da violência de Estado.  Essa seção especial que passamos a publicar a partir de hoje é, antes de tudo, uma homenagem à memória das Mães de Acari e seus/suas filhos e filhas desaparecidos/as.

Em 26 de julho de 1990, há exatos 32 anos, ocorreu a “Chacina de Acari”, quando onze jovens da comunidade de mesmo nome, situada na zona norte do município do Rio de Janeiro, desapareceram em Magé, na Baixada Fluminense, em um sítio pertencente à avó de um dos desaparecidos. Sequestrados por um grupo de extermínio constituído por policiais civis e militares, intitulado Cavalos Corredores, o qual, aliás, também estaria envolvido nas chacinas da Candelária e de Vigário Geral, ocorridas em 1993, os corpos dos jovens jamais foram encontrados. Torturas, pedaços de ossos, escavadeiras, estupros e corpos esquartejados lançados a leões ou jacarés são algumas das imagens de terror que preenchem o espaço da morte relacionado ao caso que, nunca é demais lembrar, ocorreu no contexto da suposta transição democrática brasileira.

O caso Acari e a participação das mães na mobilização e nas lutas que passaram a encampar na busca por informações, esclarecimentos, verdade, justiça e reparação configura-se como o pontapé inicial da experiência política dos movimentos de mães de vítimas da violência de Estado. As dificuldades que as Mães de Acari encontraram para travar as suas lutas não foram poucas, todavia, é dessas mesmas dificuldades, da dor e do luto que essas mulheres retiraram forças para permanecer lutando por justiça e reparação até os últimos dias de suas vidas, vividos sem quaisquer respostas por parte do Estado.

Essa seção especial que passamos a publicar a partir de hoje é, antes de tudo, uma homenagem à memória das Mães de Acari e seus/suas filhos e filhas desaparecidos/as. É também uma pequena peça no tabuleiro político no qual tantos movimentos combatem a violência de Estado, sobretudo policial, que continua a aniquilar, dia após dia, populações negras, pobres e periféricas. Algumas das mães de Acari já não estão mais entre nós. O desaparecimento forçado, as ameaças sofridas ao longo de toda a caminhada de luta, os traumas decorrentes da indiferença e da ineficácia do sistema de justiça e o assassinato de Edméia da Silva Euzébio, uma das líderes do grupo, morta após conversar com um preso que teria lhe dado informações sobre a chacina, são apenas alguns dos fatores que prolongaram a morte de seus entes queridos sobre os seus próprios corpos.

Edméia da Silva Euzébio, uma das mães de Acari que foi assassinada lutando por justiça(Foto: Fábio Araújo)

Vera Lúcia Flores, uma das mães de Acari, faleceu em 09 de agosto de 2008 sem qualquer resposta a respeito do paradeiro de sua filha – Cristiane Souza Leite, de 17 anos. Em 14 de novembro de 2006, 16 anos após a chacina, Vera concedeu um depoimento aos estudantes da escola pública Vinícius de Moraes, situada no bairro da Pavuna. Até hoje, 32 anos depois, o caso não foi solucionado. Que suas palavras ressoem novamente!

Vera Lúcia Flores durante manifestação na Candelária, em 2007 (Foto: Fábio Araújo)

 

***

“Para quem não me conhece eu sou Vera Lúcia, sou uma das Mães de Acari. Perdi minha filha no dia 26 de julho de 1990, há 16 anos. Ela foi fazer um passeio em Suruí, Magé, e de lá ela foi retirada por seis policiais que queriam joias e dinheiro. Eram onze crianças e os policiais queriam joias e dinheiro. Como o grupo não tinha – eles eram oriundos de uma comunidade carente –, então, eles disseram para a dona do sítio que iriam levá-los à delegacia mais próxima; até hoje esse jovens não apareceram. A justiça diz que não tem corpo, não tem crime. Mas tenho certeza que houve um crime porque falta minha filha em casa e eu a tive, né? Tenho certeza que ela nasceu, ela tem uma certidão de nascimento, mas a justiça diz que não existe isso porque não tem corpo, não tem crime. Há 16 anos que eu estou lutando à procura dessa jovem. (…).

A minha vida foi paralisada, a minha família desestruturada. É muito triste você criar uma criança até os 16 anos e vir um algoz retirá-la. Hoje, sei que a minha filha foi dada para os leões. Eles [os jovens] foram retirados, levados para um sítio de um policial, chamado João Bistene, vulgo Peninha, já falecido. Lá, ele tinha a prática de criar leões e jacarés. A última denúncia que eu recebi foi que ela foi dada para os leões comerem. Colocaram um braço dela na jaula, o leão arrancou o braço e ela desmaiou, jogaram o corpo dela dentro da jaula. A minha filha foi a oitava a ser dada para os leões comerem. Depois da denúncia, nós chegamos no sítio, encontramos os leões, encontramos o jacaré, mas, infelizmente, esse policial já havia sido assassinado (…).

Hoje, fecho os olhos e vejo, faço uma ideia do desespero que a minha filha passou naquele momento (…). Eu já estou há 16 anos fazendo um trabalho de formiguinha, é um trabalho de formiguinha mesmo. São poucas as pessoas que param para nos ouvir. Acham que:  ‘essa mulher tá maluca, procurando a filha há dezesseis anos, já morreu, acabou’. Mas não acabou não, nós temos que saber dos nossos direitos. Eles até podiam ter retirado a minha filha para uma averiguação, mas não para matar e nem sumir com os corpos, então, por isso, luto. Fomos muito ameaçadas por policiais que mandavam recadinhos e bilhetes para a comunidade de Acari, dizendo que nós calássemos porque se nós continuássemos, iríamos morrer como os onze. [Em 15 de janeiro de 1993] a Edméia, uma das mães, moradora da comunidade, foi conceder um depoimento por carta precatória, lá em Magé. Acontece que ela deu o depoimento, e o depoimento ficou por 15 dias na delegacia para que qualquer policial pudesse ler (…). Resultado: dia quinze de janeiro ela foi executada na entrada do metrô da Frei Caneca (…). Maior do que o medo é saber o que aconteceu com a minha família, quero encontrar nem que seja o último ossinho, o ossinho do dedo dela. Eu preciso dar um enterro digno a ela.

Vera em depoimento aos estudantes da escola pública Vinícius de Moraes, Pavuna, RJ, em 2006 (Foto: Fábio Araújo)

As mães estão completamente doentes; não tivemos ajuda de ninguém, ajuda psicológica, não tivemos. (…) tivemos dona Tereza, que é uma mãe que teve gravidez psicológica fora do comum. O médico ficou dizendo que ela estava grávida e ela sentiu o bebê se mexer. Não era nada disso, era uma gravidez psicológica. Ela achava que estava esperando aquele filho que sumiu. Eu e Marilene [outra mãe de Acari] ficamos à frente dessas mães todas, lutando com elas porque elas não podem aparecer. Os mesmos policiais [envolvidos no caso] são os policiais que visitam a comunidade, que vivem lá dentro da comunidade (…). O policial que me aborda em Copacabana, que dá boa tarde, pede os meus documentos, não é o policial que me aborda em Acari. O policial que me aborda em Acari tem um esparadrapo tapando o nome dele, vai dando “bolacha”, rasgando os documentos. Isso é a prática dentro da minha comunidade e de outras comunidades (…). Tem sido uma luta, uma luta, uma luta grande. E, infelizmente, nesses 16 anos que eu estou lutando, fazendo esse trabalho, todos os dias nós vemos a matança. Todo o dia a polícia mata, em todas as comunidades [no exato momento em que estamos editando o depoimento de Vera Lúcia Flores, em 21 de julho de 2022, uma operação das polícias civil e militar no Complexo do Alemão já deixou quatro mortos, entre eles, uma moradora da comunidade][1].

(…) eu tô lutando, contem comigo, nós não temos muita coisa a fazer, mas vamos brigar, vamos fazer passeata, vamos fazer caminhada, nós vamos incomodar (…).

[1] Segundo a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, ao menos 20 pessoas foram mortas durante essa nova chacina.

 

Leia os outros artigos do especial 32 anos da chacina de Acari

 


Este especial é uma parceria Le Monde Diplomatique Brasil e Radar Covid-19 Favela – Fiocruz, cuja equipe é composta por  Fábio Araújo, Marina Ribeiro, Fábio Mallart, Larissa França, Raimundo Carrapa, Emerson Baré, Mariane Martins, Luciene Silva e Paulo Roberto Ribeiro.



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